Íntimo
Mário Pederneiras
A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o – do ganha-pão – rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.
E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.
Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
Vive a sonhar cousas suaves,
Venturas, ilusões, pores-de-sol e aves,
Tudo através de uma visão bizarra,
Tudo através de uma impressão amiga...
É a eterna Cigarra
Obrigada a fingir que é a eterna Formiga.
Sonha... E o Sonho para a vida enfática
De agora
Atinge as proporções de um crime ou de um pecado...
Ter ilusões, coitado!
Quando a glória é sentir que sobre nós se escora
Todo o peso burguês da vida prática.
É por isso que o Poeta arrasta a funda
Sorte penosa dos incompreendidos...
Pois apurou demais os seus cinco sentidos
Para ver e sentir a vida que o circunda.
Este é o seu rumo, este é o seu fim,
Nem que tente evitar, não pode ou sabe...
Mas que culpa lhe cabe
Se ele, coitado, já nasceu assim?
Se não merece apodos
Nem ódio ou menoscabo...
Para este tempo que a visão lhe acanha,
Há de ser sempre uma figura estranha,
Um pobre diabo
Que sofre mais que todos.
Fonte (v. 1 e 2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1912.
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