14 fevereiro 2007

A Sierguéi Iessiênin

Vladímir Maiakóvski

Partistes,
como dizem
para o outro mundo.
O vazio...
Estais planando,
até o céu bordado de estrelas.
Chega de adiantamentos
e de pinga.
Sobriedade.
Não, Iessiênin
isto não é
zombaria.
Na minha garganta
nada de escárnio
mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo
com uma mão de cera hesitando
agitar
o saco
de vossos próprios ossos.
Parai,
deixai para trás!
Que idéia é essa
de derramar
no vosso rosto
este giz mortal?
Vós
que sabíeis escrever coisas
como ninguém
no mundo.
Por quê?
E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
“De quem é a culpa?
Muito a dizer...
mas sobretudo
lhe faltava ‘ligação’
O resultado?
Muita cerveja e vodca.”
Dizem
que vós deveríeis
ter trocado a boêmia
pela classe;
A classe vos teria influenciado,
fim das brigas.
Mas essa classe
a sua sede
ela a sacia com kvas?
A classe
ela também, para beber
entende um bocado.
Dizem
que se vos houvessem juntado
alguém de Sentinela
teríeis
feito
muitos progressos:
poderíeis
a cada dia
escrever
vossos cem versos,
chatos
e compridos
como Doronine.
Para mim
se este delírio
se tivesse realizado
vós teríeis
muito mais cedo
sobre vos mesmo se atacado.
Melhor
morrer de vodca
do que de tédio!
Nem a forca
nem a faca
nos darão a chave
desta perda.
Talvez
se tivesse havido tinta
no Hotel Inglaterra
o Senhor poderia ter evitado
de se cortarem as veias.
Os imiadores se alegram:
“Bis!”
Todo um pelotão
que faz
sobre si mesmo, justiça.
Por que
aumentar
o número dos suicídios?
Melhor seria
aumentar
a produção de tinta!
Para sempre
agora
esta língua
fica presa atrás destes dentes.
É duro
e deslocado
fazer mistérios.
O povo
aquele que cria a língua
perdeu
um de seus artesãos
farristas
e sonoros.
E trazem
as quinquilharias dos versos funerários
quase os mesmos
desde o último enterro.
Deveríamos dispersar
no féretro
com um cajado
estes versos inexpressivos.
É assim

que se homenageia

um poeta?

Ainda não vos

construíram um monumento;

onde estão os quilos de bronze

ou os gramas de granito?

que diante da grade da lembrança

já tragam

as bugigangas

das homenagens e dedicatórias.

O vosso nome

é colocado em lenços,

Sobinov

baba as vossas palavras

e sob uma árvore magrinha

ele agoniza:

“Nem mais uma palavra, meu amigo,

nem um suspi-i-i-ro”

Ah!

é de outra forma que deveríamos falar

a esta espécie

de Leonid Lohengrin!

Levantar-se

em fulminante escândalo,

– Eu não permito

que se mastigue

e se massacre

assim os versos!

Assobiar com os dedos

até deixá-los surdos

e mandá-los ao diabo!

Que fujam

esses detritos sem talento,

enchendo

as velas de seus paletós.

Que Kogan

levado em sua debandada

espete os transeuntes

com seu bigode.

A sacanagem

hoje em dia

ainda não ficou rara.

A tarefa é grande

mal bastamos

É preciso primeiro

refazer a vida,

uma vez refeita

poderemos cantá-la.

O nosso tempo, para a pena,

não é muito fácil.

Mas digam-me

os aleijados, os impotentes.

Onde

e quando

aqueles que são grandes

escolheram

os caminhos traçados e fáceis?

A palavra

é capitã

da força humana.

Para a frente, andemos

e que o tempo

estoure em bombas.

Que o vento que sopra

para os dias passados

só leve

mechas de cabelos misturados.

Para a alegria

o nosso planeta

ainda está mal preparado.

É preciso

extorquir

a alegria

aos dias futuros.

Nesta vida,

morrer não é difícil

Construir a vida

é bem mais difícil.


Fonte: Maiakóvski. 2006. Vida e poesia. SP, Martin Claret. Poema originalmente publicado em 1926.

2 Comentários:

Blogger Adriano Miranda disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

15/7/17 09:35  
Blogger Adriano Miranda disse...

SERGUEI ALEXANDROVICH IESSIENIN não cometeu suicídio, como foi divulgado na época e até hoje difundido por muitos. IESSIENIN foi torturado e assassinado pela polícia secreta da então fundada URSS, já sob o comando de Stalin. Com o fim da URSS em 1991, as fotos do corpo de IESSIENIN no Hotel Inglaterra, em São Petersburgo e as fotos da autópsia ( todas disponíveis na internet ) mostram sérios ferimentos no crânio, ferimentos de perfuração aguda. Testemunhos de personagens da época que carregaram o corpo do Hotel Inglaterra ( disponíveis na internet, em russo ) apontam que o mesmo estava coberto de pó, sugerindo que o poeta morreu em outro lugar e foi transportado para o hotel. Seu suicídio foi uma encenação. Um estudo mais atento esclarece hoje esse episódio e os próprios russos estão se dando conta de que, o que Kruschev revelou em 1956 contra o Stanilismo era pouco. Os fatos realmente começaram vir à tona com o fim da URSS.

IESSIENIN foi mais uma vítima do socialismo soviético, vítima que já estava sendo monitorada pelo governo desde suas viagens aos EUA e seu casamento com a bailarina norte-americana Isadora Duncan. Defensor da liberdade de expressão, sua filosofia estava em desacordo com o controle total da arte pelo governo russo, que desejava apenas panfletismo comunista. O poeta estava sendo considerado um indivíduo por demais ocidentalizado.

Adriano Miranda ( Franca- SP )- Historiador e professor

15/7/17 09:38  

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