03 junho 2026

Um livro ilegível pela intensidade

António Ramos Rosa

Um livro ilegível pela intensidade
a cal do muro as unhas a ferrugem
as obscuras qualidades os acordes
que nomeiam o secreto e o longínquo
o cenário das folhas como orquestras
a miséria do nome o seu fulgor de árvore
o dédalo do corpo sob a águas metálicas
a pupila e a sede a pupila da sede
os desastres das palavras os seus motins errantes
um país que se oferece entre obscuras árvores
um corpo e outro corpo os sopros os rumores
que o vento traz entre os arbustos brancos
Nenhum gesto divide a redondez nocturna
em que a palavra habita a nascente secreta

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1988.

02 junho 2026

Realidade virtual

Jaron Lanier

[Greco] – E por que temos essa necessidade de criar outras realidades?

[Lanier] – Por causa das nossas limitações. Somos criaturas muito estranhas. Crescemos com nossos cérebros e corações capazes de imaginar qualquer universo, mas nosso corpo pode ser somente humano. Queremos nos conectar mutuamente, mas nossos meios para fazer isso são muito limitados. Somos separados uns dos outros pelos nossos corpos. Podemos trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas. Mas de alguma forma queremos mais, queremos estar mais ligados. Queremos ser capazes de criar qualquer universo na nossa cabeça de que nosso coração goste. Lutamos sempre contra as limitações da realidade física.

Fonte: Greco, A. 2001. Homens de ciência. SP, Conrad.

31 maio 2026

Totalis perfectum

F. Ponce de León

Nós não somos
humanos ordinários;
somos diferentes,
somos melhores.

Melhores que os árabes,
melhores que os persas,
melhores que os palestinos.

Espionamos,
chantageamos,
torturamos.

Nosso Mestre é o ódio.
Matamos mulheres e crianças
e nem assim a vergonha nos alcança.

Como os vikings de outrora,
vivemos a pilhar – terras, água, comida.
E seguimos matando.

Podemos matar qualquer um,
em qualquer lugar,
a qualquer momento.

Somos filhos da Perfeição.

29 maio 2026

To live at all is miracle enough

Mervyn Peake

To live at all is miracle enough.
The doom of nations is another thing.
Here in my hammering blood-pulse is my proof.

Let every painter paint and poet sing
And all the sons of music ply their trade;
Machines are weaker than a beetle’s wing.

Swung out of sunlight into cosmic shade,
Come what come may the imagination’s heart
Is constellation high and can’t be weighed.

Nor greed nor fear can tear our faith apart
When every heart-beat hammers out the proof
That life itself is miracle enough.

Fonte (v. 1, em port.): Dawkins, R. 2000. Desvendando o arco-íris. SP, Companhia das Letras. Poema publicado em livro em 1950.

28 maio 2026

Tempo, relógios, salsichas

Herbert Dingle

Na verdade, o tempo, o rio que não para de fluir, tem tanta relação com a existência dos relógios como com a das salsichas.

Fonte: Davies, P. 1999. O enigma do tempo. RJ, Ediouro. Frase extraída de livro publicado em 1972.

26 maio 2026

No leito de morte


Philipp Otto Runge (1777-1810). Sophia Sieveking auf dem Sterbelager. 1810.

Fonte da foto: Wikipedia.

24 maio 2026

Ouvindo um homem rico da fronteira

F. Ponce de León

Ouvindo um homem rico da fronteira,
eu consigo descobrir quanta terra
e quantas mulheres ele possui; para tanto,
eu só tenho de atentar para as epopeias
anunciadas por ele em dez minutos de prosa.

A depender da roupa e dos maneirismos,
basta observar os superlativos para saber
quanto dessa terra ele roubou. A depender
dos anéis e das comendas, dá para saber
ainda quantos vizinhos ele já mandou matar.

22 maio 2026

Brasília

Joanyr de Oliveira

A Lúcio Costa

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Alegorias em pluma,
estátuas no rosto das águas.
Arcos, trevos, o verde.
Eixos geram esperança
na fronte do homem.
O lago ama com os braços,
abarcando o equilíbrio.

A torre afina os tímpanos
e as perfeitas retinas:
canta nas noites a fonte.
Artérias humanas e urbanas
em suas vigílias: áureas
dádivas: o branco, as superquadras.

(O pretérito nos mausoléus,
longe de nossos cânticos.)

Amorosa e clara,
a cidade
   voa
      com as próprias asas.

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1998.

21 maio 2026

Rebelião contra a entropia

Neil McInnes

[Georges] Sorel considerava-se, essencialmente, um filósofo, mas não apenas do socialismo. Gastou mais tempo com a filosofia da ciência e a história do cristianismo do que com o movimento trabalhista. Em sua filosofia da ciência, ele achava que não havia determinismo na natureza e sim apenas acaso e probabilidades estatísticas, “nenhuma lei, somente limites”. A ciência exata ainda era possível, mas ela estava ligada aos mecanismos feitos pelo homem, como, por exemplo, os equipamentos experimentais e a maquinaria produtiva. Nessas limitadas áreas os homens violentavam a natureza sem leis, deixando de fora o acaso e a interferência provável, criando assim o determinismo. Seus trabalhos, no entanto, estavam sempre ameaçados pela natureza malévola, cuja sorte, desperdício e entropia invadiam a maquinaria feita pelo homem na mesma ocasião em que ele relaxava seus esforços para assegurar um funcionamento regular de sua criação. A ciência, a engenharia e a indústria eram, todas, partes de um vasto império de disentropia, a rebelião de uma parte da natureza contra sua confusão sem sentido e seu desgaste. [...]

A sua teoria sobre cultura era precisamente paralela. Também a história era uma confusão desregrada e uma sucessão sem sentido. As criações culturais e sociais estavam constantemente ameaçadas de acabar na desordem e no barbarismo. Contra um retrospecto de perpétua decadência, os homens lutavam, às vezes heroicamente, para estabelecer determinadas áreas de lei, ordem e significado histórico. Para que a história pudesse fazer sentido, eles tinham que se impor uma árdua disciplina, violentando a sua própria natureza, rejeitando a premissa da chamada ‘ciência social’ que a história tinha suas próprias leis e podia fazer sentido sem nossa intervenção. Só se esforçariam em conjunto, num movimento social que concordasse em se desligar, e aspiravam viver de acordo com uma nova moralidade.

Fonte: McInnes, N. 1971 [1969]. Georges Sorel. In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

18 maio 2026

Hálito noturno

Poh Pin Chin

O outono voltou
e com ele
o vapor noturno –
hálito da terra
e das folhas –
que se reúne
mansamente
nas grotas
entre montanhas
que ora aprecio –
sozinho de novo –
aqui de casa.

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