05 janeiro 2007

O mundo do menino impossível

Jorge de Lima

Fim da tarde, boquinha da noite
com as primeiras estrelas
e os derradeiros sinos.

Entre as estrelas e lá detrás da igreja
surge a lua cheia
para chorar com os poetas.

E vão dormir as duas coisas novas desse mundo:
o sol e os meninos.

Mas ainda vela
o menino impossível
aí do lado
enquanto todas as crianças mansas
dormem
acalentadas
por Mãe-negra Noite.
O menino impossível
que destruiu
os brinquedos perfeitos
que os vovós lhe deram:
o urso de Nürnberg,
o velho barbado jagoeslavo,
as poupées de Paris aux
cheveux crêpes,
o carrinho português
feito de folha-de-flandres,
a caixa de música checoeslovaca,
o polichinelo italiano
made in England,
o trem de ferro de U. S. A.
e o macaco brasileiro
de Buenos Aires

moviendo da cola y la cabeza.


O menino impossível
que destruiu até
os soldados de chumbo de Moscou
e furou os olhos de um Papai Noel,
brinca com sabugos de milho,
caixas vazias,
tacos de pau,
pedrinhas brancas do rio...

“Faz de conta que os sabugos
são bois...”
“Faz de conta...”
“Faz de conta...”
E os sabugos de milho
mugem como bois de verdade...

e os tacos que deveriam ser
soldadinhos de chumbo são
cangaceiros de chapéus de couro...

E as pedrinhas balem!
Coitadinhas das ovelhas mansas
longe das mães
presas nos currais de papelão!

É boquinha da noite
no mundo que o menino impossível
povoou sozinho!

A mamãe cochila.
O papai cabeceia.
O relógio badala.

E vem descendo
uma noite encantada
da lâmpada que expira
lentamente
na parede da sala...

O menino pousa a testa
e sonha dentro da noite quieta
da lâmpada apagada
com o mundo maravilhoso
que ele tirou do nada...

Chô! Chô! Pavão!
Sai de cima do telhado
Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!

Fonte: Lima, J. 1997. Jorge de Lima: poesia, 5a edição. RJ, Agir. Poema originalmente publicado em 1927.

4 Comentários:

Anonymous Gonçalo dos Reis Torgal disse...

Onde é que vocês descobriram que este poema de Jorge de Lima é um Poema contra Guerra? A mim se me afigura ser um poema a favor das coisas simples e contra o consumismo.

26/6/11 18:41  
Anonymous Anônimo disse...

Sim mas o que causa a guerra se não o consumismo? Se não a ganância do homem de querer sempre mais? A primeira guerra foi consequência de uma corrida imperialista -competição de quem consome mais. o Brinquedo industrializado é o ápice mercadológico: negociação da imaginação. O que é a guerra se não a "mercadorização" do homem?

27/10/11 10:59  
Anonymous jaffa disse...

A guerra é a maior prova do egoismo do ser humano.
Se o homem enchergasse as coisas simples da vida com olhos de criança saberia valorizar mais o que é realmente importante...

8/11/11 16:04  
Blogger Mariana Daniele disse...

O poema foi escrito no mesmo período em que Jorge de Lima aderiu ao Modernismo 2ª Fase, em 1925,em que ele era considerado príncipe dos Parnasianos e a esperança de um poeta "perfeito". Com "O Mundo do Menino Impossível" essa expectativa é quebrada, justamente por quê Jorge reconhece a influência da poesia Modernista para a mudança na conduta dos petas que buscavam a beleza na metrificação e não no conteúdo, nesse texto ele se expressa de forma a rejeitar essa métrificação perfeita, quando ele se refere aos brinquedos.

31/8/14 09:44  

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