06 junho 2026

Estados de consciência

Charles T. Tart

Uma das tendências mais significativas da cultura americana atual é aquela que pode ser considerada uma tendência anti-intelectual ou anticientífica. Duas de suas principais manifestações são o uso extraordinariamente difundido de drogas psicodélicas, tais como a maconha e o LSD, e o interesse por elas que tem crescido de maneira assustadora, em várias religiões místicas e orientais. Os estados de consciência produzidos por drogas ou pela meditação são fenômenos dos quais sabemos, cientificamente, muito pouco. O volume da pesquisa sobre estes assuntos, embora esteja se desenvolvendo rapidamente, tem sido bastante pequeno em relação à extensão do envolvimento social que tem havido neles. Além disso, pode-se afirmar com segurança que muito dessa pesquisa, embora bem-intencionada, é relativamente insignificante se comparada à natureza dos fenômenos.

Fonte: Weil, P. & mais 4. 1978. Mística e ciência. Petrópolis, Vozes. Trecho de artigo publicado em 1972.

05 junho 2026

A redenção de Cam


Modesto Brocos [y Gómez] (1852-1936). A redenção de Cam. 1895.

Fonte da foto: Wikipedia.

03 junho 2026

Um livro ilegível pela intensidade

António Ramos Rosa

Um livro ilegível pela intensidade
a cal do muro as unhas a ferrugem
as obscuras qualidades os acordes
que nomeiam o secreto e o longínquo
o cenário das folhas como orquestras
a miséria do nome o seu fulgor de árvore
o dédalo do corpo sob a águas metálicas
a pupila e a sede a pupila da sede
os desastres das palavras os seus motins errantes
um país que se oferece entre obscuras árvores
um corpo e outro corpo os sopros os rumores
que o vento traz entre os arbustos brancos
Nenhum gesto divide a redondez nocturna
em que a palavra habita a nascente secreta

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1988.

02 junho 2026

Realidade virtual

Jaron Lanier

[Greco] – E por que temos essa necessidade de criar outras realidades?

[Lanier] – Por causa das nossas limitações. Somos criaturas muito estranhas. Crescemos com nossos cérebros e corações capazes de imaginar qualquer universo, mas nosso corpo pode ser somente humano. Queremos nos conectar mutuamente, mas nossos meios para fazer isso são muito limitados. Somos separados uns dos outros pelos nossos corpos. Podemos trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas. Mas de alguma forma queremos mais, queremos estar mais ligados. Queremos ser capazes de criar qualquer universo na nossa cabeça de que nosso coração goste. Lutamos sempre contra as limitações da realidade física.

Fonte: Greco, A. 2001. Homens de ciência. SP, Conrad.

31 maio 2026

Totalis perfectum

F. Ponce de León

Nós não somos
humanos ordinários;
somos diferentes,
somos melhores.

Melhores que os árabes,
melhores que os persas,
melhores que os palestinos.

Espionamos,
chantageamos,
torturamos.

Nosso Mestre é o ódio.
Matamos mulheres e crianças
e nem assim a vergonha nos alcança.

Como os vikings de outrora,
vivemos a pilhar – terras, água, comida.
E seguimos matando.

Podemos matar qualquer um,
em qualquer lugar,
a qualquer momento.

Somos filhos da Perfeição.

29 maio 2026

To live at all is miracle enough

Mervyn Peake

To live at all is miracle enough.
The doom of nations is another thing.
Here in my hammering blood-pulse is my proof.

Let every painter paint and poet sing
And all the sons of music ply their trade;
Machines are weaker than a beetle’s wing.

Swung out of sunlight into cosmic shade,
Come what come may the imagination’s heart
Is constellation high and can’t be weighed.

Nor greed nor fear can tear our faith apart
When every heart-beat hammers out the proof
That life itself is miracle enough.

Fonte (v. 1, em port.): Dawkins, R. 2000. Desvendando o arco-íris. SP, Companhia das Letras. Poema publicado em livro em 1950.

28 maio 2026

Tempo, relógios, salsichas

Herbert Dingle

Na verdade, o tempo, o rio que não para de fluir, tem tanta relação com a existência dos relógios como com a das salsichas.

Fonte: Davies, P. 1999. O enigma do tempo. RJ, Ediouro. Frase extraída de livro publicado em 1972.

26 maio 2026

No leito de morte


Philipp Otto Runge (1777-1810). Sophia Sieveking auf dem Sterbelager. 1810.

Fonte da foto: Wikipedia.

24 maio 2026

Ouvindo um homem rico da fronteira

F. Ponce de León

Ouvindo um homem rico da fronteira,
eu consigo descobrir quanta terra
e quantas mulheres ele possui; para tanto,
eu só tenho de atentar para as epopeias
anunciadas por ele em dez minutos de prosa.

A depender da roupa e dos maneirismos,
basta observar os superlativos para saber
quanto dessa terra ele roubou. A depender
dos anéis e das comendas, dá para saber
ainda quantos vizinhos ele já mandou matar.

22 maio 2026

Brasília

Joanyr de Oliveira

A Lúcio Costa

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.

A torre afina os tímpanos
e as perfeitas retinas:
canta nas noites a fonte.
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias: áureas
dádivas: o branco, as superquadras.

(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1998.

eXTReMe Tracker