Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força
Noam Chomsky
Os termos do discurso político têm tipicamente dois significados. Um é o significado do dicionário, e o outro é o significado utilizado para servir ao poder – o significado doutrinário.
Veja o termo democracia. De acordo com o significado comum, uma sociedade é democrática para que extensa parte do povo possa participar, de modo significativo, da direção de seus interesses. Mas o sentido doutrinário de democracia é diferente: ele se refere ao sistema no qual as decisões são tomadas pelos setores da comunidade empresarial e a elite a ele relacionada. O público é apenas ‘espectador da ação’, não ‘participante’ como os principais teóricos democráticos (neste caso, Walter Lippmann) têm explicado. Ao povo é permitido ratificar as decisões das autoridades superiores e dar apoio a um ou outro representante deles, mas nunca interferir em assuntos – como política pública – que não lhe dizem respeito.
Se segmentos do povo saírem de sua apatia e começarem a se organizar e a entrar na arena pública, isso não será democracia. Será antes uma crise na democracia no exato uso técnico do termo, será uma ameaça que terá de ser superada de uma ou de outra maneira: em El Salvador, pelos esquadrões da morte, aqui, nos EUA, por meios mais sutis e indiretos.
Ou veja o termo livre empresa, que na prática se refere ao subsídio público e ao lucro privado, com maciça intervenção governamental para manter um estado de bem-estar para os ricos. Na realidade, é provável que em seu uso corrente qualquer frase contendo a palavra ‘livre’ signifique o oposto do seu sentido real.
Veja ainda o termo defesa contra a agressão, que é usado – previsivelmente – para se referir à agressão. Quando os EUA atacaram o Sul do Vietnã, no início dos anos 1960, o herói liberal Adlai Stevenson (entre outros) explicou que nós estávamos “defendendo o Vietnã do Sul contra a agressão interna”, isto é, a agressão dos camponeses sul-vietnamitas contra a Força Aérea americana e o exército mercenário mantido pelos EUA, que os arrancava de suas casas para os campos de concentração, onde eles poderiam ser ‘protegidos’ dos guerrilheiros do Sul. De fato, esses camponeses apoiavam com disposição os guerrilheiros, enquanto o regime apoiado pelos EUA era uma casca vazia, com o que todos os lados concordavam.
Fonte: Chomsky, N. 1996. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília, Editora UnB.

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