13 agosto 2017

A denúncia do ódio racial

Malthus de Paula

A denúncia comprovada de racismo em Belo Horizonte contra negros e judeus provocou uma CPI na Assembleia Legislativa e intensa repercussão em Minas e em outros estados. Caio Mário da Silva Pereira, mais tarde presidente nacional da OAB e então secretário de Segurança, mandou instaurar inquérito policial para apurar os fatos. Também serviu para abrir a cortina de falsidade de uma época que apartava os pretos em voz baixa e falava alto em democracia racial.

Como qualquer repórter de 19 anos, recebi o desafio de destampar a latrina dos dejetos morais de Hitler, Ku Klux Klan e de nós mesmos, cujas emanações o vento levava aos anúncios de emprego, às pinturas de suásticas nos muros, às notícias de recusa de um engenheiro judeu no Automóvel Clube, no Campestre e no Country e à negativa de hospedagem de estudantes africanos pelo Brasil Palace Hotel.

Já alguns anos atrás, o repórter A. Ponce de León fizera essa dramática denúncia. Agora o jornal me encarregou, juntamente com o repórter fotográfico Edgar Maciel, de comprovar que a discriminação racial continuava sendo praticada em Belo Horizonte.

Um gravador na redação registrara a reserva de um lugar em nome de Osvaldo Catarino Evaristo no Hotel Amazonas, então um dos melhores da cidade. O poeta e ex-pracinha, de terno de linho branco, abotoaduras de luxo e chapéu gelot, se dirigiu para lá e percebeu logo a hostilidade do ambiente: teve que carregar suas malas, pois ninguém na recepção lhe deu atenção. Ao descobrir que o autor do pedido de reserva era um negro, o recepcionista que estava na portaria, o mesmo que atendera o telefonema poucos minutos antes, respondeu com desprezo:

– Lamentavelmente houve um engano. Não temos quarto para o senhor aqui...

Não adiantou argumentar, dizer que a reserva tinha sido feita, que constituía um direito seu ser aceito em qualquer hotel, etc. O poeta e ex-pracinha, que pôde defender o Brasil nos campos de batalha, não merecia uma vaga no estabelecimento. E nós sabíamos que seria mesmo assim, pois o hotel se tornara conhecido por seguidos casos de racismo.

Osvaldo Catarino juntou suas malas, de luto de si mesmo, repetindo a cena do poeta americano Langston Hughes, no dia em fora expulso de um jardim de infância e que anos mais tarde traduziria em seu verso de protesto: “Eu também sou América”.

Para os donos do hotel, o ex-pracinha não era Brasil.

As denúncias do Binômio podem não ter mudado a situação, mas estou certo – tantos anos depois – de que representaram uma contribuição generosa para o debate desse câncer ainda hoje presente entre nós: a discriminação racial.

Fonte: Rabêlo, J. M. 1997. Binômio: edição histórica. BH, Armazém de Idéias & Barlavento Grupo Editorial.

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