Os restos mortais
Fernando Sabino
1.
A simples idéia da viagem já deixou meu pai agitado, às voltas com uma série de providências: não ia ao Rio desde 1943. Estávamos em 1963: vinte anos, portanto. Nas vésperas do embarque, veio me procurar no consultório, preocupado:
– Vou ter mesmo que ir com sua mãe. Afinal de contas, é para o batizado do sobrinho dela.
Eles seriam os padrinhos – este era o pretexto do irmão de minha mãe para que fossem
ambos passar uns dias no Rio em sua companhia.
– O senhor faz bem em ir com ela – procurei tranqüilizá-lo. – Qual é o problema?
– Não podemos largar a casa vazia, só com as empregadas, sem um homem para tomar conta. Pensei no Galdino, que é que você acha?
– Quem?
– O Galdino, que cuida do sítio lá em Betim. É de confiança, bem-mandado, de muita serventia. Aquele rapaz do olho, não se lembra?
[...]
2.
Passei a manhã seguinte visitando clientes, cheguei tarde no consultório.
– Dona Teresa telefonou várias vezes – informou a secretária.
Teresa não costumava telefonar para o consultório, ainda mais várias vezes. Apreensivo, liguei para casa:
– Que foi que houve?
– O tal Galdino – informou ela. – A Maria cozinheira ligou para cá de manhãzinha dizendo que ele estava tendo umas coisas. Tentei falar com você, não consegui. Então chamei o Pronto-Socorro.
[...]
Fonte: Sabino, F. 2001 [1993]. Aqui estamos todos nus, 5ª edição. RJ, Record.
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