Descobri-a numa casa da rua da Atalaia
Descobri-a numa casa da rua da Atalaia quando
pelos dias do inverno vou a caminho das aulas.
Por detrás dos vidros tem a tonalidade do marfim.
Julgo reconhecer a deusa indiana Laksmi neste
produto indo-português de fim de império. O
rosto surge-me sempre iluminado pelo castanho dos
olhos. Sorrindo prende nos dedos um brinco
é o adereço da sua nudez.
Ladeiam-na duas mulheres. São em mais pequeno
as suas próprias formas. Cariátides servindo de
criadas quase as sei lançando água sobre a cabeça
da deusa, criatura mortal.
Esqueço o comércio das aulas e faço das ruas do
Bairro Alto estradas caravaneiras levando aos
portos da Síria ao Golfo Pérsico ao mar de Eritreia.
E tenho, todas as manhãs, a presença deste objecto
de arte, de arte da Índia.
Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1979.