10 junho 2026

Milagre ou escândalo?

Felipe A. P. L. Costa

Nos últimos dias, diversos veículos de imprensa (nacionais e estrangeiros) fizeram algum alarde em torno da notícia de que um guia xerpa, desaparecido havia cinco ou seis dias, foi ‘encontrado’ com vida em Sagarmatha (Everest) [1]. Não foi um milagre, como alguns disseram, foi um escândalo. Um escândalo de múltiplas facetas [2].

Para começar, o guia – conhecido como Hillary Dawa Sherpa, de 52 anos – não foi achado; ele veio se arrastando montanha abaixo (ficou mais de dois dias preso em uma fenda). Entre o acampamento principal da Face Sul (5.364 m de altitude) e o topo do Everest (8.848 m), há quatro bases escalonadas. Quando foi visto pela última vez antes de ser dado como morto ou desaparecido, em 29/5, Dawa estava acima da base 3 (7.500 m). Quando foi visto de volta, em 4/6, estava a 5.500 m de altitude, abaixo da base 1 e a caminho do acampamento principal. Foi visto e atendido por colegas; em seguida, foi levado de helicóptero até o hospital, em Catmandu.

O escândalo maior é o fato de que a empresa para quem Dawa estava a trabalhar não providenciou o envio de uma turma de resgate – desde o primeiro dia (29), ao que parece, o guia foi dado como desaparecido. E os relatos informam que todos na montanha sabiam que um xerpa havia sido deixado para trás ainda com vida. (Tendo sido informada do desaparecimento, a família já estava a preparar o funeral. Com os relatos posteriores e a repercussão do caso, a família anunciou que pretende processar os responsáveis pelo escândalo.)

Para a indústria do turismo que opera na região, a vida de um xerpa parece valer tanto quanto um tubo de oxigênio. Não foi o primeiro caso e não será o último. A grande diferença foi que, dessa vez, o guia sobreviveu [3]!

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NOTAS.

[1] Com pouco mais de 147 mil km2 de área territorial (pouco menos que os quase 149 mil km2 do Ceará), o Nepal está espremido entre o sudoeste da China e o nordeste da Índia. O relevo do país é dominado pelos gigantes da cordilheira dos Himalaias, incluindo Sagarmatha (8.848 m de altitude), a maior elevação montanhosa da Terra. Entre nós, brasileiros, o Monte Sagarmatha (mãe do universo, para os nepaleses) é mais conhecido como Monte Everest – alusão a George Everest (1790-1866), cartógrafo inglês que trabalhou na região. Os tibetanos chamam a montanha de Chomolungma (deusa mãe do mundo) e os chineses de Qomolangma Feng (mãe sagrada das águas). Em maio de 1953, o neozelandês Edmund Hillary (1919-2008) e o xerpa Tenzing Norgay (1914-1986) foram os primeiros seres humanos a pisar no topo do Everest.

[2] Para uma descrição mais detalhada do que houve, ver aqui.

[3] Faz tempo que o Everest se converteu em uma Disneylândia: gentes do mundo inteiro se mostram dispostas a (i) esperar na fila (são ao menos três: a fila de espera pelo visto do governo nepalês, a da agência de turismo contratada e a fila física, real, durante a própria escalada); e (ii) pagar algumas dezenas de milhares de dólares para ir ‘passear’ na montanha mais alta da Terra. (Só na atual temporada, mais de 1 mil pessoas escalaram o Everest, um recorde; foram registradas ao menos cinco mortes.) Como outras modalidades do turismo, o turismo de aventura é uma praga insidiosa. (A experiência negativa mais próxima que eu tive talvez tenha sido a visita que fiz – a convite de alunos – ao Parque Nacional Foz do Iguaçu, em novembro de 2006. Foi só congestionamento e barulho: muita gente, muitas lanchas, muitos sobrevoos de helicóptero; em resumo, um filme de horror.)

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