24 maio 2017

A medusa e a lesma

Lewis Thomas

Jamais como hoje no embaraçamos tanto conosco mesmos. As revistas populares vivem repletas de conselhos acerca do que se deve fazer com o próprio eu: de que forma procurá-lo, identificá-lo, cultivá-lo, protegê-lo e até mesmo, em ocasiões especiais como os fins de semana, ‘perdê-lo’ provisoriamente. Há livros instrutivos, best-sellers acerca da autorrealização, da autoajuda, do autodesenvolvimento. Grupos de pessoas respeitáveis despendem grandes quantias por três dias de sessões conjuntas de autopercepção. O autoesclarecimento é matéria opcional nas universidades.

Quem lê a respeito julga que acabamos de nos descobrir. Desconfiando há muito de que existe algo de vivo nessa questão, que tudo orienta e que está à parte de tudo mais, algo absolutamente individual e independente, nós o festejamos dando-lhe um nome real: Eu [Self].

Trata-se de uma palavra interessante, formada há muito tempo, em período de maior ambiguidade social do que seria de se esperar. A raiz original era se, ou seu, pronome da terceira pessoa, simplesmente, e a maioria dos vocábulos que dele descendem, à exceção do próprio self, foi constituída para aludir a outras pessoas de certo modo interligadas. Se era também usado para indicar algo exterior ou à parte, resultando em palavras como ‘separado’, ‘secreto’ e ‘segregado’. De uma extensão da raiz, swedh, passou ao grego como ethnos, significando ‘gente como nós’, e ethos, ‘os costumes dessa gente’. ‘Ética’ significa comportamento de pessoas parecidas conosco, a nossa própria ética.
[...]

Fonte: Thomas, L. 1980. A medusa e a lesma. RJ, Nova Fronteira.

17 maio 2017

História natural

Tracy I. Storer & Robert L. Usinger

Os trabalhos gerais sobre os animais depois da Renascença tinham Aristóteles como padrão, mas incluíam gradualmente maiores quantidades de observações originais. Alguns dos primeiros autores dessa época e seus trabalhos foram Konrad Gesner (suíço, 1516-1565), Historia animalium (1551 e posteriormente), de cinco volumes e mais de 3.500 páginas, a primeira obra ilustrada sobre zoologia, com muitas figuras boas; Guillaume Rondelet (francês, 1507-1566), De piscibus marinis (1554), que incluía todos os tipos de animais marinhos do Mediterrâneo e a primeira figura de um invertebrado dissecado; Pierre Belon (francês, 1517-1564), Histoire naturelle des étranges poissons marins (1551), que apresentava desde anêmonas-do-mar até baleias e figurava a placentação do embrião da baleia. – Foi este um dos primeiros livros zoológicos em outra língua que não o latim.

Do século xvi aos dias atuais tem aparecido uma série contínua de obras relativas à história natural discorrendo sobre uma espécie ou grupo maior, sobre alguns ou todos os animais de uma região (obras faunísticas) ou sobre todo o Reino Animal. Um famoso tratado geral foi a Histoire naturelle de Georges, Conde de Buffon (francês, 1707-1788), diretor do Jardin des Plantes de Paris. A Histoire compreendia animais, plantas e minerais em 44 volumes (1749-1804) e foi completada por assistentes após a morte do autor. Foi reimpressa diversas vezes e traduzida para o inglês e o alemão.

Fonte: Storer, T. I. & Usinger, R. L. 1976 [1965]. Zoologia geral, 2ª ed. SP, Nacional.

15 maio 2017

Montanheses atacados por ursos


Henri [Victor Gabriel] Le Fauconnier (1881-1946). Les montagnards attaqués par des ours. 1912.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 maio 2017

A teoria evolutiva dos jogos

John Maynard Smith

A teoria evolutiva dos jogos é um modo de pensar sobre a evolução no nível fenotípico quando as aptidões de determinados fenótipos dependem da frequência deles na população. Compare, por exemplo, a evolução da forma das asas em aves planadores com a evolução do comportamento de dispersão nessas mesmas aves. Visando entender a forma das asas, faz-se necessário conhecer as condições atmosféricas sob as quais as aves vivem e o modo pelo qual as forças de ascensão e de arrasto variam com o formato das asas. Teríamos também de levar em conta as restrições impostas pelo fato de as asas das aves serem feitas de penas – as restrições seriam diferentes no caso de um morcego ou um pterossauro. Não seria necessário, contudo, levar em conta o comportamento de outros membros da população. Ao contrário, a evolução da dispersão depende basicamente de como outros coespecíficos estão se comportando, pois a dispersão tem a ver com encontrar parceiros adequados, evitar competição por recursos, obter proteção conjunta contra predadores e assim por diante.

Já no caso da forma das asas, queremos entender por que a seleção favoreceu determinados fenótipos. A ferramenta matemática apropriada é a teoria da otimização. Nós nos deparamos com o problema de decidir que aspectos específicos (e.g., uma razão ascensão/arrasto elevada, um raio de giração pequeno) contribuem para a aptidão, mas não com as dificuldades especiais que surgem quando o sucesso depende daquilo que os outros estão fazendo. É neste último contexto que a teoria dos jogos se torna relevante.

Fonte: Costa, F. A. P. L. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do autor.

12 maio 2017

Dez anos e sete meses no ar

F. Ponce de León

Nesta sexta-feira, 12/5, o Poesia contra a guerra completou 10 anos e sete meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 316.594 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Dez anos e meio no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Anthony Crawforth, Charles Lamb, Eduardo Mora-Anda, Fernando Reinach, H. Moysés Nussenzveig, Isabel Maria Loureiro, Laís V. Ramalho e Paulo Leonel Libardi. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Fernand Léger e Juan Gris.

10 maio 2017

Os foronídeos

Laís V. Ramalho

Phoronida é um pequeno filo de invertebrados exclusivamente marinhos, que, junto com Bryozoa e Brachiopoda, constitui o grupo dos lofoforados. [...]

Os foronídeos são exclusivamente marinhos e podem ser encontrados desde o intertidal até profundidades de 400 m. Há registros de espécies em todos os oceanos, e a maioria é considerada cosmopolita. Contudo, os foronídeos ainda não foram encontrados nos mares polares.

As larvas são livre-natantes e comumente encontradas na coluna d’água. A forma adulta é séssil, solitária e vive dentro de tubos quitinizados afundados no sedimento ou presos a substratos duros. Os foronídeos são hábeis em se movimentar dentro de seus tubos, e a única parte que sai do tubo é o lofóforo. Apesar de solitários, normalmente eles formam grandes massas emaranhadas de vários indivíduos no substrato e também podem incrustar seus tubos sobre rochas e conchas. Relatos mencionam que alguns foronídeos (Phoronis australis) podem viver associados a anêmonas (Cnidaria).
[...]

Fonte: Ramalho, L. V. 2016. In: Fransozo, A. & Negreiros-Fransozo, M. L., orgs. Zoologia dos invertebrados. RJ, Roca.

08 maio 2017

A interação eletromagnética

H. Moysés Nussenzveig

Segundo a classificação atual [...], existem na Natureza quatro interações fundamentais: (nuclear) forte, eletromagnética, (nuclear) fraca e gravitacional – em ordem decrescente de intensidade. Até agora, só havíamos estudado uma delas: a gravitacional, cujos efeitos se fazem sentir principalmente na escala astronômica.

O eletromagnetismo é outra interação fundamental, muito mais importante do que a gravitação no domínio que nos é mais familiar. Com efeito, as forças que atuam na escala macroscópica, responsáveis pela estrutura da matéria e pela quase totalidade dos fenômenos físicos e químicos que intervêm em nossa vida diária, são de natureza eletromagnética. Isso não significa que seus efeitos possam sempre ser analisados pela física clássica. Em tudo aquilo que depende da escala atômica – cujos efeitos repercutem na escala macroscópica – é preciso empregar a física quântica. Entretanto, a interação relevante, também no tratamento quântico, é eletromagnética.

Ainda de um ponto de vista fundamental, a interação eletromagnética é aquela que compreendemos melhor. Seu tratamento teórico, no nível quântico (eletrodinâmica quântica), foi utilizado como modelo para o tratamento de todas as demais interações conhecidas.
[...]

Fonte: Nussenzveig, H. M. 2015. Curso de física básica, v. 3: Eletromagnetismo, 2ª ed. SP, Blucher.

06 maio 2017

Ao contemplar o crânio de Schiller

J. W. von Goethe

No severo ossuário foi que eu vi
   Caveiras e caveiras ordenadas;
   Pensei no velho tempo encanecido
Os que outrora se odiaram, em cerradas
   Filas estão, e ossadas duras, que se f’riram
   De morte, jazem mansas e cruzadas.
Ombros desconjuntados! Quem pergunta
   O que outrora carr’garam? e activos membros gráceis,
   Mãos, pés arrancados das junturas da vida.
Em vão, cansados membros, vos deitastes;
   Nem na cova repouso vos deixaram,
   Expulsos outra vez pra o dia claro;
E ninguém pode amar a casca seca,
   Precioso que fosse o cerne que encerrou.
   Mas a mim, adepto, se revelou a escrita,
Que nem a todos abre o sagrado sentido,
   Quando, no meio de tal turba hirta,
   Uma forma avistei de beleza tão sem preço
Que na angústia e frieza pútrida da câmera
   Eu livre e quente me reanimei
   Qual se de entre a morte brotasse fonte viva.
Como essa forma de mistério me encantou!
   Signo de Deus pensado, que assim se conservou!
   Olhar que me arrastou às praias daquel’mar
Que em maré cheia arroja figuras sublimadas.
   Secreto vaso! que dás sentenças de oráculo,
   Serei eu digno de te ter na mão, a ti,
Tesouro excelso, que piedoso arranco
   Da podridão, devoto me voltando
   Para o ar livre e livre meditar à luz do sol.
Que pode o homem ganhar mais nesta vida,
   Do que se lhe revele a Natureza-Deus?
   Ao vê-la sublimar a matéria firme do Espírito,
   E firme conservar o que o Espírito criou.

Fonte: Goethe, J. W. 1986 [1790]. A metamorfose das plantas. SP, Edições Religião & Cultura. Poema datado de 1826. Para um poema de Schiller, ver aqui.

05 maio 2017

Árvores da mata atlântica


Felipe A. P. L. Costa

Acabo de conhecer o livro Árvores da mata atlântica (Simão et al. 2017). Eis uma versão resumida do sumário da obra (grafia original):

Sumário

Agradecimentos, p. 5
Os autores, p. 7
Prefácio, p. 9
Apresentação, p. 11
Como foi elaborado esse livro, p. 13
Como usar esse livro, p. 18
A floresta estacional semidecidual do domínio atlântico, p. 23
A Estação de Pesquisa, Treinamento e Educação Ambiental Mata do Paraíso, p. 28
A restauração florestal, p. 30
Pesquisa de bioprospecção farmacêutica da EPTEA Mata do Paraíso, p. 32
Chaves dendrológicas, p. 37
Chaves dendrológicas para identificação de espécies arbóreas de floresta estacional semidecidual, p. 38
Chave I. Árvores com folhas simples e filotaxia alterna, p. 39
Chave II. Árvores com folhas simples e filotaxia oposta, p. 110
Chave III. Folhas compostas, pinadas ou bipinadas, e alternas ou opostas, p. 130
Chave IV. Folhas compostas, trifolioladas ou digitadas, e alternas ou opostas, p. 178
Referências bibliográficas, p. 192
Glossário de termos botânicos e etnofarmacológicos, p. 203
Tabela de exsicatas das espécies amostradas, p. 226
Índice remissivo de nomes científicos, p. 230
Índice remissivo de nomes populares, p. 232

Uma característica particularmente notável (e louvável) do livro é o uso que os autores fazem de caracteres vegetativos, facilitando tremendamente a consulta. Mesmo o leitor sem familiaridade com o assunto, será capaz de identificar as espécies em questão.

Para detalhes adicionais, inclusive sobre aquisição por via postal, ver aqui.

Fonte: Simão, M. V. R. C. & outros 5 coautores. 2017. Árvores da mata atlântica: Livro ilustrado para identificação de espécies típicas de floresta estacional semidecidual. Manaus, s/n.

03 maio 2017

Há no meu peito uma porta

José Albano

Há no meu peito uma porta
A bater continuamente;
Dentro a esperança jaz morta
E o coração jaz doente.
Em toda parte onde eu ando,
Ouço este ruído infindo:
São as tristezas entrando
E as alegrias saindo.

Fonte: Martins, W. 1978. História da inteligência brasileira, vol. 5. SP, Cultrix & Edusp. Poema publicado em livro em 1912.

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