31 julho 2019

Noções de genética mendeliana


A genética (do grego genetikós, algo como capaz de procriar) é a disciplina biológica que lida com o estudo da hereditariedade e da variação. É um dos raros campos da ciência cujos primórdios podem ser identificados com precisão: 1900.

Em 8/2 e 8/3/1865, em sessões da Sociedade de História Natural de Brünn, o monge e naturalista austríaco Gregor Mendel (1822-1884) [1] leu um artigo sobre os seus oito anos de pesquisa com hibridação (1856-1863).

O artigo (‘Experimentos de hibridação em plantas’, em alemão) foi publicado em 1866 e, embora não tenha sido de todo ignorado, a sua relevância só seria percebida em 1900, quando foi redescoberto por três botânicos [2] – o neerlandês Hugo de Vries (1848-1935), o alemão Carl Correns (1864-1933) e o austríaco Erich von Tschermak (1871-1962).

Cruzando ervilhas

Antes de iniciar a sua pesquisa com ervilhas, Mendel planejou o que iria fazer. Ele decidiu investigar a transmissão de traços descontínuos, cada um com dois estados alternativos – e.g., caule (longo / curto); posição da flor (axilar / terminal); cor da vagem imatura (verde / amarela); forma da vagem madura (grossa / lisa); cor (amarela / verde) e forma (redonda / angulosa) da semente e cor da película que recobre a semente (cinza / branca).

Mendel inicialmente cruzou ervilhas de linhagens puras (= homozigotas) para cada um desses estados alternativos [3].

A hibridação já havia sido usada como técnica experimental. O que ele fez de inovador foi quantificar os resultados. Contando os vários fenótipos presentes na prole, ele foi capaz de detectar regularidades estatísticas. Os padrões numéricos o inspirariam a formular generalizações. Nas palavras de Crow (1978, p. 2) [4]:

Quando ele cruzou plantas altas com baixastodos os híbridos eram altos (independentemente do tipo usado como macho ou fêmea [...]). Então ele permitiu que os híbridos assim formados se autopolinizassem e observou a geração seguinte. Ele encontrou 787 plantas altas e 277 baixas, aproximadamente na proporção 3:1.

No primeiro cruzamento, os genótipos dos genitores eram BB (plantas altas) e bb (baixas), cada qual produzindo um só tipo de gameta (B ou b), de sorte que a prole resultante (F1) era constituída tão somente de plantas altas heterozigotas (Bb).

Cruzando os híbridos entre si (Bb x Bb), ele obteve a segunda geração filial (F2), com duas classes fenotípicas (na proporção 3 plantas altas : 1 baixa) e abrigando três genótipos (1 BB : 2 Bb : 1 bb).

As leis de Mendel

As pesquisas conduzidas por Mendel obtiveram respostas para duas questões: (1) como os estados alternativos de um caráter são transmitidos (monoibridismo); e (2) como os estados alternativos de caracteres distintos são transmitidos simultaneamente (e.g., di- e tri-hibridismo) [5].

Monoibridismo. Levando em conta a cor da semente, por exemplo, Mendel cruzou ervilhas que só produziam sementes amarelas com ervilhas que só produziam sementes verdes. Fez o mesmo para cada um de outros seis caracteres, cruzando entre si linhagens puras para estados alternativos de um mesmo caráter (plantas altas v. baixas, sementes redondas v. angulosas etc.). Com base nos resultados que contabilizou na prole, ele elaborou a seguinte generalização (referida hoje como lei da segregação; em termos atuais):

Alelos pareados presentes em cromossomos homólogos se separam durante a meiose, de modo que metade dos gametas transporta um dos alelos (pois só herda um dos homólogos) e a outra metade, o outro (pois só herda o segundo homólogo).

Di- ou tri-hibridismo. Efetuou também cruzamentos entre linhagens dupla ou triplamente puras – e.g., ervilhas com sementes amarelas e redondas v. verdes e angulosas e ervilhas com sementes amarelas, redondas e com película cinzenta v. verdes, angulosas e com película branca.

Com base nos resultados obtidos na prole di- e triíbrida, ele formulou a seguinte generalização (referida hoje como lei da transmissão independente):

A separação de um par de alelos durante a meiose independe da dos alelos dos demais genes, visto que a separação de cada par de cromossomos homólogos independe da dos demais.

*

Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Ou austro-húngaro; na época, a sua cidade natal, Brünn (hoje Brno, República Tcheca), integrava o Império Austro-Húngaro.

[2] GM conhecia a obra de Darwin, mas não era evolucionista. A razão de o artigo ter sido deixado de lado é ainda hoje tema de pesquisa e discussão (bem como o papel dos redescobridores).

[3] Notar como vários traços eram da semente ou do fruto. Tais escolhas facilitavam o trabalho, pois Mendel não precisava aguardar o crescimento da planta. Traços de variação descontínua resultam da expressão de sistemas genéticos simples – e.g., um gene autossômico com dois alelos, dando origem a três genótipos – e caracterizam a chamada herança mendeliana.

[4] Notar que o termo híbrido é usado como sinônimo de heterozigoto.

[5] Cabe dizer que os resultados e as conclusões contidos no artigo de Mendel são ainda hoje motivo de discussão.

29 julho 2019

O poeta e o tempo

Félix Pacheco

São sempre iguais na idade os deuses e as quimeras.
O poeta é um deus também. Pertence-lhe o infinito.
Perdido na amplidão sempiterna do mito,
Fica de todo alheio ao desfilar das eras.

Sucumbam gerações no círculo restrito
E passem, no vaivém sem fim, as primaveras.
O poeta há de viver, para além das esferas,
Esquecido e imortal, todo entregue ao seu rito.

Eclípticas de sóis, movimentos dos astros,
Outonos e verões correndo atrás de invernos,
Tudo isso diz que o mundo anda também de rastros.

A própria formosura é vã nesses infernos:
O sepulcro dispersa em pó os alabastros.
Unicamente Deus e o Poeta são eternos.

Fonte (v. 1-2): Ferreira, A. B. H. 2009. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, 4ª ed. Curitiba, Positivo. Poema publicado em livro em 1905.

27 julho 2019

Descendo do ônibus


William [James] Glackens (1870-1938). Descending from the bus. 1910.

Fonte da foto: Wikipedia.

25 julho 2019

A mi ciudad nativa

Luis Carlos López

Ciudad triste, ayer reina
de la mar.
J. M. de Heredia

Noble rincón de mis abuelos: nada
como evocar, cruzando callejuelas,
los tiempos de la cruz y de la espada,
del ahumado candil y las pajuelas...

Pues ya pasó, ciudad amurallada,
tu edad de folletín... Las carabelas
se fueron para siempre de tu rada...
– ¡Ya no viene el aceite en botijuelas!

Fuiste heroica en los años coloniales,
cuando tus hijos, águilas caudales,
no eran una caterva de vencejos.

Mas hoy, plena de rancio desaliño,
bien puedes inspirar ese cariño
que uno le tiene a sus zapatos viejos...

Fonte (v. 12-14, com ajustes): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1920.

22 julho 2019

A guerra que salvou a minha vida

Kimberly Brubaker Bradley

“Ada! Sai dessa janela!” A voz da Mãe gritando. O braço da Mãe agarrando e puxando o meu, de modo que tombei da cadeira e desabei com força no chão.

“Só estava dando um oi para o Stephen White.” Eu sabia que não valia a pena responder, mas às vezes a boca erq mais rápida que o cérebro. Naquele verão, eu viraria uma combatente.

A Mãe me bateu. Forte. Minha cabeça acertou a perna da cadeira, e, por um instante, eu vi estrelas.
[...]

Fonte: Bradley, K. B. 2017 [2015]. A guerra que salvou a minha vida. RJ, Darkside.

20 julho 2019

Nicho e interações: Uma introdução à ecologia evolutiva


Competição talvez seja a mais universal das interações e competidores costumam ser agentes seletivos importantes. No caso mais simples, envolvendo duas espécies (A v. B), o sentido das mudanças varia, podendo ampliar ou estreitar a largura do nicho. Vejamos.

Se a competição intraespecífica predomina (i.e., se A v. A e B v. B são mais intensas do que A v. B), a seleção será centrífuga – tanto em A como em B. Serão favorecidos os fenótipos que exploram recursos extremos (e.g., presas muito menores ou muito maiores que o tamanho médio preferido), em torno dos quais a competição intraespecífica é menos intensa. Isso resultará em divergência intraespecífica, ampliando a largura do nicho. As duas espécies se tornariam mais generalistas, capturando uma maior variedade de presas.

Se a competição interespecífica predomina (i.e., A v. B é mais intensa do que A v. A e B v. B), a seleção tende a ser centrípeta – tanto em A como em B, serão favorecidos os fenótipos que exploram os recursos médios (e.g., presas de tamanho médio, em uma faixa de uso mais ou menos exclusiva). A divergência agora é penalizada. O processo resulta em convergência intraespecífica, estreitando a largura do nicho. As duas espécies deverão se tornar mais especializadas, capturando uma menor variedade de presas.

O nicho, como se vê, não só evolui, mas também está sujeito a ajustes adaptativos [1]. Tornaremos a tratar do assunto.

Interações podem evoluir

Algumas interações interespecíficas são suficientemente íntimas e intensas a ponto de moldar a evolução das linhagens envolvidas. Além disso, a própria natureza da interação pode mudar ao longo do tempo.

Considere o estágio inicial de uma interação entre duas espécies, caracterizado por encontros breves e fortuitos (estágio 0/0). Os encontros podem se tornar sistemáticos, a ponto de emergir alguma interação significativa – e.g., de (0/0) para algo do tipo (0/+) ou (0/–). Dado o primeiro passo, (0/0) → (0/+), digamos, a interação poderá em seguida evoluir para (+/+) ou (–/+). Alternativamente, caso o primeiro passo fosse (0/0) → (0/–), a interação poderia em seguida evoluir para (–/–) ou (+/–).

Vamos dar uma olhada no primeiro caso, (0/0) → (0/+).

A partir de encontros ocasionais (estágio 0/0), duas espécies passam a conviver e a interagir com certa regularidade (e.g., as duas colonizam e prosperam em um mesmo hábitat). Inicialmente, uma delas (dita comensal) apenas se aproveita de restos alimentares deixados pela outra (hospedeiro) – é o estágio (+/0). A relação assim perdura por várias gerações. O aproveitamento dos restos por parte dos comensais é aprimorado e a competição entre eles é intensificada. Nesse contexto, a seleção passaria a favorecer inovações no comportamento de forrageio. Eis então que em um dado momento, além de se aproveitarem dos restos, alguns comensais mutantes passam a pilhar porções do alimento do hospedeiro – estágio (+/–). Emerge então um novo contexto seletivo entre os hospedeiros, no qual toda e qualquer reação de contra-ataque será favorecida – e.g., repelir ou destruir os comensais. Chegamos assim ao estágio (–/–). A história pode terminar aí, com a extinção de uma das linhagens, ou pode prosseguir até um estado de equilíbrio dinâmico – caracterizado por uma sucessão intermitente de ataques e contra-ataques.

Coda

Entender como a evolução mutuamente dependente (i.e., coevolução) tem moldado as interações entre as espécies de uma dada comunidade é um dos maiores desafios da pesquisa ecológica contemporânea. Não é tarefa fácil. Primeiro, em razão da complexidade inerente às comunidades – o quadro geral esboçado nos parágrafos anteriores é uma simplificação. Em sistemas ecológicos reais, as interações significativas costumam envolver não apenas duas, mas várias espécies ao mesmo tempo [2].

Outro complicador é a própria estrutura heterogênea e dinâmica dos sistemas ecológicos. Afinal, as comunidades estão permanentemente sujeitas a mudanças, tanto em escala espacial (“O que tem ali, não tem aqui”) como temporal (“O que ontem era comum, hoje é raro”). A heterogeneidade é traduzida em regimes seletivos flutuantes, conforme tem sido observado em estudos teóricos e de campo – e.g., a identidade e a importância relativa dos agentes seletivos variam de acordo com o hábitat ou a época do ano.

Impostas pela heterogeneidade ambiental, as flutuações no regime seletivo resultam na manutenção dos elevados níveis de variabilidade encontrados em populações naturais. Além disso, ajudam a ampliar e a intensificar a dinâmica da evolução orgânica, fazendo dela a incessante roda-viva a que nos referimos antes [3].

*

Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como o caso das guildas de lagartos em Serra da Mesa GO. Após a extinção de quatro espécies maiores, o lagarto menor que persistiu (Gymnodactylus amarali) passou a ter acesso a um leque mais amplo de presas (cupins). Na ausência daqueles competidores, a largura do nicho (tamanho da presa) foi ampliada, especialmente à direita, visto que houve um aumento na disponibilidade de presas maiores. Os pesquisadores detectaram que, em poucas gerações, o tamanho médio da cabeça dos lagartos aumentou, não apenas em uma, mas em cinco populações de G. amarali – caso único de convergência adaptativa em um sistema que vem evoluindo em tempo real.

[2] A literatura sobre coevolução é copiosa. A adição de espécies torna o sistema bem mais complexo. Considere um predador, P, e duas espécies de presas, A e B. Mesmo sem competir diretamente, A e B podem experimentar competição aparente: a presença de A afeta positivamente P, intensificando a ação e o impacto negativo de P sobre B – e vice-versa. Seria melhor para B (e para A) conviver apenas com P.

[3] Quando os fatores ambientais variam no espaço e/ou no tempo, a seleção pode promover (1especialização – os fenótipos se tornam adaptados às circunstâncias predominantes; (2generalização – os fenótipos se tornam adaptados às circunstâncias intermediárias; ou (3plasticidade fenotípica – a população abriga fenótipos que se ajustam a circunstâncias distintas. Para descobrirmos qual alternativa seria a melhor solução em um caso particular, nós precisamos saber como a aptidão individual é afetada pelas mudanças ambientais. Se a flutuação ambiental extrapola os limites de tolerância, a melhor solução seria maximizar a aptidão em certas circunstâncias (1 e 3); se não extrapola, o melhor é maximizar em circunstâncias intermediárias (2).

18 julho 2019

Aviso da lua que menstrua

Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela!
Há que se ter cautela com esta gente que menstrua...
Imagine uma cachoeira às avessas:
cada ato que faz, o corpo confessa.

Cuidado, moço
às vezes parece erva, parece hera
cuidado com essa gente que gera
essa gente que se metamorfoseia
metade legível, metade sereia

Barriga cresce, explode humanidades
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar
mas é outro lugar, aí é que está:
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita...

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente
que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!
Tá acostumada a viver por dentro,
transforma fato em elemento
a tudo refoga, ferve, frita
ainda sangra tudo no próximo mês.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou
é que chegou a sua vez!
Porque sou muito sua amiga
é que tô falando na ‘vera’
conheço cada uma, além de ser uma delas.

Você que saiu da fresta dela
delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado
ou sem os devidos cortejos...
Às vezes pela ponte de um beijo
já se alcança a ‘cidade secreta’
a Atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas
cai na condição de ser displicente
diante da própria serpente.

Ela é uma cobra de avental.

Não despreze a meditação doméstica.

É da poeira do cotidiano
que a mulher extrai filosofia
cozinhando, costurando
e você chega com a mão no bolso
julgando a arte do almoço: Eca!...

Você que não sabe onde está sua cueca?

Ah, meu cão desejado
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir
então esquece de morder devagar
esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir
chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:
VACA é sua mãe. De leite.

Vaca e galinha...
ora, não ofende. Enaltece, elogia:
comparando rainha com rainha
óvulo, ovo e leite
pensando que está agredindo
que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!

Fonte (5ª estrofe): Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza Edições. Poema publicado em livro em 1992.

16 julho 2019

Em vez de lágrimas


Só um choro em seco
põe no vértice da minha dor
o mais intenso
auge do luto.

Fonte: Figueiredo, C. 2004. 100 poemas essenciais da língua portuguesa. BH, Leitura.

13 julho 2019

Praça em Florença


Bernardo Bellotto (1721-1780). Piazza della Signoria a Firenze1742.

Fonte da foto: Wikipedia.

12 julho 2019

Doze anos e nove meses no ar

F. Ponce de León

Nesta sexta-feira, 12/7, o Poesia contra a guerra completa 12 anos e nove meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘Doze anos e oito meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Aristóteles, Hernando de Acuña e Orlando Valverde. Além de outros que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Giovanni Paolo Pannini e Joseph Vernet.

10 julho 2019

O que é evolução? – Algumas considerações


A expressão evolução orgânica (ou e. biológica) pode ser utilizada em alusão a três coisas: (1) o fato da evolução; (2) as reconstituições da história das linhagens (filogenias); e (3) as mudanças que ocorrem no fundo gênico de populações.

Que não haja dúvidas: nenhum debate científico tem posto em xeque o fato da evolução (item 1). (Há quem o faça, embora isso se dê fora dos domínios da ciência, como veremos neste livro.) No âmbito científico, as controvérsias – e a biologia evolutiva é um campo fértil para isso – giram em torno tão somente dos itens 2 e 3.

Nos capítulos 3 e 4, nós trataremos de modelos filogenéticos e mecanismos causais (itens 2 e 3, acima). Antes, porém, vamos falar sobre o fato da evolução.

Evolução como fato

A evolução é um fato natural da vida. Reconhecer isto equivaleria a admitir que os organismos que hoje dividem o planeta conosco são descendentes modificados de linhagens ancestrais cujas histórias retrocedem ao passado remoto da Terra. E admitir isto independe de sabermos comoquando e por que as linhagens mudaram. Equivaleria a reconhecer a existência do Sol, mesmo que não saibamos como e por que ele brilha.

Os dicionários definem evolução como um ato ou processo de mudança. A palavra vem do latim evolutio, forma substantivada do verbo evolvere (ex-, fora + volvere, rolar, desabrochar, abrir), e evoca o ato ou efeito de abrir, desdobrar ou desenrolar algo que esteja fechado, dobrado ou enrolado.

Na linguagem cotidiana, tanto o verbo evoluir como o substantivo evolução estão associados à ideia de aperfeiçoamento ou melhora. É o que transparece em expressões como “evolução do automóvel” e “evolução do estado de saúde”.

No âmbito da literatura científica, a palavra foi usada durante muito tempo em alusão ao processo de ontogênese (leia-se desenvolvimento individual), um significado que está de acordo com as suas origens etimológicas. Em meados do século 18, por exemplo, o naturalista suíço Albrecht von Haller (1708-1777) utilizava o termo como sinônimo de desenvolvimento embrionário [1].

Já na primeira metade do século 19, no entanto, a palavra ganhou um novo significado, passando a se referir ao processo de transformação histórica de coletividades (populações, linhagens etc.).

Para a biologia moderna, o verbo evoluir é entendido como sinônimo de mudar, sem qualquer conotação envolvendo progresso ou melhoria. Em sentido amplo, a evolução orgânica (ou e. biológica) pode então ser definida como toda e qualquer mudança que ocorre no fundo gênico de uma população [2]. Não importa se tais mudanças resultam ou não em melhorias, aperfeiçoamentos ou em níveis mais elevados de complexidade.

Evidências de um fato

Como os cientistas sabem que as espécies viventes são versões modificadas de espécies já desaparecidas? Afinal, como eles conseguem provar que a evolução é um fato?

Para início de conversa, não custa lembrar: ao contrário da matemática, a biologia não lida com demonstrações ou provas definitivas. As conclusões da biologia estão ancoradas em evidências (diretas ou indiretas). E estas, sempre que possível, devem provir de experimentos controlados, como é regra nas ciências naturais. No caso da biologia, os experimentos são conduzidos em laboratório ou no campo. Resultados obtidos no laboratório às vezes são suficientes, mas nem sempre. Veja o que ocorre em áreas como paleontologiaecologia e genética de populações, três dos pilares da biologia evolutiva e onde o trabalho de campo é insubstituível.

O xis da questão aqui é o seguinte: o rol de evidências positivas a respeito do fato da evolução é tão esmagador que a única alternativa racional que nos resta é tratá-la como tal.

Fósseis e outras evidências

Evidências diretas de como eram os seres vivos do passado e de como a história da vida se desenrolou provêm do estudo dos fósseis – restos ou vestígios, em geral petrificados, deixados por organismos que já desapareceram.

Além dos indícios deixados pelos seres vivos do passado (e.g., fósseis, moldes, pegadas e perfurações), um sem-número de evidências indiretas é usado em reconstituições históricas. E várias disciplinas contribuem e participam dessas reconstituições.

embriologia, por exemplo, nos diz que as rotas de desenvolvimento, mesmo no caso de organismos que pouco ou nada se parecem aos nossos olhos (e.g., cangurus, morcegos e elefantes), podem seguir o mesmíssimo padrão geral; as particularidades que notamos nos animais adultos resultam de diferenças sutis durante o desenvolvimento. Por sua vez, a genética nos informa que as rotas de desenvolvimento se assemelham porque os organismos possuem genomas igualmente semelhantes, diferindo tão somente aqui e ali – seja porque cada animal abriga alguns poucos genes exclusivos, seja porque os mesmos genes estão a se expressar de modos ou em momentos algo diferentes.

Atrofia e perda de órgãos

Por estranho que pareça, a presença de itens disfuncionais, como os chamados órgãos vestigiais, é uma evidência positiva do processo evolutivo. Um órgão vestigial é a versão rudimentar de um par de estruturas homólogas, estando a versão funcional em alguma espécie afim. Há itens rudimentares em nosso corpo (Freeman & Herron 2009, p. 42; adaptado):

Temos o cóccix, um minúsculo osso remanescente da cauda. Além disso, temos músculos ligados aos nossos folículos pilosos que se contraem, fazendo nossos pelos corporais arrepiar-se quando estamos com frio ou com medo. Por isso, se fôssemos peludos, como os chimpanzés, a contração dos músculos eretores dos pelos aumentaria a superfície de nossa pelagem, mantendo-nos aquecidos ou tornando-nos aparentemente maiores e mais ameaçadores aos inimigos. Todavia, não somos peludos, portanto ficamos apenas com a pele arrepiada, o que implica que somos descendentes de ancestrais que eram mais peludos do que nós. Do mesmo modo, nossos pequenos ossos remanescentes da cauda indicam que nos originamos de ancestrais dotados de caudas.

A versão rudimentar é apenas o que sobrou daquilo que outrora já foi algo funcional. Tendo perdido a relevância, e já não mais fazendo falta na organização geral do corpo, em geral por causa de alguma mudança no contexto ecológico, o item em questão passa a ficar fora do orçamento – i.e., os recursos que eram empregados em sua construção e manutenção passam a ser alocados em outras estruturas. É a realocação que aos poucos o torna vestigial.

Por que esses penduricalhos já não desapareceram? Um dos motivos pode ser o fato de o item partilhar de uma mesma rota de desenvolvimento com alguma estrutura funcional importante, o que dificultaria a sua eliminação. Ainda que um ou outro atalho possa ser estabelecido – resultando daí o isolamento e a simplificação do item –, a rota como um todo não pode ser eliminada, sob pena de comprometer a organização geral do corpo [3].

Mas a simplificação às vezes vai além e a atrofia, de fato, se converte em perda. É o caso da falta de dentes em alguns grupos de mamíferos. Tamanduás, pangolins e cachalotes são exemplos vivos de três linhagens que passaram por processos independentes de perda. (Os primeiros mamíferos eram providos de dentes, uma condição que eles herdaram dos ancestrais reptilianos.)

evolução da perda é um fenômeno relativamente comum, já tendo sido registrado em inúmeras linhagens, envolvendo os mais variados itens. Três exemplos adicionais: (1) lagartos que perderam os membros (comum tanto em espécies fossórias como em espécies que vivem em hábitats de vegetação herbácea densa, tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente); (2) peixes desprovidos de olhos ou sem pigmentação sobre o corpo (comuns em espécies que vivem no interior de cavernas ou no fundo do mar; uma e outra tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente); e (3) insetos desprovidos de asas ou que de algum outro modo perderam a capacidade de voar (comuns em espécies que vivem no topo de montanhas ou em ilhas isoladas, uma e outra tendo evoluído dezenas de vezes de modo independente).

*

Notas

Artigo extraído e adaptado do livro O que é darwinismo (2019). (A versão impressa contém ilustrações e referências bibliográficas.) Para detalhes e informações adicionais sobre a obra, inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato com o autor pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] O termo continua a ser usado em alusão ao desenvolvimento individual (e.g., “Larvas de Aedes só evoluem em água limpa”), o que deveria ser evitado, pois vai de encontro ao significado atual mais comum. Em alguns organismos, o desenvolvimento individual envolve uma fase de embriogênese.

[2Fundo gênico (ing. gene pool): conjunto de todos os alelos (e genes) presentes em uma população. A palavra genofond apareceu pela primeira vez em um artigo do naturalista russo Alexander S. Serebróvski (1884-1938), em 1926; foi então traduzida para o inglês pelo geneticista estadunidense de origem russa Theodosius Dobzhansky (1900-1975).

[3] Exemplo de atrofia ligada ao sexo é a mama masculina. Embora tenha pequenos ductos e algum tecido de suporte, é desprovida de lóbulos e alvéolos, sendo incapaz de secretar leite.

* * *

08 julho 2019

Ser


Vir à luz em partos duros
– ser erva rasgando a pele
granítica dos muros

Viver em grades   desterros
e ser um raio de sol
por entre os ferros

E quando tudo se for
morrer pela madrugada
com a raiz de uma flor
na mão cerrada

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1964. ‘Luís Veiga Tristão’ era pseudônimo de Luís Maria Leitão.

07 julho 2019

A economia da natureza

Aristóteles

A natureza nunca faz o que é supérfluo.

Fonte: Hardin, G., org. 1967. População, evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp. O autor viveu entre 384 e 322 aC.

eXTReMe Tracker