23 setembro 2020

Literatura e revolução

Maria Teresa de Freitas

Prinkipo, 9 de fevereiro de 1931, intitulando-a ‘A Revolução Estrangulada’, conclui Trotsky uma ardorosa reflexão sobre as questões políticas que envolveram a revolução chinesa de 25/27, a partir da apreciação de um romance recém-publicado na França – Les Conquérants –, o primeiro de um jovem escritor, jornalista e editor de arte ainda pouco conhecido nos meios intelectuais franceses: André Malraux. Por trás do ardor da polêmica, que não parará aí, percebe-se, latente, a pergunta-chave que está na base de toda a longa reflexão artística do revolucionário esteta Leon Trotsky, e que iria também guiar uma boa parte da atividade literária do esteta revolucionário André Malraux: qual é o papel da literatura no processo revolucionário?

Fonte: Freitas, M. T. 1994. Trotsky e Malraux: sobre o marxismo na literatura. In: O. Coggiola, org. Trotsky hoje. SP, Ensaio.

21 setembro 2020

Baratas tontas a ziguezaguear


Felipe A. P. L. Costa [*].

As estatísticas deste domingo (20) acabam de ser divulgadas. De acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados mais 16.389 casos e 363 mortes em todo o país. Teríamos chegado assim a um total de 4.544.629 casos e 136.895 mortes.

As estatísticas estão a se afastar do que era esperado. Ou, mais especificamente, do melhor resultado esperado (ver a figura que acompanha este artigo). E esta não é uma boa notícia.

Em primeiro lugar, é preocupante saber que as médias semanais das taxas de crescimento (casos e mortes) subiram.

A média semanal da taxa de crescimento no número de novos casos subiu de 0,65% (7-13/9) para 0,69% (14-20/9).

No caso do número de mortes, a média subiu de 0,55% (7-13/9) para 0,56% (14-20/9). Foi a primeira vez, desde o início da crise, que a média semanal da taxa de crescimento no número de mortes deixou de cair! As autoridades deveriam ver isso como um alerta.

Duas etapas.

Levando em conta as concordâncias e as discordâncias entre as estatísticas anunciadas e os resultados esperados (ver aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), talvez possamos caracterizar melhor o que está a ocorrer desde o início de agosto dividindo o processo em duas etapas (ver a figura que acompanha este artigo).

Primeira etapa. Nas quatro primeiras semanas (3-30/8), os resultados observados concordaram bem com as projeções que fiz para um cenário RÁPIDO (queda de 0,2% por semana nas médias semanais).

Segunda etapa. Nas três últimas semanas (31/8-20/9), porém, as estatísticas concordaram melhor com as projeções que fiz para um cenário intermediário (queda de 0,15% por semana nas médias semanais).

*

FIGURA. A figura que acompanha este artigo mostra os valores esperados para as médias diárias no número de novos casos (eixo vertical) em cinco cenários diferentes (a taxa cai 0,05%, 0,075%, 0,1%, 0,15% ou 0,2% por semana), até 27/9. No pior cenário, LENTO (linha vermelho escuro), a média seguiria aumentando até o fim de setembro – a rigor, até a primeira semana de dezembro (não mostrado), quando só então atingiria o seu máximo (111.521) e começaria a declinar. O gráfico mostra também os valores observados nas últimas sete semanas (Real; linha alaranjada). Entre 3 e 30/8, os resultados observados concordaram bem com a trajetória prevista para um cenário RÁPIDO. Entre 31/8 e 20/9, porém, os resultados se aproximaram mais da trajetória prevista para um cenário intermediário (queda de 0,15% por semana na média semanal).

*

Coda.

Nas últimas três semanas (31/8-20/9), nós ziguezagueamos [1]. Como baratas tontas. E agora estamos empacados. De novo.

Como já ressaltei em artigos anteriores, é sempre uma péssima notícia quando as taxas de crescimento param de cair. Por vários motivos. Por exemplo, a um ritmo de queda menor nas médias semanais, as estatísticas permanecem em patamares elevados por mais tempo. Há um aumento ainda maior no número de novos casos e, por extensão, no número de mortes. A crise se prolonga e mais famílias são atingidas pela dor e pelo sofrimento.

*

Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Em números absolutos, eis os somatórios das últimas sete semanas (casos e óbitos): 301.745 e 6.945 (3-9/8); 304.775 e 6.803 (10-16/8); 265.586 e 6.892 (17-23/8); 256.528 e 6.084 (24-30/8); 275.210 e 5.822 (31/8-6/9); 192.934 e 4.975 (7-13/9); e 214.174 e 5.270 (14-20/9).

* * *

19 setembro 2020

Consalvo


Atirado pelas ondas contra a costa,
arrasto o barco dos meus braços pela areia,
corpo erguendo-se da salmoura destas noites
para o diário de bordo que a luz teima
em escrever no papel manilha dos lençóis.

Neles amarrado como a vinha a uma latada
enfrento a luz pastosa de mais um dia, espalhando
com a peneira de uma mão, na cerca para gado
que é o horizonte do meu quarto, memórias daquela
que passeia sobre mim sem destino como o vento.

Um dente canino assoma, uma presa imóvel
e sem vítima, uma vontade de suster no freio
uma montada, o sexo como um pão que não cresce.
Ir no resplendor da sua bandana, cerzindo
as pregas com que faz um seu vestido o ar,

desenhando no chão com um meneio a caligrafia
de dois passos, importuná-la com um bom dia,
uma palavra que resvalasse por todo o seu ser
como um baptismo, ela que, perplexa de tanto amor,
despede gesto com a mão a quem passa

e entra muda pela nave lateral de uma igreja:
meu desejo de ser nela mais do que o gesto
inútil de quem passa, percorre na espiral
de uma concha univalve a minha vida, tornando
com a noite às horas que soam no mesmo lugar.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1992.

17 setembro 2020

Cavalo mameluco


Carle [Antoine Charles Horace] Vernet (1758-1836). Cheval mamelouk. ~1798.

Fonte da foto: Wikipedia.

15 setembro 2020

A questão do paleoíndio

Pedro Ignácio Schmitz

Ao estudarem os sítios do homem pré-histórico, os arqueólogos descrevem não apenas os artefatos recuperados, os testemunhos da alimentação, os restos mortais, o ritual, a arte, os locais e as formas do estabelecimento e de relacionamento observadas dentro dos sítios e entre sítios e áreas, mas, por velha influência histórica e evolucionista, também classificam as culturas arqueológicas assim estabelecidas em períodos ou etapas, que podem ser locais, regionais, pan-americanas ou universais.

No Brasil, as periodizações locais e regionais apresentam algumas controvérsias por se basearem em diferentes pressupostos, métodos ou dados, mas são relativamente fáceis de resolver ou compreender; as periodizações pan-americanas ou universais são menos frequentemente usadas e oferecem alguns problemas. Um deles é a aplicação do conceito de paleoíndio às culturas mais antigas do Brasil Central.

No Velho Mundo, os nomes geralmente usados na periodização universal são Paleolítico (Inferior, Médio e Superior), Mesolítico, Neolítico e Civilização ou Urbanismo (Pré-Clássico, Clássico e Pós-Clássico).

Os nomes americanos aproximadamente correspondentes são: Período Lítico, que pode ser usado com sentido semelhante ao Paleolítico e dividido em um período Pré-Pontas e outro Paleoíndio; Período Arcaico (em vez de Mesolítico); Período Formativo (em vez de Neolítico); Chefias, Florescente e Expansivo ou Militarista. [...]

Os termos nos quais nos deteremos são Período Paleoíndio e Período Arcaico. [...]

O conceito de cultura do Paleoíndio contém, entre outros, os seguintes elementos: populações que teriam vivido predominantemente de caça grande, também chamada megafauna; sítios principalmente de matança, não de acampamentos residenciais; artefatos identificadores, pontas bifaciais, especializadas, de projétil, geralmente acompanhadas de lascas usadas como facas, raspadores e raspadeiras; o ambiente, um período frio e seco; população, pouco numerosa, dispersa e nômade, organizada em bandos frouxos. [...]

O conceito de Arcaico se refere a uma cultura de progressiva adaptação ao clima pós-glacial, mais quente, mais úmido, que vai se aproximando do nosso ambiente atual. A cultura desse período se diversificaria com o homem buscando novos recursos alimentares nas savanas, nas estepes, na beira do mar e dos lagos; a caça não seria mais especializada em megafauna, mas geral e diversificada; a coleta animal e vegetal aumentaria e a experimentação e o conhecimento acumulado levariam à domesticação de plantas e animais que, no Formativo, já se transformaria em sustento confiável, mesmo se ainda complementar.

Fonte: Schmitz, P. I. 1999. A questão do paleoíndio. In: M. C. Tenório, org. Pré-história da Terra Brasilis. RJ, Editora UFRJ.

13 setembro 2020

As filhas do Conhecimento


O Conhecimento teve duas filhas,
com duas esposas diferentes.

A filha mais velha é a Tecnologia,
cuja mãe é a Necessidade.

A filha mais nova é a Ciência,
cuja mãe é a Ociosidade.

12 setembro 2020

13 anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Neste sábado, 12/9, o Poesia contra a guerra completa 13 anos e onze meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘166 meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Altino Caixeta de Castro, François-René de Chateaubriand, Maya Pines, Nei Lopes, Paul W. Ewald e Ricardo Arnt. Além de outros que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Honoré Daumier, Jean-Louis Forain e Nicolas-Toussaint Charlet.

10 setembro 2020

Comeu-se, então, até desaparecer

Ricardo Arnt

Foi o poeta latino Ovídio quem nos legou, em As metamorfoses, a fábula de Erisícton, o algoz das florestas. Conta como o ímpio e ambicioso grego violou os bosques consagrados a Ceres com o ferro do machado e que a deusa, como castigo, mandou a Fome voar até o seu leito e soprar-lhe a garganta. Tão logo acordou, Erisícton foi dominado por uma fome atroz. Comia e comia, sem parar, o que bastaria para uma cidade, e nada o saciava. Exigiu todos os produtos do mar, da terra e do ar; vendeu tudo o que tinha para comprar alimentos, até consumir todos os seus bens, mas a fome continuou a devorar-lhe o saco sem fundo do ventre. Restou-lhe apenas a filha, fiel e condoída, e ele afinal a vendeu. Por fim, pôs-se a arrancar os próprios membros e a dilacerá-los com os dentes. Comeu-se, então, até desaparecer.

Fonte: Anderson, A. & mais 10. 1994. O destino da floresta. RJ, Relume Dumará.

08 setembro 2020

Cultural vectors

Paul W. Ewald

Evolutionary biology, ecology, and epidemiology are among the most interdisciplinary of disciplines. The development of evolutionary epidemiology will undoubtedly draw in still other disciplines. For example, determination of whether a set of characteristics is a cultural vector will require integration of insights from sociology, psychology, and anthropology because one needs to know not only how transmission occurs but also whether the social setting and human behavioural responses will permit transmission from immobilized infect individuals. Consider the cultural characteristics that permit transmission by hypodermic needles. If contaminated needles are moved from immobilized, infected people to susceptible people, and/or if the immobilized, infected people themselves are moved to the dirty needles, then the sets of cultural characteristics that permit such movements satisfy the definition of a cultural vector. Similarly, if intravenous drug users continue to use dirty needles in the face of evidence that dirty needles spread diseases such as AIDS and hepatitis, then the cultural vector involved in needles transmission represents a more formidable evolutionary pressure than if investments in dissemination of such knowledge eliminated the cultural vector.

Fonte: Ewald, P. W. 1988. In Harvey, P. H. & Partridge, L. Oxford Surveys in Evolutionary Biology 5: 215-45.

06 setembro 2020

Episódio da Campanha Russa


Nicolas-Toussaint Charlet (1792-1845). Épisode de la campagne de Russie. 1836.

Fonte da foto: Wikipedia.

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