19 Março 2012

Rosa D’Alva

Pedro Juan Vignale

Rosa azul, rosa vermelha,
Qual delas preferirias?
– Rosa cor-de-rosa da alva,
Eis a rosa que eu queria;
Coroada como as amoras,
E como a lua – tão fria.
Três dias com suas noites
E três noites com seus dias,
Andei atrás dessa rosa:
Da rosa rosada e fria.

Mas ai! sempre que partira,
Ai! que sempre que partia,
No caminho da alvorada
A rósea rosa pendia.
Já a amolecera a orvalhada,
Já os galos a encareciam,
Ai! a rosa mais rosada,
Rosa da alvorada fria!

Jamais suas mãos puderam,
Jamais elas poderiam
Colher nunca a rosa rósea
Da alvorada umedecida.
Pois sempre que ia chegando
– Andando noites e dias –,
Por sobre os caminhos de ouro
Já dançava o meio-dia.

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira.

17 Março 2012

Litogravura

Paulo Mendes Campos

Eu voltava cansado como um rio.
No Sumaré altíssimo pulsava
a torre de tevê, tristonha, flava.
Não: voltava humilhado como um tio
bêbado chega à casa de um sobrinho.
Pela ravina, lento, lentamente,
feria-se o luar, num desalinho
de prata sobre a Gávea de meus dias.
Os cães quedaram quietos bruscamente.
Foi no tempo dos bondes: vi um deles
raiar pelo Bar Vinte, borboleta
flamante, touro rútilo, cometa
que se atrasa no cosmo e desespera:
negra, na jaula em fuga, uma pantera.

Passei a mão nos olhos: suntuosa,
negra, na jaula em fuga, ia uma rosa.

Fonte: Moriconi, I., org. 2001. Os cem melhores poemas brasileiros do século. RJ, Objetiva. Poema publicado em livro em 1966.

15 Março 2012

O diário de Nina

Nina Lugovskaia

1.
No meu dia livre, 6 de outubro, Genya e Lyalya tinham decidido fazer um passeio a cavalo, e haveria uma roupa de montaria também para mim. Quando nós três chegamos à outra casa, precisei suportar não poucos conselhos e recomendações. Mas paciência. Mamãe não queria que eu fosse, mas eu havia decidido ir mesmo assim, e já estava vestindo o capote quando, de repente, ela se lembrou de que eu o tiraria para cavalgar e por isso sentiria frio. Genya e Lyalya reclamaram um pouco e depois saíram, deixando-me de péssimo humor, mas calma.

Ontem, na escola, tínhamos ciências sociais durante os dois primeiros tempos e Evtsikhevitch chegou embonecado como nunca, provocando em nós grandes risadas e atraindo todo tipo de brincadeira possível. Deu uma pesquisa como tarefa a alguns garotos, entre os quais Staska. Prometi a ele que eu mesma escreveria, e agora estou bastante arrependida.
[...]

Fonte: Lugovskaia, N. 2005. O diário de Nina. RJ, Ediouro.

13 Março 2012

Velho com neto


Domenico Ghirlandaio (1449-1494). Ritratto de vecchio con nipote. 1490.

Fonte: Wikipedia. As manchas vistas na reprodução foram posteriormente restauradas.

12 Março 2012

Sessenta e cinco meses no ar

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/3, o Poesia contra a guerra completa cinco anos e cinco meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 161.810 visitas foram registradas ao longo desse período.

Desde o balanço mensal anterior – Cinco anos e quatro meses no ar – foram aqui publicados textos dos seguintes autores: Bento José Ferreira Murteira, Casimiro de Abreu, Janduhy Finizola, Pe. José de Anchieta, Luiz Vilela, Mark L. Yoseloff, Neil A. Weiss, Patricia Morgan, Suzana Nunes e Woodburn Heron. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Abbott [Handerson] Thayer e Walter Gay.

10 Março 2012

Da descrição à indução

Bento José Ferreira Murteira

Na investigação cientifica a descrição tem considerável importância mas não esgota os propósitos daquela. Pode afirmar-se, na verdade, que normalmente quando um investigador analisa um conjunto de dados, necessariamente restritos, procura sobretudo alargar as sua conclusões a um conjunto mais vasto através da formulação de proposições gerais a que se dá, por vezes o nome de leis. Utilizando a terminologia atrás introduzida verifica-se que as mais profundas preocupações dos investigadores que utilizam o método estatístico consistem em tirar conclusões sobre o universo partindo dos factos observados na amostra. Sai-se, nesse caso, da esfera de aplicação da Estatística Descritiva para entrar no domínio da Estatística Indutiva.

Em termos muito gerais, o processo de inferência indutiva consiste no seguinte: conhecidos certos factos ou acontecimentos particulares, expressos por meio de proposições, imaginam-se proposições mais gerais que exprimam a existência de leis, isto é, de factos científicos. Relativamente a estas proposições levanta-se, contudo, uma dificuldade: não pode dizer-se, contrariamente ao que sucede com as proposições ‘deduzidas’, que são falsas ou verdadeiras. Tão pouco é de admitir um estado de completa ignorância, pois conhecem-se casos particulares. Existe, portanto, em relação a uma proposição ‘induzida’ uma posição intermédia entre,

falsa-verdadeira,

posição de incerteza que leva a dizer que a proposição é mais ou menos provável,

falsa-provável-verdadeira.

Os comentários que acabam de fazer-se servem para destacar que os atributos ‘falso’ e ‘verdadeiro’ são insuficientes quando o rigor abstracto das teorias matemáticas dá lugar à imprecisão inevitável dos acontecimentos empíricos, que dizendo respeito ao meio que o homem vive são indispensáveis no dia a dia.
[...]

Fonte: Murteira, B. J. F. 1979. Probabilidades e estatística, vol. 1. Lisboa, McGraw-Hill.

09 Março 2012

Nas ondas do rádio

Suzana Nunes

Asa branca voando nas ondas do rádio
Fazendo ponteio pras ave-marias
A estrela d’alva, o bater do sino
Brilhando distante, perdido, divino

Companheiro do vento
Criatura da noite
Uma nuvem cigana
Olhando o tempo passar

O domingo no parque
Catavento girante
Não descobre o segredo
Que rola na espuma do mar

Chegaram pelo Atlântico
Os gritos selvagens
E o belo horror nascente
Das pedras rolantes
O banquete dos mendigos
Nos campos de morango
E Lucy no céu com seus diamantes

Companheiro do vento
[...]

Belo horror das cidades
Diamante celeste
Asa branca ferida
Olhando o tempo passar

Fonte: encarte que acompanho o LP do álbum 14 Bis II (1980), do 14 Bis.

07 Março 2012

Lógica

Neil A. Weiss & Mark L. Yoseloff

Algumas das noções fundamentais de lógica simbólica são apresentadas neste capítulo. Os princípios da lógica muitas vezes são úteis para o entendimento do significado preciso dos enunciados e também ajudam no desenvolvimento de importantes métodos de raciocínio. Embora a lógica simbólica não seja usada explicitamente nos capítulos subseqüentes, muitos leitores acharão proveitoso adquirir conhecimentos sobre o assunto.

1. Proposições e conectivos

Começamos esta seção com um exemplo que ilustra os vários tipos de sentenças que podem ser encontradas na linguagem cotidiana.

Exemplo 1.1.1
1. Belo Horizonte fica em Minas Gerais.
2. Hoje é o dia 4 de julho.
3. Feche a porta!
4. Que cidade dos Estados Unidos é a mais populosa?
5. O preço do ouro subiu hoje.
6. A taxa de inflação deste ano foi de 8 por cento.
7. Por que você foi a pé para o trabalho hoje?

Ao estudar essas sentenças vemos que elas podem ser divididas em dois tipos principais: (1) as que podem ser classificadas como verdadeiras ou falsas e (2) as que não podem ser assim classificadas.

Definição
Uma sentença que pode ser significativamente classificada como verdadeira ou falsa denomina-se uma proposição.

Por exemplo, as sentenças 1, 2, 5 e 6 do Exemplo 1.1.1 são proposições, o que não ocorre com as demais sentenças.
[...]

Fonte: Weiss, N. A. & Yoseloff, M. L. 1978 [1975]. Matemática finita. RJ, Guanabara.

05 Março 2012

Segredos

Casimiro de Abreu

Eu tenho uns amores – quem é que os não tinha
Nos tempos antigos? – Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha,
Que digam, que falem em regra geral.
– A flor dos meus sonhos é moça e bonita
Qual flor entr’aberta do dia ao raiar,
Mas onde ela mora, que casa ela habita,
Não quero, não posso, não devo contar!

Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;
– Os olhos rasgados são cor das safiras
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!

Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!
– Que noite e que baile! – Seu hálito virgem
Queimava-me as faces no louco valsar,
As falas sentidas, que os olhos falavam,
Não posso, não quero, não devo contar!

Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço,
Morrendo de amores em tal languidez!
– Que noite e que festa! e que lânguido rosto
Banhado ao reflexo do branco luar!
A neve do colo e as ondas dos seios
Não quero, não posso, não devo contar!

A noite é sublime! – Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!
– Agora eu vos juro... Palavra! – não minto!
Ouvi-a formosa também suspirar;
Os doces suspiros, que os ecos ouviram
Não quero, não posso, não devo contar!

Então n’esse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: – “Nas noites d’estio
O céu tem estrelas, o mar tem amor!”
– E a voz maviosa do bom gondoleiro
Repete cantando: – “viver é amar!” –
Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
Não quero, não posso, não devo contar!

Trememos de medo... a boca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se intumesce...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!
– Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
Com fina malícia quereis me enganar;
Aqui faço ponto; – segredos de amores
Não quero, não posso, não devo contar!

Fonte: Cereja, W. R. & Magalhães, T. C. 1995. Literatura brasileira. SP, Atual. Poema publicado em livro em 1859.

03 Março 2012

Gaios-azuis no inverno


Abbott [Handerson] Thayer (1849-1921). Blue jays in winter. 1905-9.

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