21 fevereiro 2015

Irracionalismo

Jorge Roux

Todos são ‘Casos’? – O pressuposto mais geral das terapias psicológicas é que todo indivíduo que a elas se submete tem sempre algo a ‘esconder’, conscientemente ou não. Se se apresenta demasiado falante, é porque está se defendendo atrás de palavras; se é uma pessoa reservada, o diagnóstico é também simples: ela se oculta atrás do seu silêncio. O comedimento, por certo, também é uma defesa: é a suposta segurança. Em resumo, é o paciente quem vai decidir se haverá necessidade ou não de terapia, pois para o terapeuta haverá sempre uma vez que ele parte do ponto de vista – plausível – de que só quem tem problemas resolve se submeter à terapia.

Assim, se temos, de um lado, alguém que sofre e se dispõe a ser paciente de um tratamento, às vezes longo, e, de outro, um terapeuta possuidor de um repertório suficientemente vasto para incluir todos os casos, qual o impedimento para se iniciar desde logo a terapia? Em princípio, salvo casos raríssimos, não se recusa nenhum cliente. Pois não possuem as entidades dos terapeutas bastante universalidade para incluir, numa mesma e monótona teoria explicativa, todas as possibilidades? Por definição, não há pessoas sem problemas. Há, sim, aqueles que não se dão conta dos seus e por isso não se apresentam às terapias.

Pode-se questionar: terá a nossa época problemas tão especiais, tão radicalmente diferentes dos das gerações anteriores, que a humanidade precise, hoje, das muletas oferecidas pressurosamente pelos terapeutas para sair da sua cadeira de rodas?
[...]

Fonte: Roux, J. 1978. A irracionalidade em psicologia. Petrópolis, Vozes.

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