17 setembro 2026

Descobri-a numa casa da rua da Atalaia


Descobri-a numa casa da rua da Atalaia quando
pelos dias do inverno vou a caminho das aulas.
Por detrás dos vidros tem a tonalidade do marfim.
Julgo reconhecer a deusa indiana Laksmi neste

produto indo-português de fim de império. O
rosto surge-me sempre iluminado pelo castanho dos
olhos. Sorrindo prende nos dedos um brinco
é o adereço da sua nudez.

Ladeiam-na duas mulheres. São em mais pequeno
as suas próprias formas. Cariátides servindo de
criadas quase as sei lançando água sobre a cabeça
da deusa, criatura mortal.

O pouco que sabemos das terras acabando no porto
de Lisboa é a presença desta suave puta.
Esqueço o comércio das aulas e faço das ruas do
Bairro Alto estradas caravaneiras levando aos

portos da Síria ao Golfo Pérsico ao mar de Eritreia.
E tenho, todas as manhãs, a presença deste objecto
de arte, de arte da Índia.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1979.

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