28 fevereiro 2016

Palavras mágicas

Camara Laye

Embora meu pai não dissesse palavra em voz alta, sei muito bem que ele estava a pensar nelas, para dentro. Eu lia isso pelos lábios que não paravam de se mover enquanto ele se curvava sobre o recipiente. Ia mexendo o ouro e o carvão com um pau de madeira que acabava por arder de vez em quando e que estava sempre a ter [de] ser substituído. Que espécies de palavras eram essas que meu pai ia em silêncio pronunciando? Não sei – pelo menos não sei exatamente. Nunca nada me foi dito sobre isso. Mas que podiam elas ser senão palavras mágicas?
[...]

Durante todo o processo o seu discurso tornou-se cada vez mais rápido, os ritmos mais acelerados, e, à medida que a peça de ornamentação ia tomando forma, os seus louvores e exaltações ganhavam mais veemência e transportavam aos céus a habilidade de meu pai. Numa maneira especial, quase diria imediata e efetiva, o feiticeiro participava na obra. Ele era também levado pelo prazer da criação, e em voz alta proclamava esse prazer: arrebatava as cordas com entusiasmo, inflamava-se como se ele próprio fosse o artífice, como se ele próprio fosse meu pai, como se o ornamento surgisse das suas próprias mãos.
[...]

Fonte: Horton, R. 1979. Diferenças entre culturas tradicionais e culturas de orientação científica. In: Deus, J. D., org. A crítica da ciência, 2ª edição. RJ, Zahar. Texto publicado em livro em 1954.

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