04 setembro 2016

Escola

António Manuel Couto Viana

Eu fui a escola onde aprendi a ler.
Mestre, a cada sentido dei sentido
– Fechando os olhos, disse-me: isto é ver.
E ao abri-los: isto é proibido.

Na mão tive uma estrela: isto é roubar.
E, de manso, soltei-a: isto é vitória.
Ao aroma da flor chamei: amar.
E ao perdê-lo no ar: toda a memória.

Pus-me a escutar um búzio: eis o oceano.
Os ouvidos tapei, chamei-lhe: vida.
Gritei e disse: o grito é desumano,
Mas o silêncio é a verdadeira ferida.

E a lição me doeu, como uma seta.
.. .. .. .. .. .. .. .. .. ..
Assim cresci Menino e sou Poeta.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1953.

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