29 junho 2023

5.030 mortes foram registradas no país nas últimas 17 semanas


Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas (mundiais e nacionais) a respeito da pandemia divulgadas em artigo anterior (aqui). Em escala planetária, já foram registrados 691 milhões de casos e 6,89 milhões de mortes [1]; em escala nacional, 37,67 milhões de casos e 704 mil mortes.

*

1. ESTATÍSTICAS MUNDIAIS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.

Levando em conta as estatísticas obtidas no fim da tarde de ontem (27/6), eis um balanço da situação mundial.

(A) – Em números absolutos, os 20 países mais afetados estão a concentrar 74% dos casos (de um total de 690.860.342) e 75% das mortes (de um total de 6.894.597) [2].

(B) – Nesses 20 países, 493 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 96% dos casos. Em escala global, 663 milhões de indivíduos já receberam alta.

(C) – Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 11 grupos: (a) Entre 100 e 110 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia e França; (c) Entre 35 e 40 milhões – Alemanha e Brasil; (d) Entre 30 e 35 milhões – Japão e Coreia do Sul; (e) Entre 25 e 30 milhões – Itália; (f) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido e Rússia; (g) Entre 15 e 20 milhões – Turquia (estatísticas congeladas: divulgação suspensa?); (h) Entre 12 e 15 milhões – Espanha; (i) Entre 10 e 12 milhões – Austrália, Vietnã, Taiwan (estatísticas congeladas: divulgação suspensa?) e Argentina; (j) Entre 8 e 10 milhões – Países Baixos (estatísticas congeladas: divulgação suspensa?); e (k) Entre 6 e 8 milhões – México, Irã e Indonésia.

2. ESTATÍSTICAS BRASILEIRAS: SEMANA 18-24/6.

De acordo com as estatísticas divulgadas nessa terça-feira (27/6) pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país na semana passada (18-24/6) mais 15.370 casos e 245 mortes.

Em relação aos números da semana anterior, ambas as estatísticas caíram (11-17/6: 16.726 casos e 320 mortes).

Teríamos chegado assim a um total de 37.671.420 casos e 703.964 mortes.

3. CODA.

Apesar de algumas oscilações, as taxas de crescimento (casos e mortes) estão em trajetória declinante desde a primeira semana de março (ver a figura que acompanha este artigo).

A pandemia arrefeceu tremendamente, mas não acabou e o vírus continua a circular. Nas últimas 17 semanas (27/2-24/6), por exemplo, desde que o Ministério da Saúde suspendeu a divulgação diária das estatísticas, foram registrados 647.003 casos e 5.030 mortes em todo o país. (A imprensa brasileira, a mesma que assoprou trombetas dias atrás para alardear um surto local de febre maculosa [ver aqui], parece não se importar mais com o assunto.)

Não custa repetir: Máscaras e vacinas seguem sendo as melhores armas que nós temos para (i) impedir a ocorrência de surtos locais; e (ii) impedir o surgimento de novidades evolutivas que venham a promover uma nova e repentina escalada dos números. (Lembrando que a vacina combate a doença, mas não impede o contágio. O que pode impedir o contágio é o uso correto de máscara facial.)

*

NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] As estatísticas mundiais estão a ser extraídas agora do painel Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA), e não mais do painel Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA). Os dois painéis concordavam em quase tudo, com apenas uma ou outra exceção. A diferença mais gritante estava nas estatísticas chinesas: Tanto no número de casos como no de mortes, o painel que agora estou a seguir registra apenas o equivalente a um quinto ou um décimo dos números que eram registrados no outro painel.

[2] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

* * *

26 junho 2023

Poesia de amor

Fernando Guedes

Amo-te
em mundos e mar.

Fora do tempo,
no espaço branco,
jazem-nos universos.

A Pedra atinge
a dupla derrota
dum achado.
Faróis luminosos
alçam espera
no assombro de nos sermos um;
na lógica de nos encontrarmos,
pelas órbitas dos peixes,
nos ramos partidos.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1950.

23 junho 2023

A carta de apresentação


David Wilkie (1785-1841). The letter of introduction. 1813.

Fonte da foto: Wikipedia.

21 junho 2023

Quelíceras

Tânia Kobler Brazil & Tiago Jordão Porto

As quelíceras (ou quelíforos, no caso dos picnogônidos) são apêndices pré-orais formados por 2 ou 3 artículos (neste segundo caso, os dois últimos formam uma pinça ou quela) e podem assumir funções variadas nos diferentes grupos de Cheliceriformes: sensorial, alimentar, defesa, locomotora e reprodutiva-cópula. As pernas e os pedipalpos são formados por 7 artículos (ou multiarticulados em algumas espécies) e também podem desempenhar as mesmas variadas funções das quelíceras. A ausência de estruturas trituradoras bucais (como nos insetos) teve como consequência algumas adptações nas coxas dos primeiros apêndices do corpo dos grupos terrestres e, principalmente, a restrição pela ingestão de alimentos liquefeitos.

Fonte: Brazil, T. K. & Porto, T. J. 2016. Cheliceriformes. In: Fransozo, A. & Negreiros-Fransozo, M. L., orgs. Zoologia de invertebrados. SP, Roca.

19 junho 2023

‘Onde estão os carrapatos?’ e outras três perguntas contra o sequestro e a inércia da opinião pública



APRESENTAÇÃO. – Dois eventos realizados na Fazenda Santa Margarida, em Joaquim Egídio, distrito de Campinas (SP), em 27/5 e 3/6, ganharam a atenção da mídia brasileira. Não pela natureza dos eventos em si (uma feijoada e um show de música, respectivamente), mas sim em decorrência de trágicos acontecimentos envolvendo gente que lá esteve – 3,5 mil indivíduos compareceram à feijoada e 10 mil, ao show. Até a manhã de sexta-feira (16/6), ainda segundo o noticiário, das 3,5 mil pessoas que foram à feijoada, quatro vieram a falecer. Causa das quatro mortes: febre maculosa. As autoridades locais passaram a tratar o ocorrido como um surto de febre maculosa. O que parece ter desencadeado também um surto de insanidades. A doença, como eu disse, virou notícia e o sinal vermelho foi acionado meio que de qualquer jeito. Óbitos ocorridos em outras cidades do estado de São Paulo, e até em outros estados, logo passaram a ser associados à doença. Novos relatos talvez ainda sejam divulgados ao longo dos próximos dias. Mais um pouco, porém, e a febre irá submergir e desaparecer. Não a febre real, que se tornou uma endemia mais ou menos sazonal (ver adiante), mas sim a febre fantasiosa do noticiário. Outras crises virão, outras crises serão forjadas. Afinal, a roda viva do sensacionalismo não pode parar. Em casos como o de Joaquim Egídio, claro, a tristeza maior são as perdas humanas. Mas acompanhar a mídia brasileira, além de revoltante, é desolador. As barbeiragens são tantas e tão recorrentes que sempre penso em um grande queijo suíço – cheio de furos e mofado. (Outra lembrança recorrente tem a ver com o mercado editorial. Veja: 90% das preocupações dos editores brasileiros se restringem aos atrativos da capa, sobram 10% de preocupações para o que de fato importa. No fim das contas, portanto, não é de estranhar que o nosso mercado livreiro seja basicamente um desperdício de tinta e papel.) Fato é que o surto em Campinas desencadeou mais um surto de barbeiragens na imprensa. Incluindo aí desde mal-entendidos ou tolices pontuais até erros graves e grosseiros, alguns potencialmente desastrosos. No que segue, cito e comento alguns casos. Concluo o artigo examinando a pergunta do título de um ponto de vista, digamos, sistemático: Afinal, onde ficam os carrapatos no grande esquema geral da árvore da vida?

1. CARRAPATOS NÃO SÃO INSETOS.

Achei que não fosse mais ouvir isso, mas eis que os carrapatos tornaram a ser rotulados de insetos. Na quarta-feira (14), por exemplo, tropecei nessa mesma pedra três vezes, em três diferentes canais no YouTube – Band, Gazeta e UOL. Dois dos locutores eram jornalistas, o terceiro – pasmem – era um médico infectologista.

2. TRANSMISSÍVEL SIM, CONTAGIOSA NÃO.

Ao contrário da Covid-19 – que matou 108 brasileiros na semana passada (4-10/6) (ver aqui) –, a febre maculosa não é uma doença contagiosa. Um indivíduo infectado não transmite a infecção para um indivíduo sadio. Sim, a doença é transmissível, mas não por contágio. Assim como ocorre com doenças ainda mais preocupantes (e.g., febre amarela, dengue e malária), a febre maculosa é transmitida por um vetor. O que há de diferente agora é que o vetor não é um inseto, mas sim um carrapato – leia-se: um ácaro (ver adiante).

3. INFECCÃO NÃO É SINÔNIMO DE DOENÇA.

Um parasito é um organismo que obtém seus nutrientes de um ou de uns poucos hospedeiros individuais, normalmente provocando algum dano, mas sem levar à morte imediata. Quando um parasito coloniza um hospedeiro, diz-se que este abriga uma infecção. Se a infecção ocasiona sintomas claramente prejudiciais ao hospedeiro, diz-se então que este tem uma doença.

Doenças causadas por parasitos são genericamente referidas como parasitoses e os parasitos que provocam tais doenças são genericamente referidos como patógenos.

4. O VETOR É O CARRAPATO, NÃO A CAPIVARA.

Ao menos 1.415 diferentes organismos infecciosos causam ou podem causar doenças em seres humanos. A maioria (61%) dessas parasitoses é de origem zoonótica (i.e., humanos contraem a infecção de algum animal previamente infectado). Entre as novas doenças infecciosas que estão a surgir, o percentual é ainda maior: 75% das doenças emergentes são de origem zoonótica.

Zoonoses podem ser transmitidas por vias diretas ou indiretas. No primeiro caso estão as doenças contagiosas e as infecções provocadas pela ingestão do parasito. Diz-se que as doenças contagiosas são de transmissão direta porque indivíduos sadios contraem a infecção ao terem contato (íntimo ou não) com algum indivíduo previamente infectado (doente ou não).

No segundo caso, a transmissão do parasito depende da presença de uma terceira espécie, referida aqui como vetor. Não há contágio. O que ocorre é uma triangulação: em decorrência dos seus hábitos de vida, o vetor estabelece conexões entre um ou mais hospedeiros infectados (doentes ou não) e um ou mais hospedeiros sadios (coespecíficos ou não). Febre amarela, dengue e malária são exemplos de zoonoses cuja disseminação depende da ação de um vetor. A febre maculosa é mais um exemplo. Lembrando apenas o seguinte: ao contrário do que eu ouvi por aí, as capivaras não são o vetor da febre maculosa; o vetor são os carrapatos. O que cabe dizer aqui sobre as capivaras é que elas, isto sim, podem funcionar como um reservatório.

5. CARRAPATOS ACOMPANHAM OS HOSPEDEIROS.

Carrapatos vão atrás de capivaras pelo mesmo motivo que seres humanos cultivam hortas ou vão ao supermercado: alimentação. Quando um carrapato se prende a um hospedeiro, o objetivo fundamental é apenas e tão somente encontrar alimento. Transmitir doenças (digo: agentes infeciosos) é um efeito colateral.

Todos os parasitos dependem dos seus hospedeiros. O que explica por que os parasitos acompanham os seus hospedeiros. E acompanham tanto em termos espaciais e geográficos como também em termos demográficos. Não há mistério: A densidade de carrapatos é maior justamente onde a densidade de hospedeiros é maior. Uma relação simples e direta que ajuda a explicar, entre outras coisas, por que os carrapatos são relativamente raros em florestas. Sim, não é nada fácil tropeçar em carrapatos no interior de florestas.

A rigor, carrapatos só são comuns em hábitats perturbadas, como áreas de pastagens ocupadas por gado (bovino ou equino). Surtos locais de doenças transmitidas por carrapatos (como deve ser o caso de Campinas) estão associados à presença de áreas sujeitas a infestações – e.g., pastos ocupados por gado ou corpos d’água cuja vegetação ribeirinha sustenta e abriga famílias de capivaras.

6. A SAZONALIDADE DAS INFESTAÇÕES.

Moro na zona rural desde 2003. Não tenho animais domésticos e não há carrapatos aqui em casa. Sofro ataques por parte de carrapatos apenas quando estou perto das cabeças de gado (bois e cavalos) de vizinhos ou quando transito pelo pasto onde esses animais passaram antes. Ainda assim, as chances de um encontro variam muito de acordo com a estação. Pois os encontros são bem mais frequentes durante a estiagem – leia-se: os meses mais secos do ano (i.e., o inverno e os meses vizinhos, como agora em junho). Não é comum ser atacado na estação chuvosa, mesmo estando ao lado de bois e cavalos.

7. MAIS APURAÇÃO, MENOS OBA-OBA.

Palavras de ordem do tipo “Combater os carrapatos”, “Manter a grama aparada” ou “Borrifar repelente na pele antes de sair de casa” servem apenas para assustar o público e torná-lo refém. Pois são inconsistentes ou não fazem qualquer sentido, sobretudo para os moradores de áreas urbanas.

Em vez de promover o sensacionalismo, a imprensa brasileira deveria apurar. Minimamente, que fosse. A apuração cumpre ao menos dois papéis: educa (em primeiro lugar, o próprio repórter) e coloca os fatos em perspectiva. Assim, em vez de fazer presepadas diante das câmeras ou passar o dia sentado diante de um computador, os repórteres deveriam ir a campo. Ao menos de vez em quando. Que tal, por exemplo, uma matéria jornalista falando sobre a presença de gado ou de capivaras nas proximidades da tal Fazenda Santa Margarida? (Aposto com qualquer um que tem...)

Não custa repetir: Os vetores da febre maculosa são carrapatos de hábitos estritamente hematófagos. Eles não se alimentam de grama nem de samambaias. Eles se alimentam do sangue de alguns mamíferos, notadamente mamíferos que pastam (e.g., gado).

8. QUEM SÃO OS CARRAPATOS, AFINAL?

Como eu disse logo no início, carrapatos não são insetos. Carrapatos são ácaros. Para quem não sabe ou não lembra, os ácaros constituem um rico e variado grupo de artrópodes. Para concluir, vamos então passar os olhos rapidamente nessa turma.

8.1. Os artrópodes.

Os animais que integram o filo Arthropoda (do grego, arthron, articulação + podos, pés) se distinguem de todos os outros filos de invertebrados por uma série de características. As mais notáveis são a presença de um exoesqueleto quitinoso a revestir o corpo e de pares de apêndices articulados presos ao corpo (e.g., pernas).

Os artrópodes constituem um grupo amplamente dominante: Quase 80% das espécies viventes de animais pertencem a esse filo – o que equivaleria a pouco mais de 60% de todas as espécies conhecidas. Podem ser encontrados nos mais variados tipos de hábitats, das profundezas oceânicas às montanhas mais altas, das florestas equatoriais mais exuberantes às ilhas polares mais isoladas. Os hábitos alimentares são bastante variados. Muitos grupos se alimentam de tecidos vegetais vivos (fitofagia). Outros, porém, exibem hábitos carnívoros (incluindo os que se alimentam tão somente do sangue de vertebrados) ou detritívoros (incluindo os que se alimentam de restos ou de tecidos mortos).

Como um grande e generoso guarda-chuva, o filo abriga (1) os aracnídeos (ácaros, aranhas, escorpiões e afins); (2) os crustáceos (caranguejos, cracas, lagostas, tatuzinhos-de-jardim e afins); (3) os miriápodes (centopeias e piolhos-de-cobra); e, o maior de todos os grupos, (4) os insetos (besouros, gafanhotos, libélulas, mariposas, moscas, vespas etc.).

8.2. Os quelicerados.

Por questões de conveniência, adoto aqui um sistema de classificação que divide os artrópodes em dois grandes grupos: (1) Quelicerados – Artrópodes portadores de quelíceras (um tipo de aparelho bucal que funciona mais ou menos como uma bomba de sucção); inclui os aracnídeos e vários grupos menores e menos conhecidos; e (2) Mandibulados – São os portadores de mandíbulas (um tipo de aparelho bucal que funciona mais ou menos como uma tesoura; vale notar, no entanto, que diferentes linhagens ostentam um aparelho bucal bastante modificado em relação ao tipo básico ancestral); inclui os crustáceos, os miriápodes e os insetos.

Estamos interessados aqui apenas nos quelicerados. Diferentemente do que acontece, por exemplo, entre os insetos, cujo corpo é dividido em três regiões (cabeça, tórax e abdome), o corpo dos quelicerados está dividido em apenas duas, cefalotórax e abdome [16]. Não há uma cabeça individualizada. O cefalotórax é a parte anterior do corpo, onde ficam alojados os olhos, o aparelho bucal e os apêndices locomotores. O abdome abriga vários órgãos nobres, como os órgãos envolvidos com a respiração, a digestão e a produção de gametas.

O aparelho bucal é constituído de dois pares de apêndices: os pedipalpos e as quelíceras (itens que, como vimos, dão nome ao grupo). Os primeiros têm em geral função táctil; os últimos são usados (primariamente) durante a alimentação, embora possam ter também outras funções. A maioria dos quelicerados ingere alimentos fluídos ou liquefeitos. As quelíceras funcionam então como uma bomba de sucção perfurante. Capturada a presa ou estando o animal sobre o seu hospedeiro, por exemplo, as quelíceras penetram no corpo da vítima e de lá extraem fluidos internos ou tecidos que foram previamente dissolvidos por ação enzimática.

Pouco mais de 105 mil espécies viventes de quelicerados já foram formalmente descritas e nomeadas. Essas espécies costumam ser arranjadas em três grupos: os picnogônidos, os xifosuros e os aracnídeos. Os picnogônidos (ou aranhas-do-mar) derivaram cedo do ramo ancestral que mais tarde daria origem às outras duas linhagens. São conhecidas umas 1,3 mil espécies viventes. Os xifosuros (ou límulos), que em épocas remotas já foram muito mais comuns e diversificados, estão representados hoje por apenas quatro ou cinco espécies. Picnogônidos e xifosuros são animais exclusivamente marinhos. As demais cento e poucas mil espécies constituem o grupo dos aracnídeos.

8.3. Os aracnídeos.

O grupo dos aracnídeos (comumente tratado como uma classe do filo Arthropoda) reúne uma ampla variedade de artrópodes, incluindo ácaros, aranhas, escorpiões, opiliões e pseudoescorpiões, além de vários grupos menores pouco ou nada conhecidos do grande público. A imensa maioria desses animais vive em terra firme, nos mais diferentes tipos de hábitats. Como foi dito antes, a classe abriga 98% de todas as 105 mil espécies conhecidas de quelicerados. Em número de espécies, é a segunda classe do reino animal, ficando atrás apenas dos insetos.

O cefalotórax dos aracnídeos está parcial ou inteiramente coberto por um escudo em forma de carapaça. Como também já foi dito, o cefalotórax sustenta os apêndices locomotores, notadamente as pernas (no caso dos aracnídeos, nunca menos de quatro pares). O abdome é desprovido de apêndices ou estes estão modificados em fiandeiras (aranhas) ou pentes (escorpiões).

Em termos classificatórios, os aracnídeos são divididos em uma série de grupos taxonômicos (ordens), dois deles muito ricos em espécies e bastante diversificados. Algumas dessas ordens são desconhecidas do público; outras são familiares, ainda a população pouco ou nada conheça a respeito desses animais. Esse desconhecimento ajuda a explicar porque a reação típica que temos diante deles é a aversão, o medo ou, às vezes, o chilique. Reações, vale ressaltar, quase sempre absolutamente injustificadas – ver No país da zoofobia.

8.4. Os ácaros.

Das 105 mil espécies conhecidas de aracnídeos, 48 mil estão na ordem dos ácaros (ordem Acari). Em número de espécies, é a maior ordem da classe. A maioria das espécies conhecidas é de vida livre, exibindo uma ampla variedade de hábitos alimentares – herbívoros, carnívoros, onívoros ou detritívoros. Alguns ácaros herbívoros são pragas agrícolas; o impacto negativo sobre a cultura pode ser direto (via consumo) ou indireto (via transmissão de patógenos que causam doenças importantes). Entre os ácaros carnívoros, alguns são hematófagos (carrapatos), alimentando-se do sangue de vertebrados.

Todos os grupos de vertebrados terrestres (mamíferos, aves, répteis e até anfíbios) são atacados por carrapatos. Cada espécie de hospedeiro tende a abrigar uma fauna própria de parasitos, assim como cada espécie de parasito tende a atacar um rol limitado de hospedeiros. Carrapatos de espécies diferentes que convivem em um mesmo hospedeiro costumam se fixar em partes diferentes do corpo da vítima. Em casos assim, diz-se que há segregação espacial entre as espécies envolvidas. Carrapatos são candidatos óbvios a vetores de doença, assim como todo ectoparasita que se alimenta bombeando fluídos do corpo do hospedeiro.

Tratando Acari como uma ordem, três subordens costumam ser reconhecidas: (i) Acariformes – 30 mil espécies viventes; amplo espectro ecológico, tanto em termos de hábitat como de hábito alimentar; (ii) Parasitiformes – 10 mil espécies; a maioria exibe hábitos alimentares carnívoros, muitas delas, inclusive, se alimentam de outros ácaros; algumas são hematófagas, notadamente as espécies do grupo Ixodida (carrapatos); e (iii) Opilioacariformes – Grupo pequeno (30-40 espécies) e primitivo; são raros, alguns vivem no chão da floresta, onde se alimentam de pequenos artrópodes ou de grãos de pólen.

8.5. Os carrapatos.

Parasitos de hábitos exclusivamente hematófagos, os carrapatos abrangem três famílias, Ixodidae (~700 espécies), Argasidae (~200) e Nuttalliellidae (1). Os carrapatos de maior interesse sanitário são os ixodídeos. É lá que estão, por exemplo, as espécies de vetores de algumas doenças importantes, como a febre maculosa e a febre das montanhas.

No fim das contas, além de serem vetores bastante competentes (no sentido usado em epidemiologia), carrapatos têm um impacto direto na demografia e no sucesso reprodutivo dos seus hospedeiros, em especial quando o nível de infestação é elevado. No âmbito da criação animal, por exemplo, eles costumam reduzir o nível de produção dos rebanhos, tantos em termos quantitativos como qualitativos.

9. CODA.

Para concluir, deixo aqui três perguntas para reflexão. Perguntas endereçadas a todos os leitores, mas, em especial, aos brasileiros que moram hoje no estado de São Paulo, onde teve início o bafafá da semana passada. Aí vão as perguntas:

(1) Quantas mortes por fome ou frio já foram registradas ao longo deste mês de junho na capital e em todo o estado de SP?;

(2) Quantas mortes por acidentes de trânsito já foram registradas ao longo deste mês na capital e em todo o estado de SP?; e

(3) Quantas mortes por Covid-19 já foram registradas ao longo deste mês na capital e em todo o estado de SP?

*

NOTA.

[*] Para se inteirar sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, pacotes com os quatro livros do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir algum volume específico ou para mais informações, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

* * *

18 junho 2023

Caçadores-coletores de Roraima

Pedro Augusto Mentz Ribeiro

Na região do cerrado, no nordeste do Estado de Roraima, precisamente nos níveis estratigráficos mais antigos da Pedra Polida e do abrigo Mauá, este na Fazenda Flexal, constatamos a presença de caçadores-coletores-pescadores. Naqueles níveis não foi registrada a presença de fragmentos de cerâmica de vasilhas, indicativo mundial de horticultura ou agricultura incipiene. Quais as provas e características desses primeiros povoadores? A resposta ao primeiro item vem através do instrumental e dos vestígios fitofaunísticos ou restos de alimentação. Batedores-trituradores, mós, moedores e pilões, em arenito ou basalto, os dois últimos polidos, são peças líticas típicas de povos coletores. Com elas fragmentavam, trituravam e moíam os grãos, sementes, frutos e raízes. Com as partes laterais das peças, por percussão, trituravam e, com as superfícies planas ou convexas, por pressão, moíam e transformavam em pó. Os batedores-trituradores são normalmente simples seixos de rio que, por sua forma elipsoidal ou circular mais ou menos esférica, e pela densidade ou peso, eram utilizados para as funções acima descritas. As mós e pilões, peças passivas, serviam de suporte, ou seja, os grãos, etc. eram colocados sobre as mesmas: nas mós a ação é por pressão, ao passo que no pilão é por percussão. Alguns implementos permanecem no tempo, sendo utilizados por grupos ceramistas, até os nossos dias: é o caso do pilão e da mó. Outros foram substituídos, tais como os batedores-trituradores e moedores, pelas mãos-de-pilão e mãos-de-mó, respectivamente. Matéria corante em laterita (vermelha) é frequente, inclusive em todos os níveis e com sinais de utilização. O lítico lascado, em quartzo, é pouco representativo ou diagnóstico. Pontas de projétil de pedra lascada foram encontradas isoladamente, em locais ignorados – apenas três exemplares, que se encontram em mãos de colecionadores.

Fonte: Ribeiro, P. A. M. 1999. In: M. C. Tenório, org. Pré-história da Terra Brasilis. RJ, Editora UFRJ.

16 junho 2023

O equipamento dentário

David Pilbeam

Talvez tão significativo como a redução no tamanho é o fato de que os caninos hominídeos apresentam uma forma alterada. Em lugar de serem dentes cônicos e afiados ou em forma de lâmina, apresentam forma de cinzel e lembram os incisivos. Os próprios incisivos são também pequenos em relação aos pré-molares e molares, e têm coroas orientadas verticalmente. Geralmente, – pelo menos nas populações humanas não modernas – as superfícies de corte dos caninos superiores e inferiores e os incisivos encontram-se borda-sobre-borda na oclusão. Incisivos, caninos e pré-molares formam uma série contínua, não havendo diastemas (espaços interdentais) como em outros primatas (por exemplo, entre incisivos superiores e caninos, ou caninos inferiores e primeiros pré-molares).

Os pré-molares e molares apresentam contorno bastante arredondado e suas superfícies oclusivas têm cúspides rasas e sem corte. Estas superfícies são cobertas com espesso esmalte – uma adaptação para reduzir o desgaste em um animal com longa duração de vida e (pelo menos originalmente) que se alimenta de alimentos duros.

Fonte: PIlbeam, D. 1978. A ascendência do homem. SP, Melhoramentos & Edusp.

13 junho 2023

Até quando a sociedade irá inalar e conviver com a sujeira que o mercado despeja no ar?

F. Ponce de León.

1.

Ainda sobre o imbróglio Petrobras vs. Ibama (ver aqui e aqui). Em 5/6, o informativo Petronotícias divulgou uma entrevista com um pesquisador sênior na área de sedimentologia (geologia) (ver aqui). (Não conhecia o entrevistado, assim como não conhecia o informativo. Soube da entrevista em um sítio malcheiroso que reproduziu a entrevista.) O título da matéria – ‘Pesquisador que estudou a foz do Amazonas afirma que Greenpeace manipulou dados sobre a existência de corais’ – já dá o tom da coisa: o malvado e poderoso Ibama, com base em dados falsos fornecidos por ONGs estrangeiras mal-intencionadas, está (mais uma vez) atrapalhando o trabalho da nossa querida e abnegada Petrobras.

A julgar pelo conteúdo da matéria, além de cutucar ONGs, o sujeito aproveitou para falar umas bobagens sobre os corais. A certa altura, por exemplo, ele teria dito: “No Brasil, só existem seis espécies de corais vivos, que são encontrados na região nordestina.” Não é bem assim. De acordo com a literatura, o número de espécies registradas no litoral do país é ao menos 10 vezes maior: mais de 60 espécies, vinte e poucas das quais são endêmicas. Outra coisa: as formações coralíneas não estão restritas ao litoral do Nordeste; corais (ainda) podem ser encontrados (mesmo que espaçadamente) desde o litoral da região Norte até o litoral de SC.

2.

Estamos a falar da maior empresa do país. Como qualquer petroleira, a Petrobras tenta melhorar a sua imagem diante da opinião pública. Por conta disso, ela distribui algumas gorjetas, alguns farelos de bolo. Ora, levando em conta que a maioria das grandes companhias em operação no país nem farelo de bolo distribui, o papel da petroleira ganha relevo e é muito bem-visto por parte da mídia, além, claro, por parte de muitos empreendedores. A propósito, a empresa patrocina (ou patrocinava) uma iniciativa de estudiosos brasileiros chamada de Coral Vivo. (O empreendimento, ao que parece, foi ideia de gente que trabalha no Museu Nacional, RJ – o mesmo que foi destruído por um incêndio evitável, em 2018.)

3.

Qualquer veículo de mídia interessado em corais deveria falar com gente que sabe do que está falando. Eu mesmo não conheço pessoalmente nenhum pesquisador brasileiro que lide com esses animais (tive um amigo, já falecido, que estudava gorgônias), mas a julgar pela bibliografia disponível sobre o grupo, citaria o nome de ao menos dois: Sérgio Stampar (Unesp) e André Morandini (USP).

Falando ainda em corais, os leitores mais novos talvez não se lembrem do caso ou sequer o conheçam, mas o fato é que, ainda no início da década de 1980, as petroleiras queriam perfurar dentro do arquipélago de Abrolhos (litoral sul da BA, quase na divisa com o ES). Houve muita correria, muita resistência, embora ainda estivéssemos na ditadura. (Em 1983, foi criado um parque nacional na região. O parque ocupa apenas 880 km2 – algo próximo a um quadrado com 30 km de lado –, mas é um marco, visto que foi a primeira unidade de conservação marinha do país.)

4.

Gosto de corais, assim como gosto de gorgônias. Mas não sou advogado do Ibama, muito menos de alguma ONG verde. Estou aqui apenas e tão somente para expor e defender um ponto de vista e aí, quem sabe, levantar uma hipótese: o rei está nu.

Fato é que o pano de fundo do imbróglio Petrobras vs. Ibama não tem a ver com ONGs. Nem tem a ver com corais. Não tem a ver sequer com a Amazônia ou com o oceano Atlântico. O imbróglio que de fato urge e está a nos cobrar uma posição é sobre inércia, é sobre petróleo, é sobre energia limpa, é sobre transporte inteligente.

Sim, energia limpa e transporte inteligente. Ou não caberia a qualquer cidadão minimamente preocupado com a sociedade brasileira exigir ações inteligentes por parte da maior empresa do país? (Quando digo exigir inteligência, claro, estou a pensar tão somente em gente que integra o corpo técnico da companhia.)

5.

Um erro grave e recorrente nessas discussões é tratar os conceitos de sociedade e mercado como sinônimos. Não podemos incorrer nesse erro. A produção de petróleo (assim como a de eletricidade, automóveis, geladeiras, arroz, leite em pó, goiabada etc.) não visa atender as sociedades, visa atender aos mercados. A rigor, cada bem ou serviço tem o seu próprio mercado. Como consumidor, por exemplo, eu mesmo participo de alguns mercados – e.g., arroz e goiabada –, mas não participo de muitos outros – e.g., automóveis, motocicletas ou iates.

6.

Pode não parecer, mas já estamos no futuro. A capital do país, por exemplo, inaugurada outro dia, já tem mais de 60 anos. Estamos em 2023. E está a ocorrer hoje com o petróleo o que ocorreu com a lenha a partir do século 17: a busca por fontes alternativas de energia (ver artigo ‘Finda a lenha, eis o carvão: Como foi mesmo que entramos nessa enrascada?’).

Antes do fim do século 18, a lenha praticamente já não era mais usada para fundir o ferro. Cito: “No último quarto do século 18, queimar coque para fundir o ferro havia se estabelecido como o procedimento padrão na indústria siderúrgica. Com a crise da madeira, muitos formos haviam sido fechados. A nova técnica não só salvou a indústria, como a fez prosperar. Em meados da década de 1790, a produção de ferro à base de coque equivalia ao triplo da produção de anos anteriores, ainda à base de carvão vegetal” (ver aqui).

Como fonte de energia, o petróleo de hoje pode ser substituído por outras coisas (tão ou mais eficientes e muito mais limpas), incluindo energia nuclear e energia solar. Esta última seria a melhor (definitiva?) alternativa para a sociedade, mas não para os mercados, razão pela qual as companhias que controlam as fontes convencionais estão a fazer corpo mole e a atrasar a chamada transição energética.

7.

Atualmente, considerando apenas a geração de eletricidade, as principais fontes de energia em escala planetária são as seguintes (em ordem decrescente de importância): carvão mineral, hidrelétrica, energia nuclear, gás, petróleo e fontes alternativas (esta última categoria inclui energia solar, eólica e outras).

Entre 1971 e 2018 (passando por 1990 e 2005), a maior parte da produção mundial (64-75%) de eletricidade veio da queima de combustíveis fósseis (carvão, gás e petróleo). Ao longo desse período, o peso relativo do carvão (a principal fonte) se manteve mais ou menos inalterado (entre 35 e 40%). Os outros combustíveis fósseis citados (gás e petróleo), no entanto, exibiram tendências opostas. A importância relativa do gás aumentou, tendo saltado de uns 12% (1971) para mais de 20% (2018). A do petróleo diminuiu, caindo de uns 20% (1971) para menos de 5% (2018). Entre 1971 e 2018, as fontes alternativas foram as que mais ganharam espaço, saltando de percentuais inexpressivos (1% ou menos, em 1971, 1990 e 2005) para pouco mais de 10% em 2018.

8.

A grande barreira a impedir a utilização em larga escala de uma nova fonte de energia não são os corais do litoral brasileiro. A barreira a impedir o desenvolvimento e a utilização em larga escala da energia solar talvez seja o fato de que se trata de uma fonte de energia, digamos, descentralizada; do tipo cuja adoção plena implicaria no fim de muitos mercados. As contas de luz e os postos de gasolina, por exemplo, teriam de mudar ou simplesmente deixariam de existir (ver artigo ‘O fim das contas de energia’). Presumo que o leitor, assim como eu, vê isso com bons olhos. Todavia, não acho que as petroleiras (Shell, Exxon, BP, Petrobras etc.) estejam interessadas nisso. Ao contrário: o que elas fazem – e fazem para valer (ver, por exemplo, como a Shell interferiu e manipulou no relatório final da Conferência da ONU em Joanesburgo, em 2002) – é retardar o progresso técnico.

9.

Não, o imbróglio Petrobras vs. Ibama não é sobre ONGs, não é sobre corais, não é sequer sobre a Amazônia. É sobre energia limpa, é sobre transporte inteligente.

Motores a combustão são hoje um testemunho de duas coisas medonhas: deliberado atraso tecnológico e deliberado descaso com a atmosfera e, claro, com as sociedades. Em outras palavras, a queima de petróleo atende e satisfaz aos mercados. O lado negativo, porém, penaliza as sociedades como um todo: inalar e conviver com a sujeira que a combustão despeja no ar.

Sim, todos nós estamos a inalar fuligem e fumaça resultantes da combustão de motores. Inalamos sujeira todas as horas do dia, todos os dias do ano, todos os anos das nossas vidas – até quando?

* * *

12 junho 2023

200 meses no ar

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/6, o blogue Poesia Contra a Guerra completa 16 anos e oito meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘16 anos e sete meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: David McClelland, Donald Norman e Lúcio de Mendonça. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: James Barry, John Crome, John Opie e Meindert Hobbema.

10 junho 2023

Cantora de rua e criança


John Opie (1761-1807). Street singer and child. s/d.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 junho 2023

A dama esconde os segredos na manga

Eudoro Augusto

Alguma coisa terrível
epilepsia pais adotivos falência fraudulenta
meias rasgadas genocídio suinofilia?
explosão de gás na paz doméstica
uma carta aberta nas bodas de prata
(ou foi na lua-de-mel?)
quem sabe trauma banal e ameno
já se fechando em minúsculos pontos
na cicatriz junto à orelha
enigmazinho bem defendido
por quase imperceptíveis movimentos de pálpebra.

Fonte: Hollanda, H. B., org. 2001 [1976]. 26 poetas hoje, 4ª ed. RJ, Aeroplano.

07 junho 2023

Eu fui a três drogarias ontem

Donald Norman

[N]ós estamos falando do seu [cérebro] modo de operar – funcionalismo – e não de todos os componentes. Componentes não são relevantes um para o outro. Suponha que eu use a frase de Bob Abelson (Abelson 1963) “Eu fui a três drogarias ontem”. O que uma outra pessoa poderia retrucar ao ouvir isto? O tipo de resposta de uma pessoa normal seria “As duas primeiras não tinham o que você queria?” Esta pergunta indica que você sabe por que as pessoas vão às drogarias e que, normalmente, não se vai a três delas no mesmo dia. Você precisa ter uma tremenda quantidade de conhecimentos a respeito do significado das palavras, do modo como são reunidas em uma frase e, ainda, de como o mundo é construído, ou seja, o conhecimento do mundo. É o que eu quero que o meu modelo de comportamento faça.

Fonte: Evans, R. I. 1979 [1976]. Construtores da psicologia. SP, Summus & Edusp.

06 junho 2023

Quantos átomos existem no Universo?

Stephen Hawking

A resposta é que a relatividade e a mecânica quântica permitem a criação de matéria a partir de energia na forma de pares de partículas/antipartículas. E de onde veio a energia para criar essa maté-ria? A resposta é que ela foi tomada de empréstimo da energia gra-vitacional do Universo. O Universo tem uma enorme dívida de energia gravitacional negativa, que equilibra exatamente a energia positiva da matéria. Durante o período inflacionário, o Universo fez empréstimos pesados de energia gravitacional para financiar a criação de mais matéria.

Fonte: Hawking, S. 1995 [1994]. Buracos negros, universos-bebês e outros ensaios. RJ, Rocco.

04 junho 2023

A um púlpito quebrado

Lúcio de Mendonça

Ao livre pensador Angelo Agostini.

Estás inofensivo, estás vazio,
     Velho caixão malvado,
Que trazias de Roma, consignado
     Às multidões beatas
O preconceito estúpido e sombrio
E o dogma bestial, de quatro patas.

Tu nunca foste compassivo e terno:
     Ao pobre, quase nu,
     Que lhe dizias tu?
Os terrores dramáticos do inferno!
     Por todos os três lados,
Blasfemavas feroz contra o Progresso,
Que foi 93? foi um possesso,
     Crivado de pecados;
A Liberdade, um sonho sedicioso;
A Ciência, uma cínica atrevida;
Só a Religião é que é a vida,
E a reza, o largo porto bonançoso.

Da Imprensa tu disseste mais horrores
Do que Mafoma disse do toicinho...
     É o pestífero ninho
Dos abutres do mal e da impiedade,
     Covil de pecadores
Que têm de arder por toda a eternidade.

Hoje, caída em ruínas a capela,
Estás à chuva e ao vento e ao sol aberto...
     Estás melhor, decerto.
Hoje, em lugar do círio, vês a estrela.
Do mau cheiro de incenso desinfecto,
     Agora perfumou-te
A viva aragem fresca da campina;
E tens por vasto, radioso teto
     A cúpula divina,
A constelada abóbada da noute.

Em vez do órgão fanhoso, ouves agora
     O cântico das aves,
     As músicas da aurora.
     E sobre as tuas traves,
Donde escorria a onda das asneiras,
Gemem de amor as pombas forasteiras.

Novo padre Jacinto, sacudiste
O teu jugo católico romano,
E em vez de velho púlpito tão triste,
És um digno caixão, livre e profano.
     E, pois te restituíste
À grande comunhão da natureza,
     Acharás, com certeza,
Um fim mais nobre, donde te provenha
De ser útil a esplêndida alegria:
     Acabarás em lenha
Para aquecer de um pobre a noite fria.

Fonte (última estrofe): Martins, W. 1978. História da inteligência brasileira, vol. 4. SP, Cultrix & Edusp. Poema publicado em livro em 1889.

02 junho 2023

O controle do fogo nos converteu não só em cozinheiros, mas também em tagarelas

Felipe A. P. L. Costa [*].

1. O CONTROLE DO FOGO.

Uma tecnologia que está conosco desde sempre, e cujo advento se deu provavelmente por imitação – após milhares de anos de convivência –, é o controle do fogo [1]. De posse dela, nossos ancestrais se tornaram cozinheiros.

Os impactos e os desdobramentos do novo hábito foram amplos e duradouros. O cozimento diminuiu o tempo gasto no forrageio e na ingestão de itens alimentares; barateou o custo de itens valiosos (e.g., carne de caça), incentivando a partilha e estreitando laços sociais. A ingestão de alimentos cozidos, por sua vez, elevou o orçamento energético, sendo acompanhado de ajustes evolutivos (e.g., a expansão do cérebro e a redução do intestino).

Mas o controle do fogo não alterou apenas e tão somente a anatomia, os hábitos e a dieta. Alterou também a dinâmica mental dos indivíduos e a agenda cultural dos grupos.

Falando sobre o que acontece em torno das fogueiras noturnas, por exemplo, Wiessner (2014, p. 14027; tradução livre) anotou:

“Irei explorar aqui como o tempo proporcionado pelas horas à luz do fogo cria um espaço e um contexto para: (i) uma compreensão mais acurada dos pensamentos e das emoções dos outros, em especial dos que não estão presentes; (ii) estabelecer elos dentro e entre grupos; e (iii) geração, regulação e transmissão de instituições culturais.”

2. RODAS DE CONVERSA NOTURNAS.

Fogueiras noturnas estendem o dia, permitindo a condução de conversas em um novo contexto.

Ainda segundo Wiessner (2014, p. 14027; tradução livre):

“A conversa durante o dia gira em torno de coisas práticas e das fofocas correntes; as atividades à luz do fogo giram em torno de conversas que evocam a imaginação, ajudam as pessoas a lembrar e a entender os outros em suas interconexões, cicatrizam as rugas do dia e transmitem informações sobre instituições culturais que estabelecem regularidades de comportamento e a confiança correspondente. O apetite por reuniões à luz do fogo, visando conversas íntimas e histórias noturnas, permanece conosco até hoje.”

Imagine agora esse mesmo cenário durante a pré-história. Pois o controle do fogo e as rodas de conversa noturnas antecederam o despertar e o desenvolvimento de um novo hábito humano: o pensamento especulativo (filosofia, metafísica etc.). Filosofar, como muitos de nós já sabemos, é um hábito poderoso, tanto no plano individual como em termos sociais.

No fim das contas, as rodas de conversa noturnas representaram uma janela de oportunidades para os hominídeos. Mais adiante, a expansão numérica dos grupos mais sofisticados e mais bem-sucedidos (leia-se: grupos constituídos não só de cozinheiros, mas também de cozinheiros tagarelas), empurraria a história humana para o outro lado da moeda: o parasitismo social – leia-se: a escravização de prisioneiros de guerra e a exploração sistemática do trabalho alheio, como nós veremos mais adiante.

*

NOTAS.

[*] O presente artigo foi extraído e adaptado do livro A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (em processo de finalização). Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, os quatro livros anteriores do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir algum volume específico ou para mais informações, faça contato diretamente com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros anteriores, ver aqui.

[1] O controle do fogo é um exemplo de inovação tecnológica bem anterior ao surgimento da linhagem H. s. sapiens (ver Roebroeks & Villa 2011). De acordo com a hipótese do cozimento (em port., ver Wrangham 2010), cozinhar (sobretudo raízes, tubérculos e outras estruturas do corpo das plantas ricas em carboidratos) elevou as taxas de extração de calorias dos itens ingeridos. A partir de então, uma mesma quantidade de energia podia ser obtida a intervalos de tempo menores. O que por si só teria tido consequências profundas e duradouras na ecologia dos hominídeos, incluindo alterações no orçamento doméstico (e.g., atividades envolvidas com a manutenção do metabolismo corporal passaram a ser atendidas em períodos de tempo mais curtos) e no comportamento de forrageio (e.g., menos tempo passou a ser gasto na procura de itens alimentares, sobrando mais para outras atividades). Em um contexto de competição intergrupal, os grupos mais habilidosos no controle e no uso de tal inovação devem ter usufruído de alguma vantagem (e.g., redução nos níveis de mortalidade, elevação no tamanho médio do grupo e colonização de novos hábitats até então inexplorados) em relação àqueles grupos que não sabiam cozinhar.

*

REFERÊNCIAS CITADAS.

++ Roebroeks, W. & Villa, P. 2011. On the earliest evidence for habitual use of fire in Europe. Proceedings of the National Academy of Sciences 108: 5209-14.
++ Wiessner, PW. 2014. Embers of society: Firelight talk among Ju/'hoansi Bushmen. Proceedings of the National Academy of Sciences 111: 14027-35.
++ Wrangham, RW. 2010 [2008]. Pegando fogo. RJ, Jorge Zahar.

* * *

eXTReMe Tracker