25 abril 2017

A coisa certa

Anthony Crawforth

[Henry Walter] Bates teve uma filha (Alice) com Sarah Ann Mason (que era analfabeta), a criança nasceu em 2/2/1862 [...]. Não consta o pai na certidão de nascimento e, portanto, quando Sarah deu à luz uma filha ilegítima, não podia contar sequer com a ajuda da família ou dos amigos. Nessas circunstâncias, a mãe frequentemente era forçada a ir embora, desprezada pela família e pelos amigos, mudando-se para um lugar onde não fosse conhecida. HWB, entretanto, fez o que era certo, mudando-se para Londres com Sarah e casando-se com ela, em 15/1/1863 [...].

Fonte: Costa, F. A. P. L. 2017. O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna. Viçosa, Edição do autor.

23 abril 2017

Mágica

Mário Cesariny

É uma estrada no céu silenciosa
um anão sem ninguém que o suspeite
é um braço pregado a uma rosa
um mamilo escorrendo leite

São edénicos anjos expulsos
sonhando quietude e distância
são homens marcados nos pulsos
é uma secreta elegância

São velhos demónios ociosos
fitando o céu bailando ao vento
são gritos rápidos, nervosos
que destroem todo o pensamento

É o frio deserto marinho
operando na escuridão
é o corpo que geme sozinho
é a veia que é coração

São aranhas jovens, pernaltas
arrastando embrulhos para o mar
são altas colunas tão altas
que o chão ameaça estalar

São espadas voantes são vielas
passeios de todos e nenhuns
são grandes rectas paralelas
são grandes silêncios comuns

É uma edição reduzida
das aras da história sagrada
é a técnica mais proibida
da mágica mais procurada

É uma estrada no céu silenciosa
por um domingo extenso e plácido
é um anoitecer cor de rosa
um ar inocente, ácido

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1956.

21 abril 2017

Elegia

Ribeiro Couto

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...

Fonte (versos 26 e 27): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª edição. BH, Editora Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1943.

19 abril 2017

Estrutura e composição do solo

Paulo Leonel Libardi

Para nossos propósitos, vamos considerar o solo como sendo, simplesmente, um material natural, sólido e poroso. A parte sólida deste material poroso consiste principalmente de partículas minerais e substâncias orgânicas de várias formas e tamanhos, e é chamada de esqueleto, sólidos ou matriz do solo. A parte porosa, isto é, a parte não ocupada pela matriz, consiste de poros interconectados e recebe o nome de espaço poroso ou poros do solo. Solos contendo, na camada superficial de 0 a 0,5 m de profundidade, mais de 85% de matéria mineral são chamados solos minerais, e aqueles contendo mais de 15% de matéria orgânica nesta camada são chamados solos orgânicos. Os poros do solo abrigam, em seu interior, quantidades variáveis de: a) uma solução aquosa de vários eletrólitos (Na+, K+, Ca2+, Mg2+, Cl, NO3, SO32– etc.) e outros componentes, denominada água ou solução no solo; e b) uma solução gasosa, composta principalmente de N2, O2, vapor d’água, CO2 e pequenas quantidades de outros gases, denominada ar no solo.

Fonte: Libardi, P. L. 2005. Dinâmica da água no solo. SP, Edusp.

17 abril 2017

Viejo recuerdo

Eduardo Mora-Anda

Viejo recuerdo:
el sol de los venados.
Oro fresco
y el aire,
todo el aire.

Fonte: Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus.

15 abril 2017

Mulher sentada


Juan Gris (1887-1927). Mujer sentada. 1917.

Fonte da foto: Wikipedia. ‘Juan Gris’ era o nome artístico de José Victoriano González-Perez.

14 abril 2017

Memórias pré-históricas

Fernando Reinach

Muitas vezes estive em locais tão agradáveis que imaginei poder viver ali por anos. Mas em dois deles não consegui entrender a origem desse sentimento de conforto. Um dos lugares são as ruínas de Mesa Verde, no Arizona. As ruínas estão encravadas em um enorme barranco aproveitando cavernas naturais. A cidade é um terraço estreito na face vertical da montanha. O acesso só é possível por rampas. Dos terraços se observa um vale quase desértico e um pequeno riacho. O local é primitivo, estreito e o acesso a ele é complicado, daí a dificuldade de entender a sensação de conforto. Anos mais tarde visitei ruínas da Idade da Pedra no sul da França. Tive a mesma sensação quando subi até as cavernas localizadas em um despenhadeiro de onde se avista um vale rico em vegetação e entremeado por diversos riachos. Apesar de as cavernas serem menores e o acesso mais difícil, senti o mesmo bem-estar.
[...]

Fonte: Reinach, F. 2010. A longa marcha dos grilos canibais. SP, Companhia das Letras.

13 abril 2017

Dez anos e meio no ar

F. Ponce de León

Ontem, 12/4, o Poesia contra a guerra completou 10 anos e seis meses no ar. Ao fim do expediente de anteontem, o contador instalado no blogue indicava que 314.422 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Cento e vinte e cinco meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Charles A. Triplehorn, Johannes Brahms, Manuel Machado, Mary Agnes Hamilton e Norman F. Jonnson. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagem de obra do seguinte pintor: Noel Ford.

10 abril 2017

Fígaro

Johannes Brahms

Todo número de Fígaro é para mim um assombro; simplesmente não compreendo como qualquer um poderia criar algo de tão perfeito; coisa igual jamais foi feita, nem mesmo por Beethoven.

Fonte: Solman, J. 1991. Mozartiana: Dois séculos de notas, citações e anedotas sobre Wolfgang Amadeus Mozart. RJ, Nova Fronteira.

25 março 2017

O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna

Felipe A. P. L. Costa

O livro O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna reúne artigos a respeito da vida e obra de 14 grandes cientistas: Henry Walter Bates (1825-1892), James F. Crow (1916-2012), Marie Curie (1867-1934), John L. Harper (1925-2009), Charles Keeling (1928-2005), Lynn Margulis (1938-2011), John Maynard Smith (1920-2004), Ernst Mayr (1904-2005), Stanley L. Miller (1930-2007), George Price (1922-1975), Richard Southwood (1931-2005), Alfred Russel Wallace (1823-1913), George C. Williams (1926-2010) e Carl R. Woese (1928-2012).

Alguns nomes devem ser familiares ao leitor comum; outros, no entanto, são pouco conhecidos fora da arena científica. O caso de George Price é particularmente perturbador, pois se trata de um autor pouco conhecido mesmo dentro da comunidade científica. Todos eles, em maior ou menor extensão, direta ou indiretamente, ajudaram a inventar a biologia moderna.

Os capítulos estão arranjados de acordo com o ano de nascimento (Cap. 1-4) ou falecimento (5-14) dos cientistas. Versões anteriores dos capítulos 5-14 foram publicadas como obituários, a começar pelo de John Maynard Smith, cujo título eu tomei emprestado para dar nome ao livro. O capítulo 15 foi originalmente publicado como resenha.

Aproveitei as versões originais, mas promovi inúmeras mudanças – retifiquei erros e mal-entendidos, suprimi trechos inadequados e, sobretudo, acrescentei novas informações, incluindo uma ampla variedade de ilustrações.

Variedade temática

Os personagens incluídos no livro lidaram com um sortido leque de questões, envolvendo tanto descobertas empíricas como inovações conceituais. No primeiro caso, eu poderia citar a riqueza biológica dos trópicos, a radioatividade, a senescência, a transmissão horizontal de genes, a endossimbiose e as arqueias. No segundo, citaria a teoria da evolução por seleção natural, a seleção sexual, a analogia mimética, a evolução do altruísmo, o conceito de estratégia evolutivamente estável e a teoria da endossimbiose sequencial, além da criação de novas disciplinas (e.g., química pré-biótica, biologia populacional de plantas e medicina darwiniana).

Dois desses personagens eram naturalistas típicos do século 19 (Wallace e Bates). Dois estudaram a atmosfera, um simulando cenários primitivos (Miller), o outro monitorando a composição atual (Keeling). Um terceiro costumava examinar detidamente o solo, contando plântulas e sementes (Harper). Houve quem lidasse com elementos invisíveis (Curie) ou microscópicos (Margulis e Woese). E houve quem escrevesse a respeito dos fundamentos filosóficos (Mayr) ou teóricos (Williams) da biologia, às vezes, neste último caso, lançando mão de ferramentas matemáticas um tanto abstratas (Price, Maynard Smith, Southwood e Crow), a ponto de alguns biólogos evitarem os seus escritos.

Embora a variedade temática seja expressiva, apenas certos tópicos foram tratados mais detidamente – e.g., a distinção entre evolução, seleção e darwinismo; a dicotomia entre mimetismo e camuflagem; o decaimento radioativo; a noção de transições evolutivas; o processo de especiação e o modelo de especiação por reforço; a composição atmosférica e o aquecimento global; o uso de técnicas de amostragem em estudos populacionais; a construção de tabelas de vida; a demografia de organismos modulares; a ideia de seleção em múltiplos níveis; a evolução da senescência; a origem das células eucarióticas; o conceito de tamanho populacional efetivo; o sistema de cinco reinos e a noção de árvore universal da vida.

A lista de autores citados – ainda que a maioria apenas de passagem – é igualmente numerosa, incluindo desde naturalistas dos séculos 17, 18 e 19 a duas dezenas de cientistas laureados com o Prêmio Nobel.

Como adquirir

Exemplares de O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna podem ser adquiridos por via postal em seis pacotes de tamanhos predefinidos, com 1, 2, 4, 10, 20 e 40 exemplares. Isso agiliza o trabalho, ao mesmo tempo em que permite minimizar o preço unitário, o qual varia entre R$ 40 (pacotes com 1 exemplar) e R$ 31 (pacotes com 40).

Para mais detalhes sobre a aquisição por via postal, envie uma mensagem de correio eletrônico para o autor no endereço meiterer@hotmail.com.

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