03 fevereiro 2026

A linguagem é um dínamo

Jerome Bruner

Tenho insistido em que o crescimento mental depende muito do tipo de instrumentos que utilizamos. O homem nasce em estado virtualmente nu, indefeso. Se atentamos no movimento para a frente, dos macacos aos antropoides, dos chimpanzés ao home, encontraremos cada vez menos espcialização em tudo o mais, e mais áreas associativas especializadas no cérebro. A evolução parece ter favorecido as criaturas que nasceram menos bem desenvolvidas, mais próximas do feto. O desenvolvimento humano depende de três tipos de sistemas instrumentais: para manipular, para olhar e para simbolização. Não posso conceber desenvolvimento apenas de dentro para fora. O homem nasce nu e a cultura modela-o.

Piaget foi zoólogo (estudava moluscos) e descreve formas ideais. Eu adoto ponto de vista muito mais pragmático: o maquinismo interno do homem nunca realiza seu potencial, salvo se ligado a alguma coisa. A linguagem humana é um dínamo, capaz de virar o mundo de pernas para o ar, mas só é usada como identificação de campainha de porta, para letreiro.

Se aos quinze anos um jovem tem poderoso conjunto de instrumentos, imagine [onde] estará aos vinte! Só agora estamos chegando ao limiar do conhecimento da gama de educabilidade do homem – a perfectibilidade do homem. Jamais nos havíamos dirigido a esse problema antes.

Fonte: Pines, M. 1975 [1967]. Técnicas revolucionárias de ensino pré-escolar. SP, Ibrasa.

01 fevereiro 2026

Anurofauna tropical

Jorge Jim

A vida dos anfíbios atuais é o resultado de uma longa história, desde a sua origem, entre o Devoniano médio e o superior, há mais de 350 milhões de anos. Os anfíbios foram os primeiros vertebrados a invadir os hábitats terrestres com sucesso. Atualmente, distribuem-se pelo mundo, mas não ocorrem na Antárctica e muitas ilhas oceânicas. A composição de anfíbios que habitam uma determinada área é o resultado [da] longa história biótica, climática e geológica da área.

Atualmente, existem três grupos de anfíbios no mundo: as salamandras, da ordem Caudata, com cerca de 357 espécies; as cobras-cegas, minhocões ou cecílias, da ordem Gymnophiona, com cerca de 163 espécies; e os sapos, rãs e pererecas, da ordem Anura, com cerca de 23 famílias, 302 gêneros e 3.496 espécies. Na América do Sul tropical, existem representantes das três ordens de anfíbios, mas a diversidade de rãs, sapos e pererecas (dez famílias, 91 gêneros e novecentas espécies) excede em muito a das salamandras (uma família, dois gêneros e 24 espécies), e das cobras-cegas ou minhocões (três famílias, dezesseis gêneros e 67 espécies).

Fonte: Jim, J. 2003. Aspectos gerais da anurofauna da região de Botucatu. In: Uieda, W. & Paleari, L. M., orgs. Flora e fauna: Um dossiê ambiental. SP, Editora Unesp.

30 janeiro 2026

Íntimo

Mário Pederneiras

A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o – do ganha-pão – rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.

E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.

Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.

Vive a sonhar cousas suaves,
Venturas, ilusões, pores-de-sol e aves,
Tudo através de uma visão bizarra,
Tudo através de uma impressão amiga...

É a eterna Cigarra
Obrigada a fingir que é a eterna Formiga.

Sonha... E o Sonho para a vida enfática
De agora
Atinge as proporções de um crime ou de um pecado...
Ter ilusões, coitado!
Quando a glória é sentir que sobre nós se escora
Todo o peso burguês da vida prática.

É por isso que o Poeta arrasta a funda
Sorte penosa dos incompreendidos...
Pois apurou demais os seus cinco sentidos
Para ver e sentir a vida que o circunda.

Este é o seu rumo, este é o seu fim,
Nem que tente evitar, não pode ou sabe...
Mas que culpa lhe cabe
Se ele, coitado, já nasceu assim?

Se não merece apodos
Nem ódio ou menoscabo...
Para este tempo que a visão lhe acanha,
Há de ser sempre uma figura estranha,
Um pobre diabo
Que sofre mais que todos.

Fonte (v. 1 e 2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1912.

29 janeiro 2026

Pipas


Bertha [Boynton] Lum (1869-1954). Kites. 1913.

Fonte da foto: Wikipedia.

28 janeiro 2026

The sun is a nuclear fusion reactor

George Porter

The sun is a nuclear fusion reactor which derives its energy principally from the fusion of hydrogen atoms into helium. This reaction has been going on for about 5 billion years and will continue for about as long again before the fuel begins to run out. The inside temperature is several million degrees but the surface temperature corresponde very approximately to that of a black body at 6,000 ºC. The energy maximum in the radiation which reaches the earth’s surface occurs near the middle of the visible region in the green, as one would expect of a well adapted eye: 40% of the total radiation is in the visible, 51% in the infra-red and 9% in the ultra-violet region below 400 nm.

Fonte: Porter, G. 1975. Life under the sun. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 48: 173-82.

27 janeiro 2026

Una fracción de la energía radiante

John D. Isaacs

El ciclo de la vida en el mar, al igual que en la tierra, recibe la energía de la luz solar visible, que actúa sobre las plantas verdes. De cada millón de fotones que alcanza la superficie terrestre, sólo uns 90 se utilizan en la producción neta de alimentos básicos. Quizá 50 de ellos contribuyen al crecimiento de las plantas terrestres y unos 40 al de las plantas marinas monocelulares: el fitoplancton […]. Esta pequeña fracción de la energía radiante del sol es la que proporciona a los seres vivos de este planeta, no solo alimentos, sino también una atmosfera respirable.

Fonte: Isaacs, J. D. 1978 [1969]. La naturaleza de la vida oceánica. In: Scientific American, org. Ecología, evolución y biologia de poblaciones. Barcelona, Omega.

25 janeiro 2026

Falação

Gilberto Mendonça Teles

Eu sei do mel secreto da cedilha,
dos lábios, da vogal, daquele gomo
de lima ou de limão, que chupo e como
sem deixar de lamber toda a vasilha.

Como quem toca, como quem dedilha
(e como até quem se fizer de gnomo),
vou pincelando o meu mercúrio-cromo
nas sombras veludosas da virilha.

Passo por dentro e por fora, no começo
e no fim, pelo meio e pelo avesso,
passo na frente e atrás, na convicção

de que a poesia e amor são meu repouso:
nenhum desejo há de ficar sem gozo,
nenhuma língua há de falar em vão.

Fonte (v. 1-3, 8, 13 e 14): Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 2000.

24 janeiro 2026

Coevolução cérebro-intestino

Leslie C. Aiello & Peter Wheeler

[E]m humanos e em outros primatas, houve uma coevolução entre o tamanho do cérebro e o tamanho do intestino. A conclusão lógica é que, a despeito do que tenha selecionado um aumento no tamanho do cérebro, nós deveríamos esperar uma seleção correspondente para reduzir o tamanho relativo do intestino. Isso é essencial para manter a [taxa metabólica basal] do corpo no nível padrão. Se um primata tivesse de ter um intestino grande, o esperado seria que ele também tivesse um cérebro relativamente pequeno.

Fonte (em trad. livre): Aiello, LC & Wheeler P. 1995. The expensive-tissue hypothesis: The brain and the digestive system in human and primate evolution. Current Anthropology 36: 199-221.

23 janeiro 2026

O pintor e sua modelo


Marie Bracquemond (1840-1916). Le peintre et son modèle dans un jardin fleuri. 1870-80.

Fonte da foto: Wikipedia.

21 janeiro 2026

O sol cansa

Poh Pin Chin

O sol cansa,
a chuva interrompe;
então a raposa –
exausta ou encharcada –
dorme e sonha
atrás de ideias rubras.

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