19 junho 2018

A crise capitalista

Theotonio dos Santos

O objetivo deste primeiro seminário é discutir a crise atual do capitalismo, seu caráter e suas perspectivas, objetivando situar a atual conjuntura da América Latina dentro do seu contexto. Para esse fim, damos ênfase especial à análise da situação presente, porém estudando-a com base nos elementos gerais que permitem determinar suas características e prever a direção para a qual apontam suas tendências principais.

Qualquer discussão sobre o problema da crise capitalista possui implicações teóricas que não poderão ser desenvolvidas nesta exposição.

No entanto, devemos assinalar que existe uma corrente de pensamento, cada vez mais importante, fundamentalmente dentro do marxismo – embora também representada por pensadores não marxistas – que situa a crise atual do capitalismo dentro da teoria dos movimentos (econômicos) longos, baseada essencialmente nos trabalhos do economista russo Kondratiev. Este economista localizou, na economia mundial, um conjunto de ciclo com duração [aproximada] de 50 anos cada, nos quais o nível da produção alterna períodos de crescimento e de diminuição. Kondratiev demonstrou que esses ciclos se produzem historicamente e localizou três movimentos longos ao largo de 150 anos: sua teoria incluía, para o período em que descrevia (1920), a previsão de um período de depressão econômica, que de fato se realizou nos Estados Unidos de 1914 a 1940 e até 1945/48 na Europa. [...]

Fonte: Santos, T. 1979. In: Assmann, H. org. A Trilateral: Nova fase do capitalismo mundial. Petrópolis, Vozes.

17 junho 2018

A respigadeira


William Powell Frith (1819-1909). The little gleaner. 1850.

Fonte da foto: Wikipedia.

15 junho 2018

É no meu corpo que morreste


é no meu corpo que morreste. agora
temos o tempo todo
ao nosso lado, como
um lodo onde dormitam as

conhecidas maneiras.
algumas nuvens se aproximam, e depois
se afastam, numa duvidosa
manifestação de imperícia;

os animais falantes
atravessam corredores iluminados,
embarcam na

sossegada lembrança dos sonetos,
o leve sono que pesou no dia.
é no meu corpo que morreste, agora

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1983.

13 junho 2018

A pedra fica


Quando morremos,
é a fragilidade que morre.
A pedra fica.

12 junho 2018

Onze anos e oito meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/6, o Poesia contra a guerra completa 11 anos e oito meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Onze anos e sete meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Algernon Charles Swinburne, Robert Chambers, Roberto Gomes da Silva e Viriato Gaspar. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Letitia Marion Hamilton e Roderic O’Conor.

10 junho 2018

Prótase


Embora um vate canhoto
Dos loucos aumente a lista,
Seja Cisne ou gafanhoto,
Não encontra quem resista
Dos seus versos a leitura,
Que diverte, inda que é dura!
(F. X. de Novaes.)

No meu cantinho,
Encolhidinho,
Mansinho e quedo,
Banindo o medo;
Do torpe mundo,
Tão furibundo,
Em fria prosa
Fastidiosa –
O que estou vendo
Vou descrevendo.
Se de um quadrado
Fizer um ovo
N’isso dou provas
De escritor novo.

Sobre as abas sentado do Parnaso,
Pois que subir não pude ao alto cume,
Qual pobre, de um Mosteiro à Portaria,
De trovas fabriquei este volume.

Vazias de saber, e de prosápia,
Não tratam de Ariosto ou Lamartine
Nem recendem as doces ambrosias
De Lamiras famoso ou Ar[e]tine.

São rimas de tarelo, atropeladas,
Sem metro, sem cadência e sem bitola,
Que formam no papel um ziguezague,
Como os passos de rengo manquitola.

Grosseiras produções d’inculta mente,
Em horas de pachorra construídas;
Mas filhas de um bestunto que não rende
Torpe lisonja às almas fementidas.

São folhas de adurente cansanção,
Remédio para os parvos d’excelência;
Que aos arroubos cedendo da loucura,
Aspiram do poleiro alta eminência.

E podem colocar-se à retaguarda
Os venerandos sábios de influência;
Que o trovista respeita submisso,
Honra, pátria, virtude, inteligência.

Só corta, com vontade, nos malandros,
Que fazem da Nação seu Montepio;
No remisso empregado, sacripante,
No lorpa, no peralta e no vadio.

À frente parvalhões, heróis Quixotes,
Borrachudos Barões da traficância;
Quero ao templo levar do grão Sumano
Estas arcas pejadas de ignorância.

Fonte: Ferreira, S. 2017. Luiz Gama e a identidade negra na literatura. JF, Edição do autor. Poema – então sob o título de ‘Prólogo’ – publicado em livro em 1859.

08 junho 2018

Los dos ángeles


Ángel de luz, ardiendo,
¡oh, ven!, y con tu espada
incendia los abismos donde yace
mi subterráneo ángel de las nieblas.

¡Oh espadazo en las sombras!
Chispas múltiples,
clavándose en mi cuerpo,
en mis alas sin plumas, en lo que nadie ve,
vida.

Me estás quemando vivo.
Vuela ya de mí, oscuro
Luzbel de las canteras sin auroras,
de los pozos sin agua,
de las simas sin sueño,
ya carbón del espíritu,
sol, luna.

Me duelen los cabellos
y las ansias. ¡Oh, quémame!
¡Más, más, sí, sí, más! ¡Quémame!
¡Quémalo, ángel de luz, custodio mío,
tú que andabas llorando por las nubes,
tú, sin mí, tú, por mí,
ángel frío de polvo, ya sin gloria,
volcado en las tinieblas!

¡Quémalo, ángel de luz,
quémame y huye!

Fonte (estrofe 1): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1929.

07 junho 2018

O matemático, o físico, o juiz


O matemático: “2 + 2 são quatro”.

O físico: “Nas CNTP, 2 + 2 podem dar quatro”.

O juiz: “2 + 2, chefe? O que o sr. quer que dê?”.

05 junho 2018

A ponte Ouse


Letitia Marion Hamilton (1878-1964). Ouse bridge, York. 1925-31.

Fonte da foto: Art UK.

04 junho 2018

Resposta à seleção

Roberto Gomes da Silva

As bases para a estimativa do progresso genético em um programa de seleção foram estabelecidas particularmente por Dickerson & Hazel (1944), com importantes contribuições de Lush (1945).

Quando é praticada a seleção de um atributo qualquer numa população, o progresso genético a ser esperado pode ser previsto pela função linear (Wright 1969):

ΔG = bFP (m – μ),     (6.1)

onde m e μ são as médias respectivamente dos reprodutores selecionados e da população; e bFP é o coeficiente de regressão do mérito da progênie sobre a média da geração paterna.

A superioridade dos indivíduos selecionados, em relação à media da população, constitui o diferencial de seleção (Lush 1945), do qual depende estreitamente o sucesso da seleção praticada em promover o progresso da população. Se os indivíduos selecionados constituírem uma amostra aleatória da população, é claro que neste caso m → μ e, por conseguinte, praticamente nenhum progresso será obtido.

Se o caráter em questão for normalmente distribuído e se a seleção for feita com base em um limiar seletivoL (i.e., rejeição dos animais com performance abaixo do valor de L, e vice-versa), então pode-se representar a população por uma curva normal truncada no ponto L, onde p é a proporção de indivíduos à direita do ponto de truncamento, representando aqueles que foram selecionados para reprodução [...].

Suponha agora que o coeficiente bFP da equação (6.1) seja representado pelo coeficiente da herdabilidade do atributo em seleção, considerando que h2 pode ser de fato tomado como um coeficiente de regressão (Dickerson & Hazel 1944):

ΔG = h2 (m – μ).     (6.2)

Para tornar a equação (6.2) independente das unidades de medida empregadas e, portanto, mais operacional, considera-se o diferencial de seleção em termos de desvio padrão, σF, do atributo em questão. Daí vem:

ΔG = h2 (m – μ) / σF

ΔG h2 i.     (6.3)

Lush (1945) mostrou que quando o atributo em seleção é normalmente distribuído,

i = (m – μ) / σF

i = σF z / p,     (6.4)

onde z é a ordenada da curva normal no ponto de truncamento L. Desta forma, é possível construir tabelas para o diferencial de seleção de quaisquer atributos normalmente distribuídos, através do uso de tabelas usuais das ordenadas e das áreas da curva normal (encontradas, por exemplo, em Snedecor 1956). [...]

Fonte: Silva, R. G. 1982. Métodos de genética quantitativa. Ribeirão Preto, SBG.

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