21 outubro 2026

Camisa amarela

Ary Barroso

Encontrei o meu pedaço na avenida de camisa amarela
Cantando a ‘Florisbela’, a ‘Florisbela’


Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
E desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado

Foi por aí cambaleando, se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão

Mais tarde o encontrei num café zurrapa
Do Largo da Lapa, folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça

Voltou às cinco horas da manhã, mas só na quarta-feira
Cantando ‘A Jardineira’, ‘A Jardineira’

Me pediu, ainda zonzo, um copo d’água com bicarbonato
O meu pedaço estava ruim de fato
Pois, caiu na cama e não tirou nem o sapato

E roncou uma semana, despertou mal-humorado
Quis brigar comigo, que perigo, mas não ligo

O meu pedaço me domina, me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal

Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela

Gosto dele assim
Passada a brincadeira, ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim

Fonte: álbum Aquarela do Brasil (1980), de Gal Costa. Canção originalmente gravada em 1939. A letra acima está de acordo com a versão que o próprio autor gravou em 1956.

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