10 dezembro 2019

Solidão


Ó solidão! À noite, quando, estranho,
Vagueio sem destino, pelas ruas,
O mar todo é de pedra... E continuas.
Todo o vento é poeira... E continuas.
A Lua, fria, pesa... E continuas.
Uma hora passa e outra... E continuas.
Nas minhas mãos vazias continuas,
No meu sexo indomável continuas,
Na minha branca insónia continuas,
Paro como quem foge. E continuas.
Chamo por toda a gente. E continuas.
Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.
Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.
Eterna, continuas...
Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1954.

09 dezembro 2019

Viviente y no viviente

W. H. Thorpe

Los que estudiaban hace cuarenta o cincuenta anõs no eran turbados por duda alguna acerca de la clara distinción entre los seres vivientes y los no vivientes. Se nos decía que los cristales se parecen a los seres vivientes, en condiciones que pueden conseguirse fácilmente en el laboratorio elemental, en que algunos de ellos se desarrollarían de un modo previsible, lo que sugiere el desarrollo de los organismos vivientes. Pero nadie se molestaba en tomarse eso muy seriamente porque parecía evidente que un cristal de sulfato de cobre desarrollándose en su líquido matriz solo tenía el más superficial de los parecidos con un ser viviente. El virus, aunque descubierto por vez primera antes de fines del siglo xix, no era aún considerado objeto de estudio para el estudiante.

Fonte: Thorpe, W. H. 1967 [1966]. Ciencia, hombre y moralBarcelona, Labor.

04 dezembro 2019

Evidências de um fato


Como os cientistas sabem que as espécies viventes são versões modificadas de espécies já desaparecidas? Afinal, como eles conseguem provar que a evolução é um fato?

Para início de conversa, não custa lembrar: ao contrário da matemática, a biologia não lida com demonstrações ou provas definitivas. As conclusões da biologia [1] estão ancoradas em evidências (diretas ou indiretas). E estas, sempre que possível, devem provir de experimentos controlados, como é regra nas ciências naturais. No caso da biologia, os experimentos são conduzidos em laboratório ou no campo. Resultados obtidos no laboratório às vezes são suficientes, mas nem sempre. Veja o que ocorre em áreas como paleontologiaecologia e genética de populações, três dos pilares da biologia evolutiva e onde o trabalho de campo é insubstituível.

O xis da questão aqui é o seguinte: o rol de evidências positivas a respeito do fato da evolução é tão esmagador que a única alternativa racional que nos resta é tratá-la como tal.

Fósseis e fossilização

Evidências diretas de como eram os seres vivos do passado e de como a história da vida se desenrolou provêm do estudo dos fósseis – restos ou vestígios, em geral petrificados, deixados por organismos que já desapareceram.

É bom notar que fóssil não é sinônimo de pedra, visto que nem todo resto fóssil está petrificado. Vejamos.

Há dois tipos de fósseis petrificados: (1) os que de fato foram transformados em pedra (e.g., a estrutura original desapareceu e a cavidade resultante foi preenchida por depósitos minerais); e (2) os que ainda preservam remanescentes do material original (e.g., uma das conchas de uma ostra persiste, no todo ou em parte, e apenas a cavidade foi preenchida).

O processo por meio do qual um cadáver se converte em fóssil petrificado (total ou parcialmente) pode envolver substituiçãodestilação ou recristalização. No primeiro caso, o material original é substituído por algum depósito mineral; no segundo, dito também carbonização, os elementos voláteis da matéria orgânica (H, O, N) escapam, deixando uma película de carbono; no último, ocorre a destruição das partes cristalinas originais, as quais são então substituídas por algum mineral mais estável.

Outras evidências

Além dos indícios deixados pelos seres vivos do passado (e.g., fósseis, moldes, pegadas e perfurações), um sem-número de evidências indiretas é usado em reconstituições históricas. E várias disciplinas contribuem e participam dessas reconstituições.

embriologia, por exemplo, nos diz que as rotas de desenvolvimento, mesmo no caso de organismos que pouco ou nada se parecem aos nossos olhos (e.g., cangurus, morcegos e elefantes), podem seguir o mesmíssimo padrão geral; as particularidades que notamos nos animais adultos resultam de diferenças sutis durante o desenvolvimento. Por sua vez, a genética nos informa que as rotas de desenvolvimento se assemelham porque os organismos possuem genomas igualmente semelhantes, diferindo tão somente aqui e ali – seja porque cada animal abriga alguns poucos genes exclusivos, seja porque os mesmos genes estão a se expressar de modos ou em momentos algo diferentes.

*

Notas

[*] Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre o livro, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] A mais ampla e heterogênea das ciências, abrigando relatos de história natural, ensaios experimentais e, mais recentemente, investigações moleculares, tudo isso tendo a teoria evolutiva como fio condutor.

* * *

02 dezembro 2019

Vírus

Ricardo B. Medeiros

Vírus, sejam de plantas, animais, humanos, insetos ou os de bactérias, são entidades biológics relativamente simples, do ponto de vista estrutural e em sua composição, como visto nos capítulos anteriores. São compostos, em sua mioria, apenas por ácidos nucleicos envoltos pela proteína da capa (que pode conter mais de um tipo de proteína) e, para os envelopados, também por uma membrana de origem celular. São, basicamente, unidades genéticas de tamanho limitado, um conjunto de poucos genes, que adquiriram a capacidade de replicar-se autonomamente e mover-se eficientemente de uma hospedeira a outra, como também visto nos capítulos anteriores.

Fonte: Medeiros, R. B. et al. 2015. Virologia vegetal. Brasília, Editora UnB.

30 novembro 2019

Imposibilidad

Eduardo Langagne

Y mientras en la plaza va mi hijo
persiguiendo palomas
yo persigo palavras que vuelan si me acerco

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1991.

28 novembro 2019

Assassínio de inocentes


Carlo Arienti (1801-1873). Assassinio degli innocenti. 1845.

Fonte da foto: Wikipedia.

27 novembro 2019

Uma vida sórdida, embrutecida e curta

Richard C. Francis

O filósofo inglês Thomas Hobbes provavelmente é mais conhecido por sua visão pessimista da existência humana, que seria “sórdida, embrutecida e curta”. Posso imaginar o que ele teria dito sobre a vida dos diabos-da-tasmânia, em comparação com a qual a condição humana é idílica. Para essas criaturas mal-humoradas de uma ilha no sul da Austrália, a vida sem dúvida é mais sórdida, mais embrutecida e curta que a nossa. Sendo que nos últimos tempos tornou-se ainda mais breve.

Fonte: Francis, R. C. 2015 [2011]. Epigenética. RJ, Zahar.

24 novembro 2019

A um livreiro, que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre


Levou um livreiro a dente
De alfaces todo um canteiro,
E comeu, sendo livreiro,
Desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
A quem disso o quer taxar;
Antes é para notar
Que trabalhou como um mouro,
Pois meter folhas no couro
Também é encadernar.

Fonte: Spina, S. 1995. A poesia de Gregório de Matos. SP, Edusp.

23 novembro 2019

As espécies existem?

Louis Agassiz

Parece-me existir grande confusão de ideias na declaração sobre a variabilidade das espécies, tantas vezes repetida ultimamente. Se as espécies absolutamente não existem, como afirmam os defensores da teoria da transmutação, como podem variar? E, se existem unicamente os indivíduos, como podem as diferenças entre eles observadas provar a variabilidade das espécies?

Fonte: Hardin, G., org. 1967. População, evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp. Artigo originalmente publicado em 1860.

14 novembro 2019

Notas sobre a cosmologia Yawalapíti

Eduardo Viveiros de Castro

Pretendo aqui lançar algumas hipóteses sobre as concepções de tempo, criação, mito e ritual entre os Yawalapíti, grupo de língua Aruaque que participa do sistema social do Alto Xingu. A tentativa é a de uma caracterização da cosmologia xinguana, não em termos de seus conteúdos, mas de seus princípios gerais.

Fonte: Viveiros de Castro, E. B. 1978. In: Religião e Sociedade, v. 3. RJ, Civilização Brasileira.

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