06 julho 2026

A demiurgia do riso

Natália Correia

E cada vez que celebrei o
Deus Riso, floresceu em mim
um novo invento.

Cortaram-me os pulsos. Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.

Partiram-me ao meio dizendo “é agora!”
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.

Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.

E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1958.

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