15 outubro 2018

Limpo e reto


1.
Sou limpo. Gosto de limpeza. Lavo as mãos sempre, sobretudo no verão. Também sou reto. A retidão é para mim a maior das virtudes de um ser humano. Deve ser por isso que eu gosto de linhas retas. E de soldados perfilados, marchando em sincronia. Uniformes limpos e vistosos. Coturnos pretos ressoando contra o chão. Homens fortes e corados, e seus rifles reluzentes. Lembro como se fosse hoje: a voz do sargento a ecoar pelo pátio onde treinávamos para o desfile de 7 de setembro. A retidão é a virtude que nos separa das feras, dos gabirus, dos pobres. Odeio pobreza, a irmã mais velha da bagunça e da sujeira. Os homens retos – os Escolhidos – devem ouvir o Chamado, unindo forças contra essas três irmãs que hoje ameaçam a integridade do mundo. Vadias infiéis e oportunistas.

2.
Quando eu era pequeno, as crianças zombavam de mim no recreio. Algumas me chamavam de xis, por causa das pernas tortas. Outras me chamavam de mulherzinha, por conta do meu hábito de ficar em sala, na hora do recreio, a escrever cartas... Perdi a vontade de me enturmar. E nunca beijei uma garota. Até que eu me casei. Foi quando eu passei a colecionar mulheres. Faço com elas o que aquelas crianças fizeram comigo. Vingança. Olho por olho, dente por dente – não é o que diz a Bíblia? E é o que eu tenho feito nos últimos anos. Às vezes, uma ou outra até grita mais alto ou tenta fugir, mas eu sou mais forte e sempre dou um jeito. Quando tudo termina, eu sei me livrar das pistas. E lavo bem as mãos e troco de roupa. E assim eu tenho me mantido limpo. Limpo e reto.

13 outubro 2018

O canal


Giovanni [Battista Emanuele Maria] Segantini (1858-1899). Il naviglio a ponte san Marco. 1880.

Fonte da foto: Wikipedia.

12 outubro 2018

Aniversário de 12 anos

F. Ponce de León

Hoje, 12/10, o Poesia contra a guerra completa 12 anos no ar (2006-2018).

Nos últimos 12 meses, foram publicados aqui textos de 86 novos autores, além de outros que já haviam sido publicados antes – ver ‘Aniversário de 11 anos’ e balanços anteriores. Eis a lista de estreantes:

A. R. Ammons, Aco Šopov, Ademar Ribeiro Romeiro, Algernon Charles Swinburne, André Prous, Ariano Suassuna, Armin Heymer, Arthur Rimbaud & Artur Gonçalves Ferreira;

Charu Sudan Kasturi, Clodoaldo de Alencar, Cuti & Cyro Armando Catta Preta;

Dámaso Alonso, David C. Lay, David Savold & Douglas C. Montgomery;

Émile Verhaeren;

Francis Bowen;

George C. Runger, Glenn Gould & Gonçalves Crespo;

Hélio Fraga, Henriques do Cerro Azul & Humberto Werneck,

Isaías Pessotti,

Jacob Gorender, James McConnell, Jennifer C. McElwain, Jessica Brown, Joan Brossa, João Garcia de Guilhade, João Rubens Zinsly, Jonathan Howard, John Dryden, John Hersey, José Geraldo, José Jeronymo Rivera, José Nilo Tavares, Josué Camargo Mendes & Judith Wright;

Katherine J. Willis, Kenitiro Suguio & Kori Bolivia;

Leda Maria Martins, Lewis Wolpert, Lino Guedes, Lucille Clifton & Luis de Góngora;

M. Mitchell Waldrop, Magalhães de Azeredo, Manfred Eigen, Márcio Catunda, Marinês Eiterer, Michael Kennedy, Michael Robbins, Michael Talbot & Michel Serres;

Nigel Ashworth Barnicot;

Orígenes Lessa, Oswaldo de Camargo & Otto Jahn;

Pai Gomes Charinho, Paulo C. Abrantes & Pavol Országh Hviezdoslav;

Ransom Riggs, René Char, Richard N. Hardy, Richard Wettstein, Robert Chambers, Roberto Gomes da Silva & Robin M. Henig;

São Mateus, Samuel Sewall, Samuel Wilberforce, Shirley Ferreira, Sonia Maria Brazil Romero & Stefan Cunha Ujvari;

Thomas Carew, Thomas Lovell Beddoes, Theotonio dos Santos & Tito Iglesias;

Uko Suzuki;

Viriato Gaspar; e

William Cowper & William Ernest Henley.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras de 30 novos pintores, a saber: Adelsteen Normann, Adolph von Menzel, Anna Elizabeth Klumpke & Arthur Streeton; Bruno Liljefors; Carl d’Unker, Chaïm Soutine, Charles-Émile Jacque & Cornelis van Dalem; Elías García Martínez & Eugen Dücker; Félix Buhot, Francesco Squarcione & Fujishima Takeji; George Hitchcock, Giacomo Grosso & Giuseppe Pellizza da Volpedo; Heinrich Vogeler; James Nairn, Jan Matejko & Jean-Victor Bertin; Letitia Marion Hamilton & Luca Giordano; Matteo Olivero; Parmigianino; Roderic O’Conor & Rosa Bonheur; Théo van Rysselberghe & Thomas William Roberts; e William Powell Frith.

07 outubro 2018

Nevoeiro


A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do chão com o luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1968.

04 outubro 2018

O paladar entre os vertebrados

Sonia Maria Brazil Romero

Os receptores de gosto, nos vertebrados, estão localizados nos botões gustativos. [...] [E]stes botões são compostos por células receptoras secundárias dotadas de microvilosidades em sua extremidade, células de sustentação e células basais que dão origem às novas células receptoras. Estas últimas, por não serem células nervosas, fazem sinapse com fibras aferentes de neurônios sensoriais.

Na maioria dos vertebrados, os receptores de gustação são encontrados na língua, na epiglote, na parte posterior da boca, na faringe e no esôfago superior. [...] Em anfíbios e peixes, podem se distribuir sobre a pele, sendo muito abundantes na superfície do corpo em bagres e carpas. Nos peixes, os botões podem ser encontrados ainda nas brânquias e nadadeiras.

O paladar está presente nos diferentes níveis da evolução dos vertebrados. Nos mamíferos, quatro sensações primárias podem ser distinguidas pelos botões gustativos: doce, amargo, azedo e salgado. Aves, répteis e anfíbios têm um sentido de gustação pobremente desenvolvido, embora rãs e sapos respondam, segundo alguns autores, a sal e ácido. Alguns peixes respondem às quatro qualidades – ácido, sal, açúcar e quinino –, mas respondem melhor às duas primeiras.

Fonte: Romero, S. M. B. 2000. Fundamentos de neurofisiologia comparada. Ribeirão Preto, Holos.

02 outubro 2018

É verdade eça manxete


Estamos na derradeira semana da campanha eleitoral. Está na hora da fervura: a grande imprensa brasileira precisa tirar a mão do bolso e fazer o que faz melhor – embromation.

Pois bem. Pensando em ajudar a conter a avalanche eleitoral que se avizinha, deixo aqui algumas sugestões de manchetes a serem usadas ao longo da semana pelos arautos da democracia e do mundo livre. Senhores editores, não se envergonhem. Fiquem à vontade: é Crt-C + Crt-V.

Aí vão 13 sugestões:

(1) “Em depoimento à Lava Jato, amigo do ex-presidente revela que Lula já cuspiu na calçada”.

(2A) “Veterinário da UnB encontra gato morto no Paranoá, perto da residência de um amigo do ex-presidente Lula”. No dia seguinte: (2B) “Gato encontrado morto no Paranoá, perto da mansão de um amigo do ex-presidente Lula, pode ter sido sacrificado em ritual satânico”.

(3) “Arqueólogo da USP encontra cofre do século 19 em Garanhuns, terra do ex-presidente Lula, com 20 mil patacas em barras de ouro. Lava Jato vai investigar”.

(4) “Teste de laboratório deu positivo para sangue em jaqueta encontrada em distrito perto de São Paulo, terra natal de Fernando Haddad”.

(5A) “Rábula que teve as duas pernas quebradas em partida de futebol no fim de semana era rival de Fernando Haddad nos tempos de faculdade”. No dia seguinte: (5B) “Ao sair do pronto-socorro, ex-professor de Fernando Haddad disse aos repórteres que jamais votaria nele para presidente”.

(6A) “O sr. Massad [nome fictício], porteiro de um prédio residencial no centro de Beirute, terra natal da família de Fernando Haddad, disse aos repórteres que jamais votaria no candidato do PT para presidente do Líbano”. No dia seguinte: (6B) “Porteiro reafirma que o candidato do PT, Fernando Haddad, não tem condições de governar o país”.

E não nos esqueçamos dos ex-guerrilheiros:

(7A) “Funcionários da CEMIG encontraram linha com cerol em poste de luz em distrito perto de BH, ao lado da casa de um amigo da ex-presidente Dilma Rousseff”. No dia seguinte: (7B) “Motorista alcoolizado é vítima do poste citado ontem em matéria sobre a ex-presidente Dilma”.

(8) “Criminalista identificou digitais de um foragido da PF em maçaneta de casa em distrito perto de BH, terra natal do governador Fernando Pimentel”.

(9) “Exibicionista sexual detido no fim de semana em BH é primo do vizinho de um amigo do governador Fernando Pimentel”.

30 setembro 2018

O hipotálamo

Richard N. Hardy

Hipotálamo é o nome dado à parte do cérebro abaixo do tálamo, que forma o assoalho e parte das paredes laterais inferiores do terceiro ventrículo [...]. A despeito de seu tamanho reduzido, é muito importante na regulação interna de funções corporais. Sua influencia sobre a glândula pituitária anterior e posterior significa que governa grande parte da atividade endócrina do corpo, alem de controlar também muitos aspectos da função nervosa [autônoma]. Tem ainda um papel importante na regulação da ingestão de alimento e água, comportamento sexual, sono e respostas emocionais, como medo e cólera. E, ainda, contém as estruturas que, em ultima analise, regulam a temperatura corporal.

Fonte: Hardy, R. N. 1981. Temperatura e vida animal. SP, EPU & Edusp.

28 setembro 2018

Manhã de inverno


James [McLauchlan] Nairn (1859-1904). Winter morning. ~1900.

Fonte da foto: Wikipedia.

26 setembro 2018

A antiguidade das interações

Stefan Cunha Ujvari

O termo ‘globalização dos microrganismos’ ganhou importância nos últimos anos. A população se deu conta de que, com a aviação, um doente pode dar a volta ao redor do mundo em período curto de tempo. Com isso, as epidemias se disseminariam pelo planeta com maior facilidade. A pneumonia asiática de 2003 partiu do Sudeste Asiático e alcançou a Europa e a América. O mundo prendeu a respiração diante do receio de uma epidemia globalizada. As manchetes dos jornais da imprensa escrita e falada não pouparam espaços para tal epidemia. Hoje, as notícias enfocam a ‘gripe aviária’. Esperamos uma nova pandemia mundial de gripe a qualquer momento. Teríamos então uma epidemia mundial semelhante à ‘gripe espanhola’ de 1918. Atualmente, a velocidade de disseminação global de uma epidemia seria surpreendente. Porém, podemos contar outra história de globalização das epidemias que vem ocorrendo há muito mais tempo e de maneira despercebida. Iniciou-se desde o nosso nascimento na África e perdura até os dias atuais. Sua velocidade lenta e progressiva depende da locomoção humana. No início caminhava a passos lentos, mas, nas últimas décadas, ganhou velocidade.

Os primeiros hominíneos ancestrais do homem moderno surgiram em algum momento há sete milhões de anos. A ciência aponta a África como local de origem desses primeiros bípedes. Separaram-se do animal ancestral que originaria a linhagem dos chimpanzés. O estudo do material genético dos micro-organismos mostra que os primeiros hominíneos não estavam sós. Vírus ancestrais do herpes labial e genital humano os acompanhavam e saltaram para as próximas espécies que surgiriam enquanto as anteriores se extinguiam. Os vírus seguiam firmes nas novas espécies emergentes. Saltaram e evoluíram nos Australophitecus, nos Homo erectusH. ergasterH. habilis e assim por diante, até chegarem ao homem moderno africano. A posição ereta e bípede, característica dos hominíneos, fez o herpes vírus presente nos genitais se isolar geograficamente dos labiais. As posteriores mutações diferenciaram geneticamente os herpes labiais e genitais encontrados hoje em dia. Cálculos realizados nas diferenças genéticas desses dois tipos de vírus herpes chegaram a uma forma inicial de vírus há oito milhões de anos, muito próxima do surgimento dos primeiros bípedes que a transportavam.

Aquele animal ancestral comum aos chimpanzés e humanos apresentava vírus herpes que também foi transferido para a linhagem originária dos chimpanzés. Hoje, esses primatas também apresentam seus herpes em lábios e genitais geneticamente semelhantes aos nossos.

Provavelmente, o papilomavírus humano (HPV) seguiu o mesmo caminho. Encontramos vírus semelhantes ao HPV em primatas, o que sugere a existência de vírus no animal ancestral comum aos homens e chimpanzés.

Os ancestrais humanos africanos adquiriram parasitos dos animais herbívoros, que começaram a caçar nas savanas africanas. Adquirimos formas iniciais de tênias. A genética mostra semelhança entre nossas tênias e as presentes em felinos, canídeos e hienas africanos. Nesse caso, não adquirimos as tênias na domesticação do porco ou gado. Já havíamos nos infectado em solo africano e as passamos aos porcos e gados posteriormente, quando os domesticamos.

Formas de bactérias causadoras de tuberculose, descobertas em Djibouti, revelam sua antiguidade genética e, provavelmente, foram precursoras da atual Mycobacterium tuberculosis. Nesse caso, a tuberculose já acometia ancestrais humanos bem antes do nosso surgimento. Acometia o Homo erectus. Acreditávamos que a M. bovis presente no gado transferiu-se aos humanos com a domesticação desses animais. Porém, essa teoria caiu por terra com a descoberta das bactérias de Djibouti, e com trabalhos que comparam a sequência genética das micobactérias e colocam a M. bovis como umas das últimas a evoluir.

Parasitos intestinais circulavam nos primeiros Homo sapiens que surgiram e eram adquiridos pela água e por alimentos contaminados.

Nascemos portando agentes infecciosos e adquirimos novos agentes ainda em solo africano. Estávamos prontos para iniciar a globalização dos microrganismos no momento de nossa partida da África para conquistar o planeta.

Fonte: Ujvari, S. C. 2008. A história da disseminação dos microrganismos. Estudos Avançados 22: 171-82.

24 setembro 2018

O poço


Amigos, silêncio.
Estou vendo o poço.

No fundo profundo eu me vejo
presente. Não é
a cacimba de estrelas. Amigos, é o poço.

Apenas o poço. A vela na lama
como um dedo de fogo.
Ânsia de afogado,
suspiros em bolhas.
O susto no sono.
A sombra descendo sobre os aposentos,
o suor nos espelhos. A sombra
abafando a criança, a sombra fugindo.
A mão pesada sobre a boca torta,
o grito parado no rosto.
O copo d’água em goles trêmulos...

Amigos, silêncio.
Eu vejo o poço.

O vento da hora morta. Os avós sorrindo,
tão meigos sorrindo. E a morte tão viva!
(Minha mãe não esperou a guerra,
não sabe notícias do mundo.
Não pergunta, não responde).

A tosse acordando os irmãos,
e eu, pela madrugada, carregado nos ombros de meu pai.

Fonte: Rivera, B. 2003. Melhores poemas de Bueno de Rivera. SP, Global. Poema publicado em livro em 1944.

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