Um livro ilegível pela intensidade
António Ramos Rosa
Um livro ilegível pela intensidade
a cal do muro as unhas a ferrugem
as obscuras qualidades os acordes
que nomeiam o secreto e o longínquo
o cenário das folhas como orquestras
a miséria do nome o seu fulgor de árvore
o dédalo do corpo sob a águas metálicas
a pupila e a sede a pupila da sede
os desastres das palavras os seus motins errantes
um país que se oferece entre obscuras árvores
um corpo e outro corpo os sopros os rumores
que o vento traz entre os arbustos brancos
Nenhum gesto divide a redondez nocturna
em que a palavra habita a nascente secreta
Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1988.

0 Comentários:
Postar um comentário
<< Home