17 setembro 2026

Descobri-a numa casa da rua da Atalaia


Descobri-a numa casa da rua da Atalaia quando
pelos dias do inverno vou a caminho das aulas.
Por detrás dos vidros tem a tonalidade do marfim.
Julgo reconhecer a deusa indiana Laksmi neste

produto indo-português de fim de império. O
rosto surge-me sempre iluminado pelo castanho dos
olhos. Sorrindo prende nos dedos um brinco
é o adereço da sua nudez.

Ladeiam-na duas mulheres. São em mais pequeno
as suas próprias formas. Cariátides servindo de
criadas quase as sei lançando água sobre a cabeça
da deusa, criatura mortal.

O pouco que sabemos das terras acabando no porto
de Lisboa é a presença desta suave puta.
Esqueço o comércio das aulas e faço das ruas do
Bairro Alto estradas caravaneiras levando aos

portos da Síria ao Golfo Pérsico ao mar de Eritreia.
E tenho, todas as manhãs, a presença deste objecto
de arte, de arte da Índia.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1979.

16 setembro 2026

A difusão de inovações

Alpina Begossi

Na Ilha de Búzios, três pescadores irmãos foram classificados por outros pescadores (em entrevistas) como os mais bem-sucedidos pescadores. Eles foram também os primeiros a utilizar a lambreta e ensinaram outros pescadores a usar a lambreta para pescar enchova. Estes ‘inovadores’ aprenderam sobre o uso da lambreta [com] pescadores de fora da ilha: viram alguns pescadores usando esse tipo de anzol e tendo boas pescarias. Eles decidiram tentar e adotaram esta inovação (um caso de tendência direta). Um segundo grupo de pescadores [adotou] a lambreta porque [assim] estariam a imitar os pescadores ‘bem-sucedidos’ (um caso de tendência indireta). O último grupo a adotar a lambreta afirmou usá-la porque a maioria dos pescadores da ilha o estavam [a fazer]. Consequentemente, eles consideraram que a lambreta deveria ser uma boa técnica para pescar a enchova (um caso de tendência dependente da frequência).

Fonte: Begossi, A. 2006. Métodos e análises em ecologia de pescadores. In: I. Garay & B. K. Becker, orgs. Dimensões humanas da biodiversidade. Petrópolis, Vozes. Uma nota sobre a autora (AB) pode ser lida aqui.

14 setembro 2026

O vagalume

Coelho Neto

Foi ao princípio, disse o velho Asael aos zagalejos que, todas as noites, no pouso da montanha, à volta do fogo, enquanto as ovelhas sonhavam com as ervas tenras e com as águas límpidas, cercavam-no pedindo histórias. E ninguém as sabia tão curiosas como o solitário Asael que se recolhera à montanha depois que levara a noiva ao túmulo.

Foi no princípio, disse o velho Asael – tudo era sombra e silêncio e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que d’eles se espargia ficava espalhada formando a Via Láctea e as outras nebulosas.


Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la e assim conseguiu fazer todas as estrelas que brilham, o sol que é um topázio enorme e a lua que é uma opala triste.


Mas, lapidando os astros, não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse parar à terra, mas tendo de criar os animais e o Homem desceu ao mundo deserto e, caminhando, devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar e pensativo, ficou acompanhando a viagem aérea e volteante da fagulha de origem desconhecida.

Vendo-a ir e vir e vendo que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando as chamas erradias criações do Mau Anjo – porque não se lembrava de as haver criado – tomou, no espaço, uma das que passavam e, com seu alto poder, fez com que a centelha falasse e, entre os seus dedos, a centelha falou:


– Senhor, deixai-me ir livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chama, não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando as lapidáveis d’elas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos d’essa poeira rutilante vieram cair na terra e porque neles havia tocado vossa mão logo se animaram e, à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram e por cima das águas brancas que murmuram.


E o Senhor, enternecido, abriu os dedos deixando partir o vagalume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vagalume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e, até hoje, o inseto guarda essa instantânea impressão.

No pouso o fogo triste morria e Asael levantou-se para alimentá-lo.


Fonte (exceto primeiro e último parágrafos): Lenko, K. & Papavero, N. 1979. Insetos no folclore. SP, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas. O conto acima integra livro publicado originalmente em 1898. ‘Coelho Neto’ é a assinatura literária de Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934).

13 setembro 2026

Estrepsípteros

Zundir José Buzzi & Rosina D. Miyazaki
 
Estes insetos têm um ciclo de vida bastante interessante. O macho procura a fêmea, no hospedeiro, onde copula. A fêmea produz pequenas larvas (às vezes vários milhares) que caem no solo ou ficam sobre a vegetação. Estas larvas, com os olhos e pernas bem desenvolvidos, são mais ou menos ativas e possuem posteriormente dois ou três filamentos; são denominadas triungulinos. Estes procuram um novo hospedeiro e nele penetram quando o encontram, tornando-se ápodas; sofrem várias mudas até empupar. Ao emergir, o adulto, se for macho, deixa o hospedeiro e, se for fêmea, ali permanece.
 
Os principais hospedeiros são várias espécies de ortópteros, hemípteros, homópteros, himenópteros e tisanuros. Os hospedeiros nem sempre morrem, mas são bastante prejudicados e são facilmente reconhecidos porque apresentam o abdome deformado.

Fonte: Buzzi, ZJ & Miyazaki, RD. 1993. Entomologia didática, 2ª ed. Curitiba, Editora da UFPR.

12 setembro 2026

19 anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Neste sábado, 12/9, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e onze meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e dez meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antônio Carlos Rocha-Campos, Michael E. Soulé, Papus de Alexandria, Paulo R. Santos, Richard M. Sibly e Ronald J. Glassner. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Gustaaf Wappers, Jacob Jacobs e Louis van Kuyck.

10 setembro 2026

Luís de Camões e seu guia


Gustaaf Wappers [Egidius Karel Gustaaf] (1803-1874). Le Camoens. 1855.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 setembro 2026

Mente na biosfera, mente da biosfera

Michael E. Soulé

Digamos que você queira convencer seu sogro a se envolver na conservação – no resgate da biodiversidade. Como você começaria? Iria falar dos genes resistentes a doenças em parentes selvagens das plantas de cultivo agrícola? Mencionaria a provável existência de valiosos elementos de uso farmacêutico ainda não descobertos, falaria de florestas úmidas tropicais e suas taxas de conversão, ou descreveria uma experiência pessoal com a natureza que ainda lhe traz lágrimas aos olhos ou o deixa arrepiado? Ou seja, você apelaria para a inteligência ou para as emoções dele? Os capítulos desta seção podem ajudar a nos dar informações relativas a essa escolha.

Fonte: Soulé, M. E. 1997 [1988]. In: Wilson, E. O., ed. Biodiversidade. RJ, Nova Fronteira.

06 setembro 2026

Pervertidos, fundamentalistas e o serviço público


Assim como o jurista paranaense D. M. Dallagnol (nascido em 1980), o seu colega paulista A. L. A. Mendonça (nascido em 1972) tem dado mostras de que não bate bem da cabeça. Em minha opinião, os dois obviamente carecem de ajuda especializada. Urgentemente.

Na opinião de brasileiros menos condescendentes, porém, já teria passado da hora de os dois serem devidamente punidos por um extenso rol de crimes. Há quem argumente, por exemplo, que eles já deveriam ter ido conversar com o médico francês Joseph-Ignace Guillotin (1738-1814). Outros, no entanto, defendem a ideia de que ambos deveriam tão somente ser trancafiados ou, quem sabe, enviados a Marte.

De minha parte, sou de opinião que os dois ilustram uma terrível deficiência do estado brasileiro: pervertidos morais e fundamentalistas religiosos – sejam de direita, sejam de esquerda – não deveriam ser admitidos no serviço público. Uma vez admitidos, porém, jamais poderiam ocupar algum cargo de mando ou chefia.

03 setembro 2026

Tomorrow never knows

 
Turn off your mind, relax, and float downstream
It is not dying, it is not dying

Lay down all thoughts, surrender to the void
It is shining, it is shining

That you may see the meaning of within
It is being, it is being

Love is all and love is everyone
It is knowing, it is knowing

That ignorance and hate may mourn the dead
It is believing, it is believing

But listen to the colour of your dreams
It is not leaving, it is not leaving

So play the game ‘Existence’ to the end
Of the beginning, of the beginning...

Fonte: álbum Revolver (1966), da banda The Beatles.

01 setembro 2026

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

Fernando Pessoa

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...

Fonte (v. 1-2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em 1916.

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