09 outubro 2008

Descrição do Recife de Pernambuco

Bento Teixeira

Pela a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Céu luminoso mais serena
Tem sua influição, e temperada;
Junto da Nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro,
Que pela as curvas Naus serve de muro.

É este porto tal, por estar posta
Uma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Netuno a fúria esquiva.
Entre a praia e pedra descomposta,
O estanhado elemento se deriva,
Com tanta mansidão, que uma fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.

Em o meio desta obra alpestre, e dura,
Uma boca rompeu o Mar inchado,
Que, na língua dos bárbaros escura,
Pernambuco de todos é chamado.
De Para’na que é Mar; Puca, rotura,
Feita com fúria desse Mar salgado,
Que sem no derivar cometer míngua,
Cova do Mar se chama em nossa língua.

Para entrada da barra, à parte esquerda,
Está uma lajem grande e espaçosa,
Que de Piratas fora total perda,
Se uma torre tivera suntuosa.
Mas quem por seus serviços bons não herda
Desgosta de fazer cousa lustrosa,
Que a condição do Rei que não é franco
O vassalo faz ser nas obras manco.

Fonte (estrofes 1, 2 e parte da 4): Fonte: Martins, W. 1978. História da inteligência brasileira, vol. 1, 3ª edição. SP, Cultrix & Edusp. O trecho acima corresponde às estrofes 17-20 de um poema, ‘Prosopopéia’, originalmente publicado em 1601.

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