19 fevereiro 2019

Nam neque de caelo cecidisse animalia possunt

Tito Lucrécio Caro

Nam neque de caelo cecidisse animalia possunt
Nec terrestria de salsis exisse lacunis.
Linquitur ut merito maternum nomen adepta
Terra sit, e terra quoniam sunt cuncta creata.
Multaque nunc etiam existunt animalia terris
Imbribus et calido solis concreta vapore;
Quo minus est mirum si tum sunt plura coorta
Et maiora, nova tellure atque aethere adulta.

Fonte: Papavero, N. & Balsa, J. 1986. Introdução histórica e epistemológica à biologia comparada, com especial referência à biogeografia, v. I. BH, Biótica & SBZ. Excerto correspondente aos versos 793-800 da obra De rerum natura (Liber quintus), escrita no século I antes da era cristã.

18 fevereiro 2019

A casamenteira


Gerard van Honthorst (1592-1656). De koppelaarster. 1625.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 fevereiro 2019

Recuerde el alma dormida

Jorge Manrique

Recuerde el alma dormida,
abive el seso y despierte
   contemplando
cómo se pasa la vida,
cómo se viene la muerte
   tan callando;
cuánd presto se va el plazer,
cómo después de acordado
   da dolor,
cómo a nuestro parescer
cualquiera tiempo pasado
   fue mejor.

Fonte (dois últimos versos): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 1. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro no último quarto do século 15.

12 fevereiro 2019

Doze anos e quatro meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/2, o Poesia contra a guerra completa 12 anos e quatro meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Doze anos e três meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: A. G. Forsdyke, Diana Wynne Jones, Edimilson de Almeida Pereira, Fátima Guedes, Gillian Flynn, João Carlos Taveira, Jodi L. Jacobson, Max Black e Porfirio Barba Jacob. Além de outros que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Adriaen van Ostade, Cornelis Bega e Richard Brakenburgh.

11 fevereiro 2019

A discriminação contra a mulher

Jodi L. Jacobson

As mulheres de Sikandernagar, uma aldeia do estado indiano de Andra Pradesh, trabalham durante três turnos por dia. Acordam às 4 horas da manhã, acendem fogões, ordenham búfalos, varrem o chão, vão buscar água e alimentam suas famílias. Das 8 da manhã às 5 da tarde, removem ervas daninhas das plantações em troca de um magro salário. No início da noite, vagueiam à procura de galhos, brotos e folhas para lenha de seus fogões, verduras silvestres para alimentar seus filhos e grama para alimentar os búfalos. Finalmente, voltam para casa para preparar a janta e realizar as tarefas domésticas noturnas. Trabalhando para sustentar suas famílias, essas mulheres despendem a cada semana o dobro das horas gastas pelos homens da aldeia. No entanto, elas não são proprietárias da terra na qual trabalham e a cada ano, não obstante todos os seus esforços, acham-se mais pobres e menos capazes de fornecer aquilo de que suas famílias necessitam para sobreviver.
[...]

Fonte: Jacobson, J. L. 1993. In: Brown, L. R., org. Qualidade de vida – 1993. SP, Globo.

09 fevereiro 2019

Orelha furada

Edimilson de Almeida Pereira

Dançar o nome com o braço na palavra: como
em sua casa um maconde.

Dançar o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.

Dançar o nome miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.

Dançar o nome em sete sapatos limpos para
domingo.

Dançar o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.

Dançar o nome com o braço na palavra berço.

Fonte: Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza Edições. Poema publicado em livro em 2003.

06 fevereiro 2019

Cena galante


Richard Brakenburgh (1650- 1702). Scène galante. 1698.

Fonte da foto: Wikipedia.

04 fevereiro 2019

Chuva

A. G. Forsdyke

A chuva é precipitação na forma de gotas de água de tamanho visível que caem da nuvem, enquanto as verdadeiras ‘gotinhas’ das nuvens, na sua maioria, ‘flutuam’ no ar. Pareceria, à primeira vista, que o processo que combina essas ‘gotinhas’ de maneira a formar as gotas da chuva é o simples processo de amalgamação, mas a verdade é que é complicado e até difícil de simular em laboratório. Milhares de ‘gotinhas’ invisíveis são necessárias para formar uma só gota de chuva.

As gotas de chuva variam em diâmetro de 0,5 a 5,5 mm, correspondente esta última medida ao seu tamanho máximo; qualquer gota maior, caindo pelo ar, desintegra-se em gotas menores. A resistência do ar estabelece uma velocidade máxima de queda para cada tamanho de gota; as gotas menores caem muito lentamente e as maiores caem a uma velocidade de cerca de 8 m por segundo. Isso é comparável com as velocidades médias do vento e explica por que razão, exceto com ventos muito leves, a chuva cai obliquamente.
[...]

A quantidade de chuva que cai durante determinado tempo é indicada como a profundidade de água que se produziria numa vasta superfície lisa impermeável. Geralmente é indicada em milímetros. A aparentemente pequena quantidade de 5 mm de chuva caindo continuamente durante várias horas é suficiente para produzir um dia chuvoso muito desagradável. Um dia com 25 mm espalhados durante várias horas já é considerado um tempo extremamente molhado. Cerca de 2,5 cm de chuva são equivalente a 101 toneladas de água (1 mm de chuva por m2 é igual a l L) em cerca de 4.000 m2 de terreno.
[...]  

Fonte: Forsdyke, A. G. 1978 [1969]. Previsão do tempo e clima, 2ª ed. SP, Melhoramentos.

02 fevereiro 2019

A peste


1.
Os curiosos acontecimentos que são o objeto desta crônica ocorreram em 194... em Orã. Segundo a opinião geral, estavam deslocados, já que fugiam um pouco à norma. À primeira vista, Orã é, na verdade, uma cidade comum e não passa de uma prefeitura francesa na costa argelina.

A própria cidade, vamos admitir, é feia. Com o seu aspecto tranquilo, é preciso algum tempo para se perceber o que a torna diferente de tantas outras vilas comerciais em todas as latitudes. Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas nem de folhas quebradas? Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados. Durante o verão, o sol incendeia as casas muito secas e cobre as paredes de uma poeira cinzenta; então só é possível viver à sombra das persianas fechadas. No outono, ao contrário, é um dilúvio de lama. Os dias bonitos só chegam no inverno.
[...]

Fonte: Camus, A. 2018 [1947]. A peste, 7ª ed. RJ, BestBolso.

31 janeiro 2019

Onze fitas

Fátima Guedes

Por engano ou vingança ou cortesia
estava lá morto e posto um desregrado,
onze tiros fizeram a avaria
e o morto já estava conformado.

Onze tiros num morto e pra que tantos...
esses tempos não estão pra ninharia,
não fosse a vez daquele um outro ia.

Deus o livre morresse assassinado
pro seu santo não era qualquer um.
Três dias num terreno abandonado
ostentando onze fitas de Ogum.

Tantas vezes se leu nessa semana.
E essa história é contada assim por cima:
A verdade não rima.
A verdade não rima.
A verdade não rima.

Fonte: álbum Saudade do Brasil (1980), de Elis Regina. Canção originalmente gravada em 1979.

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