24 setembro 2017

Bacias de drenagem

Ana Luiza Coelho Netto

Encostas, topos ou cristas e fundos de vale, canais, corpos de água subterrânea, sistemas de drenagem urbanos e áreas irrigadas, entre outras unidades espaciais, estão interligados como componentes de bacias de drenagem. A bacia de drenagem é uma área da superfície terrestre que drena água, sedimentos e materiais dissolvidos para uma saída comum, num determinado ponto de um canal fluvial. O limite de uma bacia de drenagem é conhecido como divisor de drenagem ou divisor de águas. Uma determinada paisagem pode conter [certo] número de bacias drenando para um reservatório terminal comum, como os oceanos ou mesmo um lago. A bacia de drenagem pode desenvolver-se em diferentes tamanhos, que variam desde a bacia do rio Amazonas até bacias com poucos metros quadrados que drenam para a cabeça de um pequeno canal erosivo ou, simplesmente, para o eixo de um fundo de vale não canalizado. Bacias de diferentes tamanhos articulam-se a partir dos divisores de drenagem principais e drenam em direção a um canal, tronco ou coletor principal, constituindo um sistema de drenagem hierarquicamente organizado.

Fonte: Coelho Netto, A. L. 1998. Hidrologia de encosta na interface com a geomorfologia. In: Guerra, A. J. T. & Cunha, S. B., orgs. Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos, 3ª ed. RJ, Bertrand.

23 setembro 2017

Óleos essenciais

Otto R. Gottlieb & Antonio Salatino

Óleos essenciais são produtos vegetais separáveis por arraste com vapor d’água. Existem nas plantas em estruturas especiais de secreção, tais como estruturas celulares (organelas ou células especializadas), cavidades e canais esquizógenos ou lisígenos (originados por separação ou lise de células) e pelos glandulares, podendo ainda ser depositados no lenho das árvores. As duas características já citadas, a volatilidade com vapor d’água e a existência em estruturas anatômicas definidas, são mais importantes para a classificação como óleo essencial do que uma terceira, o odor. De fato, muitos outros produtos vegetais são igualmente odoríferos (exemplos: perfumes das flores, compostos sulfurosos das algas) ou geram substâncias odoríferas após fermentação (exemplos: glicosídeos cianogenéticos, proteínas) sem serem incluídos entre os óleos essenciais.

Os constituintes químicos de óleos essenciais podem pertencer às mais diversas classes de substâncias. Em geral, no entanto, predominam vastamente os terpenoides e os lignoides [...].

Fonte: Gottlieb, O. R. & Salatino, A. 1987. Função e evolução de óleos essenciais e de suas estruturas secretoras. Ciência e Cultura 39: 707-16.

19 setembro 2017

Queixa das almas jovens censuradas

Natália Correia

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Dão-nos a vista recomendada
Duma janela sem comboio
Para não sabermos que madrugada
Bebeu a seiva dum arroio.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1957.

17 setembro 2017

Música das esferas

Dava Sobel

Entre 1914 e 1916, o músico inglês Gustav Holst compôs o único tributo sinfônico ao Sistema Solar de que se tem notícia, seu Opus 32, Os planetas, Suíte para orquestra. Nem a sinfonia Mercúrio (número 43 em mi bemol maior) de Haydn nem a sinfonia Júpiter (número 41 em dó, K. 551) de Mozart se propuseram a tanto. Na realidade, o título Júpiter só foi associado à obra de Mozart décadas após sua morte. Do mesmo modo, a sonata ‘Ao luar’ de Beethoven foi conhecida por trinta anos como Opus 27, número 2, até que um poeta afirmou que sua melodia lembrava o luar brilhando sobre um lago.

A suíte Os planetas possui sete movimentos, não nove. Plutão ainda não havia sido descoberto quando Holst compôs a peça e a Terra também foi excluída. Mas a obra persiste até hoje como o acompanhamento musical da era espacial, em parte porque as pessoas ainda a apreciam e em parte porque nenhuma obra surgiu para suplantá-la. E, para compensar suas omissões, compositores contemporâneos ampliaram-na com novos movimentos, como ‘Plutão’, ‘Sol’ e ‘Planeta X’.

O interesse de Holst pelos planetas foi despertado pela astrologia. Em 1913, após um surto de leituras sobre o assunto, ele começou a fazer os mapas de amigos e a pensar nos planetas em termos do seu significado astrológico, como ‘Júpiter, o portador da jovialidade’, ‘Urano, o mago’ e ‘Netuno, o místico’. Sua filha e biógrafa, Imogen, que também era compositora, lembra-se de que foi o “vício predileto” de seu pai, a astrologia, que o levara ao estudo da astronomia, “e seu entusiasmo por ela elevava-lhe a temperatura toda vez que tentava compreender coisas demais ao mesmo tempo. Ele perseguia sem cessar a ideia do contínuo espaço-tempo”.
[...]

Fonte: Sobel, D. 2006. Os planetas. SP, Companhia das Letras.

15 setembro 2017

Tempestade na costa norueguesa


Andreas Achenbach (1815-1910). Ein Seesturm an der norwegischen Küste. 1837.

Fonte: Wikipedia.

13 setembro 2017

Uma palavra, outra mais, e eis um verso

Antonio Carlos Secchin

Uma palavra, outra mais, e eis um verso,
Doze sílabas a dizer coisa nenhuma.
Esforço, limo, devaneio e não impeço
Que este quarteto seja inútil como a espuma.

Agora é hora de ter mais seriedade,
Senão a musa me dará o não eterno.
Convoco a rima, que me ri da eternidade,
Calço-lhe os pés, lhe dou gravata e um novo terno.

Falar de amor, oh pastora, é o que eu queria,
Mas os fados já perseguem teu poeta,
Deixando apenas a promessa da poesia,

Matéria bruta que não cabe no terceto.
Se o deus frecheiro me lançasse a sua seta,
Eu tinha a chave pra trancar este soneto.

Fonte: Hollanda, H. B., org. 2001 [1976]. 26 poetas hoje, 4ª ed. RJ, Aeroplano.

12 setembro 2017

Dez anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/9, o Poesia contra a guerra completou 10 anos e onze meses no ar. Como mencionei no balanço mensal anterior, o principal contador de visitas saiu do ar. Os números fornecidos pelo contador secundário, de livre visitação, não são igualmente confiáveis.

Desde o balanço anterior – Cento e trinta meses no ar – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Chris Rorres, Harold Hart Crane, Howard Anton, Jorge Faleiros, José Carlos Ometto, Louis Levine, Luiz Gama, Malthus de Paula, Miguel de Cours Magalhães, Ronald A. Fisher, Sânzio de Azevedo e William Paley. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Thomas Moran e William Keith.

10 setembro 2017

Ormuz

Miguel de Cours Magalhães

O glorioso sultão de Omã, Bin Saif Ya’rubi, ordena-me que passe ao papel toda a história da vida do famoso Rui Freire de Andrade, de terrível memória e do qual fui escravo e escudeiro entre os anos que os cristãos contam de 1610 a 1634, ou, se preferirem, entre os anos de 988 e 1012 da Héjira.

Por esse tempo estive eu sempre com ele. As minhas memórias desses anos são iguais às dele. Fui a sua sombra quando foi capitão na Índia e capitão geral dos estreitos. Sei de cor os seus movimentos, tudo o que fez, viu e sentiu. Lia-lhe os estados de alma como um livro aberto, já que o acompanhei durante tantos e tão longos anos. Pode o leitor estar seguro que tudo o que eu disser corresponde ao que se passou até ao mais ínfimo pormenor. Pensará que entre nós não houve a intimidade suficiente, sendo ele meu amo e eu um simples escravo. Puro engano. Muito depressa tivemos intimidade e confiança que vão para além da fraternidade. De resto, garanto que tudo o que narrar vivi; e, se me equivoquei, certamente que não enganarei a si, contando-o.
[...]

Fonte: Magalhães, M. C. 2008. Ormuz. SP, Landscape.

08 setembro 2017

Balanço hídrico

José Carlos Ometto

As solicitações da planta junto ao solo, da atmosfera junto à planta e [o] solo como armazenador de água ficam bem caracterizados quando do conhecimento do balanço hídrico. Ele contabiliza toda a água envolvida entre os sistemas solo, planta e atmosfera, podendo oferecer a qualquer instante a quantidade de água disponível contida em um perfil de solo predeterminado. O balanço hídrico, portanto, é uma ferramenta extremamente útil, tanto no aspecto de solução imediata quanto, e principalmente, no aspecto analítico de uma situação passada. Também é caracterizado como indicador [do] potencial climatológico de um local para um vegetal qualquer.
[...]

Fonte: Ometto, J. C. 1981. Bioclimatologia vegetal. SP, Ceres.

06 setembro 2017

Natural Selection is not Evolution

Ronald A. Fisher

[Prefácio]
Natural Selection is not Evolution. Yet, ever since the two words have been in common use, the theory of Natural Selection has been employed as a convenient abbreviation for the theory of Evolution by means of Natural Selection, put forward by Darwin and Wallace. This has had the unfortunate consequence that the theory of Natural Selection itself has scarcely ever, if ever, received separate consideration. To draw a physical analogy, the laws of conduction of heat in solids might be deduced from the principles of statistical mechanics, yet it would have been an unfortunate limitation, involving probably a great deal of confusion, if statistical mechanics had only received consideration in connexion with the conduction of heat. In this case it is clear that the particular physical phenomena examined are of little theoretical interest compared to the principle by which they can be elucidated. The overwhelming importance to the biological sciences partly explains why the theory of Natural Slection should have been so fully identified with its role as an evolutionary agency, as to have suffered neglect as an independent principle worthy of scientific study.
[...]

Fonte: Fischer, R. A. 1958. The genetical theory of natural selection, 2nd ed. NY, Dover.

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