25 março 2017

O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna

Felipe A. P. L. Costa

O livro O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna reúne artigos a respeito da vida e obra de 14 grandes cientistas: Henry Walter Bates (1825-1892), James F. Crow (1916-2012), Marie Curie (1867-1934), John L. Harper (1925-2009), Charles Keeling (1928-2005), Lynn Margulis (1938-2011), John Maynard Smith (1920-2004), Ernst Mayr (1904-2005), Stanley L. Miller (1930-2007), George Price (1922-1975), Richard Southwood (1931-2005), Alfred Russel Wallace (1823-1913), George C. Williams (1926-2010) e Carl R. Woese (1928-2012).

Alguns nomes devem ser familiares ao leitor comum; outros, no entanto, são pouco conhecidos fora da arena científica. O caso de George Price é particularmente perturbador, pois se trata de um autor pouco conhecido mesmo dentro da comunidade científica. Todos eles, em maior ou menor extensão, direta ou indiretamente, ajudaram a inventar a biologia moderna.

Os capítulos estão arranjados de acordo com o ano de nascimento (Cap. 1-4) ou falecimento (5-14) dos cientistas. Versões anteriores dos capítulos 5-14 foram publicadas como obituários, a começar pelo de John Maynard Smith, cujo título eu tomei emprestado para dar nome ao livro. O capítulo 15 foi originalmente publicado como resenha.

Aproveitei as versões originais, mas promovi inúmeras mudanças – retifiquei erros e mal-entendidos, suprimi trechos inadequados e, sobretudo, acrescentei novas informações, incluindo uma ampla variedade de ilustrações.

Variedade temática

Os personagens incluídos no livro lidaram com um sortido leque de questões, envolvendo tanto descobertas empíricas como inovações conceituais. No primeiro caso, eu poderia citar a riqueza biológica dos trópicos, a radioatividade, a senescência, a transmissão horizontal de genes, a endossimbiose e as arqueias. No segundo, citaria a teoria da evolução por seleção natural, a seleção sexual, a analogia mimética, a evolução do altruísmo, o conceito de estratégia evolutivamente estável e a teoria da endossimbiose sequencial, além da criação de novas disciplinas (e.g., química pré-biótica, biologia populacional de plantas e medicina darwiniana).

Dois desses personagens eram naturalistas típicos do século 19 (Wallace e Bates). Dois estudaram a atmosfera, um simulando cenários primitivos (Miller), o outro monitorando a composição atual (Keeling). Um terceiro costumava examinar detidamente o solo, contando plântulas e sementes (Harper). Houve quem lidasse com elementos invisíveis (Curie) ou microscópicos (Margulis e Woese). E houve quem escrevesse a respeito dos fundamentos filosóficos (Mayr) ou teóricos (Williams) da biologia, às vezes, neste último caso, lançando mão de ferramentas matemáticas um tanto abstratas (Price, Maynard Smith, Southwood e Crow), a ponto de alguns biólogos evitarem os seus escritos.

Embora a variedade temática seja expressiva, apenas certos tópicos foram tratados mais detidamente – e.g., a distinção entre evolução, seleção e darwinismo; a dicotomia entre mimetismo e camuflagem; o decaimento radioativo; a noção de transições evolutivas; o processo de especiação e o modelo de especiação por reforço; a composição atmosférica e o aquecimento global; o uso de técnicas de amostragem em estudos populacionais; a construção de tabelas de vida; a demografia de organismos modulares; a ideia de seleção em múltiplos níveis; a evolução da senescência; a origem das células eucarióticas; o conceito de tamanho populacional efetivo; o sistema de cinco reinos e a noção de árvore universal da vida.

A lista de autores citados – ainda que a maioria apenas de passagem – é igualmente numerosa, incluindo desde naturalistas dos séculos 17, 18 e 19 a duas dezenas de cientistas laureados com o Prêmio Nobel.

Como adquirir

Exemplares de O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna podem ser adquiridos por via postal em seis pacotes de tamanhos predefinidos, com 1, 2, 4, 10, 20 e 40 exemplares. Isso agiliza o trabalho, ao mesmo tempo em que permite minimizar o preço unitário, o qual varia entre R$ 40 (pacotes com 1 exemplar) e R$ 31 (pacotes com 40).

Para mais detalhes sobre a aquisição por via postal, envie uma mensagem de correio eletrônico para o autor no endereço meiterer@hotmail.com.

22 março 2017

As necessidades do lar

Mary Agnes Hamilton

Como representante dos simples consumidores, aos quais esta grande assembleia, com característica generosidade, permitiu usar da palavra, desejo abordar a discussão de um ponto posto por Sir Harold Hartley. Ele disse, e, claro está, com verdade, que o uso científico da energia não revolucionou somente as condições do trabalho; reduziu também, consideravelmente, a fadiga, aumentou o confortou e melhorou as condições de saúde dentro do lar. Esse alívio, porém, ficou limitado, em geral e neste país, às casas dos bem dotados, a casa moderna. A maior parte das mulheres que trabalham está ainda ligada à sujidade, aos antigos trabalhos pesados e aos antigos utensílios. Trabalham em condições que lhe tornam extremamente difícil encontrar na sua actividade aquela satisfação artística que é devida a qualquer trabalho feito tão bem quanto possível; trabalha em condições que lhe tomam mais tempo, mais energia e mais paciência do que seriam necessários. O meu pedido será, portanto, que se tornem extensivo ao lar humilde os utensílios que poupam trabalho e que podem revolucionar a vida dentro dele. [...]

É este o âmago do meu pensamento. O mundo, para a sua reconstrução, vai precisar do trabalho de todos os seus cidadãos. Vai precisar tanto do trabalho de suas mulheres, como precisa do dos seus homens. Se o trabalho do lar humilde fosse racionalizado – é isso, o mínimo, que a ciência pode fazer por ele – a mulher que quere e pode ter uma ocupação fora de casa, pode tê-la sem sacrificar o seu lar. [...] O aligeiramento duma tarefa desnecessária e sem fim tornará a família, que vive nesse lar, capaz de gozar uma intimidade mais completa e mais livre e, ao mesmo tempo, mais rica e mais variada. A ciência, se não for tão orgulhosa que não possa promover essa comezinha aplicação dos seus grandes sucessos, dará uma não pequena contribuição para aquilo que o dr. Thomas Jones chamou, no outro dia, “os milhares de pequenas vitórias à volta da nossa porta, nas quais a nossa vitória deve ser dividida”.

Fonte: Sá da Costa, A. & Freire, J. R. org. 1943. A ciência e a ordem mundial. Lisboa, Cosmos.

20 março 2017

Gasolina livre de chumbo


Em 1974, T. R. E. Southwood (1931-2005) ingressou na Comissão Real de Poluição Ambiental (rcep, na sigla em inglês), atuando como seu presidente de 1981 a 1986. Em 1983, a rcep publicou um relatório (Lead in the environment), aprovado posteriormente, recomendando a adoção de gasolina livre de chumbo. A tirinha de Noel Ford ironiza um possível diálogo entre Southwood e a então primeira-ministra Margaret Thatcher (1925-2013); em tradução livre: Veja bem, primeira-ministra: toda vez que um motorista compra gasolina, ele paga também pelo insidioso aditivo que ameaça seu bem-estar. [Segurando o relatório ‘Chumbo na gasolina’.]//Portanto, veja bem, isso tem de parar.O quê?!//O chumbo – temos de nos livrar dele.//Oh, o chumbo. Por um desagradável momento pensei que você estivesse falando do imposto sobre combustível.

Fonte: Costa, F. A. P. L. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do autor.

18 março 2017

Felipe IV

Manuel Machado

A Antonio de Zayas

Nadie más cortesano ni pulido
que nuestro Rey Felipe, que Dios guarde,
siempre de negro hasta los pies vestido.

Es pálida su tez como la tarde,
cansado el oro de su pelo undoso,
y de sus ojos, el azul, cobarde.

Sobre su augusto pecho generoso,
ni joyeles perturban ni cadenas
el negro terciopelo silencioso.

Y, en vez de cetro real, sostiene apenas,
con desmayo galán, un guante de ante
la blanca mano de azuladas venas.

Fonte (último terceto): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1902.

15 março 2017

Piolhos

Charles A. Triplehorn & Norman F. Jonnson

Os piolhos são ectoparasitas pequenos e não alados de aves e mamíferos. Estes insetos eram divididos em duas ordens distintas, Mallophaga (piolhos mastigadores) e Anoplura (piolhos sugadores). A subordem Anoplura contém várias espécies que são parasitas de animais domésticos e duas espécies que atacam humanos. Estes insetos são pragas irritantes e alguns constituem vetores importantes de doenças. Muitos piolhos mastigadores (subordens Amblycera e Ischnocera) são pragas de animais domésticos, particularmente aves de granja. Estes piolhos causam irritação considerável, e animais com infestação intensa apresentam aparência abatida e perda de peso. Se não forem realmente mortos pelos piolhos, tornam-se presa fácil de outras doenças. Diferentes espécies de piolhos atacam diferentes tipos de aves e mamíferos domésticos e cada espécie infesta uma parte particular do corpo do hospedeiro. Não se tem conhecimento de nenhum piolho mastigador que ataque humanos. Pessoas que lidam com aves ou outros animais infestados podem ocasionalmente adquirir estes piolhos, mas eles não permanecem por muito tempo. O controle dos piolhos mastigadores envolve o tratamento do animal infestado com um pó ou banho adequado. Uma terceira suordem de piolhos mastigadores, Rhynchophthirina, contém apenas três espécies, parasitárias de elefantes e alguns porcos africanos.
[...]

Fonte: Triplehorn, C. A. & Jonnson, N. F. 2011. Estudos dos insetos, 7ª ed. SP, Cengage.

13 março 2017

Lirismo

Domingos Carvalho da Silva

Ela subiu à montanha
com uma rosa na mão.

Contemplou o mundo à distância
com uma rosa na mão.

Depois se atirou no abismo
com uma rosa na mão.

E foi sepultada ontem
com uma rosa na mão.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1952.

12 março 2017

Cento e vinte e cinco meses no ar

F. Ponce de León

Neste domingo, 12/3, o Poesia contra a guerra completa 10 anos e cinco meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 312.157 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Dez anos e quatro meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Anísio Godinho, Erik Erikson, Gonçalo Eanes do Vinhal, Gordana Đurić, John Donne e Mari Evans. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Edward Wadsworth e Mark Gertler.

11 março 2017

Navios disruptivos


Edward [Alexander] Wadsworth (1889-1949). Dazzle-ships in drydock at Liverpool. 1919.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 março 2017

Exausta

Maria Alberta Menéres

Exausta à beira do remorso   à beira
do rio do remorso   do silêncio
do roxo da montanha do remorso
da folha de combate mesmo à sombra
da planta do remorso   venenível
da água enfeitiçada onde mais dura
e escura há uma areia do remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
talvez porque de leve as vozes voltam
ao quarto do remorso e sem remorso
escutam a cor tranquila do quadrado
removido de noite para a chuva
e aberto nos meus olhos sem remorso
Magoadamente às vezes não sei quando
remo   remo no dorso do remorso
A distância é um grito do avesso
decomponho o minuto em trinta passos
e de novo   de súbito o primeiro
segundo movimento despenhando
o sangue do remorso   já na curva
veia obscura obcecada do remorso
e a certeza inútil: hino útil
de agora ter o alimento humano
o braço o breve  a sede o leite nervo
do remorso excessivo de mais nada
de ser até demais dizer de nada
– o nada certo e lento no entanto
dor ou solstício e no entanto a dor
do sol   do estio   do vestígio
magoadamente às vezes não sei quando

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1978.

06 março 2017

Flor na adversidade

Poh Pin Chin

Toda criança
Nasce roxa e enrugada
Muitas desenrugam
Algumas até desabrocham
Foi assim com minha neta

05 março 2017

A figueira-dos-pagodes

Anísio Godinho

Enquanto a raiz se desenvolve na terra, o caule cresce para o espaço. Há, contudo, caules que preferem viver na terra, como o do gengibre, e raízes que se desenvolvem n’água, como as do aguapé, ou no espaço, agarradas a outro vegetal, como as das orquídeas. Às vezes, as raízes saem diretamente do caule. São as denominadas adventícias.

Existe, na Índia, uma árvore grande, muito curiosa, conhecida com o nome de a figueira-dos-pagodes. Dos seus galhos, lá de cima, brotam raízes que descem e se firmam na terra, como colunas. A árvore apresenta a singularidade de possuir um tronco mestre e infinidade de outros, secundários. Lembra os santuários hindus, com muitas cercas em volta, denominados pagodes.

Fonte: Godinho, A. 1950. Botânica divertida. SP, Melhoramentos.

03 março 2017

Mimetismo mülleriano

Felipe A. P. L. Costa

Dizemos que há mimetismo visual quando os integrantes de duas (ou mais) espécies são tão semelhantes entre si que um predador já não consegue distingui-los. Note que o mimetismo dificulta o reconhecimento, não a detecção. Além disso, diferentemente do que caracteriza a camuflagem, os envolvidos aqui interagem, decorrendo daí benefícios, quer apenas para o mímico (mimetismo batesiano), quer para ambas as espécies (mimetismo mülleriano). Os termos batesiano e mülleriano são uma alusão a Henry Walter Bates (1825-1892) e ao naturalista de origem alemã Fritz [Johann Friedrich Theodor] Müller (1821-1897).
[...]

De origem alemã, Fritz Müller chegou ao país em 1852, indo morar na região de Blumenau (SC). Manteve contato com vários naturalistas, incluindo Darwin, o qual passaria a se referir a ele como o ‘príncipe dos observadores’. Müller (1879) formulou uma explicação inovadora para uma questão não tratada por Bates: por que duas ou mais presas aposemáticas e impalatáveis convergem para um padrão corpóreo semelhante?

Segundo Müller (1879, p. xxvii; tradução livre):

Sejam a1 e a2 os números de duas espécies de borboletas impalatáveis em certo distrito durante o verão e seja n o número de indivíduos de uma espécie particular que são destruídos no transcorrer do verão antes que a sua impalatabilidade seja de conhecimento geral.

Se as duas espécies são totalmente diferentes, então cada uma perde n indivíduos. Porém, se elas são indistintamente semelhantes, então a primeira perde a1n / (a1 + a2) e a segunda a2n / (a1 + a2).

O ganho absoluto devido à semelhança é, portanto, de n – a1n / (a1 + a2) = a2n / (a1 + a2) para a primeira espécie; e, de modo semelhante, de a1n / (a1 + a2) para a segunda.

Este ganho absoluto, em comparação à ocorrência das espécies, dá I1 = a2n / a1(a1+a2) para a primeira e I2 = a1n / a2(a1+a2) para a segunda, de onde segue a proporção I1:I2 = a22:a12.

No âmbito da teoria evolutiva, o modelo de Müller foi o primeiro a fazer uso de argumentos matemáticos, uma ‘tradição’ que se mantém (e.g., Benson 1977; Ferreira & Marcon 2014). O fenômeno descrito ganharia o nome de mimetismo mülleriano, em contraposição ao batesiano. [...]

Fonte: Costa, F. A. P. L. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do autor. (Lançamento agora em março. Para entrar em contato com o autor e/ou adquirir exemplares, escreva para meiterer@hotmail.com.) Mais sobre mimetismo aqui.

01 março 2017

Caso do vestido

Carlos Drummond de Andrade

Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: – Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

Fonte (5º e 8º dísticos): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª edição. BH, Editora Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1945.

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