05 dezembro 2006

Encontro com um poeta

João Cabral de Melo Neto

Em certo lugar da Mancha,

onde mais dura é Castela,

sob as espécies de um vento

soprando armado de areia,

vim surpreender a presença,

mais do que pensei, severa,

de certo Miguel Hernández,

hortelão de Orihuela.

A voz desse tal Miguel,

entre palavras e terra

indecisa, como em Fraga

as casas o estão da terra,

foi um dia arquitetura,

foi voz métrica de pedra,

tal como, cristalizada,

surge Madrid a quem chega.

Mas a voz que percebi

no vento da parameira

era de terra sofrida

e batida, terra de eira.

Não era a voz expurgada

de sua obras seletas:

era uma edição do vento,

que não vai às bibliotecas,

era uma edição incômoda,

a que se fecha a janela,

incômoda porque o vento

não censura mas libera.

A voz que então percebi

no vento da parameira

era aquela voz final

de Miguel, rouca de guerra

(talvez ainda mais aguda

no sotaque da poeira;

talvez mais dilacerada

quando o vento a interpreta).

Vi então que a terra batida

do fim da vida do poeta,

terra que de tão sofrida

acabou virando pedra,

se havia multiplicado

naquelas facas de areia

e que, se multiplicando,

multiplicara as arestas.

Naquela edição do vento

senti a voz mais direta:

igual que árvore amputada,

ganhara gumes de pedra.


Fonte: Melo Neto, J. C. 1994. Obra completa: volume único. RJ, Nova Aguilar. Poema originalmente publicado em 1956.

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