26 maio 2026

No leito de morte


Philipp Otto Runge (1777-1810). Sophia Sieveking auf dem Sterbelager. 1810.

Fonte da foto: Wikipedia.

24 maio 2026

Ouvindo um homem rico da fronteira

F. Ponce de León

Ouvindo um homem rico da fronteira,
eu consigo descobrir quanta terra
e quantas mulheres ele possui; para tanto,
eu só tenho de atentar para as epopeias
anunciadas por ele em dez minutos de prosa.

A depender da roupa e dos maneirismos,
basta observar os superlativos para saber
quanto dessa terra ele roubou. A depender
dos anéis e das comendas, dá para saber
ainda quantos vizinhos ele já mandou matar.

22 maio 2026

Brasília

Joanyr de Oliveira

A Lúcio Costa

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.

A torre afina os tímpanos
e as perfeitas retinas:
canta nas noites a fonte.
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias: áureas
dádivas: o branco, as superquadras.

(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1998.

21 maio 2026

Rebelião contra a entropia

Neil McInnes

[Georges] Sorel considerava-se, essencialmente, um filósofo, mas não apenas do socialismo. Gastou mais tempo com a filosofia da ciência e a história do cristianismo do que com o movimento trabalhista. Em sua filosofia da ciência, ele achava que não havia determinismo na natureza e sim apenas acaso e probabilidades estatísticas, “nenhuma lei, somente limites”. A ciência exata ainda era possível, mas ela estava ligada aos mecanismos feitos pelo homem, como, por exemplo, os equipamentos experimentais e a maquinaria produtiva. Nessas limitadas áreas os homens violentavam a natureza sem leis, deixando de fora o acaso e a interferência provável, criando assim o determinismo. Seus trabalhos, no entanto, estavam sempre ameaçados pela natureza malévola, cuja sorte, desperdício e entropia invadiam a maquinaria feita pelo homem na mesma ocasião em que ele relaxava seus esforços para assegurar um funcionamento regular de sua criação. A ciência, a engenharia e a indústria eram, todas, partes de um vasto império de disentropia, a rebelião de uma parte da natureza contra sua confusão sem sentido e seu desgaste. [...]

A sua teoria sobre cultura era precisamente paralela. Também a história era uma confusão desregrada e uma sucessão sem sentido. As criações culturais e sociais estavam constantemente ameaçadas de acabar na desordem e no barbarismo. Contra um retrospecto de perpétua decadência, os homens lutavam, às vezes heroicamente, para estabelecer determinadas áreas de lei, ordem e significado histórico. Para que a história pudesse fazer sentido, eles tinham que se impor uma árdua disciplina, violentando a sua própria natureza, rejeitando a premissa da chamada ‘ciência social’ que a história tinha suas próprias leis e podia fazer sentido sem nossa intervenção. Só se esforçariam em conjunto, num movimento social que concordasse em se desligar, e aspiravam viver de acordo com uma nova moralidade.

Fonte: McInnes, N. 1971 [1969]. Georges Sorel. In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

18 maio 2026

Hálito noturno

Poh Pin Chin

O outono voltou
e com ele
o vapor noturno –
hálito da terra
e das folhas –
que se reúne
mansamente
nas grotas
entre montanhas
e que ora aprecio –
sozinho de novo –
aqui de casa.

17 maio 2026

Organologia e anatomia da folha

Ludwig Buckup

A folha é um dos mais importantes órgãos vegetativos da planta, pois lhe cabe, especificamente, a realização da fotossíntese. A maior parte da transpiração vegetal tem lugar nas folhas; a eliminação e a absorção dos gases atmosféricos envolvidos na respiração [são] feitas, igualmente, através dos estômatos localizados na epiderme da folha.

A folha é de origem exógena, formando-se a partir do dermatógeno e das partes externas do periblema, ou seja, da áreas periféricas do cone vegetativo que caracteriza os meristemas apicais dos caules.

O crescimento das folhas é limitado. Atingidas as dimensões e as formas características de cada tipo vegetal, interrompe-se o crescimento.

Fonte: Buckup, L. s/d. Botânica, 3ª ed. Porto Alegre, Sagra.

15 maio 2026

Mulher com filho morto


Käthe Kollwitz (1867-1945). Frau mit totem Kind. 1903.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 maio 2026

Ainda não é o fim

Thiago de Mello

Escondo o medo e avanço. Devagar.
Ainda não é o fim. É bom andar,
mesmo de pernas bambas. Entre os álamos,
no vento anoitecido, ouço de novo
(com os mesmos ouvidos que escutaram
“Mata aqui mesmo?”) um riso de menina.
Estou quase canção, não vou morrer
agora, de mim mesmo, mal livrado
de recente e total morte de fogo.
A vida me reclama: a moça nua
me chama da janela, e nunca mais
me lembrarei sequer dos olhos dela.

Posso seguir andando como um homem
entre rosas e pombos e cabelos
que em prazo certo me devolverão
ao sonho que me queima o coração.

Muito perdi, mas amo o que sobrou.
Alguma dor, pungindo cristalina,
alguma estrela, um resto de campina.
Com o que sobrou, avanço, devagar.
Se avançar é saber, lâmina ardendo
na flor do cerebelo, porque foi
que a alegria, a alegria começando
a se abrir, de repente teve fim.
Mas que avançar no chão ferido seja
também saber o que fazer de mim.

Fonte: Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 1975.

12 maio 2026

19 anos e sete meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/5, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e sete meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e meio no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Alexander Smith, Bertha K. Becker, Eric H. Brown, Hermógenes de Freitas Leitão Filho e Walter B. Mors. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Kamal-ol-Molk e Mir Ali.

11 maio 2026

Mobilidade da população na fronteira de recursos

Bertha K. Becker

Construída em 1960, a Rodovia Belém-Brasília foi a primeira artéria estabelecida para ligar a Amazônia aos centros dinâmicos do país. Devido à sua extensão, a estrada atravessa espaços diversos, valorizados por diferentes modos de produção na mata e no campo. De Norte para Sul, a partir da cidade de Santa Maria, no Pará, marco Norte da rodovia, sucediam-se a floresta virgem, a savana, com sua pecuária extensiva tradicional, e uma região dinâmica desenvolvida em áreas de antigas matas.

Em Goiás, a rodovia corre sobre o divisor de águas dos rios Araguaia, a Oeste, e Tocantins, a Leste, grande chapadão que constitui o arcabouço do Estado, imprimindo-lhe uma configuração alongada. Esse Estado central é, contudo, bastante diferenciado, representando uma transição entre a Amazônia e as terras altas do Sudeste. Sua porção meridional é constituída por altos planaltos, cuja altitude decresce para o Norte. A curva de nível de 500 m estabelece, grosso modo, o limite entre as terras altas do Sul e a bacia Amazônica. Correspondendo essa curva de nível aproximadamente ao paralelo de 13° de latitude Sul, foi este adotado como limite Sul da Amazônia legal, região criada para fins de aplicação dos programas de desenvolvimento regional.

Fonte: Becker, B. K. 1982. Geopolítica da Amazônia. RJ, Zahar.

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