A história da humanidade se confunde com a história das guerras. Deveríamos lutar para que se confundisse apenas com a história da literatura.
17 Maio 2008
Energia solar: mitos e realidade
Barry Commoner
Um dos benefícios que pôde ser extraído de um sombrio episódio conhecido como crise de energia é o de que esta crise conduziu à redescoberta de nossa mais rica fonte de energia: o Sol. Mas parece que estamos criando tantos mitos acerca da energia solar quanto o número de mitos existentes sobre o próprio Sol. Alguns dos mais populares são: a energia solar só é utilizável nas regiões muito ensolaradas, como o Arizona; é ineficaz durante a noite e nos dias nublados; a luz solar é muito difusa para prover as altas temperaturas necessárias à geração de energia elétrica e outras fontes de alta qualidade; se a energia solar fosse verdadeiramente possível e valesse a pena economicamente, as grandes empresas elétricas a teria desenvolvido.
Estes mitos têm sido amplamente divulgados pelos relatórios oficiais sobre a crise de energia. Por exemplo: há poucos anos, um exaustivo relatório do NPC (Conselho Nacional de Petróleo), constituído em sua maior parte por membros de equipes das companhias de petróleo, como também por um grupo do Departamento do Interior, sobre as perspectivas para a energia americana, oferecia a quintessência da mitologia da energia solar: “Em conseqüência de ser difusa e intermitente, a energia solar não está prevista para ser usada em larga escala nos próximos 15 anos, mesmo com significativos melhoramentos. Tanto as grandes áreas nas quais a energia deve ser coletada quanto o custo de equipamentos de coletas e conversão impedem o uso intensivo de aparelhos solares tais como os evaporadores, destiladores, aquecedores, refrigeradores, caldeiras, células etc.”. [...] Fonte: Commoner, B. 1986 [1978]. Energias alternativas. RJ, Record.
Jangadas amarelas, azuis, brancas, logo invadem o verde mar bravio, o mesmo que Iracema, em arrepio, sentiu banhar de sonho as suas ancas. Que importa a lenda, ao longe, na história, se elas cruzam, ligeiras, nesse instante, o horizonte esticado da memória, tornando o que se vê mito incessante? As velas vão e voltam, incontidas, sobre as ondas (do tempo). O jangadeiro repete antigos gestos de outras vidas feitas de sal e sonho verdadeiro. Qual Ulisses, buscando, repentino, a sua ilha, o seu rosto e o seu destino. Fonte: Moriconi, I. 2001. Os cem melhores poemas brasileiros do século. RJ, Objetiva. Poema originalmente publicado em 1997.
Tudo o que desfazes no que ouves te escuta: o voejar do dormir... Mais do que viver o voejar proibido, o escândalo dissipado de um sonho:
As vozes, os rostos apagados. As bocas como esferas e os ocultos ritmos, enterrados passos súbitos de um hóspede auspicioso:
A noite na casa vazia. O sapo que na soleira espera o beijo duro da esponjosa lua.
O braço cortado ao longe, a mão que afunda na cabeça que vai despertar: “transborda-me conhecendo tua morte, enfrenta-me à tua infinita redução”.
Porém nu, de pé, no chuveiro, o orvalho mais ácido nas frotas da manhã; nu, sob o esgar impreciso de um gorjeio prolongado e a visita, na jactância da luz na penumbra
já é inteira a manhã já é inteira a repetição buliçosa do olhar que se transborda enamorado não contido pela erudição dos saberes, a obra, o crer conhecer e sua “consciência culpada”.
É necessário conhecer esta morte.
Seu desejo infinito amplia-se e se reduz: é o desejo da obra e a pequena diferença de sua duradeira dureza...
É a simulação da amordaçável liberdade, que nos impõe como em dois sonhos suspeitos, um breve e confuso reconhecimento do caos: a manhã.
O déjà vu é a morte, um palco escuro recortado por suas danças; um guizo que se agita para o falcão jactancioso, um alarme obsceno e brevíssimo durante o pacto de olhar.
A morte que só escuta e expele. Expele continuamente, no que ouve, no que escuta... a morte com seus brinquedos e seus gatos.
Disseste: “devo permanecer sempre pequena”.
Mais que o sonho: o vazio se nos impõe por bocejos.
A chuva breve que nos abre uma acácia. Os duros hexâmetros entorpecidos pelo sonho.
O pesadelo da bruma recortada, na qual aparecem as medrosas geometrias da sombra. Os bailes e as máscaras de um finíssimo “óleo”: a manhã.
Alguém declina o nome de seu gato e o nome do felino salta na sombra. Desperto-me? Tentas acordar-me com um punhado de sílabas de quatro folhas?
Alguém desdobra nesta mesma mesa onde escrevo, uma toalha crocante à luz e nas intactas, pegajosas dobras. E apóia uma xícara, um prato, um guardanapo de papel sobre as pequeníssimas, pintadas flores.
Começa a manhã?
Ou ela nos vai desocultando uma outra vez aquilo que para nós recomeça?
Os pequenos d’annunzios, brevíssimos em sua aparição,
nas luzes veladas e nos movimentos das vestes de papel.
Nu, no chuveiro nu sob o jorro que sustenta as imagens encantadas.
Nu na única sucessão pressentida, quase dolorosa. A insistência desgarradora das aspersões insolúveis do desejo:
nu e a manhã do verão esfregando-me. Um gato vem cair sobre meu peito como uma chuva de açúcar dourado, impalpável.
Nu, querendo ver se poderia “estabelecer” desde fora outros vínculos.
Empapado de orvalho avança por outra festa que não me exclui. As dobras da água na pele,
a luz que me desperta nas peneiras do papel: gozo, apenas.
O puro som que rapta o desejo.
E eu irei, com a língua queimada pela chuva do sol: o vaivém do disco de carvão da comadre cozinheira, e eu também me afastaria a mil anos luz caso este dia me “retivesse”.
Semicerra os postigos para proteger-me de um resplendor laranja e diz, murmura, “pronto”; a xícara de leite perfumada com o pintado café.
O gosto do leite, o café. Esforço de reconhecer os dois sabores unidos no sabor da manhã. A manteiga fria e seu orvalho na espiral, o caracol com o que a enervam sob o metal de umas formas gordurosas. A faca apoiada no frasco de mel marcando com seu resplendor sombrio a distância do primeiro piscar desse “hoje”.
Conhece tua morte a água, o macaréu do açúcar: o corpo nu passando pela voz da minha língua:
“Enquanto escreve, tudo se desvanece menos o que contemplo”.
Aquele por quem passo engole o leite e os sabores desconcertados. Terás teu corpo transbordado por suas marcas velozes de passante:
procure-te e não estás, ouço tua voz detrás da bruma perto da mulher dos pássaros: “ser pequena, quero”.
Hóspede da manhã (ainda para mim secreta) e hóspede nu transpassado pela certeza:
contemplo. Escuto o moedor de chocolate do desejo, e essa repetição em seu nome nomeado
onde está?
O campo. Fonte: Costa, H. 1992. Antologia de poesia hispano-americana atual. Revista USP 13: 186-205. Poema originalmente publicado em 1984.
Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando-se com vê-la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida;
começa de servir outros sete anos, dizendo: – Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida. Fonte: Figueiredo, C. 2004. 100 poemas essenciais da língua portuguesa. BH, Editora Leitura. Poema originalmente publicado em 1595.
Nesta segunda-feira, 12/5, o Poesia contra a guerra completa um ano e sete meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 35.069 visitas haviam sido registradas.
Desde o balanço mensal anterior – Um ano e meio no ar – foram ao ar textos dos seguintes autores: Augusto Meyer, Cassiano Ricardo, Cruz e Souza, Daniel J. Kevles, Juan Malpartida, Juan Ramón Jiménez, Konrad Lorenz, Luiza Neto Jorge, Raul de Carvalho, Roberto Piva, Robert E. Ricklefs, Rui Knopfli e William Golding. Além de outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.
Cabe ainda registrar a publicação de imagens dos seguintes pintores: Albert Bierstadt, Candido Portinari, Georg Heinrich Croll, James McNeill Whistler e William Orpen.
James McNeill Whistler (1834-1903). Arrangement in grey and black No. 1: portrait of the artist’s mother [Whistler’s mother]. 1871. Fonte da foto: Wikipedia.
Hello, Is there anybody in there Just nod if you can hear me Is there anyone at home Come on now I hear you’re feeling down I can ease your pain And get you on your feet again Relax I’ll need some information first Just the basic facts Can you show me where it hurts
There is no pain, you are receding A distant ship smoke on the horizon You are only coming through in waves Your lips move but I can’t hear what you’re saying When I was a child I had a fever My hands felt just like two balloons Now I’ve got that feeling once again I can’t explain, you would not understand This is not how I am I have become comfortably numb
O.K. Just a little pin prick There’ll be no more aaaaaaaah! But you may feel a little sick Can you stand up? I do believe it’s working, good That’ll keep you going through the show Come on it’s time to go
There is no pain, you are receding A distant ship smoke on the horizon You are only coming through in waves Your lips move but I can’t hear what you’re saying When I was a child I caught a fleeting glimpse Out of the corner of my eye I turned to look but it was gone I cannot put my finger on it now The child is grown The dream is gone And I have become Comfortably numb Fonte: encarte que acompanha o álbum duplo The wall (1979), do Pink Floyd.
Vem, serenidade! Vem cobrir a longa fadiga dos homens, este antigo desejo de nunca ser feliz a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade! Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros e com que os ombros subam à altura dos lábios, faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos. Carrega para a cama dos desempregados todas as coisas verdes, todas as coisas vis fechadas no cofre das águas: os corais, as anêmonas, os monstros sublunares, as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade, com país veloz e virginal das ondas, com o martírio leve dos amantes sem Deus, com o cheiro sensual das pernas do cinema, com o vinho e as uvas e o frémito das virgens, com o macio ventre das mulheres violadas, com os filhos que os pais amaldiçoam, com as lanternas postas à beira dos abismos, e os segredos e os ninfos e o feno e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo, com Deus molhando os olhos e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade, com a paz e a guerra derrubar as selvagens florestas do instinto.
Vem, e levante palácios na sombra. Tem a paciência de quem deixa entre os lábios um espaço absoluto.
Vem, e desponta, oriunda dos mares, orquídea fresca das noites vagabundas, serena espécie de contentamento, surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes, dos números irreais de todas as semanas, dos caixeiros sem cor e sem família, das flores que rebentam nas mãos dos namorados, dos bancos que os jardins afogam no silêncio, das jarras que os marujos trazem sempre da China, dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade, e põe no peito sujo dos ladrões a cruz dos crimes sem cadeia, põe na boca dos pobres o pão que eles precisam, põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence. Vem nos bicos dos pés para junto dos berços, para junto das campas dos jovens que morreram, para junto das artérias que servem de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade! E do salgado bojo das tuas naus felizes despeja a confiança, a grande confiança. Grande como os teus braços, grande serenidade!
E põe teus pés na terra, e deixa que outras vozes se comovam contigo no Outono, no Inverno, no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade, para que se não fale nem de paz nem de guerra nem de Deus, porque foi tudo junto e guardado e levado para a casa dos homens.
Vem, serenidade, vem com a madrugada, vem com os anjos de oiro que fugiram da Lua, com as nuvens que proíbem o céu, vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela, o volume dos corpos saciados na cama, as mil aparições do amor nas esquinas, as dívidas que os pais nos pagam em segredo, as costas que os marinheiros levantam quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade, e lembra-te de nós, que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio, um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos, desta roupa de imagens que me cobre o corpo silencioso, das noites que passei perseguindo uma estrela, do hálito, da fome, da doença, do crime, com que dou vida e morte a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade, e acaba com o vício de plantar roseiras no duro chão dos dias, vicio de beber água com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade, não apagues ainda a lâmpada que forra os cantos do meu quarto, o papel com que embrulho meus rios de aventura em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade! E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe, mais úmida que a pele marítima do cais, mais branca que o soluço, o silêncio, a origem, mais livre que uma ave em seu vôo, mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo, mais humana e alegre que o sorriso das noivas, do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem, serenidade, para perto de mim e para nunca. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... De manhã, quando as carroças de hortaliça chiam por dentro da lisa e sonolenta tarefa terminada, quando um ramo de flores matinais é uma ofensa ao nosso limitado horizonte, quando os astros entregam ao carteiro surpreendido mais um postal da esperança enigmática, quando os tacões furados pelos relógios podres, pelas tardes por trás das grades e dos muros, pelas convencionais visitas aos enfermos, formam, em densos ângulos de humano desespero, uma nuvem que aumenta a vã periferia que rodeia a cidade, é então que eu te peço como quem pede amor: Vem, serenidade! Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis, vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos, o riso que não é da boca nem dos dentes mas que se espalha, inteiro, num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade, antes que os passos da noite vigilante arranquem as primeiras unhas da madrugada, antes que as ruas cheias de corações de gás se percam no fantástico cenário da cidade, antes que, nos pés dormentes dos pedintes, a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos, a revolta semeie florestas de gritos e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade, leva-me num vagão de mercadorias, num convés de algodão e borracha e madeira, na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes, na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe deste bíblico espaço, desta confusão abúlica dos mitos, deste enorme pulmão de silêncio e vergonha. Longe das sentinelas de mármore que exigem passaporte a quem passa. A bordo, no porão, conversando com velhos tripulantes descalços, crianças criminosas fugidas à policia, moços contrabandistas, negociantes mouros, emigrados políticos que vão em busca da perdida liberdade.
Vem, serenidade, e leva-me contigo. Com ciganos comendo amoras e limões, e música de harmônio, e ciúme, e vinganças, e subindo nos ares o livre e musical facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade! Os comboios nos esperam. Há famílias inteiras com o jantar na mesa, aguardando que batam, que empurrem, que irrompam pela porta levíssima, e que a porta se abra e por ela se entornem os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo: Acorda minha Mãe quando ela dorme, quando ela tem no rosto a solidão completa de quem passou a noite perguntando por mim, de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta, a confundir, numa só e lúcida claridade, a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade, e absolve os vencidos, regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos e dá-lhes nomes novos, novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas, as mentiras da fé, os amigos medrosos, os assombros da Índia imaginada, o espanto aprendiz da nossa fala, ainda nossa, ainda bela, ainda livre destes montes altíssimos que tapam as veias ao Oceano.
Vem, serenidade, e faz que não fiquemos doentes, só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra. E reúne os pedaços dos espelhos partidos, e não cedas demais ao vislumbre de vermos a nossa idade exacta outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso da melancolia, e põe ordem no caos e carne nos espectros, e ensina aos suicidas a volúpia do baile, e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem, e não apagues nunca o fogo que os consome, o impulso que os coloca, nus e iluminados, no topo das montanhas, no extremo dos mastros na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste à multiplicação original do Mundo: Um manto terníssimo de espuma, um ninho de corais, de limos, de cabelos, um universo de algas despidas e retrácteis, um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha das mais simples paixões, do jogo que jogamos sem parceiro, dos humilhantes nós que a garganta irradia, da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento, com a tua alucinante e alucinada mão, e põe, no religioso ofício do poema, a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me da traição dos encontros, do engano na presença de Aquele cuja palavra é silêncio, cujo corpo é de ar, cujo amor é demais absoluto e eterno para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal, para sempre obscena, para sempre inocente, Serenidade, és minha. Fonte (para as sete estrofes iniciais): Melo e Castro, E. M. 1973. O próprio poético. SP, Quíron. Poema originalmente publicado em 1955 e dedicado “À memória de Fernando Pessoa”.
Respeitáveis camaradas herdeiros e descendentes! Deste tempo revolvendo as fezes petrificadas, estudando estes nossos dias trevosos, talvez não saibas quem fui eu. Talvez, esmiuçando os problemas de hoje, exibindo erudição, um sábio vos diga que fui outrora um cantor d’água fervida, inimigo ferrenho d’água da bica. Professor! Tire esses óculos-bicicletas! Eu mesmo falarei de meu tempo e de mim. Eu, inspetor sanitário, carregador d’água, fui chamado, mobilizado pela Revolução, parti para o front, para longe dos jardins senhoriais da poesia, caprichosa dama. Ela tinha um belo jardim: água, ar, um coração, um leito.
“Desci a meu jardinzinho Para colher o rosmaninho”. Tais versos – frisados a Mitreikas cacheados a Krudreikas – jorram de algumas bocas, em outras são como baba. Que o diabos os leve! Aos suspiros não dão tréguas, bandolinam às sacadas: Tara-tina, tara-tina, ten... Pouco honroso seria, se entre tais rosas minha estátua surgisse, na praça onde cospem tuberculosos, a meretriz, a sífilis. Eu, de Agitprop tenho a boca repleta. Poderia fornecer-vos romances aos metros; seria mais fácil e pagam melhor. Mas eu me continha, pisando a garganta de minha própria canção. Escutai, camaradas herdeiros, ao agitador, ao locutor em chefe! Abafando a torrente de poemas, passarei por cima de líricos livrinhos para falar aos vivos como se vivo fosse.
Chegarei até vós no comunismo longínquo, mas não como os cantores saudosistas à moda de Iessiênin. Meu verso chegará através do cume dos séculos, por cima das cabeças de poetas e governos. Meu verso chegará, não como chega a seta lírica de Cupido, nem como velha moeda às mãos do numismata, nem como a luz das estrelas extintas. Meu verso com esforço irromperá de sob o peso dos anos e grosseiro, pesado, gritante, há de chegar, como a nossos dias chegou o aqueduto de Roma, tal como o fizeram os escravos. Entre pilhas de livros, túmulos de poemas, ao descobrir o ferro de minhas estrofes, vós, com respeito, as apalpareis, como a velhas armas, perigosas. Eu, com a palavra, não costumo acariciar ouvidos; nem ciciar semi-obscenidades a orelhinhas virgens escondidas, sob cabelos inocentes. Minhas páginas desfilando como tropas, as linhas do front eu as passos em revista. Os versos se perfilam pesados como chumbo, prontos para morrer, ou para a glória imortal. Os poemas postados como um canhão atrás doutro, apontam à distância, com seus títulos de letras enormes. Os ditos mordazes, minhas armas preferidas, ei-los prontos, sofreado o cavalo, a lança em riste, com rimas agudas, prestes a galopar lançando um grito de guerra. E todas essa tropas até os dentes armadas, que vinte anos de vitórias atravessaram, as ti as dou, até a última folha, a ti, planeta proletário. Todo inimigo da classe operária é desde muito meu inimigo jurado. Tivemos sob a bandeira vermelha, anos de sacrifício, dias de fome. Mas, cada tomo de Marx, nós o abríamos como se fossem janelas, e, mesmo sem ler, saberíamos onde ficar, de que lado lutar. Nós, a dialética, não aprendemos em Hegel. No fragor dos combates entrava-nos ela pelos versos, enquanto sob nossas balas, os burgueses fugiam, como nós deles fugíamos outrora. Que atrás do gênio, como viúva inconsolável, a glória se arraste, acompanhando o enterro. Morre, verso meu, morre como um soldado raso, anônimo como tantos tombados num assalto. Pouco me importa o bronze dos monumentos! Rio-me do fulgor frio dos mármores! Partilhar a glória? Aqui entre nós: tenhamos por único monumento coletivo, edificado por todos, o socialismo. Herdeiros, arrolhai vossos dicionários, para que do Lete dos léxicos não saiam detritos de palavras tais como “prostituição”, “tuberculose”, “bloqueio”. Para vós, herdeiros, ágeis e robustos, o poeta limpou os escarros tísicos, com a língua áspera dos cartazes. A cauda dos anos dar-me-á o aspecto de um fóssil fenomenal de longa cauda. Camarada vida, a trote, mais rápido, marchemos mais rápido, ao fim dos dias qüinqüenais. A mim, nem um vintém sequer os versos jamais me deram, jamais ganhei mobília do ebanista. E salvo duma camisa fresca, sinceramente, não preciso nada. Diante do C.C.C. dos anos claros do futuro, acima dos finórios e trapaceiros do verso, levantarei qual uma carteira bolchevique todos os cem tornos de meu livros partidários! Fonte: Maiakóvski. 2006. Vida e poesia. SP, Martin Claret. Poema originalmente publicado em 1930.