18 setembro 2019

Sobre a vida e obra de Charles Darwin


Filho de Robert Waring Darwin (1766-1848) e Susannah Wedgwood (1765-1817) – ele um médico, ela uma dona de casa –, Charles Robert Darwin nasceu em Shrewsbury, no centro-oeste da Inglaterra, em 12/2/1809.

Foi o penúltimo em uma família de seis irmãos (todos atingiram a maturidade): Marianne (1798-1858), Caroline (1800-1888), Susan (1803-1866), Erasmus (1804-1881), ele e Emily (1810-1866).

Aos 16 anos, seguindo uma tradição familiar do tempo de seu avô paterno, Darwin foi enviado a Edimburgo (Escócia), onde deveria estudar para se tornar médico. Acompanhado de Erasmus, chegou à cidade em outubro de 1825. (Seu irmão estudava medicina em Cambridge, na Inglaterra.)

Apreciou muito a atmosfera cosmopolita e a agitação da Atenas do Norte. As aulas que tinha de assistir, no entanto, eram tediosas, quando não um verdadeiro martírio. Nas palavras de Desmond & Moore (1995, p. 47; grafia original) [1]:

O desencanto de Charles foi acelerado por seus estudos clínicos. Ele caminhou pelas alas da Enfermaria Real, perto da faculdade, e o que viu o perturbou. Charles compartilhava com seu pai o horror pelo sangue, mas, ao contrário do Doutor, nunca perseverou para superar essa hipersensibilidade. Suas duas visitas a salas de operação reviraram seu estômago, reforçando seu medo mórbido de sangue humano. Ali o corte era sangrento e rápido; nos dias da cirurgia heróica, antes do anestésico, a velocidade era essencial para reduzir o trauma do paciente, sempre enfaixado e berrando. Mãos imundas agarravam serras imundas, talhando e cortando rapidamente, o sangue correndo para baldes de serragem. Os estudantes acotovelavam-se todos em torno, na atmosfera tensa e vaporosa, lutando por uma olhada. Durante uma operação particularmente difícil em uma criança, Charles finalmente fugiu da sala, incapaz de assistir e determinado a nunca mais entrar em uma sala de operações. Aquela visão assombrou-o pelo resto da vida.

Em março de 1827, abandonou Edimburgo de vez – sem concluir o curso. Passou alguns meses viajando – conheceu Londres e Paris. Voltou para casa. Ficou decidido que ele iria estudar na Universidade de Cambridge – se não queria ser médico, que fosse ao menos um membro da igreja.

Chegou a Cambridge em janeiro de 1828. Além das disciplinas obrigatórias, assistia a aulas de história natural (e.g., botânica e geologia). Já era um naturalista amador, mas influenciado pelas aulas de John S. [Stevens] Henslow (1796-1861), um professor “agradável e de boa índole”, de quem se tornou pupilo e companhia assídua, passou a se interessar pelo assunto mais seriamente.

Concluiu os exames finais em janeiro de 1831 – nunca chegou a ser um aluno brilhante, apenas tomava o cuidado de não ser reprovado. Na época, não tinha grandes ambições em torno de uma carreira acadêmica. Na verdade, o jovem Darwin não parecia saber muito bem o que queria da vida...

Assim, com o diploma na mão, a sua perspectiva mais promissora era assumir uma paróquia em alguma cidade do interior.

Foi então que recebeu uma carta de Henslow.

Isso foi em agosto de 1831.

Seu antigo mentor instigava-o agora a aceitar uma vaga (não remunerada) em um navio hidrográfico que estava prestes a zarpar – a previsão inicial era que a viagem durasse uns dois anos. Gostou e acatou a sugestão. Mas o Doutor – o pai dele – foi contra, alegando que aquilo era “mais uma evidência da preocupação do filho em se divertir sem rumos”. Os tios intercederam e o Doutor não só consentiu com a viagem como deu algum dinheiro ao filho.

A presença de alguém como Darwin a bordo – não propriamente como naturalista, mas sim como uma espécie de interlocutor e ajudante letrado – era uma reivindicação do comandante, o jovem oficial militar e meteorologista Robert FitzRoy (1805-1865) [2].

A viagem do Beagle

A viagem de Charles Darwin ao redor do mundo é um episódio famoso e bem conhecido na história da ciência, embora o relato às vezes contenha imprecisões.

Algumas delas: o HMS Beagle (HMS é a sigla em inglês para a expressão ‘Navio de Sua Majestade’) não era um navio de pesquisa científica; Darwin não participou da expedição com o propósito de encontrar evidências a favor de sua teoria evolutiva (ele sequer voltou para casa com uma teoria evolutiva na cabeça); a passagem pelas ilhas Galápagos foi uma experiência marcante (sobretudo pelo que aconteceria depois), mas ele não teve nenhum lampejo revolucionário durante as cinco semanas que passou no arquipélago; suas ocupações científicas durante a expedição tiveram mais a ver com geologia do que com biologia.

A viagem teve início em Plymouth, cidade portuária no sul da Inglaterra, de onde o Beagle zarpou em 27/12/1831, atracando de volta em 2/10/1836. O alvo principal da expedição era a América do Sul (3/4 de um total de 58 meses foram passados aqui), sobretudo Argentina e Chile. Atracou em terras brasileiras: na vinda, esteve em Fernando de Noronha (20/2/1832) e nas cidades de Salvador (28/2 a 18/3/1832) e Rio de Janeiro (3/4 a 5/7/1832); na volta, esteve em Salvador (1 a 6/8/1836) e, por razões de avaria, em Recife (12 a 19/8/1836). Foi a segunda das três viagens que o navio faria antes de ser aposentado pela Marinha britânica, em 1843.

Na maior parte do tempo, Darwin esteve ocupado com problemas geológicos, como a questão do soerguimento dos continentes e o afundamento do assoalho oceânico. O navio tinha uma pequena biblioteca e ele contava também com a correspondência que chegava da Inglaterra. Levou ainda alguns livros – e.g., o volume 1 de Principles of geology (John Murray, 1830), de Charles Lyell, com quem mais tarde estabeleceria uma amizade duradoura.

A leitura dessa obra – sugestão de Henslow – teve um papel decisivo em sua formação. O volume se converteria não só em livro de cabeceira como também em referência-chave a iluminar muitas das observações que fez durante a viagem. Recebeu o segundo volume em Montevidéu, em novembro de 1832.

Antes de chegar às Galápagos, em setembro de 1835, Darwin esteve pouco envolvido com problemas biológicos. Uma das exceções foi a questão da origem e formação dos atóis. Como muitos geólogos da época, sua preocupação era coletar e identificar materiais de amostra, incluindo restos fósseis. Coletava espécimes, claro, mas as questões biológicas só assumiriam a primazia após ele perceber a relevância e as interconexões entre alguns dos seus achados. E essa reviravolta só ocorreria mais tarde, já na Inglaterra, anos depois de sua breve estada em Galápagos.

Durante a viagem, preencheu cadernos com notas, efetuou escavações e colecionou amostras. Havia se preparado para isso, tendo embarcado caixas e caixas com equipamentos – desde jarros de vidro e conservantes químicos para acondicionar espécimes até instrumentos de dissecação e aparelhos de precisão. Presenciou erupções vulcânicas e, enquanto esteve no Chile, testemunhou os efeitos devastadores de um abalo sísmico. Esta última experiência, exemplo dramático da lição que estava a aprender com Lyell – “a superfície do planeta muda!” –, mexeu muito com ele [3].

Quando embarcou, o jovem Darwin era um confiante defensor do fixismo (leia-se: crença segundo a qual cada espécie foi criada em separado e, desde então, permaneceu mais ou menos inalterada). No plano pessoal, era um sujeito fervorosamente religioso.

A viagem chacoalhou com os seus credos científicos. As mudanças, no entanto, não se deram bruscamente nem todas de uma só vez. Novas ideias foram amadurecendo aos poucos, tanto durante como após a viagem. Os princípios que cultivou ao longo da vida foram o resultado de inúmeras leituras, conversas e correspondências. Conduziu pesquisas e experimentos em sua própria casa [4].

Embora nunca mais viesse a participar de qualquer excursão ou viagem científica, manteve o senso crítico e um apurado senso de observação. Anos mais tarde, ele escreveria na autobiografia (Darwin 1958, p. 28; tradução livre) [5]:

A viagem do Beagle foi de longe o acontecimento mais importante na minha vida e determinou toda a minha carreira [...]. Sempre achei que devo à viagem o primeiro e real treinamento ou educação do meu intelecto; fui levado a me debruçar atentamente sobre vários ramos da história natural e, assim, o meu senso de observação foi aprimorado, embora sempre tenha sido bem desenvolvido.

De volta à Inglaterra

Em outubro de 1836, já em casa, Darwin começou a organizar as anotações que havia feito durante a viagem. Converteu parte delas em um livro respeitável, Journal and remarks (The voyage of the Beagle), publicado em 1839.

Em março de 1837, ele passou a fazer anotações sobre a transmutação das espécies, um costume que resultaria nos cadernos da transmutação. Sua pretensão era converter todas essas anotações em uma ampla e detalhada teoria da evolução – empreendimento ao qual ele deu o título de Seleção natural.

Em setembro de 1838, para “se distrair”, leu Um ensaio sobre o princípio da população, do clérigo e estudioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834) [6]. Embora não concordasse com todos os pontos de vista defendidos pelo autor, a análise demográfica contida no livro foi uma grande inspiração para Darwin, influenciando-o de modo decisivo.

Segundo Malthus, a população de um país tende a crescer mais rapidamente do que a base de recursos da qual ela se alimenta. Tal descompasso implicaria em fome, miséria e conflitos, e ajudaria a explicar a sucessão de surtos que caracterizam a história humana: períodos de crescimento populacional são sucedidos por episódios durante os quais algum surto de mortalidade elevada ceifa a vida de uma parcela expressiva da população. A duração e a intensidade dessas crises seriam proporcionais ao descompasso entre o tamanho da população e a base de recursos.

Não havia motivos para restringir a análise malthusiana às populações humanas. Afinal, a multiplicação é um fenômeno universal. Generalizando, então, poderíamos dizer que o crescimento de toda e qualquer população é constantemente inibido por forças restritivas. O aparente equilíbrio da natureza – a estabilidade numérica das populações – ocultaria assim um entrechoque entre duas grandes forças: a produção de muitos novos indivíduos e a destruição de quase todos eles. O que varia são as fontes de destruição (e.g., escassez alimentar, inimigos naturais etc.).

Em 1842, Darwin escreveu um primeiro esboço completo a lápis. Em 37 páginas, reuniu pela primeira vez a miríade de temas e questões em torno dos quais vinha trabalhando tão insistentemente. Reescreveu esse esboço mais de uma vez. Em meados de 1844, o esboço havia se convertido em um ensaio com 189 páginas. Encaminhou o manuscrito para um copista; no final de setembro, recebeu o material de volta, ocupando agora 231 páginas. Em seguida, a cópia foi enviada ao jovem botânico Joseph Dalton Hooker (1817-1911), já então um dos seus interlocutores mais íntimos.

Vestígios da criação

Em outubro de 1844, Londres foi sacudida por uma grande novidade: o livro Vestiges of the natural history of creation (J Churchill, 1844), publicado anonimamente. Foi um sucesso e tanto, edição atrás de edição. O autor era o geólogo e editor escocês Robert Chambers (1802-1871); sua identidade, no entanto, só seria revelada postumamente, na 12ª edição (1884).

Hooker gostou do livro, mas Darwin não o via com bons olhos – a geologia e, sobretudo, a zoologia ali contidas lhe pareciam particularmente ruins. Com as reedições, o livro foi sendo remendado; erros e mal-entendidos foram suprimidos; o texto foi ficando mais sério e o impacto cultural foi se ampliando. O próprio autor, entretanto, o via como uma mera extravagância, preferindo permanecer no anonimato.

Aos olhos de Darwin, o anonimato era mais uma demonstração de que, dado o conturbado contexto cultural e político da época, ele próprio deveria ter mais cuidado na divulgação de suas ideias evolucionistas.

O seu Journal and remarks (1839) foi um sucesso e Darwin continuou escrevendo e publicando com regularidade – entre 1842 e 1854, por exemplo, ele publicaria sete livros: The structure and distribution of coral reefs (1842), Geological observations on the volcanic islands visited during the voyage of H. M. S. Beagle (1844), Geological observations on South America (1846) e mais os quatro volumes de sua monografia sobre as cracas (1851-1854).

A carta que veio da Indonésia

Em 1858, transcorridas duas décadas desde que começara a colocar no papel suas ideias sobre a transmutação, Darwin ainda estava a mexer no manuscrito de Seleção natural. Correções, acréscimos, remoções, novos exemplos – o trabalho parecia não ter fim.

Tudo mudou depois de 18 de junho...

Foi nesse dia que o veterano naturalista, em meio a graves problemas familiares, recebeu uma correspondência (uma carta acompanhada de um manuscrito) vinda das ilhas Molucas (atual Indonésia). O remetente era Wallace. O texto foi escrito na ilha indonésia de Halmahera (outrora Gilolo), em fevereiro de 1858, e enviado a Darwin da ilha vizinha de Ternate, no mês seguinte [7].

O jovem naturalista pedia a Darwin que lesse o manuscrito e, caso visse nele algum valor, que o encaminhasse a Lyell, visando uma possível publicação.

Darwin levou um choque com o que leu: o ensaio de Wallace continha uma descrição bastante familiar de suas próprias ideias a respeito da evolução por seleção natural. A coincidência o deixou apavorado – afinal, qualquer um que lesse o manuscrito que ele acabara de receber e, em seguida, visse os seus escritos sobre o mesmo assunto, bem poderia acusá-lo de plágio. (Os dois, a rigor, partiram de pressupostos algo distintos e produziram modelos um pouco diferentes. Wallace, por exemplo, via a seleção mais como um processo de tudo ou nada – dadas as circunstâncias, os indivíduos são aptos ou inaptos. Para Darwin, no entanto, trata-se de algo relativo, fruto, sobretudo, de interações intraespecíficas – dadas as circunstâncias, alguns indivíduos são mais ou menos aptos que os outros.)

Diante da ameaça de ver “ruir” o “trabalho de [sua] vida”, Darwin pediu ajuda a seus dois interlocutores mais próximos, Hooker e Lyell. Os dois conheciam os seus escritos. (Em 1855, tendo lido um artigo de Wallace, Lyell chamou a atenção de Darwin, sugerindo a ele que publicasse logo um resumo de suas ideias a respeito da seleção natural, antes que algum outro autor publicasse algo parecido,  de modo a assegurar sua precedência...)

Pois foram Lyell e Hooker que propuseram a divulgação de uma nota conjunta. Diante do ocorrido, esta talvez representasse a saída de emergência mais diplomática. O fato foi que Wallace não chegou a ser previamente consultado – não havia tempo! –, uma decisão que ainda hoje dá pano para manga...

A nota a ser lida da Linnean Society deveria conter um esboço da teoria formulada independentemente por Darwin e Wallace, além de algum documento que indicasse a precedência dos escritos do primeiro.  E assim foi feito.

Visto em retrospecto, o episódio despertou tão pouca atenção na época que, ao resumir as atividades promovidas naquela temporada, o presidente da Linnean Society chegou a comentar que nenhuma “grande descoberta, dessas que revolucionam a ciência” havia sido apresentada. O impacto e a repercussão das ideias ali contidas só seriam ouvidos no ano seguinte, quando Darwin finalmente publicou Sobre a origem das espécies – versão abreviada e simplificada de Seleção natural, o qual permaneceria para sempre como um empreendimento inacabado.

*

Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Desmond, A & Moore, J. 1995 [1991]. Darwin – A vida de um evolucionista atormentado. SP, Geração.

[2] O comandante anterior, Pringle Stokes (1793-1828), tentou se matar. Em pleno estreito de Magalhães (sul da Argentina), após dois anos de viagem (1826-8) e diante das desoladoras condições do inverno, um deprimido Stokes atirou contra a própria cabeça. Mas ele sobreviveu ao tiro, vindo a falecer de tétano, 12 dias depois. FitzRoy temia que algo assim viesse a ocorrer com ele, motivo pelo qual queria companhia – alguém com quem pudesse conversar de igual para igual. Anos depois da viagem, um deprimido e desiludido FitzRoy terminaria mesmo cometendo suicídio.

[3] Ele estava perto da cidade de Valdívia. Era 20/2/1835.

[4] Charles e Emma se casaram em 29/1/1839. Entre 1839 e 1842, o casal morou em Londres, em uma casa alugada – a Cabana da Arara (Macaw Cottage), expressão que Darwin criou em alusão às cores berrantes das paredes e da mobília. (O edifício não existe mais.) Lá nasceram os dois primeiros filhos. Em setembro de 1842, a família foi morar em uma propriedade rural no vilarejo de Dowde, a cerca de 20 km do centro de Londres. Lá tiveram mais oito filhos e lá viveram o restante de suas vidas juntos. Nas palavras de Stefoff (Charles Darwin: A revolução da evolução. Companhia das Letras. 2007 [1996], p. 58-60; grafia original):

Em 1842 Darwin comprou uma propriedade no povoado rural de Dowde chamada Down House, situada no condado de Kent, nos arredores de Londres. Darwin adorou essa nova casa, onde vivia cercado de árvores e flores em vez de ruas e fuligem. Adaptou uma sala espaçosa em gabinete e começou a abarrotá-la de livros, anotações sobre trabalhos em andamento e pilhas de correspondência. A casa era grande o suficiente para abrigar uma equipe de criados e a família crescente de Darwin. Em 1856, ele e Emma já tinham dez filhos: Willian, Anne (Annie), Mary, Henrietta (Etty), George, Elizabeth (Bessy), Francis, Leonard, Horace e Charles. Mary e Charles morreram ainda bebês; Annie morreu aos dez anos após uma doença grave, uma tragédia que perseguiu Darwin para sempre.
A vida em Down House logo engendrou em uma rotina tranquila que Darwin seguiu, com poucas exceções, pelo resto da vida. Ele começava o dia com uma caminhada por Sandwalk, a alameda de areia que ele mandara fazer ao redor de um bosque no terreno da propriedade. Depois do desjejum, escrevia em seu gabinete das 8h à 9h30, em seguida lia a correspondência do dia. Às 10h30 voltava a trabalhar por cerca de uma hora, antes de dar mais uma volta em Sandwalk. A essa hora, às vezes, tomava uma ducha fria, que acreditava fazer bem à sua saúde.
Depois da refeição do meio-dia, ele lia jornal e escrevia cartas na sala de estar. Às 3 da tarde, repousava no quarto por uma hora. Emma frequentemente lia romances para ele em voz alta nesses momentos. À tardinha, Darwin fazia outra caminhada e trabalhava por mais uma hora. Quando seus filhos eram pequenos, ele costumava fazer pausas imprevistas para brincar com eles no jardim.
Depois de uma leve refeição à noite, gostava de jogar partidas de gamão com Emma. (O cuidado com que ele fazia o registro dos resultados dos jogos reflete sua paixão por colidir e registrar dados: em 1876 ele informou a seu amigo Asa Gray, botânico americano, que vencera 2795 partidas, e Emma, 2490.) Depois de ler um livro científico durante uma ou duas horas, Darwin deitava-se às 10h30.

[5] Darwin, F, ed. 1958 [1892]. The autobiography of Charles Darwin and selected lettersNY, Dover.
Embora tenha reunido ao longo da viagem uma respeitável coleção (fósseis, plantas, aves, insetos etc.), o jovem Darwin cometeu os seus deslizes. Em Galápagos, especificamente, ele deixou de coletar boas amostras de espécies afins (e.g., tartarugas e tentilhões) vivendo em ilhas distintas.

[6] Malthus, T. 1798. An essay on the principle of populationLondon, J Johnson. A 1ª edição (1798), a rigor, foi publicada anonimamente. Uma 2ª edição, bem modificada e já com o nome do autor, apareceria em 1803. Outras quatro edições seriam publicadas, em 1806, 1807, 1817 e 1826.

[7] Há quem questione se a carta de Wallace chegou alguns dias antes ou se teria mesmo chegado às mãos de Darwin em 18/6/1858. Mas tal desconfiança tem sido criticada. A opinião predominante entre os estudiosos é a de que a primazia em torno da teoria evolutiva caberia mesmo a Darwin. O qual, de resto, nada teria feito para sabotar o papel e a importância da obra e da participação de Wallace.

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16 setembro 2019

Sou água

Telma Regina

Sou água ligeira que escorre nas pedras
sem limo deixar.
Sou água, sou espuma que das alturas despenca
como pétalas de flores encantando olhares
que se esparrama a brincar
nos grandes remansos com outras águas
que escorrem sem limo deixar.
Sou água que escorre
nos desfiladeiros das serras
nos imprevistos dos rios
na apoteose da pororoca
e nas ondas serenas e bravias do mar,
que nas areias das praias vai descansar,
já esquecida que sou água ligeira
que escorre nas pedras sem limo deixar.

Fonte: Regina, T. 2018. Vivências poéticas. Juiz de Fora, Gryphon.

15 setembro 2019

Doze anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Na última quinta-feira, 12/9, o Poesia contra a guerra completou 12 anos e onze meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Doze anos e dez meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: C. U. M. Smith, Frederick R. Whatley, Iván Izquierdo, Jean M. Whatley, Maria do Carmo Caixeta e Wilson Pereira. Além de outros que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Félix Bernardelli, Georgina de Albuquerque e John Sloan.

06 setembro 2019

Crianças mimadas no reino das samambaias floridas


A edição de segunda-feira (2/9) do programa Roda Viva (TV Cultura) deu (e tem dado) o que falar. Sobretudo por conta do comportamento vexatório dos jornalistas encarregados de entrevistar Glenn Greenwald (The Intercept Brasil), o convidado daquele dia.

Não assisti. Mas uma coisa me parece óbvia: A despeito do viés ideológico, o baixo nível dos profissionais brasileiros é notável e espantoso. Vale para os jornalistas – GG sozinho faz o que uma redação inteira não faz –, mas vale também para qualquer outra área de atuação.

Veja os médicos cubanos, cada um dos quais sendo capaz de fazer o que 10 médicos brasileiros não fazem. Veja os físicos russos, cada um dos quais a resolver problemas que 20 físicos brasileiros não resolvem. E veja os escritores portugueses, cada um dos quais a escrever o que 30 escritores brasileiros não escrevem. E a lista prossegue…

O problema não é de hoje. Boa parte disso, eu arriscaria dizer, tem a ver com o baixo nível e a apatia de nossas universidades. (E estou aqui a me referir às nossas ‘melhores universidades públicas’. Pois as faculdades e universidades particulares, com uma ou duas exceções, são meras arapucas e deveriam estar fechadas, a bem da saúde pública.)

A distância entre as samambaias (Pindorama) e as árvores (Gringolândia) é grande. Mas nada é tão ruim que não possa piorar: Sem mudanças políticas profundas, a distância entre o centro e a periferia (assim como a distância entre ricos e pobres) só tende a aumentar. Para quem não está familiarizado com a apatia de nossa vida acadêmica, deixo aqui uma provocação.

Considere a densidade intelectual que se experimenta na Universidade da Califórnia (EUA). Embora talvez seja a maior ou uma das maiores universidades do mundo, com seus múltiplos campi (Berkeley, Davis, Los Angeles, San Diego, São Francisco etc.), trata-se apenas de uma entre dezenas de grandes instituições acadêmicas existentes na Gringolândia.

Pois a balbúrdia que se promove na Universidade da Califórnia é bem superior à balbúrdia que todas as universidades brasileiras juntas são capazes de oferecer. Mas não se iluda: A distância entre nós e eles não tem a ver só com diferenças orçamentárias. Tem a ver, antes de tudo, com diferenças de estilo e propósito: Enquanto por lá a água ferve, por aqui ela permanece estagnada. E água estagnada costuma apodrecer.

De resto, somos muito mais provincianos e infantis do que eles [1]. (Não é só Jair Bolsonaro que é uma cópia de segunda mão de um bufão estrangeiro…)

Sem uma vida intelectual dinâmica e vigorosa, nós estamos condenados a continuar vivendo como crianças mimadas. Pois não foi justamente isso que o Roda Vida da última segunda-feira ofereceu aos seus telespectadores: Um adulto – mal e exageramente maquiado – em meio a um bando de crianças mimadas e analfabetas?

Pois, então. Trata-se de um genuíno retrato da sociedade impossível (como diria Jorge de Lima [1893-1953]) em que vivemos – O reino das samambaias floridas.

*

Notas

[*] O autor está a lançar O que é darwinismo (2019). Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] A idiotia e a infantilização da vida pública não são, evidentemente, privilégios da sociedade brasileira. Para algumas considerações a respeito do problema, veja a entrevista com a filósofa estadunidense Susan Neiman (nascida em 1955) no vídeo a seguir: (https://www.youtube.com/watch?v=JeNQVJ781ig). (Legendas podem ser acionadas.) Neiman é autora, entre outros, de O mal no pensamento moderno (Difel, 2003) e Why grow up? (2015).

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05 setembro 2019

Passará ele?


[Atiliano] Félix Bernardelli (1862-1908). Passará ele? 1894.

Fonte da foto: Wikipedia.

03 setembro 2019

O pequeno protegido

Wilson Pereira

O que eu trouxe
da infância comigo
está em mim
quase vencido.

Como um herói
desfeito em palavras
guardei pouco
para ser vivido.

Mas não me disse bem,
pois pouco me sei;
o que sôo é mais
o que de mim inventei.

Na verdade o menino
não cresceu comigo:
minha mãe o tem em si,
pequeno e protegido.

Fonte (estrofes, 1, 3 [parte] e 4): Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1988.

01 setembro 2019

Estátuas


Que linha secreta
o vento desenhou
ao longo do perfil
tão breve das estátuas?

Talvez seja a imagem
das nuvens que ficam
suspensas na memória
como lentas palavras

Ou a força esquecida
que chega nos corpos,
para entregar à fronte
o seu peso imóvel.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1959.

30 agosto 2019

Germinação e estabelecimento das plântulas

Jean M. Whatley & Frederick R. Whatley

A ativação do embrião resulta na síntese de ácidos nucléicos e proteínas, em mudanças dos níveis de hormônios, incluindo as giberelinas, e no início da divisão celular. Após a ativação, a plântula usa as reservas estocadas na semente e começa a crescer pela extensão da raiz e do caule. Para a obtenção de independência fotossintética, os dois requisitos iniciais após a germinação da semente são de que a raiz se estenda para baixo, como uma âncora, e comece a fazer uso de nutrientes inorgânicos do solo; e que as partes aéreas da planta coloquem-se acima da superfície do solo, em contato com a luz, antes que tenham sido esgotados os nutrientes armazenados pela semente. O primeiro crescimento em extensão frequentemente ocorre no escuro, quando a semente está abaixo do solo. Mais tarde, o crescimento em extensão do caule vai ocorrer na presença de luz. Os efeitos da luz ou da escuridão sobre o crescimento em extensão não são bem compreendidos, porque estão envolvidas respostas distintas e, muitas vezes, aparentemente contraditórias. Por exemplo: a luz inibe o alongamento global dos entrenós, mas geralmente estimula a expansão das folhas.

Fonte: Whatley, J. M. & Whatley, F. R. 1982. A luz e a vida das plantas. SP, EPU & Edusp.

28 agosto 2019

Qual é a idade da Terra?


Durante cerca de cinquenta anos, o darwinismo conviveu com dois graves problemas, uma carência e uma dúvida. No plano interno, fazia falta uma teoria subsidiária que explicasse a transmissão dos caracteres hereditários. Falaremos disso no capítulo 7.

Pairava ainda a dúvida: Qual é a idade da Terra?

Era preocupante. Afinal, a ideia de que a Terra é um planeta jovem desafia a noção de que a história da vida teria se pautado pelo acúmulo gradativo de pequenas mudanças, geração após geração.

Este capítulo é dedicado a esta questão.

Bolinha azul

Oito planetas orbitam o Sol: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Além de quase 200 luas, planetas-anões (Plutão, CeresÉris), asteróides e um sem-número de cometas e objetos menores. Esses corpos teriam sido formados a partir da mesma massa inicial de gás e poeira cósmica [1].

A Terra é o terceiro planeta do Sistema Solar, estando a uns 150 milhões km (= 1 ua, unidade astronômica) de distância do Sol. Possui um clima ameno: nem tórrido, como os dois primeiros, nem congelativo, como os cinco restantes. Até onde sabemos, é o único lugar em toda a vizinhança que abriga seres vivos.

Vista do espaço, a Terra é uma bolinha azul. Mas não é uma bolinha perfeitamente esférica. Em razão do movimento de rotação, o raio equatorial (6.378 km) é ligeiramente maior que o r. polar (6.357 km). Diz-se então que o globo terrestre é um esferoide, uma esfera ligeiramente achatada nos polos.

O predomínio do azul reflete o fato de que 75% da superfície do planeta estão cobertos pelos oceanos. Outras porções da Terra exibem outras colorações, principalmente tons esverdeados (florestas fechadas), amarronzados (desertos, áreas desflorestadas ou de vegetação rarefeita) ou esbranquiçados (calotas polares e topos de montanhas, ameaçados hoje de derretimento).

O que há embaixo do chão?

Especulações sobre o interior do planeta remontam à Antiguidade. O modelo atual, uma versão do modelo casca-núcleo, originalmente proposto no século 19, afirma que a Terra é constituída pela sobreposição de três camadas concêntricas – crosta, manto e núcleo –, cada uma delas com suas propriedades físicas e químicas características.

crosta é mais espessa nos continentes, onde varia de 30 a 40 km (60-70 km nas montanhas mais elevadas); no fundo do mar tem de 5 a 10 km de espessura. É formada de rochas relativamente leves que flutuam sobre o manto, a camada mais densa e profunda que a sucede. O manto tem uma espessura média de 2,85 mil km. Costuma ser subdividido em manto superiorm. transicional e m. inferior. O núcleo tem um diâmetro total pouco inferior a 3,5 mil km. É subdividido em núcleo externo e n. interno. Este último é uma esfera sólida (raio: ~1,25 mil km), composta principalmente de uma liga metálica de ferro e níquel. Está recoberto pelo núcleo externo (espessura média: ~2,2 mil km), de composição química semelhante, mas liquefeito, e não em estado sólido.

Essa diferenciação em camadas foi estabelecida nos primórdios da história planetária. Enquanto o metal fundido (sobretudo ferro) afundava, formando aquilo que hoje chamamos de núcleo, os silicatos e óxidos permaneciam confinados em uma camada mais superficial, o manto.

Nas palavras de Comins & Kaufmann (Descobrindo o Universo [Bookman], 2010 [2008], p. 179):

Geólogos calcularam que a Terra estava inteiramente líquida logo após sua formação, há 4,6 bilhões de anos. Os violentos impactos de detritos espaciais, junto com a energia gerada pelo decaimento de elementos radioativos, aqueceu, fundiu e manteve a jovem Terra derretida. [...]
A maior parte do ferro e de outros elementos densos afundou em direção ao centro da jovem [Terra] líquida, justamente como uma rocha afunda em um lago. Ao mesmo tempo, a maioria dos elementos menos densos foi forçada para cima, em direção à superfície [...]. Este processo, chamado de diferenciação planetária, produziu a estrutura em camada dentro da Terra: um núcleo central muito denso rodeado por um manto de minerais menos densos, que, por sua vez, estava rodeado por uma fina crosta de minerais relativamente leves [...]. A diferenciação explica porque a maioria das rochas que você encontra no solo é composta de elementos de baixa densidade, como silício e alumínio. Grande parte do ferro, ouro, chumbo e outros elementos mais densos encontrados na Terra hoje, na realidade, retornaram à superfície através dos vulcões e de outros fluxos de lava.

Escavando o passado

A disposição em camadas das rochas da crosta reflete a cronologia, de sorte que as mais profundas são em geral as mais velhas.

Esta generalização, conhecida como princípio da sobreposição de camadas, apareceu pela primeira vez no livro Prodromus (1669), do naturalista e clérigo dinamarquês Niels Steensen (1638-1686) – Nicolaus Steno. Aparentemente simples, os princípios de Steno assinalaram o surgimento da estratigrafia e da geologia histórica.

Em 1815, o geólogo prático inglês William ‘Strata’ Smith (1769-1839) deu um passo além. Ele sugeriu que a presença de certos fósseis serviria como um guia da idade relativa dos estratos, permitindo ordená-los, do mais velho ao mais novo, ainda que a idade absoluta permanecesse desconhecida. Os geólogos passaram a usar esses marcadores, comparando e ordenando estratos até de terrenos situados em continentes diferentes.

Mais ou menos na mesma época, Georges Cuvier (1769-1832) havia descoberto que a identidade específica dos registros fósseis podia mudar de acordo com o estrato examinado. Ele deduziu que os fósseis seriam marcas deixadas por seres vivos do passado, os quais, por razões até então desconhecidas, haviam desaparecido. O naturalista francês, como foi dito no cap. 5, organizou seus achados e suas interpretações em uma teoria geral sobre a história da vida, o catastrofismo.

Ainda na primeira metade do século 19, os naturalistas conseguiram estabelecer um padrão geral de sucessão. Desse modo, diante de duas ou mais rochas fossilíferas, eles eram capazes de dizer qual era a mais nova e qual, a mais velha, ainda que a idade absoluta de todas elas fosse uma incógnita.

As primeiras estimativas

Algumas das primeiras tentativas de calcular criteriosamente a idade da Terra foram conduzidas pelo físico e engenheiro irlandês William Thomson (1824-1907), o 1º barão Kelvin, também referido como lorde Kelvin.

Sabendo que a temperatura no interior das minas aumenta com a profundidade, Thomson estimou a temperatura no interior do planeta, calculando então o intervalo de tempo necessário até que a superfície esfriasse a ponto de alcançar os valores atuais. Em 1863, ele concluiu que o planeta teria 100 milhões de anos [2].

Thomson não aceitava o fato da evolução. Segundo ele, a história da vida que os evolucionistas vislumbravam não caberia dentro da história do planeta. Os evolucionistas, por sua vez, ficavam apreensivos sempre que o irlandês anunciava um novo resultado. Não tardaria muito, porém, para que a hipótese de uma Terra jovem perdesse força e fosse abandonada.

Os métodos radiométricos, por meio dos quais se tornou possível estimar a idade absoluta de rochas, fósseis ou artefatos humanos, começaram a ser usados no início do século 20. Tais métodos estão ancorados em uma propriedade física especial: a radioatividade.

Desintegração nuclear e meia-vida

A radioatividade pode ser entendida como a emissão espontânea de partículas e/ou radiação por parte de núcleos atômicos instáveis, dando origem a outros núcleos, eles próprios estáveis ou instáveis.

Isótopos instáveis mudam espontaneamente para uma configuração energética mais baixa e estável. Nesse processo, chamado de desintegração nuclear (ou decaimento radioativo), os isótopos liberam energia e/ou partículas, sendo então referidos como radioisótopos. Isótopos estáveis não se desintegram e, portanto, não emitem radiação. Embora não seja possível prever o momento de desintegração de um átomo em particular, é possível prever o comportamento de um grande número de átomos.

Um pioneiro no estudo da desintegração atômica foi o físico neozelandês Ernest Rutherford (1871-1937). Ele descobriu que a radiação emitida por uma amostra de material radioativo diminui com o tempo, enquanto a taxa de desintegração (ou transmutação) permanece constante. Formulou então o conceito de meia-vida – o intervalo de tempo necessário para que metade dos núcleos de uma amostra radioativa se desintegre. Cada radioisótopo tem uma meia-vida característica, como se fosse uma assinatura [3].

A idade da Terra

Com base no conceito de meia-vida, o geólogo inglês Arthur Holmes (1890-1965) desenvolveu um método de datação radiométrica. Em 1913, ele calculou que algumas rochas arqueanas tinham 1,6 Ga (= 1,6 bilhão de anos) de idade. Era um recorde. Em 1944, ele chegou a estimar a idade do planeta em 2 Ga.

O valor adotado hoje é de 4,56 Ga – ou, mais precisamente, 4,55 ± 0,07 x 109 anos. Este resultado – divulgado inicialmente em 1953 – foi obtido pelo químico estadunidense Clair [Cameron] Patterson (1922-1995) e abrange o intervalo de tempo transcorrido desde que o planeta alcançou a sua massa atual [4].

Vale ressaltar que as rochas terrestres mais antigas que se conhece não têm mais do que 4,28 Ga de idade, valor claramente inferior à estimativa de Patterson. Mas há motivos para não adotar esse valor como uma estimativa da idade da Terra. Por um lado, dado o dina-mismo geológico, inexistem registros rochosos dos primórdios do planeta – as rochas passam por um ciclo de vida, durante o qual são trituradas, derretidas e degradadas em seus componentes básicos. Por outro, como os corpos que integram o Sistema Solar têm todos a mesma idade, amostras de material ancestral vindas do espaço – como foi o caso do meteorito estudado por Patterson – poderiam ser usados como indicadores da idade da Terra.

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Notas

O autor está a lançar O que é darwinismo (2019), livro de onde este artigo foi extraído e adaptado (a versão impressa contém referências bibliográficas). O livro deve ganhar resenhas em revistas técnicas, mas dificilmente será objeto de algim tipo de registro na grande impressa. Infelizmente, portanto, permanecerá invisível a muitos leitores brasileiros. (Há alguns motivos para isso – nenhum deles tendo necessariamente a ver com o conteúdo da obra – mas o principal talvez seja o seguinte: o autor não tem cacife financeiro para distribuir exemplares de cortesia entre colegas jornalistas, editores, professores universitários, formadores de opinião etc.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Nem todos, porém... Em 2018, foi anunciada a descoberta do primeiro asteroide migrante do Sistema Solar. Situado na região orbital de Júpiter, o (514107) 2015 BZ509 exibe um movimento retrógado em torno do Sol (leia-se em sentido contrário ao dos planetas). O asteroide estaria nessa órbita desde que foi capturado por Júpiter, há uns 4,5 Ga. Dimensões: Ainda em 2018, foi relatada também a descoberta do objeto mais afastado do Sistema Solar, Farout (2018 VG18), um planeta anão que está a ~120 ua do Sol (a marca anterior era de 96 ua).

[2] Em Sobre a origem das espécies (1859), Darwin estimou em ~300 milhões de anos o intervalo transcorrido desde o Cretáceo. Mas ele retirou a passagem, assim que Thomson divulgou seus cálculos. (Vale lembrar que, entre 1859 e 1872, o livro teve seis edições.) O irlandês chegou a estimar que a Terra não teria mais do que 20 milhões de anos.

[3] Veja o caso do carbono-14. A cada intervalo de 5.730 anos (= meia vida do C-14), o número de átomos de C-14 presentes em uma amostra cai pela metade (assim como a quantidade de radiação emitida).

[4] Até então a idade do planeta era estimada em 3,3 Ga. Tendo sido incumbido de investigar a composição química de um meteorito, Patterson aprimorou as técnicas de separação e análise isotópica (leia-se: um modo de quantificar os isótopos estáveis de um elemento presentes em uma amostra), a ponto de conseguir lidar com amostras ínfimas de chumbo. O chumbo (Pb) tem quatro isótopos estáveis: Pb-204, Pb-206, Pb-207 e Pb-208, os três últimos sendo o ponto final da desintegração de três séries de radioisótopos, U-238, U-235, Th-232. O Pb que há na Terra é uma mistura de (1) Pb primordial, presente desde a origem do planeta; e (2) Pb criado pelo decaimento de radioisótopos de urânio e tório. Outra coisa: Patterson descobriu que Pb antropogênico (e.g., gasolina, encanamentos) estava a contaminar o ar e os oceanos. Foi um pioneiro na luta contra a adição de Pb na gasolina.

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26 agosto 2019

El acto de la imaginación

C. U. M. Smith

Ludwig Wittgenstein fue uno de los filósofos más relevantes del siglo xx. Entre los muchos temas analizados por él figura el de la percepción. Este tema és, desde luego, uno de los más fundamentales en el campo de la filosofía. Con el fin de entrar en materia hizo uso de analogías extraídas del campo de la percepción visual. Se ocupo de poner de relieve el hecho de que solemos utilizar el verbo ‘ver’ en dos sentidos diferentes. No solamente somos conscientes del objeto que se encuentra en nuestro campo visual, sino que además intentamos interpretar la sensación de modo que se ajuste a nuestro ‘patrón de expectativa’. Este segundo sentido de ‘ver’ es el que nos interesa en el presente contexto.

Fonte: Smith, C. U. M. 1977 [1976]. El problema de la vida. Madri, Alianza.

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