15 junho 2026

Ausência

Arturo Torres-Rioseco

Ausência de quatorze anos,
Silêncio, mar e distância,
Quedam-se-te os olhos lentos,
Perdem-se em longes de nácar,
Açucenas de teus pés
Assomando em folharada,
Mastro roto de baixéis
Lançado à areia da praia.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Marinheiro de ilusões,
Comandante de uma barca
Tinta de prata e de rosa,
Tinta de rosa e de prata,
Pescador que atirou redes
Às sereias de Montmartre,
E em Saaras inexistentes
Guiou loucas caravanas.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Não quero ver meu deserto,
Ausência ao cabo amorável,
Pluma sobre o meu chapéu,
Fragrância em minhas narinas,
Deslumbramento nos olhos,
Em meus ouvidos um sino,
Formigas que se alimentam
Da inquietação dos meus passos.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Agora volto e não sou;
A alma se me fatigava,
A cinza de muitos fogos
Já me dá cor de mortalha,
Sombras de muitas paixões
Para sempre sepultadas,
Nem sei se posso volver
A gozar de tuas águas.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Por te desejar de longe
Apertaram-me as entranhas
Acontecimentos que
Tua nitidez toldavam;
Minhas frases em teu corpo
Agudos fios de espada,
E em teu coração a triste
Flor azul das minhas ânsias.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

No torso sanguinolento
Surdem línguas escarlatas,
Ogres e carabineiros
Te mantinham sequestrada,
Revoavam nos céus cinzentos
Gaviões de compridas garras,
Pobres pombos da saudade
Chegavam de asas quebradas.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Podem prender minhas mãos
Resinas de tuas chagas,
Em minhas colmeias trago
Mel para as tuas desgraças,
A abelha que o fabricou
Não era abelha, era infanta
Pelas artes de uma bruxa
Quatorze anos encantada...

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Sinto esvanecer-se a ausência
Entre o passado e o futuro,
Desígnios imaginados
Sob as patas de uma aranha
Que tece teias azuis,
Que tece flores delgadas
Para te abrigar os peitos
E a bonina das espáduas...

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Recebe-me em teus sorrisos,
Arco-íris de tuas alvas;
Recolhe-me nos teus sonhos,
Clarezas de tuas águas:
Pois quero voltar a ser
Cabreiro em tuas montanhas,
No teu seio adormecer
Com o candor de uma criança.

Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Ausência de quatorze anos,
Marinheiro em terra estranha,
Para me lembrar de ti
Tenho as têmporas de prata,
Se queres suster-me o vôo
Acaricia-me as asas,
Que doces olhos me deitas,
Que suaves mãos, ó pátria!

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira. Poema publicado em livro em 1932.

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