21 dezembro 2020

Nada é tão ruim que não possa piorar: As taxas de crescimento seguem a escalar

Felipe A. P. L. Costa [*].

De acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados ontem (20) mais 25.445 casos e 408 mortes em todo o país. Teríamos chegado assim a um total de 7.238.600 casos e 186.764 mortes.

De modo semelhante ao que eu já havia dito na semana passada (ver artigo ‘O ‘V’ da pandemia: País ladeira abaixo, estatísticas ladeira acima’), as taxas de crescimento (casos e mortes) estão a escalar [1].

Péssima e preocupante notícia.

É uma péssima e preocupante notícia [2].

É péssima porque significa que os números de casos e mortes não só estão a crescer, como estão a crescer cada vez mais depressa.

Mais famílias irão sofrer. E o sofrimento se estenderá por um período de tempo ainda maior.

Não era para ser assim. Não tinha de ser assim.

Nada do que está a ocorrer é castigo ou fruto de ira divina. O sujeito que apregoa uma tolice dessas, na esperança de arrebanhar mentes e corações (e deles extrair uns trocados), deveria ser processado. Ou deveria ser encaminhado para uma instituição psiquiátrica.

Mas é também uma notícia preocupante. Afinal, com raras e honrosas exceções, os governantes (e não estou aqui pensando apenas no poder executivo) estão a fugir do problema. A motivação para isso é a de sempre: incompetência ou oportunismo.

Em meio a problemas e demandas conflitantes, muitos governantes não querem se comprometer. Preferem embromar. É compreensível. Afinal, muitos deles governam pensando apenas em sua base eleitoral. Ou nos donos do mercado. Poucos governam pensando na maioria da população ou na sociedade como um todo.

Os governantes têm sangue nas mãos.

Fato é que os governantes têm sangue nas mãos. A começar pelo presidente da República. Basta dizer o seguinte: tivesse o Palácio do Planalto adotado uma posição menos medrosa e menos oportunista, as estatísticas brasileiras estariam em patamares bem inferiores (ver o artigo Como e por que a maior parte da tragédia brasileira poderia ser evitada).

O desgoverno, no entanto, não se restringe à esfera federal. Não são poucos os governadores e prefeitos que devem ser responsabilizados pelas decisões equivocadas e criminosas que tomaram ou estão a tomar. Veja o açougue em que se transformou o estado do Amazonas e, mais recentemente, o do Rio de Janeiro. E a areia movediça que assola o Paraná e Santa Catarina. Veja a gaiatice eleitoreira que tomou conta do estado de São Paulo.

O governador de São Paulo, aliás, parece contar com uma dose extra de benevolência por parte da imprensa. Arrisco dizer que dois fatores ajudariam a explicar isso: (1) o sujeito está sentado sobre o segundo maior cofre do país (e a imprensa tende a bajular os donos de cofres); e (2) vários setores da elite, ao que parece, passaram a ver o Palácio dos Bandeirantes como um contraponto ao Palácio do Planalto – i.e., como uma porta de saída capaz de livrá-las do incêndio que se aproxima.

(Parcelas crescentes da população trabalhadora brasileira viram a sua vida piorar a partir do golpe de 2016. Mais recentemente, parcelas da elite econômica também passaram a acumular perdas, ainda que de modo bem menos dramático. Pois é essa turma que agora estaria a apostar as suas fichas em novos atores políticos.)

Coda.

Mas voltemos ao fio da meada e vejamos os números.

Não sei bem o que houve (embora tenha os meus palpites), mas o fato é que da primeira quinzena de novembro para cá, as médias semanais das taxas de crescimento mudaram de rumo (ver a figura que acompanha este artigo). Estávamos declinando, agora estamos escalando.

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FIGURA. O ‘V’ da pandemia. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6 e 20/12. (Valores acima de 2% não são mostrados.) Note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo a partir do início de novembro.

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Para a semana encerrada ontem (14-20/12), as médias semanais estão agora em 0,68% (casos) e 0,42% (mortes) [3].

Com esses percentuais, chegaremos ao dia de Natal com números superiores aos que eu havia previsto em artigo anterior (ver aqui).

E mais: no ritmo atual, chegaremos ao último dia do ano com números ainda mais assombrosos. Até 31/12, o país irá contabilizar ao menos 7.801.101 casos e 195.512 mortes.

É como diz o ditado: nada é tão ruim que não possa piorar. (Esta talvez seja a lição que brasileiros e estadunidenses estão a dar ao mundo nesta pandemia. Com a diferença de que, por lá, o circo já está a ser desmontado; e aqui parece que não...)

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Notas.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Para detalhes metodológicos, ver qualquer um dos quatro volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui e aqui).

[2] Da qual a imprensa brasileira só se dará conta amanha (22), quando e se o Imperial College de Londres (Inglaterra) vier a soltar um novo boletim sobre a situação brasileira.

[3] Entre 25/10 e 20/12, as médias semanais exibiram as seguintes trajetórias: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12) e 0,68% (14-20/12); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12) e 0,42% (14-20/12).

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