14 julho 2026

Afluência e lazer

Arnold J. Toynbee

O progresso em aceleração da tecnologia está-nos levando para um novo estado de sociedade. Todos encontrar-se-ão numa posição que, até então, só fora gozada por uma minoria privilegiada que virtualmente monopolizara os confortos da civilização desde a aurora desta há cerca de 5.000 anos passados. A abundância de dinheiro e lazer, que outrora estivera à disposição dessa minoria, estará agora à disposição das massas. Todos nós receberemos elevados salários para trabalhar apenas algumas horas por semana em empregos rigorosamente padronizados. Nos países economicamente adiantados, esse novo regime econômico já está ao alcance da vista; mas também podemos antecipar uma época em que a afluência e o lazer terão atingido igualmente o resto da humanidade. O Homem é, entre outras e mais importantes coisas, ‘homo faber’. A natureza humana tem uma aptidão inata para a tecnologia e, embora seja verdade que as invenções tecnológicas até agora só têm sido feitas em poucos lugares e épocas, é também certo que, uma vez feitas algures por alguém, não são difíceis de serem dominadas e adotadas por outras pessoas. Todas as invenções tecnológicas feitas até agora divulgaram-se, com o correr do tempo, por toda a superfície do globo, e a nova forma mecanizada de tenologia está-se difundindo mais rapidamente hoje do que qualquer outra forma anterior, graças ao aperfeiçoamento revolucionário nos meios de comunicação que esta tecnologia mecanizada já alcançou.

Fonte: Toynbee, A. 1981 [1966]. O desafio de nosso tempo. RJ, Zahar.

13 julho 2026

Número de insetos

Zilkar C. Maranhão

Quando se pretende saber qual é o número de insetos existentes, logicamente faz-se a clássica pergunta – ‘Quantos insetos existem?’ –, sem pensar que ela poderá dar margem a duas respostas completamente plausíveis: (1) para o número de ‘insetos diferentes’ ou de ‘insetos-espécies’, e (2) para o número de ‘indivíduos’ ou de ‘insetos-indivíduos’, ou ainda, do seu total real. [...]

A estimativa do número de indivíduos, ou seja, do total real de insetos existentes é completamente absurda, pois, num cômputo desta natureza, devem ser levadas em conta todas as fabulosas populações dos insetos sociais – abelhas, vespas, formigas e cupins, bem como as populações de todos os demais insetos, o que torna humanamente impossível a sua realização. Se existissem possibilidades de tal ‘cálculo’, que cifra astronômica representaria o número de ‘insetos-indivíduos’, ou o total real de insetos?

Fonte: Maranhão, Z. C. 1978. Morfologia geral dos insetos. SP, Nobel.

12 julho 2026

19 anos e nove meses no ar

F. Ponce de León

Neste domingo, 12/7, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e nove meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e oito meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Augusto L. Henriques, Bob Telson, Gabriel H. Rua, Joseph John Thomson, Luis F. Mendes, Nancy E. Langston, Norman P. Li, Satoshi Kanazawa, Sheldon Margen e Takeo Maruyama. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Ferdinand Keller, Frédéric Montenard e Ludwig von Hofmann.

10 julho 2026

Zygentoma

Augusto L. Henriques & Luis F. Mendes

Insetos ectognatos, ametábolos, ápteros, variando de 2 a 15 mm de comprimento. Corpo geralmente achatado e coberto de escamas. Há espécies sem pigmentação e espécies com escamas marrons ou cinzentas, com reflexo prateado ou mesclado. Olho ausente nas formas crípticas ou com número reduzido de facetas aglomeradas. Ocelos ausentes na maioria das espécies. Antena filiforme, muitas vezes maior que metade do comprimento do corpo. Mandíbulas com dois pontos de articulação com a cápsula cefálica (dicondílica). Palpo maxilar com cinco palpômeros. Coxas grandes. Abdômen com estilos ventrais nos segmentos VII-IX e, às vezes, II-IX, raramente ausentes. Três filamentos caudais, um mediano e um par de cercos lateral.

Fonte: Henriques, A. L. & Mendes, L. F. 2012. In: Rafael, J. A. & mais 4, eds. Insetos do Brasil. Ribeirão Preto, Holos.

08 julho 2026

Pagamento


Ferdinand Keller (1842-1922). Bezahlung. 1883

Fonte da foto: Wikipedia.

06 julho 2026

A demiurgia do riso

Natália Correia

E cada vez que celebrei o
Deus Riso, floresceu em mim
um novo invento.

Cortaram-me os pulsos. Eram feitos de ar.
Correram-me as veias como linhas rectas.
E nenhuma espada pôde atravessar
O ímpeto aéreo das águas secretas.

Partiram-me ao meio dizendo “é agora!”
Depois atiraram metade para a lua.
E eu no luar com um braço de fora
Erguendo o meu resto caído na rua.

Se havia uma estátua ela era o tamanho
De quanta poeira à passagem erguia.
E eu numa nuvem a ver o desenho
E a cor duma mágoa que não me tingia.

E os anjos à volta como círios tesos
A desenrolar o seu tédio antigo.
E eu desfraldada nos cumes acesos:
Bandeira de tudo o que trago comigo.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1958.

05 julho 2026

Turnips

Sheldon Margen

Like cabbage, to which it is related, the turnip has long been thought of as ‘plain folks’ food. It is economical; it grows well in poor soil; it keeps well; and it supplies complex carbohydrates. One of the cruciferous vegetables in the Brassica genus, it can be cultivated for its root – which is a good source of complex carbohydrates – as well as for its greens, which are rich in vitamins and minerals […]. Turnips come in an astonishing range of shapes and sizes, depending on the age and variety – some have weighed 40 to 50 pounds, others are the size of a golf ball. The flesh can be white or yellow, but most commercial turnips have white flesh.

Fonte: Margen, S, ed. 1992. The wellness encyclopedia of food and nutrition. Berkeley, U California P.

04 julho 2026

Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força

Noam Chomsky

Os termos do discurso político têm tipicamente dois significados. Um é o significado do dicionário, e o outro é o significado utilizado para servir ao poder – o significado doutrinário.

Veja o termo democracia. De acordo com o significado comum, uma sociedade é democrática para que extensa parte do povo possa participar, de modo significativo, da direção de seus interesses. Mas o sentido doutrinário de democracia é diferente: ele se refere ao sistema no qual as decisões são tomadas pelos setores da comunidade empresarial e a elite a ele relacionada. O público é apenas ‘espectador da ação’, não ‘participante’ como os principais teóricos democráticos (neste caso, Walter Lippmann) têm explicado. Ao povo é permitido ratificar as decisões das autoridades superiores e dar apoio a um ou outro representante deles, mas nunca interferir em assuntos – como política pública – que não lhe dizem respeito.

Se segmentos do povo saírem de sua apatia e começarem a se organizar e a entrar na arena pública, isso não será democracia. Será antes uma crise na democracia no exato uso técnico do termo, será uma ameaça que terá de ser superada de uma ou de outra maneira: em El Salvador, pelos esquadrões da morte, aqui, nos EUA, por meios mais sutis e indiretos.

Ou veja o termo livre empresa, que na prática se refere ao subsídio público e ao lucro privado, com maciça intervenção governamental para manter um estado de bem-estar para os ricos. Na realidade, é provável que em seu uso corrente qualquer frase contendo a palavra ‘livre’ signifique o oposto do seu sentido real.

Veja ainda o termo defesa contra a agressão, que é usado – previsivelmente – para se referir à agressão. Quando os EUA atacaram o Sul do Vietnã, no início dos anos 1960, o herói liberal Adlai Stevenson (entre outros) explicou que nós estávamos “defendendo o Vietnã do Sul contra a agressão interna”, isto é, a agressão dos camponeses sul-vietnamitas contra a Força Aérea americana e o exército mercenário mantido pelos EUA, que os arrancava de suas casas para os campos de concentração, onde eles poderiam ser ‘protegidos’ dos guerrilheiros do Sul. De fato, esses camponeses apoiavam com disposição os guerrilheiros, enquanto o regime apoiado pelos EUA era uma casca vazia, com o que todos os lados concordavam.

Fonte: Chomsky, N. 1996. O que o Tio Sam realmente quer. Brasília, Editora UnB.

02 julho 2026

The Lady’s Dressing Room

Jonathan Swift

   Five Hours, (and who can do it less in?)
By haughty Celia spent in Dressing;
The Goddess from her Chamber issues,
Array’d in Lace, Brocades and Tissues.

   Strephon, who found the Room was void,
And Betty otherwise employ’d;
Stole in, and took a strict Survey,
Of all the Litter as it lay;
Whereof, to make the Matter clear,
An Inventory follows here.

   And first a dirty Smock appear’d,
Beneath the Arm-pits well besmear’d.
Strephon, the rogue, display’d it wide,
And turn’d it round on every Side.
On such a Point few Words are best,
And Strephon bids us guess the rest;
But swears how damnably the Men lie,
In calling Celia sweet and cleanly.
Now listen while he next produces,
The various Combs for various Uses,
Fill’d up with Dirt so closely fixt,
No Brush could force a way betwixt.
A Paste of Composition rare,
Sweat, Dandriff, Powder, Lead and Hair;
A Forehead Cloth with Oyl upon’t
To smooth the Wrinkles on her Front;
Here Alum Flower to stop the Steams,
Exhal’d from sour unsavory Streams,
There Night-gloves made of Tripsy’s Hide,
Bequeath’d by Tripsy when she dy’d,
With Puppy Water, Beauty’s Help
Distill’d from Tripsy’s darling Whelp;
Here Gallypots and Vials plac’d,
Some fill’d with washes, some with Paste,
Some with Pomatum, Paints and Slops,
And Ointments good for scabby Chops.
Hard by a filthy Bason stands,
Fowl’d with the Scouring of her Hands;
The Bason takes whatever comes
The Scrapings of her Teeth and Gums,
A nasty Compound of all Hues,
For here she spits, and here she spues.
But oh! it turn’d poor Strephon’s Bowels,
When he beheld and smelled the Towels,
Begumm’d, bematter’d, and beslim’d
With Dirt, and Sweat, and Ear-Wax grim’d.
No Object Strephon’s Eye escapes,
Here Pettycoats in frowzy Heaps;
Nor be the Handkerchiefs forgot
All varnish’d o’er with Snuff and Snot.
The Stockings, why shou’d I expose,
Stain’d with the Marks of stinking Toes;
Or greasy Coifs and Pinners reeking,
Which Celia slept at least a Week in?
A Pair of Tweezers next he found
To pluck her Brows in Arches round,
Or Hairs that sink the Forehead low,
Or on her Chin like Bristles grow.

   The Virtues we must not let pass,
Of Celia’s magnifying Glass.
When frightened Strephon cast his Eye on’t
It shew’d the Visage of a Giant.
A Glass that can to Sight disclose,
The smallest Worm in Celia’s Nose,
And faithfully direct her Nail
To squeeze it out from Head to Tail;
For catch it nicely by the Head,
It must come out alive or dead.

   Why Strephon will you tell the rest?
And must you needs describe the Chest?
That careless Wench! no Creature warn her
To move it out from yonder Corner;
But leave it standing full in Sight
For you to exercise your Spight.
In vain, the Workman shew’d his Wit
With Rings and Hinges counterfeit
To make it seem in this Disguise,
A Cabinet to vulgar Eyes;
For Strephon ventur’d to look in,
Resolv’d to go thro’ thick and thin;
He lifts the Lid, there needs no more,
He smelt it all the Time before.
As from within Pandora’s box,
When Epimetheus op’d the Locks,
A sudden universal Crew
Of human Evils upwards flew;
He still was comforted to find
That Hope at last remain’d behind;
So Strephon lifting up the Lid,
To view what in the Chest was hid.
The Vapours flew from out the Vent,
But Strephon cautious never meant
The Bottom of the Pan to grope,
And fowl his Hands in Search of Hope.
O never may such vile Machine
Be once in Celia’s chamber seen!
O may she better learn to keep
“Those Secrets of the hoary deep!”

   As Mutton Cutlets, Prime of Meat,
Which tho’ with Art you salt and beat,
As Laws of Cookery require,
And toast them at the clearest Fire;
If from adown the hopeful Chops
The Fat upon a Cinder drops,
To stinking Smoak it turns the Flame
Pois’ning the Flesh from whence it came;
And up exhales a greasy Stench,
For which you curse the careless Wench;
So Things, which must not be exprest,
When plumpt into the reeking Chest;
Send up an excremental Smell
To taint the Parts from whence they fell.
The Petticoats and Gown perfume,
Which waft a Stink round every Room.

   Thus finishing his grand Survey,
Disgusted Strephon stole away
Repeating in his amorous Fits,
Oh! Celia, Celia, Celia shits!

   But Vengeance, Goddess never sleeping
Soon punish’d Strephon for his Peeping;
His foul Imagination links
Each Dame he sees with all her Stinks:
And, if unsav’ry Odors fly,
Conceives a Lady standing by:
All Women his Description fits,
And both Idea’s jump like Wits:
But vicious Fancy coupled fast,
And still appearing in Contrast.
I pity wretched Strephon blind
To all the Charms of Female Kind;
Should I the Queen of Love refuse,
Because she rose from stinking Ooze?
To him that looks behind the Scene,
Statira’s but some pocky Queen.
When Celia in her Glory shows,
If Strephon would but stop his Nose;
(Who now so impiously blasphemes
Her Ointments, Daubs, and Paints and Creams,
Her Washes, Slops, and every Clout,
With which he makes so foul a Rout;)
He soon would learn to think like me,
And bless his ravisht Sight to see
Such Order from Confusion sprung,
Such gaudy Tulips rais’d from Dung.

Fonte (v. 117-8; em port.): Becker, E. s/d [1973]. A negação da morte. RJ, Record. Poema publicado em livro em 1732.

30 junho 2026

Devaneio


Ludwig von Hofmann (1861-1945). Träumerei. 1898.

Fonte da foto: Wikipedia.

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