26 abril 2008

A busca do impopular

Daniel J. Kevles

Os estudiosos do câncer têm procurado entender a doença desde os primeiros tempos. A palavra câncer vem do grego karkinos, “caranguejo”, e exprime a tendência desse mal a ramificar-se pelos tecidos normais em várias direções. Assim também seu estudo – a oncologia – deriva do grego onkos, “massa”. O médico Galeno, cuja autoridade na matéria prevaleceu pelo menos até 1500 d. C., atribuía a moléstia ao excesso de bile negra, um dos quatro humores. Alguns de seus sucessores apontaram-lhe diversas origens: comportamento imoral, fornicação, depressão ou (no caso das freiras) celibato. Outros, notando a incidência de certos cânceres em determinadas famílias, aventaram a teoria de que se tratava de uma afecção hereditária. Aqui e ali, a partir de fins do século 18, vários observadores suspeitaram de que a causa residisse em venenos ambientais: a fuligem que atacava os limpadores de chaminés, o rapé e o tabaco que os cavalheiros inalavam, o pó das minas, os produtos químicos nos corantes da tintas. Mas no final do século 19, um divulgador honesto repetiria o que o célebre cirurgião da Filadélfia, Samuel Gross escrevera sobre o câncer havia uns cinqüenta anos: “Tudo o que sabemos com algum grau de certeza é que não sabemos nada”.
[...]

Fonte: Kevles, D. J. 1997. A busca do impopular: uma história de coragem, vírus e câncer. In Silvers, R. S., org. Histórias esquecidas da ciência, p. 61-91. RJ, Paz e Terra.

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