05 maio 2026

Canção para o presidente do Burkina, Thomas Sankara, traído pelo seu amigo Blaise Campaoré

Fátima Maldonado

Sankara tinha um amigo
chamado Campaoré
Sankara tinha o reino
mais pobre do continente
e chamava-lhe “a pátria dos homens íntegros”.
Campaoré era a sombra de Sankara
e Sankara desvendou o seu nome verdadeiro
a um companheiro de armas
esquecendo que nem os deuses o fazem.
E no Olimpo negro todos riram de Sankara –
o da alma orgulhosa –
por não ter resguardado a sua própria sombra.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1999.

03 maio 2026

Lembrança de morrer

Álvares de Azevedo


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
   Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Com o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia,
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe!, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destas flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida. –

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

Fonte: Azevedo, A. 2006. Lira dos vinte anos. SP, Martin Claret. Poema publicado em livro em 1853.

02 maio 2026

Collapse

Eric H. Brown

Not the least of the innovations of the early nineteenth century was the adoption of structural mechanics as the basic tool in structural design. It replaced, gradually but inexorably, a centuries-old empirical, rule-of-thumb tradition which had sufficed for the mediaeval cathedrals and the Roman barrel-vaults and the temples of the Greeks, just as the rule-of-thumb tradition itself had replaced the instinctive, hereditary or imitative techniques whereby thrushes built nests, beavers built dams and men constructed igloos.

Fonte: Brown, E. H. 1975. Collapse. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 48: 247-71.

30 abril 2026

O velho angico

Belmiro Braga

A meu irmão Solano Braga

Eu tinha o peito de ilusões provido
na roxa tarde em que nos apartamos
e vi-te, ó velho angico, enflorescido,
pássaros mil cantavam nos teus ramos.

Longo tempo volveu! Nos encontramos
de novo, agora: e vejo-te despido
das verdes folhas e dos gaturamos,
e tu das ilusões me vês descrido.

Paridade cruel de condições
e as nossas vidas como são iguais!...
Para que, pois, fazer comparações:

Folhas e sonhos não nos voltam mais:
– a mim roubou-me o Tempo as ilusões,
e a ti – a verde copa os vendavais.

Fonte: Braga, B. 2011 [1902]. Montezinas (primeiro versos). Juiz de Fora, Funalfa.

28 abril 2026

Uma rua de Teerã


Kamal-ol-Molk [Mohammad Ghaffari] (1848-1940). The Doshan Tappeh street. 1899.

Fonte da foto: Wikipedia.

26 abril 2026

Witches, and other night-fears

Charles Lamb

In my father’s book-closet, the History of the Bible, by Stackhouse, occupied a distinguished station. The pictures with which it abounds – one of the ark, in particular, and another of Solomon’s temple, delineated with all the fidelity of ocular admeasurement, as if the artist had been upon the spot – attracted my childish attention. There was a picture, too, of the Witch raising up Samuel, which I wish that I had never seen. […] The pretty Bible stories which I had read, or heard read in church, lost their purity and sincerity of impression, and were turned into so many historic or chronologic theses to be defended against whatever impugners. I was not to disbelieve them, but – the next thing to that – I was to be quite sure that some one or other would or had disbelieved them. Next to making a child an infidel, is the letting him know that there are infidels at all. Credulity is the man’s weakness, but the child’s strength. O, how ugly sound scriptural doubts from the mouth of a babe and a suckling! – I should have lost myself in these mazes, and have pined away, I think, with such unfit sustenance as these husks afforded, but for a fortunate piece of ill-fortune, which about this time befel me.Turning over the picture of the ark with too much haste, I unhappily made a breach in its ingenious fabric – driving my inconsiderate fingers right through the two larger quadrupeds – the elephant, and the camel – that stare (as well they might) out of the two last windows next the steerage in that unique piece of naval architecture. Stackhouse was henceforth locked up, and became an interdicted treasure.With the book, the objections and solutions gradually cleared out of my head, and have seldom returned since in any force to trouble me. – But there was one impression which I had imbibed from Stackhouse, which no lock or bar could shut out, and which was destined to try my childish nerves rather more seriously. – That detestable picture!

Fonte (sétima frase, in port.): Dawkins, R. 2000. Desvendando o arco-íris. SP, Companhia das Letras. Trecho de ensaio publicado em livro em 1823.

24 abril 2026

Plantas corticeiras

Carlos T. Rizzini & Walter B. Mors

Cortiça vem a ser a casca externa das árvores, composta de células mortas e vazias, isto é, cheias de ar; o tecido que estas compõem chama-se tecnicamente súber ou felema e distingui-se por sua leveza, flutuabilidade, impermeabilidade e elasticidade.

Embora o súber seja um constituinte obrigatório nas plantas de vida longa e crescimento apreciável, apenas algumas chegam a formá-lo em quantidades aproveitáveis pelo ente humano. A principal, para não dizer única, é um carvalho europeu, uma fagáceae denominada Quercus suber L.

O [carvalho-corticeiro] procede da região mediterrânea, sendo objeto de extensíssimo cultivo em Portugal, Espanha, [Argélia], Tunísia, França, Marrocos e mesmo Ásia. Além da cortiça, os frutos (bolotas) são empregados na alimentação de suínos.

A retirada do súber começa ao atingirem as árvores 20 anos, e repete-se esta operação de 9 a 9 anos. O corte é feito de maneira a não ferir a casca interna, onde se acha a zona geratriz (felógeno), de sorte que uma árvore cede muitas colheitas – já que podem alcançar a provecta idade de 500 anos. [...]

Algumas plantas brasileiras exibem súber algo desenvolvido, nunca, porém, aproximando-se da anterior. Principalmente em Minas Gerais, onde são muito dispersas, sofrem aproveitamento industrial em virtude do baixo custo. [...]

Seguem-se as principais espécies corticeiras do Brasil austro-central, onde são comuns; nota-se, todavia, que nem todas merecem a atenção dos coletores.

Kielmeyera coriacea Mart. [...] Agonandra brasiliensis Mart. [...] Pisonia tomentosa Casar [...] Enterolobium ellipticum Benth. [...] Aspidosperma dasycarpon Mart. [...] Connarus suberosus Planch. [...] Fagara cinerea Engl. e Aegiphila lhotskyana Cham. [...] Strychnos pseudoquina St. Hill. [...] Erythrina mulungu Mart. [...] Symplocos lanceolata (Mart.) A. DC.

Fonte: Rizzini, C. T. & Mors, W. B. 1976. Botânica econômica brasileira. SP, EPU & Edusp.

21 abril 2026

Vila Rica

Olavo Bilac

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre.
O último ouro de sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move...
Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

Fonte: Bilac, O. 1985. Poesias. BH, Itatiaia. Poema publicado em livro em 1919.

20 abril 2026

Maracujá

Hermógenes de Freitas Leitão Filho

Planta perene, trepadeira, com 3-4 metros de comprimento, crescendo apoiada em suportes pelas gavinhas bem desenvolvidas. Folhas simples, alternas, pecioladas e com duas glândulas no ápice do pecíolo, estipuladas, trilobadas, com lóbulos agudos de margens leve serreadas, verdes e glabras. Inflorescência axilar, pedunculada, com flores de 5-6 centímetros de diâmetro; cálice com cinco sépalas oblongas de cor verde-claro; pétalas cinco, brancas; corona (verticilo floral formado por numerosos estaminódios filamentosos) branca no ápice e leve avermelhada na base; estames cinco, monadelfos (i.e., com seus filetes concrescidos em um tubo); ovário globoso, leve piloso, com 3 estiletes. Fruto no geral arredondado, amarelado ou avermelhado, 4-5 centímetros de diâmetro e com numerosas sementes envoltas por arilo carnoso.

Fonte: Joly, A. B. & Leitão-Filho, H. F. 1979. Botânica econômica. SP, Hucitec.

19 abril 2026

O xá


Mir Ali (1795-1830). Retrato de Fate Ali Xá Cajar (1772-1834). 1809-1810.

Fonte da foto: Wikipedia.

eXTReMe Tracker