O que o time da CBF tem a oferecer, além de muambas, cambalhotas e mi-mi-mis?
F. Ponce de León
1.
Nunca tive qualquer simpatia pelo time da CBF. Nem jamais concordei com a premissa de que o time da CBF é sinônimo de seleção brasileira; a rigor, sempre achei essa ideia falsa, para não dizer absurda.
2.
Joguei muito futebol na minha infância, em Brasília (1967-1973), tanto em ruas asfaltadas como em campos de terra. Quando me mudei com a minha família para Juiz de Fora, no fim de 1973, eu ainda tinha comigo o sonho de me tornar um jogador de futebol profissional – ao estilo de Dirceu Lopes, por exemplo. Em 1975, cheguei a treinar no time juvenil do Tupi. Uma luxação no tornozelo, porém, brecou os meus planos. Em 1976, mudei de esporte e de clube: passei a treinar atletismo (corridas de longa distância) no Sport.
3.
Minha carreira de corredor foi um pouco mais duradoura. Em 1977, porém, eu ingressei na universidade. E o mundo das ideias me conquistou de vez. A universidade em si pouco contribuiu para isso: o ensino era ruim e o curso de graduação foi quase que uma sucessão de nulidades – o nível era bem baixo, pouco superior ao nível das atuais arapucas de ensino (veja o que se passa, por exemplo, nos vexatórios cursos à distância oferecidos por instituições particulares).
4.
Mas havia muita inquietação entre os estudantes, sobretudo entre os que participavam do movimento estudantil. E essa efervescência compensava o baixo nível das aulas. No meu caso, especificamente, certas leituras paralelas foram de fundamental importância. Lembro como se fosse hoje de um episódio ocorrido no meu primeiro ano na universidade (1977). Foi como se alguém me agarrasse pelos ombros e gritasse: “Acabamos de descobrir que tudo aquilo que aprendemos sobre física na semana passada estava errado!”. Passei a buscar minhas próprias epifanias. Não demorei a perceber o quanto o mundo da ciência poderia ser prazeroso, ainda que as recompensas oferecidas fossem todas ou quase todas meramente simbólicas.
5.
O futebol para mim é hoje um fenômeno quase que meramente social ou cultural, com pouco envolvimento emocional. Mas não sou neutro: continuo a torcer contra o time da CBF (ex-CBD), uma tradição iniciada ainda em Brasília. Não comemorei 1970; não lamentei 1982; e tive vergonha de 1994 e 2002, sobretudo diante do tipo de recepção que foi dado às delegações – no primeiro caso, o oba-oba da mídia com a chegada do avião das muambas e, no segundo, o louvor à cambalhota embriagada na rampa do Palácio do Planalto.
6.
Eis que agora, em meio às habituais tolices do jornalismo esportivo e às vésperas de mais um Mundial, espero sinceramente que o Rei do Mi-mi-mi seja convocado. Sei que o técnico atual do time da CBF não é um pateta nem um banana, mas torço por essa aberrante convocação ocorra por um motivo quase que óbvio: com o Rei do Mi-mi-mi dando as cartas, dentro e fora de campo, crescem as chances de que venhamos a testemunhar um feito inédito – a desclassificação do time da CBF ainda na primeira fase da Copa. Seria um feito e tanto, superior até mesmo ao feito que a CBF ofereceu aos torcedores brasileiros em 2014.
* * *

1 Comentários:
Camarada, esse seu comentário translúcido traz um pouco de lucidez para não inebriar os alienados sobre arte do esporte coletivo. Que é trabalhar em equipe e suplantar o individual. Um tipo de comunismo-social.
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