20 julho 2019

Nicho e interações: Uma introdução à ecologia evolutiva


Competição talvez seja a mais universal das interações e competidores costumam ser agentes seletivos importantes. No caso mais simples, envolvendo duas espécies (A v. B), o sentido das mudanças varia, podendo ampliar ou estreitar a largura do nicho. Vejamos.

Se a competição intraespecífica predomina (i.e., se A v. A e B v. B são mais intensas do que A v. B), a seleção será centrífuga – tanto em A como em B. Serão favorecidos os fenótipos que exploram recursos extremos (e.g., presas muito menores ou muito maiores que o tamanho médio preferido), em torno dos quais a competição intraespecífica é menos intensa. Isso resultará em divergência intraespecífica, ampliando a largura do nicho. As duas espécies se tornariam mais generalistas, capturando uma maior variedade de presas.

Se a competição interespecífica predomina (i.e., A v. B é mais intensa do que A v. A e B v. B), a seleção tende a ser centrípeta – tanto em A como em B, serão favorecidos os fenótipos que exploram os recursos médios (e.g., presas de tamanho médio, em uma faixa de uso mais ou menos exclusiva). A divergência agora é penalizada. O processo resulta em convergência intraespecífica, estreitando a largura do nicho. As duas espécies deverão se tornar mais especializadas, capturando uma menor variedade de presas.

O nicho, como se vê, não só evolui, mas também está sujeito a ajustes adaptativos [1]. Tornaremos a tratar do assunto.

Interações podem evoluir

Algumas interações interespecíficas são suficientemente íntimas e intensas a ponto de moldar a evolução das linhagens envolvidas. Além disso, a própria natureza da interação pode mudar ao longo do tempo.

Considere o estágio inicial de uma interação entre duas espécies, caracterizado por encontros breves e fortuitos (estágio 0/0). Os encontros podem se tornar sistemáticos, a ponto de emergir alguma interação significativa – e.g., de (0/0) para algo do tipo (0/+) ou (0/–). Dado o primeiro passo, (0/0) → (0/+), digamos, a interação poderá em seguida evoluir para (+/+) ou (–/+). Alternativamente, caso o primeiro passo fosse (0/0) → (0/–), a interação poderia em seguida evoluir para (–/–) ou (+/–).

Vamos dar uma olhada no primeiro caso, (0/0) → (0/+).

A partir de encontros ocasionais (estágio 0/0), duas espécies passam a conviver e a interagir com certa regularidade (e.g., as duas colonizam e prosperam em um mesmo hábitat). Inicialmente, uma delas (dita comensal) apenas se aproveita de restos alimentares deixados pela outra (hospedeiro) – é o estágio (+/0). A relação assim perdura por várias gerações. O aproveitamento dos restos por parte dos comensais é aprimorado e a competição entre eles é intensificada. Nesse contexto, a seleção passaria a favorecer inovações no comportamento de forrageio. Eis então que em um dado momento, além de se aproveitarem dos restos, alguns comensais mutantes passam a pilhar porções do alimento do hospedeiro – estágio (+/–). Emerge então um novo contexto seletivo entre os hospedeiros, no qual toda e qualquer reação de contra-ataque será favorecida – e.g., repelir ou destruir os comensais. Chegamos assim ao estágio (–/–). A história pode terminar aí, com a extinção de uma das linhagens, ou pode prosseguir até um estado de equilíbrio dinâmico – caracterizado por uma sucessão intermitente de ataques e contra-ataques.

Coda

Entender como a evolução mutuamente dependente (i.e., coevolução) tem moldado as interações entre as espécies de uma dada comunidade é um dos maiores desafios da pesquisa ecológica contemporânea. Não é tarefa fácil. Primeiro, em razão da complexidade inerente às comunidades – o quadro geral esboçado nos parágrafos anteriores é uma simplificação. Em sistemas ecológicos reais, as interações significativas costumam envolver não apenas duas, mas várias espécies ao mesmo tempo [2].

Outro complicador é a própria estrutura heterogênea e dinâmica dos sistemas ecológicos. Afinal, as comunidades estão permanentemente sujeitas a mudanças, tanto em escala espacial (“O que tem ali, não tem aqui”) como temporal (“O que ontem era comum, hoje é raro”). A heterogeneidade é traduzida em regimes seletivos flutuantes, conforme tem sido observado em estudos teóricos e de campo – e.g., a identidade e a importância relativa dos agentes seletivos variam de acordo com o hábitat ou a época do ano.

Impostas pela heterogeneidade ambiental, as flutuações no regime seletivo resultam na manutenção dos elevados níveis de variabilidade encontrados em populações naturais. Além disso, ajudam a ampliar e a intensificar a dinâmica da evolução orgânica, fazendo dela a incessante roda-viva a que nos referimos antes [3].

*

Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como o caso das guildas de lagartos em Serra da Mesa GO. Após a extinção de quatro espécies maiores, o lagarto menor que persistiu (Gymnodactylus amarali) passou a ter acesso a um leque mais amplo de presas (cupins). Na ausência daqueles competidores, a largura do nicho (tamanho da presa) foi ampliada, especialmente à direita, visto que houve um aumento na disponibilidade de presas maiores. Os pesquisadores detectaram que, em poucas gerações, o tamanho médio da cabeça dos lagartos aumentou, não apenas em uma, mas em cinco populações de G. amarali – caso único de convergência adaptativa em um sistema que vem evoluindo em tempo real.

[2] A literatura sobre coevolução é copiosa. A adição de espécies torna o sistema bem mais complexo. Considere um predador, P, e duas espécies de presas, A e B. Mesmo sem competir diretamente, A e B podem experimentar competição aparente: a presença de A afeta positivamente P, intensificando a ação e o impacto negativo de P sobre B – e vice-versa. Seria melhor para B (e para A) conviver apenas com P.

[3] Quando os fatores ambientais variam no espaço e/ou no tempo, a seleção pode promover (1especialização – os fenótipos se tornam adaptados às circunstâncias predominantes; (2generalização – os fenótipos se tornam adaptados às circunstâncias intermediárias; ou (3plasticidade fenotípica – a população abriga fenótipos que se ajustam a circunstâncias distintas. Para descobrirmos qual alternativa seria a melhor solução em um caso particular, nós precisamos saber como a aptidão individual é afetada pelas mudanças ambientais. Se a flutuação ambiental extrapola os limites de tolerância, a melhor solução seria maximizar a aptidão em certas circunstâncias (1 e 3); se não extrapola, o melhor é maximizar em circunstâncias intermediárias (2).

18 julho 2019

Aviso da lua que menstrua

Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na ‘vera’
conheço cada uma, além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a ‘cidade secreta’
a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.

Ela é uma cobra de avental.

Não despreze a meditação doméstica.

É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!

Fonte (5ª estrofe): Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza Edições. Poema publicado em livro em 1992.

16 julho 2019

Em vez de lágrimas


Só um choro em seco
põe no vértice da minha dor
o mais intenso
auge do luto.

Fonte: Figueiredo, C. 2004. 100 poemas essenciais da língua portuguesa. BH, Leitura.

13 julho 2019

Praça em Florença


Bernardo Bellotto (1721-1780). Piazza della Signoria a Firenze1742.

Fonte da foto: Wikipedia.

12 julho 2019

Doze anos e nove meses no ar

F. Ponce de León

Nesta sexta-feira, 12/7, o Poesia contra a guerra completa 12 anos e nove meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Doze anos e oito meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Aristóteles, Hernando de Acuña e Orlando Valverde. Além de outros que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Giovanni Paolo Pannini e Joseph Vernet.

10 julho 2019

O que é evolução? – Algumas considerações


A expressão evolução orgânica (ou e. biológica) pode ser utilizada em alusão a três coisas: (1) o fato da evolução; (2) as reconstituições da história das linhagens (filogenias); e (3) as mudanças que ocorrem no fundo gênico de populações.

Que não haja dúvidas: nenhum debate científico tem posto em xeque o fato da evolução (item 1). (Há quem o faça, embora isso se dê fora dos domínios da ciência, como veremos neste livro.) No âmbito científico, as controvérsias – e a biologia evolutiva é um campo fértil para isso – giram em torno tão somente dos itens 2 e 3.

Nos capítulos 3 e 4, nós trataremos de modelos filogenéticos e mecanismos causais (itens 2 e 3, acima). Antes, porém, vamos falar sobre o fato da evolução.

Evolução como fato

A evolução é um fato natural da vida. Reconhecer isto equivaleria a admitir que os organismos que hoje dividem o planeta conosco são descendentes modificados de linhagens ancestrais cujas histórias retrocedem ao passado remoto da Terra. E admitir isto independe de sabermos comoquando e por que as linhagens mudaram. Equivaleria a reconhecer a existência do Sol, mesmo que não saibamos como e por que ele brilha.

Os dicionários definem evolução como um ato ou processo de mudança. A palavra vem do latim evolutio, forma substantivada do verbo evolvere (ex-, fora + volvere, rolar, desabrochar, abrir), e evoca o ato ou efeito de abrir, desdobrar ou desenrolar algo que esteja fechado, dobrado ou enrolado.

Na linguagem cotidiana, tanto o verbo evoluir como o substantivo evolução estão associados à ideia de aperfeiçoamento ou melhora. É o que transparece em expressões como “evolução do automóvel” e “evolução do estado de saúde”.

No âmbito da literatura científica, a palavra foi usada durante muito tempo em alusão ao processo de ontogênese (leia-se desenvolvimento individual), um significado que está de acordo com as suas origens etimológicas. Em meados do século 18, por exemplo, o naturalista suíço Albrecht von Haller (1708-1777) utilizava o termo como sinônimo de desenvolvimento embrionário [1].

Já na primeira metade do século 19, no entanto, a palavra ganhou um novo significado, passando a se referir ao processo de transformação histórica de coletividades (populações, linhagens etc.).

Para a biologia moderna, o verbo evoluir é entendido como sinônimo de mudar, sem qualquer conotação envolvendo progresso ou melhoria. Em sentido amplo, a evolução orgânica (ou e. biológica) pode então ser definida como toda e qualquer mudança que ocorre no fundo gênico de uma população [2]. Não importa se tais mudanças resultam ou não em melhorias, aperfeiçoamentos ou em níveis mais elevados de complexidade.

Evidências de um fato

Como os cientistas sabem que as espécies viventes são versões modificadas de espécies já desaparecidas? Afinal, como eles conseguem provar que a evolução é um fato?

Para início de conversa, não custa lembrar: ao contrário da matemática, a biologia não lida com demonstrações ou provas definitivas. As conclusões da biologia estão ancoradas em evidências (diretas ou indiretas). E estas, sempre que possível, devem provir de experimentos controlados, como é regra nas ciências naturais. No caso da biologia, os experimentos são conduzidos em laboratório ou no campo. Resultados obtidos no laboratório às vezes são suficientes, mas nem sempre. Veja o que ocorre em áreas como paleontologiaecologia e genética de populações, três dos pilares da biologia evolutiva e onde o trabalho de campo é insubstituível.

O xis da questão aqui é o seguinte: o rol de evidências positivas a respeito do fato da evolução é tão esmagador que a única alternativa racional que nos resta é tratá-la como tal.

Fósseis e outras evidências

Evidências diretas de como eram os seres vivos do passado e de como a história da vida se desenrolou provêm do estudo dos fósseis – restos ou vestígios, em geral petrificados, deixados por organismos que já desapareceram.

Além dos indícios deixados pelos seres vivos do passado (e.g., fósseis, moldes, pegadas e perfurações), um sem-número de evidências indiretas é usado em reconstituições históricas. E várias disciplinas contribuem e participam dessas reconstituições.

embriologia, por exemplo, nos diz que as rotas de desenvolvimento, mesmo no caso de organismos que pouco ou nada se parecem aos nossos olhos (e.g., cangurus, morcegos e elefantes), podem seguir o mesmíssimo padrão geral; as particularidades que notamos nos animais adultos resultam de diferenças sutis durante o desenvolvimento. Por sua vez, a genética nos informa que as rotas de desenvolvimento se assemelham porque os organismos possuem genomas igualmente semelhantes, diferindo tão somente aqui e ali – seja porque cada animal abriga alguns poucos genes exclusivos, seja porque os mesmos genes estão a se expressar de modos ou em momentos algo diferentes.

Atrofia e perda de órgãos

Por estranho que pareça, a presença de itens disfuncionais, como os chamados órgãos vestigiais, é uma evidência positiva do processo evolutivo. Um órgão vestigial é a versão rudimentar de um par de estruturas homólogas, estando a versão funcional em alguma espécie afim. Há itens rudimentares em nosso corpo (Freeman & Herron 2009, p. 42; adaptado):

Temos o cóccix, um minúsculo osso remanescente da cauda. Além disso, temos músculos ligados aos nossos folículos pilosos que se contraem, fazendo nossos pelos corporais arrepiar-se quando estamos com frio ou com medo. Por isso, se fôssemos peludos, como os chimpanzés, a contração dos músculos eretores dos pelos aumentaria a superfície de nossa pelagem, mantendo-nos aquecidos ou tornando-nos aparentemente maiores e mais ameaçadores aos inimigos. Todavia, não somos peludos, portanto ficamos apenas com a pele arrepiada, o que implica que somos descendentes de ancestrais que eram mais peludos do que nós. Do mesmo modo, nossos pequenos ossos remanescentes da cauda indicam que nos originamos de ancestrais dotados de caudas.

A versão rudimentar é apenas o que sobrou daquilo que outrora já foi algo funcional. Tendo perdido a relevância, e já não mais fazendo falta na organização geral do corpo, em geral por causa de alguma mudança no contexto ecológico, o item em questão passa a ficar fora do orçamento – i.e., os recursos que eram empregados em sua construção e manutenção passam a ser alocados em outras estruturas. É a realocação que aos poucos o torna vestigial.

Por que esses penduricalhos já não desapareceram? Um dos motivos pode ser o fato de o item partilhar de uma mesma rota de desenvolvimento com alguma estrutura funcional importante, o que dificultaria a sua eliminação. Ainda que um ou outro atalho possa ser estabelecido – resultando daí o isolamento e a simplificação do item –, a rota como um todo não pode ser eliminada, sob pena de comprometer a organização geral do corpo [3].

Mas a simplificação às vezes vai além e a atrofia, de fato, se converte em perda. É o caso da falta de dentes em alguns grupos de mamíferos. Tamanduás, pangolins e cachalotes são exemplos vivos de três linhagens que passaram por processos independentes de perda. (Os primeiros mamíferos eram providos de dentes, uma condição que eles herdaram dos ancestrais reptilianos.)

evolução da perda é um fenômeno relativamente comum, já tendo sido registrado em inúmeras linhagens, envolvendo os mais variados itens. Três exemplos adicionais: (1) lagartos que perderam os membros (comum tanto em espécies fossórias como em espécies que vivem em hábitats de vegetação herbácea densa, tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente); (2) peixes desprovidos de olhos ou sem pigmentação sobre o corpo (comuns em espécies que vivem no interior de cavernas ou no fundo do mar; uma e outra tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente); e (3) insetos desprovidos de asas ou que de algum outro modo perderam a capacidade de voar (comuns em espécies que vivem no topo de montanhas ou em ilhas isoladas, uma e outra tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente).

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Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] O termo continua a ser usado em alusão ao desenvolvimento individual (e.g., “Larvas de Aedes só evoluem em água limpa”), o que deveria ser evitado, pois vai de encontro ao significado atual mais comum. Em alguns organismos, o desenvolvimento individual envolve uma fase de embriogênese.

[2Fundo gênico (ing. gene pool): conjunto de todos os alelos (e genes) presentes em uma população. A palavra genofond apareceu pela primeira vez em um artigo do naturalista russo Alexander S. Serebróvski (1884-1938), em 1926; foi então traduzida para o inglês pelo geneticista estadunidense de origem russa Theodosius Dobzhansky (1900-1975).

[3] Exemplo de atrofia ligada ao sexo é a mama masculina. Embora tenha pequenos ductos e algum tecido de suporte, é desprovida de lóbulos e alvéolos, sendo incapaz de secretar leite.

* * *

08 julho 2019

Ser


Vir à luz em partos duros
– ser erva rasgando a pele
granítica dos muros

Viver em grades   desterros
e ser um raio de sol
por entre os ferros

E quando tudo se for
morrer pela madrugada
com a raiz de uma flor
na mão cerrada

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1964. ‘Luís Veiga Tristão’ era pseudônimo de Luís Maria Leitão.

07 julho 2019

A economia da natureza

Aristóteles

A natureza nunca faz o que é supérfluo.

Fonte: Hardin, G., org. 1967. População, evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp. O autor viveu entre 384 e 322 aC.

26 junho 2019

Adaptações, penduricalhos, bricolagem


Evoluir é mudar e evoluir de modo adaptativo é mudar de acordo com as exigências que vigem em determinado lugar.

Para que um item seja apropriadamente rotulado de adaptativo, duas condições devem ser atendidas: (1) ele precisa ser hereditário (i.e., ter alguma base genética); e (2) seus portadores devem ter um desempenho superior ao de indivíduos desprovidos dele.

O segundo critério implica dizer que os indivíduos não adaptados falham ou são destruídos mais facilmente que os adaptados. E as falhas, vale notar, dependem do contexto: interceptar menos luz, correr menos ou demorar mais a acordar, de sorte que algum componente da aptidão é rebaixado em relação à média populacional.

Investigar o papel adaptativo de um item significa desvendar o modo como este afeta a aptidão de seus portadores. Visto que a aptidão não é um parâmetro de valor absoluto, o trabalho de investigação é necessariamente comparativo, exigindo o exame simultâneo dos portadores de estados alternativos de um mesmo item.

Vejamos um exemplo.

As folhas (e outras partes do corpo) da berinjela (Solanum melongena) são cobertas por um indumento piloso. Ocorre que – vamos aqui imaginar – o grau de pilosidade varia, de tal modo que as plantas que integram uma mesma população podem ser separadas em classes fenotípicas: algumas plantas produzem folhas em estados extremos (folhas glabras ou densamente pilosas), embora a maioria produza folhas com um grau intermediário de pilosidade.

Diante dessa variação, caberia a pergunta: qual é o papel do indumento na vida das berinjelas? É ou não é um traço adaptativo?

Em busca de respostas, devemos ir atrás de algumas evidências (diretas ou indiretas). O ideal seria medir e comparar um parâmetro que seja a manifestação do sucesso reprodutivo, como o número de descendentes viáveis deixados por diferentes classes fenotípicas [1]. Tal não sendo possível, como muitas vezes não o é, caberia então investigar o comportamento de algum parâmetro que, de algum modo significativo, reflita a aptidão. No caso das berinjelas, as alternativas poderiam ser a taxa de crescimento ou o número de frutos produzidos por cada planta.

As comparações devem ocorrer em um contexto ecológico realista e explorando situações contrastantes – e.g., plantas crescendo no sol e na sombra, com ou sem insetos fitófagos. O contraste visa isolar o papel do indumento foliar, identificando o fator ambiental que estaria se comportando como agente seletivo. Por exemplo, se a pilosidade é uma adaptação contra os fitófagos – e.g., servindo como uma barreira mecânica –, as diferenças na aptidão de plantas de diferentes classes fenotípicas devem ser mais evidentes na presença dos insetos do que na ausência deles.

A hipótese de que o indumento funciona como defesa ganharia força caso os resultados obtidos com as plantas crescendo no sol e na sombra apontassem em uma mesma direção – e.g., na presença dos fitófagos, e a despeito de as plantas estarem no sol ou na sombra, a taxa de crescimento ou a produção de frutos é significativamente maior entre as berinjelas pilosas.

Mas a explicação pode ser outra. O indumento poderia ser uma proteção contra os rigores do clima (e.g., insolação), pouco ou nada tendo a ver com os insetos. Neste caso, os resultados do experimento deveriam estar invertidos: seriam observadas diferenças na aptidão de plantas crescendo no sol e na sombra, a despeito de elas estarem ou não sendo atacadas pelos fitófagos.

O exemplo é apenas para mostrar como é possível investigar o papel adaptativo de um item. Ressaltando que, como desdobramento dessa primeira investigação, nós poderíamos (1) fazer a mesma pergunta diante de outras estruturas da berinjela (e.g., acúleos, pelos glandulares e flores roxas – tudo isso seria adaptativo?); ou (2) investigar o papel do indumento piloso em outras plantas [2].

O oportunismo das adaptações

Itens fenotípicos que hoje são tidos como adaptativos já foram penduricalhos. Significa dizer que itens desprovidos de função ou até ligeiramente prejudiciais podem se tornar úteis. Há dois caminhos conhecidos para isso: (1) sob novas circunstâncias, um item disfuncional pode se revelar útil; ou (2) a presença de um novo item melhora o desempenho de algum item preexistente [3].

função de um item também é maleável e pode mudar.

As penas das aves e a produção de leite pelos mamíferos são dois exemplos – aquelas não surgiram como uma adaptação ao voo nem esta, como uma adaptação para nutrir os filhotes [4].

Para começo de conversa, as penas – em sua versão primordial – apareceram antes das aves. O fóssil emplumado mais antigo que se conhece tem ao menos 150 milhões de anos, e ainda não era o que chamaríamos hoje de uma ave. As aves só surgiriam dezenas de milhões de anos depois. Há controvérsias a respeito do papel inicial dessas estruturas, mas os estudiosos concordam que, em seus primórdios, elas nada tinham a ver com o voo. Em compensação, poucos duvidam que, em algum momento subsequente, a evolução das penas passou a ser moldada pela função que elas assumiram na capacidade de voo dos seus portadores.

O segundo caso é semelhante. Para começar, a lactação surgiu antes dos mamíferos, provavelmente em alguma linhagem de ancestrais ovíparos e endotérmicos que já exibiam algum tipo de cuidado parental. Há quem argumente, mais especificamente, que a produção de leite teria surgido ainda entre os répteis sinapsídeos (de onde saíram os terapsídeos, linhagem ancestral dos mamíferos), há uns 300 milhões de anos. (Os primeiros mamíferos apareceriam 100 milhões de anos depois!) Em seus primórdios, o leite seria uma secreção hidratante, com a qual as fêmeas ajustavam o teor de umidade dos ovos no ninho.

A lição aqui é uma só: se um traço fenotípico qualquer adquire um papel adaptativo, a sua evolução subsequente passa a ser determinada por aquele papel [5]. Mantido o seu valor adaptativo, sua história prosseguirá na mesma toada – seja na linhagem original onde surgiu, seja em alguma linhagem derivada que o herdou. Todavia, se o item é cooptado para uma nova função, esta, a partir daí, passará a balizar o seu futuro.

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Notas

Extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém referências bibliográficas.) Para informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros do autor, ver aqui.

[1] A aptidão – ou, mais precisamente, a aptidão realizada – é medida em termos de sucesso reprodutivo.

[2] As duas linhas de investigação são exploradas pelos cientistas.

[3] O fenótipo é uma bricolagem de traços, como foi dito antes. Traços (e genes) individuais podem ser discriminados, desde que o efeito deles sobre a aptidão se destaque. O modo como o genótipo codifica o fenótipo já teria sido mais frouxo, tendo sido ajustado no curso da evolução.

[4] O ponto de vista atual é que as aves são répteis emplumados.

[5] Discute-se a distinção adaptação v. exaptaçãoItens hereditários podem ser investigados em termos funcionais ou históricos. Conforme ilustram Krebs & Davies, em Introdução à ecologia comportamental (Atheneu, 1996, p. 4; adaptado):

Niko Tinbergen [...] enfatizou que havia muitas maneiras diferentes de responder à questão ‘Por quê?’ em biologia. [...] Por exemplo, se perguntarmos por que os estorninhos cantam na primavera, nós poderíamos responder da seguinte maneira: 1. Em termos de valor de sobrevivência ou função. Os estorninhos cantam para atrair parceiros para o acasalamento. 2. Em termos de causalidade. Porque o aumento no comprimento do dia desencadeia mudanças nos níveis hormonais, ou pela maneira [como] o ar flui através da siringe e provoca vibrações na membrana. Estas são respostas sobre os fatores externos e internos que levam os estorninhos a [cantar]. 3. Em termos de desenvolvimento. Os estorninhos cantam porque eles aprenderam os cantos de seus pais e vizinhos. 4. Em termos de história evolutiva. Esta resposta seria sobre como o canto evoluiu nos estorninhos a partir de seus ancestrais. [As aves viventes] mais primitivas emitem sons muito simples, portanto é razoável supor que o canto complexo dos estorninhos e de outras [aves canoras] tenha evoluído a partir de chamados ancestrais mais simples.

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24 junho 2019

Interior do Panteão


Giovanni Paolo Pannini (1691-1765). L’interno del Pantheon. ~1734.

Fonte da foto: Wikipedia.

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