18 janeiro 2017

Os mares rasos

Andrew C. Campbell

Os baixios ou mares raros podem ser, de uma maneira ampla, descritos como aqueles que cobrem as plataformas continentais. Formam a chamada província nerítica, em contraste com as províncias oceânicas do mundo. Em geral, as profundidades variam até 150 metros, à medida que o fundo do mar desce em declive suave, afastando-se da massa terrestre. Todos os oceanos do mundo são circundados por uma plataforma continental cuja extensão pode variar de um ou dois quilômetros. Em direção ao mar alto, a plataforma termina cedendo lugar ao declive continental que desce rapidamente até o fundo do oceano. O Mar do Norte é exemplo de mar que está completamente rodeado por massas de terra. É relativamente raso para o tamanho de sua área, pois se estende acima da plataforma continental entre a Inglaterra e a Europa.

Em termos biológicos, os mares pouco profundos são geralmente muito produtivos. Isto significa que têm o potencial para produzir uma grande quantidade de material orgânico, como peixes ou plâncton, partindo de matéria inorgânica. Há várias razões que contribuem para que isto aconteça mais neste tipo de mar do que nos oceanos. Primeiro, estão sob influência da terra, pelo menos nas águas próximas da costa. A terra fornece uma abundância de matéria inorgânica sob a forma de sais dissolvidos na água doce proveniente dos rios. Algumas substâncias orgânicas são também carregadas para o mar. As substâncias inorgânicas são as mais importantes para a nutrição do fitoplâncton, e o que já existe de maneira natural na água do mar é enriquecido pelos suprimentos provenientes da terra. O fitoplâncton pode, assim, desenvolver-se de acordo com a estação do ano e fornecer a etapa básica na complexa cadeia alimentar do mar. O fitoplâncton serve de alimento para plânctons herbívoros, como os copépodes, que, por sua vez, são devorados pelos peixes carnívoros, como as larvas de peixe, e invertebrados, como os ctenóforos e os vermes-setas ou sagitas.

O segundo ponto refere-se à profundidade dos mares rasos. Devido ao volume de água relativamente pequeno, a relação entre o volume [e a] superfície da água é baixa, comparada com a dos oceanos. Aqui devemos fazer uma pausa para considerar algumas características físicas da água do mar em relação aos organismos vivos.
[...]

Há necessidade da luz solar para que se realize a fotossíntese; por isso, o fitoplâncton nada em direção à superfície, quando essa está iluminada, e mergulha para o fundo, quando está escuro. Em muitos mares rasos, há grande quantidade de sais minerais nas camadas superficiais que auxiliam o fitoplâncton a ser produtivo, tendo como consequência a produtividade de todo o oceano.
[...]

Fonte: Campbell, A. C. 1978. O mundo maravilhoso dos seres do mar. RJ, Ao Livro Técnico.

16 janeiro 2017

Encontrei minhas origens

Oliveira Silveira

Encontrei minhas origens
em velhos arquivos
... livros
encontrei
em malditos objetos
troncos e grilhetas
encontrei minhas origens
no leste
no mar em imundos tumbeiros
encontrei
em doces palavras
... cantos
em furiosos tambores
... ritos
encontrei minhas origens
na cor da minha pele
nos lanhos de minha alma
em mim
em minha gente escura
em meus heróis altivos
encontrei
encontrei-as enfim
me encontrei

Fonte: Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza Edições. Poema publicado em livro em 1981.

14 janeiro 2017

Rua Real da Torre

Mauro Mota

Ó Rua Real da Torre,
que mistérios ocultais
nos chalés mal-assombrados
que aos fantasmas alugais?

Nos cemitérios dos sítios?
Nas casas de telha vã?
Nos crepúsculos pousados
nas copas dos flamboyants?

Um cheiro de moça noiva
chega dos velhos jardins.
Ressurgem tranças com ramos
de resedás e jasmins.

Os vizinhos nas calçadas
logo depois do jantar.
Cadeiras de lona se abrem
para as almas conversar.

Vozes que ficaram presas.
Seresteiros e pregões.
Sonatas de antigos pianos,
valsas lentas de violões.

Que invisíveis transeuntes
pisando na areia vêm?
Existem rastos na areia,
mas não se sabe de quem.

Entra a rua em agonia,
e este último lampião
é a vela acesa que a rua
quase morta tem na mão.

Passantes de um lado e outro,
para onde te levarão?
Ó Rua Real da Torre,
vão levando o teu caixão. 

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1952.

13 janeiro 2017

Órgãos elétricos

Robert T. Orr

Entre as estruturas singulares desenvolvidas pelos vertebrados estão os órgãos elétricos, que são encontrados em vários grupos de peixes. Em algumas espécies, a corrente elétrica produzida é bem fraca; porém, em outros, é muito forte. A descarga máxima registrada para o poraquê (Electrophorus electricus) é de 550 volts; para o bagre-elétrico (Malapterurus electricus), 350 volts; e para a raia-elétrica (Torpedo nobiliana), 220 volts.

Fonte: Orr, R. T. 1986. Biologia dos vertebrados, 5ª ed. SP, Roca.

12 janeiro 2017

Dez anos e três meses no ar

F. Ponce de León

Nesta quinta-feira, 12/1, o Poesia contra a guerra completa 10 anos e três meses no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 309.796 visitas ocorreram ao longo desse período.

Desde o balanço anterior – Dez anos e dois meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Arthur Jensen, Glaucia N. M. Hajj, Hugh D. Young, Jean Lacroix, Margaret Mead, Marilene H. Lopes, Murillo Araújo, Rhoda Métraux, Roger A. Freedman e W. H. Auden. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Granville Redmond e Sassoferrato.

10 janeiro 2017

A crença

Jean Lacroix

Das análises precedentes resulta que o que se denomina, desde Kant, a teoria do conhecimento deveria tornar-se mais exatamente uma teoria da crença. O problema essencial do personalismo, o teste pelo qual se pode e se deve julgá-lo é o da natureza e valor da crença. O que eu não sei, costumava repetir Goblot, eu o ignoro. E por saber compreendia ele unicamente o conhecimento científico: tudo o que não é ciência é não saber, não conhecimento. Somente a razão é racional, somente a inteligência é inteligente, a condição para a certeza é defender-se contra a parcialidade do sentimento e a arbitrariedade da vontade. A crença pode, pois, ser boa, isto é, útil, pois a ciência é imperfeita e as ações da vida não sofrem retardamento; mas ela não poderia ser verdadeira. Portanto, deve-se recusar-lhe todo valor de conhecimento. Ela é puramente subjetiva e a insinceridade intelectual consiste exatamente em tomar como conhecimento o que não o é. “Na noção de crença há qualquer coisa de equívoco: a crença é aquilo que, sem ser um ato de conhecimento, pretende fazer-se passar por tal”. Admite-se que o racionalismo possa ser desdobrado de fato em uma espécie de fideísmo, mas com a condição de que seus domínios permaneçam inteiramente separados, que o primeiro comande do juízo e o segundo a prática: é preciso saber que se crê e não crer que se sabe. O essencial, na ordem do conhecimento, é rejeitar implacavelmente tudo que não for certo: toda vontade de crer deve se transformar em vontade de duvidar.
[...]

Fonte: Lacroix, J. 1972 [1962]. Marxismo, existencialismo, personalismo. RJ, Paz e Terra.

08 janeiro 2017

He wishes for the cloths of heaven

W. B. Yeats

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

Fonte: Pinto, J. N. 2002. Solos do silêncio, 3ª ed. SP, Geração Editorial. Poema – então sob o título ‘Aedh wishes for...’ – publicado em livro em 1899.

06 janeiro 2017

Manhã no Pacífico


Granville [Richard Seymour] Redmond (1871-1935). Morning on the Pacific. 1911.

Fonte da foto: Wikipedia.

04 janeiro 2017

Lisboa revisited

Fernando Pessoa

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Fonte: Melo e Castro, E. M. 1973. O próprio poético. SP, Quíron. Poema publicado – sob o heterônimo de Álvaro de Campos – em 1923.

02 janeiro 2017

Hereditária e infecciosa

Marilene H. Lopes & Glaucia N. M. Hajj

[O] DNA pode ser comparado a um livro de instruções para a montagem de brinquedos: os genes seriam os capítulos do livro, e cada capítulo teria as instruções sobre como montar as peças de um brinquedo (as peças, nesse caso, seriam os aminoácidos, e os brinquedos montados seriam as proteínas).

O gene Prnp tem as informações para a síntese da proteína PrPc, presente em todas as células do corpo [...]. No entanto, quando há alguma mutação (uma alteração na sequência do gene), o PrPc formado é defeituoso – a forma mutante foi batizada de príon [da expressão em inglês para ‘partícula infecciosa puramente proteica’]. Este muda espontaneamente de forma e causa algumas das doenças priônicas [...]. Como o gene mutado é transmitido de pais para filhos, tais doenças são hereditárias. Mesmo a proteína PrPc sem nenhuma mutação pode mudar de forma, ao entrar em contado com o príon adquirido em carne e hormônio contaminados ou em cirurgias [..]. Diz-se, por isso, que essas doenças são ao mesmo tempo hereditárias e infecciosas.

Fonte: Lopes, M. H. & Hajj, G.N. M. 2005. Doenças priônicas: misteriosas e fatais para animais e humanos. Ciência Hoje 218: 18-25.

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