17 abril 2026

Alta gastronomia, sionismo e a capital mais corrupta do Brazil

Felipe A. P. L. Costa [*].

1.

O nome correto do estreito é Ormuz, não Hormuz, como a Folha e o UOL estão a impor aos seus visitantes. Na hipótese de os editores insistirem nesse patético mimetismo, eu prevejo que a grã-finagem daqui a pouco estará a grafar BRAZIL em seus guardanapos.

2.

Por falar em gente que gosta de elevador de serviço [1], não custa repetir: além de corrupto e antidemocrático, o regime de Israel segue a ignorar qualquer norma civilizatória – crianças, mulheres, funcionários da OMS e jornalistas seguem a ser assassinados a sangue frio (ver, e.g., aqui). Em vez de reportar os crimes do sionismo, a Folha – omissa e conivente – insiste em ludibriar o público. Um jeito fácil de fazer isso é requentar as tais pautas identitárias – e.g., publicar loas contra o uso da burca, um hábito comum no Oriente Médio, visto agora por alguns como uma ‘prática primitiva e misógina’ [2].

3.

Sim, esse comportamento da imprensa é abominável, mas também é compreensível. No caso da Folha, por exemplo, estamos a falar de um veículo cuja sede fica justamente na capital mais corrupta do país [3]. O que, aliás, ajudaria a explicar por que São Paulo é uma cidade onde tão facilmente a ultradireita consegue disseminar suas loas em defesa do malfeito, da corrupção e do crime, incluindo, claro, os crimes cometidos pelo estado de Israel.

4.

Além de distorcer e mentir, a Folha cultiva o ilusionismo, notadamente os hábitos da grã-finagem. Entre esses hábitos estão a especulação (financeira e imobiliária) e a alta gastronomia. Este último tópico, aliás, é uma pauta que não sai da primeira página do jornal. Ao contrário da baixa gastronomia (ver, e.g., aqui), porém, a alta gastronomia não visa forrar o estômago dos comensais. Trata-se de uma arte essencialmente ilusória – digo: um modo dispendioso de ostentar riqueza, algo tão recorrente entre os grã-finos.

Nas palavras de Conniff (2004, p. 176) [4]:

O efeito Veblen [5] não é só uma ideia acadêmica. Na verdade, ele molda a maneira como as empresas fixam o preço das mercadorias que põem nas prateleiras e sugere que, ao contrário das expectativas, reduzir os preços dos artigos de luxo pode efetivamente diminuir as vendas. A cadeia de hotéis Four Seasons, por exemplo, preferiu fechar um de seus hotéis em algumas ocasiões, durante fases ruins do mercado, a baratear sua marca com descontos no preço da diária. Durante a queda do turismo posterior aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, muitos hotéis de alta classe procuraram atrair os hóspedes oferecendo-se para acrescentar uma diária extra à sua estada, sem nenhum custo adicional, para não correr o risco da degradação psicológica de reduzir efetivamente os preços. Pierre Cardin, aparentemente por ignorar Veblen, passou da alta costura nos anos 70 para os preços baixos e nenhum prestígio na década de 1980.

Na luta da civilização contra a barbárie, sou de opinião que os restaurantes de alta gastronomia deveriam ser sobretaxados ou, se possível, banidos do mapa. Seria uma medida educativa, civilizatória.

*

NOTAS.

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[1] Aprendi a distinção entre elevador social e elevador de serviço quando fui morar em Brasília, em 1967; desde então, eu sempre vi essa distinção como uma herança (vergonhosa e mal-humorada) trazida da antiga capital federal.

[2] Sobre a falsa questão da burca, ver, e.g., aqui.

[3] Três linhas de evidências sustentam essa afirmativa: (i) cinco dos 10 maiores bancos a operar no país estão sediados em SP; (ii) todas as 10 maiores agências de publicidade a operar no país estão sediadas em SP; e (iii) três dos quatro maiores jornais de circulação nacional são impressos em SP.

[4] Extraído de Conniff, R. 2004 [2002]. História natural dos ricos. RJ, J Zahar.

[5] Alusão ao sociólogo estadunidense de origem norueguesa Thorstein [Bunde] Veblen (1857-1929). Sobre a relevância da obra de Veblen, eis o comentário de Banks (1971, p. 131): “A história não tem sido justa com Thorstein Veblen, pois não há, certamente, nenhum outro sociólogo de sua geração cujas palavras tenham sido tão citadas, mais cujos trabalhos tenham sido tão pouco lidos. Consumo evidente, exibição ostensiva, incapacidade treinada, o alto saber, cultura predatória, proprietários ausentes, controle discricionário, são apenas alguns dos termos deixados por ele para o uso diário da análise social. Com um domínio absoluto dos adjetivos, Veblen desempenhou o papel de ‘chato’ no mundo acadêmico do fim do século XIX e princípios do XX. A sua justaposição de epítetos irônicos e substantivos inócuos fazia que até mesmo os menos dispostos a ouvir se detivessem para pensar na tendência dos valores da civilização moderna. O conteúdo empírico de seus escritos, da forma como deveríamos compreendê-los atualmente, era tão tênue que chegava ao ponto de definhação, mas como sociólogo interpretativo poucos o igualam até os dias de hoje” – citação extraída de Banks, JA. 1971 [1969]. Thorstein Veblen. In: Raison, T, org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

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