07 junho 2007

Lou

H. F. Peters

Em 1937 morreu na cidade universitária alemã de Göttingen uma mulher notável. Tinha 76 anos e era viúva do professor Andreas, sendo porém muito mais conhecida pelo nome de solteira: Lou Salomé. A casa onde morreu está precariamente empoleirada nas íngremes encostas do Hainberg, a cavaleiro da cidade. Da sacada de seu gabinete de trabalho, Lou tinha uma vista magnífica do amplo vale do rio Leine, lá [embaixo], e dos montes cobertos de bosques que se estendiam pelos horizontes ocidental e meridional. Por mais de 30 anos, ela compartilhara essa casa – mas não o leito conjugal – com o marido, e por mais de 30 anos olhou lá de cima para Göttingen – “famosa pela sua universidade e suas salsichas” – com cordial indiferença. Ressentidos com a distância em que ela se mantinha, e sem saber o que pensar de uma esposa de professor que não participava da vida social da cidade ou da universidade, os bons burgueses de Göttingen espalharam todos os tipos de boatos a respeito dela. Suas mulheres, sabendo que quando mais jovem Lou freqüentemente viajava em companhia de outros homens que não seu marido, chamaram-na “a Feiticeira de Hainberg”.

Não se incomodaram muito, e provavelmente também não se surpreenderam muito, quando, poucos dias após a morte de Lou, um caminhão da polícia, supervisionado por um oficial da Gestapo, subiu ruidosamente a Hersberger Landstrasse, parou em frente à casa recentemente desocupada e carregou toda a biblioteca de Lou, jogando-a no porão da Prefeitura. A feiticeira estava morta, mas a caça às feiticeiras havia começado.
[...]

Lou foi escritora. Seus livros sobre Nietzsche e Ibsen, seus romances, contos e ensaios deram-lhe fama. Na década de 1890, seu nome surgia ao lado de escritoras alemães bem-conhecidas, como Ricarda Huch e Marie von Ebner-Eschenbach. Mas nunca considerou a literatura como seu modo principal de expressão. Queria “descobrir a força íntima que domina o universo e dirige seu curso”, queria conhecê-la, experimentá-la, vivê-la.

Gostava da companhia de homens brilhantes e tinha um instinto infalível para descobri-los. Conheceu Wagner e Tolstoi, Buber e Hauptmann, Strindberg e Wederkind, Rilke e Freud. Seus detratores dizam que colecionava homens famosos como outros colecionavam quadros, para pendurá-los numa galeria particular. Mas como esses detratores eram, em sua maioria, mulheres que a temiam como rival, a crítica talvez fosse injusta. A maior parte das amizades de Lou teve como base a atração mútua, pois, além de ser uma mulher muito inteligente, era muito bela também. [...] Como disse um de seus admiradores: “Quando Lou se apaixona por um homem, nove meses depois ele dá à luz um livro”.
[...]

Fonte: Peters, H. F. 1986 [1962]. Lou: minha irmã, minha esposa. RJ, Jorge Zahar.

1 Comentários:

Anonymous Urariano Mota disse...

Leia uma breve apresentação de Alberto da Cunha Melo em http://urarianoms.blog.uol.com.br/
Abraço.

7/6/07 21:37  

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