17 dezembro 2018

Natureza morta com tabuleiro


Lubin Baugin (1612-1663). Nature morte à l’échiquier. 1631.

Fonte da foto: Wikipedia.

15 dezembro 2018

História contemporânea


Enquanto a Europa ardia,
nós apodrecíamos.
(Heil Hitler, galhardetes, mocidade
e os VV da liberdade)
Fantochadas!

Mil novecentos e quarenta.
(Não esqueçam)
Amávamos a pátria com delírio.

Eu apanhei uma sova
por causa da Inglaterra,
porque era parvo, fiel
e lusitano.
A Espanha era ibérica...
(Não esqueçam)

Entretanto, outros e outros,
de antes e depois,
assumiam postos.
Repetiam passos dados.
Condenados.

E nós de Peniche ao Porto,
a pé,
novos peregrinos. (Não esqueçam)

Social, o colectivo
é o mote do dia
(repetido).

O indivíduo
esse não (senão
quando habitar arbitrários
lugares vários).

Era doutrina encerrada
em discursos
com as patas no ar
em vez de apertos de mão.

Ó meritória
condição a nossa
de novos Amadizes!

Outrora havia prodígios.
Aos quinze,
era a Índia.
Aos dezassete, o Japão.
Aos trinta
tínhamos dado a volta ao mundo
e voltado à terra, entre
Almada e a Caparica,
para escrever um livro:
Peregrinação!

Agora há que ver a vida
como ela é. (Não esqueçam)
Eu quis ir ao México.
Quis ir a Paris.
Era proibido.

Consegui tarde Timor,
ilha perdida.

Mas tanta sublimação
do super ego
no ego.
Mas tanta fastidiosa
inibição, intervenção...

Foi preciso ter pecado,
unir-me a mim próprio, todo,
para descobrir o mundo.

Há que ver a vida
como ela é. (Não esqueçam)

E merda para a Inglaterra,
bêbeda invertida,
maga, soleníssima,
terra onde nasci. (Não esqueçam)

Mas nós somos portugueses.
Não esqueçamos.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1971.

13 dezembro 2018

Miranda Ribeiro e o darwinismo no Brasil

Terezinha Alves Ferreira Collichio

No final de sua obra A filosofia no Brasil, Sylvio Romero emite a respeito de Miranda Azevedo e suas ‘Conferências sobre o Darwinismo’, a seguinte opinião: “Não falei também dos Pequenos Ensaios Positivistas e das Conferências sobre o Darwinismo, respectivamente de Miguel Lemos e Miranda Azevedo porque não passam de ligeiras tentativas ainda pouco firmes, e destituídas de originalidade. Conquanto seus autores sejam moços de grande talento e que fundamentam justas esperanças, os dois produtos a que me refiro não são mais do que reproduções quase servis, de ideias alheias”.

Não obstante à referência cáustica, a análise quanto à originalidade não pode ser contestada, como já vimos. [...]

Fonte: Collichio, T. A. F. 1988. Miranda Azevedo e o darwinismo no Brasil. BH, Itatiaia & Edusp.

12 dezembro 2018

Doze anos e dois meses no ar

F. Ponce de León

Nesta quarta-feira, 12/12, o Poesia contra a guerra completa 12 anos e dois meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Doze anos e um mês no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antonio Roberval Miketen, Bruno Bettelheim, Carlos Ruiz Zafón, Charles Simic, Dinaw Mengestu, Dirceu Quintanilha, Donald W. Lathrap, Geoff Dyer e Roberto Lent.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Charles-Antoine Coypel e Noël Nicolas Coypel.

09 dezembro 2018

Jeff em Veneza, morte em Varanasi

Geoff Dyer

Numa tarde de junho de 2003, quando, por um breve instante, a invasão do Iraque parecia não ter sido tão má ideia afinal, Jeffrey Atman saiu de seu apartamento para dar uma volta. Teve de deixar o apartamento porque agora que o alívio pelo quadro geral tinha se esgotado – alívio porque Saddam não tinha voltado suas armas de destruição em massa inexistentes para Londres e o mundo não tinha mergulhado numa conflagração –, a miríade de irritações e frustrações de seu quadro particular estava de volta com força de vingança. O trabalho da manhã tinha sido uma merda. Precisava escrever um ‘artigo-cabeça’ de mil e duzentas palavras (que devia exigir zero de pensamento da parte do leitor e pouco mais que isso do escritor, mas que, mesmo assim, de alguma forma, estava além de suas forças), porém chegara a um tal grau de tédio que passara meia hora olhando para o e-mail de uma única linha a ser enviado ao editor que encomendara o texto:

“Simplesmente não consigo mais fazer essa merda. Abs J.A.”

A tela oferecia uma alternativa simples: Enviar ou Deletar. Simples assim. Clicar Enviar, e fim da história. Clicar Deletar, e ele estaria de volta ao ponto de partida. [...]

Fonte: Dyer, G. 2010. Jeff em Veneza, morte em Varanasi. RJ, Intrínseca.

07 dezembro 2018

A escarradeira do rei


Eis que a imprensa divulgou ontem (6/12) uma célere decisão do nosso querido STJ. Diz respeito a uma antiga reivindicação envolvendo a nobilíssima – digo esta e as próximas palavras dobrando o tronco e abaixando a cabeça – família Orleans e Bragança (ver aqui).

Os tataranetos dos tataranetos de Pedro Álvares Cabral reivindicavam a restituição e o reconhecimento do domínio deles sobre o Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro.

Não sei se entendi bem a história, mas seria mais um daqueles casos de apropriação privada de bens públicos. (A propósito, essa molecada monarquista, cujos integrantes se julgam herdeiros do trono, se trono houvesse, já usufruem de mamatas vergonhosas, como a abominável taxação sobre transações de compra e venda de imóveis situados no centro urbano de Petrópolis RJ, em terras que outrora foram de dom Pedro II – ver aqui.)

Uma sugestão

Pois eu deixo aqui uma sugestão, caso a decisão do STJ seja de fato para valer e definitiva.

Mais fechado do que aberto há quase 10 anos (ver aqui), o Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora MG) – o “segundo maior acervo imperial do país” (ver aqui) – abriga uma preciosidade: uma escarradeira de louça que teria sido usada por algum antepassado dos tataranetos dos tataranetos de Pedro Álvares Cabral.

Minha sugestão é esta: que esse pessoal da Casa de Petrópolis reivindique agora para si o domínio de tal relíquia. Mais que um consolo, uma escarradeira parece ser uma urgente necessidade, sobretudo para quem outro dia andou alardeando que gostaria de brincar de guerra na Venezuela (ver aqui).

Postura e pretensões abomináveis.

Cospe fora, moleque, cospe!

05 dezembro 2018

Uma vida para seu filho

Bruno Bettelheim

Este livro sintetiza o esforço de toda a minha vida para descobrir e testar tudo o que uma criação de filhos bem-sucedida envolve e requer – i.e., a criação de um filho que pode não ser necessariamente um sucesso aos olhos do mundo, mas que, pensando bem, está satisfeito com a maneira pela qual foi criado e, no conjunto, está contente consigo mesmo, apesar das deficiências que atingem todos nós. Acredito que outra indicação de ter sido bem criado é sua capacidade de enfrentar razoavelmente as infindáveis vicissitudes, as muitas agruras e as sérias dificuldades que, muito provavelmente, encontrará pela frente, e fazer isso sobretudo porque se sente seguro. Embora nem sempre livre de dúvidas sobre si mesmo – pois só os tolos arrogantes escapam inteiramente disso –, essa pessoa bem criada, independentemente do que aconteça em sua vida externa, possui uma vida interior rica e gratificante, com a qual está, consequentemente, satisfeita. Por fim, embora certamente não menos importante, crescer numa família onde sempre são mantidas relações boas, íntimas entre os pais, e entre eles e seus filhos, torna um indivíduo capaz de estabelecer relações duradouras, satisfatórias, íntimas com os outros, o que confere sentido à sua vida e à dos outros. Também será capaz de encontrar sentido e satisfação em seu trabalho, achando-o digno dos esforços que faz realizá-lo, porque não ficará satisfeito com um trabalho destituído de significado intrínseco.

Fonte: Bettelheim, B. 1988. Uma vida para seu filho. RJ, Campus.

03 dezembro 2018

As belas coisas que é do céu contê-las

Dinaw Mengestu

1.
Às oito horas, Joseph e Kenneth entraram na loja. Vinham até aqui quase toda terça-feira; Aquilo tinha se tornado um hábito para nós três, mesmo que não oficialmente assumido. Às vezes, um deles vinha sozinho. Às vezes, nenhum dos dois aparecia. Ninguém perguntava nada porque não havia nada combinado. Há dezessete anos, nós três éramos imigrantes recém-chegados, trabalhando como camareiros no hotel Capitol. Segundo a placa que ficava na porta principal, o prédio pretendia ser uma espécie de cópia da casa da família Médicis na Itália. Nos fins de semana, os turistas faziam fila para subir até o terraço e ver os atiradores encarapitados no telhado da Casa Branca. Foi ali que Kenneth se tornou Ken, o queniano, e Joseph, Joe do Congo. Eu era mais magro do que sou agora, e, como dizia o gerente, não precisava de um apelido para ele se lembrar que eu era etíope.

Fonte: Mengestu, D. 2008. As belas coisas que é do céu contê-las. RJ, Nova Fronteira.

01 dezembro 2018

A educação da Virgem


Charles-Antoine Coypel (1694-1752). L’éducation de la Vierge. 1735-7.

Fonte da foto: Wikipedia.

29 novembro 2018

Mendes e o toureio redondo

Antonio Roberval Miketen

Ceder seda por seda,
milímetro a milímetro,
o tecido de pétalas
às agulhas mais finas.

Tecer, tecer, tecer.
Tecer o touro em rosa,
sem ceder o terreno
exato ao matador.

Na lisura da seda,
num corte de vislumbre,
deslizar na muleta
a pureza do lume.

Reter na sorte o touro,
dar a veia nos dedos,
trazendo o couro ao corpo
sem o corte do medo.

Na figura da agulha,
mesmo que o sangue gele,
reter a rosa escura
na pétala da pele.

No toureio redondo,
verter-se em sangue e sal,
tecendo-se na rosa
de vermelho fatal.

Milímetro a milímetro,
ceder, ceder, ceder.
Ceder até ao limite
de sentir-se morrer.

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1987.

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