25 setembro 2016

Luxo de peixe

Cassiano Ricardo

1.
Dia bruxuleante, já.
O sol, último feixe
   de luz.
Entre a enxárcia e o
velame, o debuxo
         esdrúxulo
   (em anil-móbile)
   de pescador.

2.
Nunca tanto sol
      (de escama)
que saltou da pauta
   ou da flauta.

Nunca tanto salmão.
   Nunca tanto sol
         na mão.
Nunca um mar tão
      irmão.

Nunca tanto xaréu,
hipocampo, pampo,
enxameando, piscando
   na xilogravura
      da rede.

   (Por
   São Peixe Cristo)

   Diante de tanto
cardume imprevisto
como haver quem se
         queixe?

Nem um bruxo
      explicará tanto
         luxo
      de peixe.

3.
(Nunca Jean Marie
pescou tanta flor)

Fonte: Ricardo, C. 2003. Melhores poemas de Cassiano Ricardo. SP, Global. Poema publicado em livro em 1971.

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home

eXTReMe Tracker