24 outubro 2006

Traduzir-se

Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Fonte: encarte que acompanha LP do álbum Traduzir-se (1981), de Raimundo Fagner.

1 Comentários:

Blogger Jorge L. Campos disse...

Bonito.
da ate vontade de começar a ouvir Fagner ..rs

24/10/06 11:27  

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