31 maio 2007

A angústia da influência

Harold Bloom

Este pequeno livro apresenta uma teoria da poesia através de uma descrição da influência poética, ou estória das relações intrapoéticas. Um dos objetivos dessa teoria é de natureza corretiva: acabar com a idealização de nossas versões oficiais de como um poeta ajuda a formar outro. Outro objetivo, também da mesma natureza, é o de procurar desenvolver uma poética que nos leve a uma forma mais adequada e pragmática de crítica.

A história da poesia, segundo a tese deste livro, é considerada como indistinguível da influência poética, já que os poetas fortes fazem a história deslendo-se uns aos outros, de maneira a abrir um espaço próprio de fabulação.

Meu interesse único, aqui, são os poetas fortes, grandes figuras com persistência para combater seus precursores fortes até a morte. Talentos mais fracos são presas de idealizações: a imaginação capaz se apropria de tudo para si. Mas nada vem do nada e a apropriação envolve, portanto, imensas angústias de débito: pois que criador forte jamais desejaria a consciência de não se ter criado a si mesmo? Oscar Wilde, que sabia ter fracassado como poeta, porque não tivera forças para superar sua angústia da influência, sabia também das verdades mais negras com relação a ela. [...] Wilde comenta amargamente, em The portrait of Mr. M. H., que “a influência é simplesmente uma transferência de personalidade, uma maneira de entregar a outro o que se tem de mais precioso; seu exercício produz uma sensação e talvez mesmo a realidade de uma perda. Todo discípulo se apodera de alguma coisa do seu mestre”. Esta é a angústia de influenciar, mas reversão alguma nesta área é uma reversão verdadeira. [...]

Nietzsche e Freud são, a meu ver, as influências primárias sobre a teoria da influência exposta neste volume. Nietzsche é o profeta do antitético, e sua Genealogia da moral é o mais profundo estudo por mim conhecido sobre as tensões revisionárias e ascéticas do temperamento estético. As investigações de Freud sobre os mecanismos de defesa e suas ambivalências oferecem, de sua parte, as analogias mais claras que jamais encontrei para as proporções, ou “razões revisionárias” regendo as relações intrapoéticas. [...] Tanto Nietzsche como Freud subestimaram a poesia e os poetas; um e outro, no entanto, concederam mais força à fantasmagoria do que, na verdade, possui. Também eles, a despeito de seu realismo moral, superidealizaram a imaginação. O poeta Yeats, discípulo de Nietzsche, e um discípulo de Freud, Otto Rank, exibiram maior consciência da batalha do artista contra a arte, e da relação entre esta luta e o embate antitético do artista contra a natureza.
[...]

Fonte: Bloom, H. 1991. A angústia da influência. RJ, Imago.

2 Comentários:

Blogger Seu Ribeiro disse...

Muito bom este texto.
Acredito que todos os artista, poeta e músico, vivem essa angustia de querer se livrar das suas influências. Dá uma pontada no meu peito quando eu olho minha obra e percebo que ela não passa de um pálido reflexo de outra identidade que não seja a minha. Ainda bem que as vezes descubro que ela não é outra senão aquela que só eu sei fazer porquê, por mais que sou influenciado, ela parte de mim.

Parabéns pelos textos, me motivaram a refletir.

Seu Ribeiro!

11/6/07 20:42  
Blogger SMM disse...

Lindo texto ! Se puder me visitar, http://sindromemm.blogspot.com

24/4/10 19:15  

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