23 junho 2018

Poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

Fonte (verso 1-6 da terceira estrofe): Melo e Castro, E. M. 1973. O próprio poético. SP, Quíron. Poema publicado em livro em 1958.

21 junho 2018

ABL não merece Conceição Evaristo


Soube, ontem (20/6), por meio de matéria do Jornal GGN (ver aqui), que a escritora e professora universitária Maria da Conceição Evaristo de Brito (nascida em 1946) teria oficializado sua candidatura a uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Para mim foi uma surpresa, embora eu ainda não tenha conseguido enxergar o lado bom da notícia.

Evaristo seria candidata à cadeira no. 7, vaga desde o falecimento do cineasta Nelson Pereira dos Santos (1928-2018). O primeiro ponto a se destacar aqui é este: diferentemente de Santos, Conceição Evaristo é uma escritora de verdade. Mas é igualmente importante dizer o seguinte: Santos não era nenhum gaiato oportunista, daqueles que prosperam pelos palácios e salões reluzentes da Colônia. (Lugares assim, sobretudo em países culturamente atrasados, atraem todo tipo de espertalhão – incluindo políticos influentes e semianalfabetos endinheirados. Em entrevista recente, por exemplo, o sr. Paulo Coelho não se furtou a dizer que, para ele, a eleição para a ABL era apenas uma conquista a mais [ver aqui]. Depois de eleito, o dublê de guru e escritor tratou de sumir. E mais: passou a se vingar de antigos desafetos, gente que outrora o criticava e que agora vinha até a sua porta, atrás de apoio e voto...)

O problema é que para manter de pé uma instituição ‘literária’, a cota de bufões precisa ser contrabalançada pela presença de um punhado de escritores de verdade, ainda que em quantidade mínima. Em meio a um elenco recheado de espertalhões, não há como negar que a ABL abriga alguns poetas e romancistas de respeito. A presença de Evaristo, no entanto, seria um trunfo e tanto (literário e político). A rigor, não seria exagero dizer que a intituição ganharia um lastro que ainda não tem (ou nunca teve). No lugar da escritora, eu não me candidataria – a ABL simplesmente não merece Conceição Evaristo.

Seja como for, espero que ela continue brindando a todos nós, leitores, com versos e beleza.

Nota

Sobre a obra da autora, ver, por exemplo, artigos em Umtigre na floresta de signos (Maza, 2010), organizado por Edimilson de Almeida Pereira.

19 junho 2018

A crise capitalista

Theotonio dos Santos

O objetivo deste primeiro seminário é discutir a crise atual do capitalismo, seu caráter e suas perspectivas, objetivando situar a atual conjuntura da América Latina dentro do seu contexto. Para esse fim, damos ênfase especial à análise da situação presente, porém estudando-a com base nos elementos gerais que permitem determinar suas características e prever a direção para a qual apontam suas tendências principais.

Qualquer discussão sobre o problema da crise capitalista possui implicações teóricas que não poderão ser desenvolvidas nesta exposição.

No entanto, devemos assinalar que existe uma corrente de pensamento, cada vez mais importante, fundamentalmente dentro do marxismo – embora também representada por pensadores não marxistas – que situa a crise atual do capitalismo dentro da teoria dos movimentos (econômicos) longos, baseada essencialmente nos trabalhos do economista russo Kondratiev. Este economista localizou, na economia mundial, um conjunto de ciclo com duração [aproximada] de 50 anos cada, nos quais o nível da produção alterna períodos de crescimento e de diminuição. Kondratiev demonstrou que esses ciclos se produzem historicamente e localizou três movimentos longos ao largo de 150 anos: sua teoria incluía, para o período em que descrevia (1920), a previsão de um período de depressão econômica, que de fato se realizou nos Estados Unidos de 1914 a 1940 e até 1945/48 na Europa. [...]

Fonte: Santos, T. 1979. In: Assmann, H. org. A Trilateral: Nova fase do capitalismo mundial. Petrópolis, Vozes.

17 junho 2018

A respigadeira


William Powell Frith (1819-1909). The little gleaner. 1850.

Fonte da foto: Wikipedia.

15 junho 2018

É no meu corpo que morreste


é no meu corpo que morreste. agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as

conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação de imperícia;

os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na

sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou no dia.
é no meu corpo que morreste, agora

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1983.

13 junho 2018

A pedra fica


Quando morremos,
é a fragilidade que morre.
A pedra fica.

12 junho 2018

Onze anos e oito meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/6, o Poesia contra a guerra completa 11 anos e oito meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Onze anos e sete meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Algernon Charles Swinburne, Robert Chambers, Roberto Gomes da Silva e Viriato Gaspar. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Letitia Marion Hamilton e Roderic O’Conor.

10 junho 2018

Prótase


Embora um vate canhoto
Dos loucos aumente a lista,
Seja Cisne ou gafanhoto,
Não encontra quem resista
Dos seus versos a leitura,
Que diverte, inda que é dura!
(F. X. de Novaes.)

No meu cantinho,
Encolhidinho,
Mansinho e quedo,
Banindo o medo;
Do torpe mundo,
Tão furibundo,
Em fria prosa
Fastidiosa –
O que estou vendo
Vou descrevendo.
Se de um quadrado
Fizer um ovo
N’isso dou provas
De escritor novo.

Sobre as abas sentado do Parnaso,
Pois que subir não pude ao alto cume,
Qual pobre, de um Mosteiro à Portaria,
De trovas fabriquei este volume.

Vazias de saber, e de prosápia,
Não tratam de Ariosto ou Lamartine
Nem recendem as doces ambrosias
De Lamiras famoso ou Ar[e]tine.

São rimas de tarelo, atropeladas,
Sem metro, sem cadência e sem bitola,
Que formam no papel um ziguezague,
Como os passos de rengo manquitola.

Grosseiras produções d’inculta mente,
Em horas de pachorra construídas;
Mas filhas de um bestunto que não rende
Torpe lisonja às almas fementidas.

São folhas de adurente cansanção,
Remédio para os parvos d’excelência;
Que aos arroubos cedendo da loucura,
Aspiram do poleiro alta eminência.

E podem colocar-se à retaguarda
Os venerandos sábios de influência;
Que o trovista respeita submisso,
Honra, pátria, virtude, inteligência.

Só corta, com vontade, nos malandros,
Que fazem da Nação seu Montepio;
No remisso empregado, sacripante,
No lorpa, no peralta e no vadio.

À frente parvalhões, heróis Quixotes,
Borrachudos Barões da traficância;
Quero ao templo levar do grão Sumano
Estas arcas pejadas de ignorância.

Fonte: Ferreira, S. 2017. Luiz Gama e a identidade negra na literatura. JF, Edição do autor. Poema – então sob o título de ‘Prólogo’ – publicado em livro em 1859.

08 junho 2018

Los dos ángeles


Ángel de luz, ardiendo,
¡oh, ven!, y con tu espada
incendia los abismos donde yace
mi subterráneo ángel de las nieblas.

¡Oh espadazo en las sombras!
Chispas múltiples,
clavándose en mi cuerpo,
en mis alas sin plumas, en lo que nadie ve,
vida.

Me estás quemando vivo.
Vuela ya de mí, oscuro
Luzbel de las canteras sin auroras,
de los pozos sin agua,
de las simas sin sueño,
ya carbón del espíritu,
sol, luna.

Me duelen los cabellos
y las ansias. ¡Oh, quémame!
¡Más, más, sí, sí, más! ¡Quémame!
¡Quémalo, ángel de luz, custodio mío,
tú que andabas llorando por las nubes,
tú, sin mí, tú, por mí,
ángel frío de polvo, ya sin gloria,
volcado en las tinieblas!

¡Quémalo, ángel de luz,
quémame y huye!

Fonte (estrofe 1): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1929.

07 junho 2018

O matemático, o físico, o juiz


O matemático: “2 + 2 são quatro”.

O físico: “Nas CNTP, 2 + 2 podem dar quatro”.

O juiz: “2 + 2, chefe? O que o sr. quer que dê?”.

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