A renovação mineira vs. a estagnação paulista
APRESENTAÇÃO. – Este artigo examina alguns desdobramentos das Eleições 2026, com ênfase em uma análise do perfil dos deputados federais e estaduais eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Destaco os contrastes que detectei (em termos de peso político, idade e representatividade de gênero) ao confrontar as bancadas eleitas pelo PT nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.
*
De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar anteontem (4/10), no primeiro turno das Eleições 2026. Ocorre que muita gente não foi.
Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores – pouco menos de 79% do máximo possível. Implica dizer que ~21% do eleitorado (33.469.667) não compareceram (involuntariamente ou não) às seções de votação.
Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto [1].
Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos [2].
Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).
No que segue, apresento os resultados contrastantes que obtive ao comparar as bancadas recém-eleitas de um mesmo partido (Partido dos Trabalhadores) em dois colégios eleitorais distintos – no caso, especificamente, os dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.
1. ELEIÇÕES GERAIS EM SP E MG.
São Paulo: colégio eleitoral integrado por 34.122.892 eleitores, dos quais 72,92% compareceram às urnas no domingo (4/10); foram registrados 24.882.948 votos válidos, dos quais 9.505.413 (~38%) foram dados ao presidente Lula.
Minas Gerais: colégio eleitoral integrado por 16.372.372 eleitores, dos quais 73,15% compareceram às urnas; foram registrados 11.976.235 votos válidos, dos quais 5.188.936 (~43%) foram dados ao presidente Lula.
A diferença entre os dois, como se vê, foi da ordem de 5% – digo: em comparação aos eleitores paulistas, o percentual de confiança no candidato do PT por parte dos mineiros foi 5% mais alto. Tivessem os eleitores paulistas manifestado o mesmo nível de confiança, o presidente Lula teria recebido 1.276.368 votos a mais.
Todavia, como tento mostrar neste artigo, as diferenças entre MG e SP vão muito além desses 5%.
2. AS BANCADAS FEDERAIS.
A Câmara dos Deputados tem 513 cadeiras, 123 das quais estão reservadas para os dois maiores colégios eleitorais: São Paulo (70 cadeiras) e Minas Gerais (53) [3].
Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores – pouco menos de 79% do máximo possível. Implica dizer que ~21% do eleitorado (33.469.667) não compareceram (involuntariamente ou não) às seções de votação.
Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto [1].
Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos [2].
Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).
No que segue, apresento os resultados contrastantes que obtive ao comparar as bancadas recém-eleitas de um mesmo partido (Partido dos Trabalhadores) em dois colégios eleitorais distintos – no caso, especificamente, os dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.
1. ELEIÇÕES GERAIS EM SP E MG.
São Paulo: colégio eleitoral integrado por 34.122.892 eleitores, dos quais 72,92% compareceram às urnas no domingo (4/10); foram registrados 24.882.948 votos válidos, dos quais 9.505.413 (~38%) foram dados ao presidente Lula.
Minas Gerais: colégio eleitoral integrado por 16.372.372 eleitores, dos quais 73,15% compareceram às urnas; foram registrados 11.976.235 votos válidos, dos quais 5.188.936 (~43%) foram dados ao presidente Lula.
A diferença entre os dois, como se vê, foi da ordem de 5% – digo: em comparação aos eleitores paulistas, o percentual de confiança no candidato do PT por parte dos mineiros foi 5% mais alto. Tivessem os eleitores paulistas manifestado o mesmo nível de confiança, o presidente Lula teria recebido 1.276.368 votos a mais.
Todavia, como tento mostrar neste artigo, as diferenças entre MG e SP vão muito além desses 5%.
2. AS BANCADAS FEDERAIS.
A Câmara dos Deputados tem 513 cadeiras, 123 das quais estão reservadas para os dois maiores colégios eleitorais: São Paulo (70 cadeiras) e Minas Gerais (53) [3].
Examinemos, pois, alguns traços dos deputados que foram eleitos no domingo.
São Paulo. Dos 70 deputados federais recém-eleitos por SP, 11 deputados (16% de toda a bancada paulista) foram eleitos pelo PT (9 homens e duas mulheres). A idade média desses 11 deputados gira em torno de 55 anos (amplitude: 33-77 anos).
Minas Gerais. Dos 53 deputados federais recém-eleitos por MG, 12 deputados (24% de toda a bancada mineira) foram eleitos pelo PT (sete homens e cinco mulheres). A idade média desses 12 deputados gira em torno de 47 anos (amplitude: 21-75 anos).
As menos três conclusões podem ser extraídas desses resultados: (i) embora conte com um colégio eleitoral bem menor, o PT-MG conseguiu eleger uma bancada que é duplamente maior que a bancada eleita pelo PT-SP – digo: é maior em termos absolutos (12 > 11) e é maior em termos relativos (24% > 16%); (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres é vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados paulistas são em média oito anos mais velhos que os mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a dois mandatos).
3. AS BANCADAS ESTADUAIS.
O número de deputados estaduais nas Assembleias Legislativas varia de acordo com o tamanho da população residente em cada estado. A Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) tem 94 cadeiras, enquanto a ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) tem 77 cadeiras.
São Paulo: Alesp. Dos 94 deputados estaduais recém-eleitos em SP, 16 deputados (17% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (13 homens e três mulheres). A idade média desses 16 deputados gira em torno de 56 anos (amplitude: 24-85 anos).
Minas Gerais: ALMG. Dos 77 deputados estaduais recém-eleitos em MG, 15 deputados (19% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (9 homens e seis mulheres). A idade média desses deputados gira em torno de 52 anos (amplitude: 43-67 anos).
Eu diria que ao menos três conclusões podem ser extraídas daí: (i) numericamente, o peso relativo da bancada do PT-MG na ALMG é ligeiramente maior que o da bancada do PT-SP na Alesp; (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres segue sendo vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados estaduais paulistas são em média quatro anos mais velhos que os seus colegas mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a um mandato).
Por fim, integrando as duas comparações, eu diria o seguinte: (i) embora a soma dos deputados eleitos em cada estado seja a mesma, 27 deputados (MG: 12 federais + 15 estaduais; SP: 11 federais + 16 estaduais), a campanha eleitoral do PT-MG parece ter sido mais vitoriosa do que a campanha do PT-SP; (ii) em termos de representatividade de gênero, as bancadas mineiras estão bem mais perto do equilíbrio de 1 para 1 (16 homens e 11 mulheres, o equivalente a 1,45:1) do que as bancadas paulistas (22 homens e 5 mulheres, o equivalente a 4,4:1); e (iii) as bancadas mineiras são mais jovens do que as bancadas paulistas, de tal modo que há uma curiosa hierarquia etária, a saber: média de idade dos deputados federais mineiros < média dos deputados estaduais mineiros < média dos deputados federais paulistas < média dos deputados estaduais paulistas.
A terceira conclusão me leva a pensar no seguinte: os parlamentares que integram as assembleias legislativas parecem combinar ao menos duas origens contrastantes. Há, de um lado, parlamentares em início de carreira (e.g., ex-vereadores), assim como há, de outro, parlamentares em crise ou em fim de carreira (e.g., ex-deputados federais).
4. CODA.
Nunca tive militância partidária, embora sempre tenha tido ativismo político. Mesmo de fora, eu sempre tive contato com militantes partidários, sobretudo do PT. Como base nisso e, sobretudo, com base no que leio e ouço sobre a dinâmica partidária, eu ousaria dizer o seguinte: o PT sempre foi muito mais paulista do que mineiro. Basta ver que a maior parcela da burocracia partidária vive e trabalha em SP. MG seria quase que uma sucursal e, como tal, deveria obediência à matriz.
Entendo e concordo com a importância do chamado centralismo democrático, mas isso não pode se confundir com burocratização excessiva. (Lembro de um episódio particularmente desastroso, ocorrido por volta de 2010: a retirada de candidatura própria do PT em MG por conta do namoro da direção nacional do partido com o então governador do estado, um dos personagens mais nefastos da nossa história política, como ficaria dramaticamente demonstrado a partir do golpe de 2016 – ver aqui.)
O que talvez estejamos a presenciar hoje é uma mudança de rota: o PT de MG reelegeu alguns figurões – eu mesmo ajudei a reeleger um deles –; ao mesmo tempo, porém, está a abrir caminho para gente nova, com destaque para mulheres oriundas do sindicalismo (e.g., professoras). O PT de SP, por sua vez, parece estar muito mais aferrado a burocratas e figurões.
Posso estar ouvindo mal, mas acho que os resultados que saíram das urnas no último domingo (ao menos no que diz respeito aos deputados) estariam a anunciar algo mais ou menos nos seguintes moldes: “Nós, jovens, queremos mudanças, queremos diversidade, queremos gente que mobiliza e organiza as massas; chega de burocratas, chega de coronéis, chega de gente que só pensa em eleições (e reeleições)”.
São Paulo. Dos 70 deputados federais recém-eleitos por SP, 11 deputados (16% de toda a bancada paulista) foram eleitos pelo PT (9 homens e duas mulheres). A idade média desses 11 deputados gira em torno de 55 anos (amplitude: 33-77 anos).
Minas Gerais. Dos 53 deputados federais recém-eleitos por MG, 12 deputados (24% de toda a bancada mineira) foram eleitos pelo PT (sete homens e cinco mulheres). A idade média desses 12 deputados gira em torno de 47 anos (amplitude: 21-75 anos).
As menos três conclusões podem ser extraídas desses resultados: (i) embora conte com um colégio eleitoral bem menor, o PT-MG conseguiu eleger uma bancada que é duplamente maior que a bancada eleita pelo PT-SP – digo: é maior em termos absolutos (12 > 11) e é maior em termos relativos (24% > 16%); (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres é vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados paulistas são em média oito anos mais velhos que os mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a dois mandatos).
3. AS BANCADAS ESTADUAIS.
O número de deputados estaduais nas Assembleias Legislativas varia de acordo com o tamanho da população residente em cada estado. A Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) tem 94 cadeiras, enquanto a ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) tem 77 cadeiras.
São Paulo: Alesp. Dos 94 deputados estaduais recém-eleitos em SP, 16 deputados (17% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (13 homens e três mulheres). A idade média desses 16 deputados gira em torno de 56 anos (amplitude: 24-85 anos).
Minas Gerais: ALMG. Dos 77 deputados estaduais recém-eleitos em MG, 15 deputados (19% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (9 homens e seis mulheres). A idade média desses deputados gira em torno de 52 anos (amplitude: 43-67 anos).
Eu diria que ao menos três conclusões podem ser extraídas daí: (i) numericamente, o peso relativo da bancada do PT-MG na ALMG é ligeiramente maior que o da bancada do PT-SP na Alesp; (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres segue sendo vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados estaduais paulistas são em média quatro anos mais velhos que os seus colegas mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a um mandato).
Por fim, integrando as duas comparações, eu diria o seguinte: (i) embora a soma dos deputados eleitos em cada estado seja a mesma, 27 deputados (MG: 12 federais + 15 estaduais; SP: 11 federais + 16 estaduais), a campanha eleitoral do PT-MG parece ter sido mais vitoriosa do que a campanha do PT-SP; (ii) em termos de representatividade de gênero, as bancadas mineiras estão bem mais perto do equilíbrio de 1 para 1 (16 homens e 11 mulheres, o equivalente a 1,45:1) do que as bancadas paulistas (22 homens e 5 mulheres, o equivalente a 4,4:1); e (iii) as bancadas mineiras são mais jovens do que as bancadas paulistas, de tal modo que há uma curiosa hierarquia etária, a saber: média de idade dos deputados federais mineiros < média dos deputados estaduais mineiros < média dos deputados federais paulistas < média dos deputados estaduais paulistas.
A terceira conclusão me leva a pensar no seguinte: os parlamentares que integram as assembleias legislativas parecem combinar ao menos duas origens contrastantes. Há, de um lado, parlamentares em início de carreira (e.g., ex-vereadores), assim como há, de outro, parlamentares em crise ou em fim de carreira (e.g., ex-deputados federais).
4. CODA.
Nunca tive militância partidária, embora sempre tenha tido ativismo político. Mesmo de fora, eu sempre tive contato com militantes partidários, sobretudo do PT. Como base nisso e, sobretudo, com base no que leio e ouço sobre a dinâmica partidária, eu ousaria dizer o seguinte: o PT sempre foi muito mais paulista do que mineiro. Basta ver que a maior parcela da burocracia partidária vive e trabalha em SP. MG seria quase que uma sucursal e, como tal, deveria obediência à matriz.
Entendo e concordo com a importância do chamado centralismo democrático, mas isso não pode se confundir com burocratização excessiva. (Lembro de um episódio particularmente desastroso, ocorrido por volta de 2010: a retirada de candidatura própria do PT em MG por conta do namoro da direção nacional do partido com o então governador do estado, um dos personagens mais nefastos da nossa história política, como ficaria dramaticamente demonstrado a partir do golpe de 2016 – ver aqui.)
O que talvez estejamos a presenciar hoje é uma mudança de rota: o PT de MG reelegeu alguns figurões – eu mesmo ajudei a reeleger um deles –; ao mesmo tempo, porém, está a abrir caminho para gente nova, com destaque para mulheres oriundas do sindicalismo (e.g., professoras). O PT de SP, por sua vez, parece estar muito mais aferrado a burocratas e figurões.
Posso estar ouvindo mal, mas acho que os resultados que saíram das urnas no último domingo (ao menos no que diz respeito aos deputados) estariam a anunciar algo mais ou menos nos seguintes moldes: “Nós, jovens, queremos mudanças, queremos diversidade, queremos gente que mobiliza e organiza as massas; chega de burocratas, chega de coronéis, chega de gente que só pensa em eleições (e reeleições)”.
*
NOTAS.
[*] Para adquirir os livros do autor, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.
[1] Desconfio que uma parcela expressiva dos votos nulos seja fruto de erros involuntários.
[2] Fazendo as contas: (i) 125.275.835 (aptos que votaram) = 119.300.788 (votos válidos) + 5.975.047 (brancos e nulos); e (ii) 119.300.788 = 56.104.503 + 53.879.538 + 9.316.747.
[3] Os dois estados estão sub-representados. Em 1/7/2026, de acordo com o IBGE (v. aqui), a população brasileira chegou a 214.211.951 habitantes; desse total, 46.179.008 residiam em SP e 21.460.311, em MG. A julgar pelo tamanho das populações residentes em SP e MG (67.639.319, o equivalente a ~32% da população do país), os dois estados deveriam ocupar juntos algo como 160 das 513 cadeiras. As estatísticas (idade etc.) sobre os candidatos estão disponíveis no sítio do TSE.
[2] Fazendo as contas: (i) 125.275.835 (aptos que votaram) = 119.300.788 (votos válidos) + 5.975.047 (brancos e nulos); e (ii) 119.300.788 = 56.104.503 + 53.879.538 + 9.316.747.
[3] Os dois estados estão sub-representados. Em 1/7/2026, de acordo com o IBGE (v. aqui), a população brasileira chegou a 214.211.951 habitantes; desse total, 46.179.008 residiam em SP e 21.460.311, em MG. A julgar pelo tamanho das populações residentes em SP e MG (67.639.319, o equivalente a ~32% da população do país), os dois estados deveriam ocupar juntos algo como 160 das 513 cadeiras. As estatísticas (idade etc.) sobre os candidatos estão disponíveis no sítio do TSE.
* * *

0 Comentários:
Postar um comentário
<< Home