26 setembro 2026

Pedra da lua

Cacaso

Dia, mania
Tarde covarde
Noite, açoite
Minha mãe, calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino, levante cedo
Menino, não chegue tarde


Dia, folia
Tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não chegue tarde
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Eu nem quero pensar
Que um dia você possa ser
Minha pedra da lua
Minha paixão
Meu coração
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não morra cedo
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Fonte: álbum Boca Livre (1979), da banda Boca Livre. Canção originalmente gravada em 1977. Cacaso é pseudônimo de Antônio Carlos de Brito (1944-1987).

24 setembro 2026

Antígona

Sófocles

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e arte inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis de sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!

Fonte (em inglês): Corning, PA. 1974. Politics and the evolutionary process. In: Dobzhansky, T. & mais 2, eds. Evolutionary Biology, vol. 7. NY, Plenum. Trecho de obra escrita por volta de 441 aC. Edição em português publicada pela editora Zahar (2025), com tradução de Mário da Gama Kury (1922-2016).

21 setembro 2026

Primavera na floresta


Carl Rodeck (1841-1909). Frühling im Walde. s/d.

Fonte da foto: Wikipedia.

20 setembro 2026

Monografias antropológicas

Audrey Richards

As famosas monografias de Malinowski a respeito das ilhas Trobriand foram, certamente, a mais formadora influência sobre os trabalhos dos antropólogos sociais ingleses desde 1922, quando publicou o seu primeiro estudo de campo, até a sua morte, em 1942. A maior parte dos principais antropólogos atualmente na Inglaterra foi treinada por ele, no todo ou em parte, e aí estão incluídos Evans Pritchard, Firth, Fortes, Kaberry, Mair, Nadel, Read, Schapera, assim como também outros que trabalhavam fora da Inglaterra, como Hogbin, Kuper, Oberg, Powdermaker e Monica Wilson. Todos aqueles que, mais tarde, reagiriam fortemente contra ele eram tão influenciados por sua obra como os que permaneceram sempre como seus admiradores. [...]

Malinowski tinha uma forte personalidade e era isso sem dúvida o que chamava atenção para o seu trabalho. Era brilhante, espirituoso, sensível, egoísta e muito dependente da apreciação de seus amigos ou alunos, sem geralmente ser muito leal para com seus adversários. Tornou-se uma figura notável nos centros acadêmicos de Londres nos idos de 1930. Onde quer que dois ou três antropólogos se reunissem para conversar era certo que o assunto se voltaria para Malinowski, sua última teoria, seu bon mot, suas pragas ou excentricidades. É realmente difícil considerar sua fama separada de sua personalidade, pois ele não somente criava emoções positivas ou negativas naquele tempo como também acontece que tudo isso continuou depois de sua morte.

Era um professor brilhante e informal que usava aquilo que chamava de método socrático. Os seus seminários na London School of Economics adquiriram uma reputação internacional e era seu costume dar respostas rápidas e brilhantes em diversas línguas. A forma direta como encarava os assuntos forçava os seus alunos a enfrentarem o problema e exprimirem as suas [essências] com a máxima simplicidade. Os estudantes se sentiam atraídos ou repelidos conforme seus temperamentos, mas eram sempre estimulados. Seus discípulos se inclinavam, nos seus primeiros tempos de professor, no começo da era de 30, por exemplo, a se considerarem como um time atacando as forças da reação que então eram vistas em termos de evolucionismo, difusionismo e a busca de ‘sobreviventes’ nas sociedades atuais.

Fonte: Richards, A. 1971 [1969]. Bronislaw Malinowski (1884-1942). In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

17 setembro 2026

Descobri-a numa casa da rua da Atalaia


Descobri-a numa casa da rua da Atalaia quando
pelos dias do inverno vou a caminho das aulas.
Por detrás dos vidros tem a tonalidade do marfim.
Julgo reconhecer a deusa indiana Laksmi neste

produto indo-português de fim de império. O
rosto surge-me sempre iluminado pelo castanho dos
olhos. Sorrindo prende nos dedos um brinco
é o adereço da sua nudez.

Ladeiam-na duas mulheres. São em mais pequeno
as suas próprias formas. Cariátides servindo de
criadas quase as sei lançando água sobre a cabeça
da deusa, criatura mortal.

O pouco que sabemos das terras acabando no porto
de Lisboa é a presença desta suave puta.
Esqueço o comércio das aulas e faço das ruas do
Bairro Alto estradas caravaneiras levando aos

portos da Síria ao Golfo Pérsico ao mar de Eritreia.
E tenho, todas as manhãs, a presença deste objecto
de arte, de arte da Índia.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1979.

16 setembro 2026

A difusão de inovações

Alpina Begossi

Na Ilha de Búzios, três pescadores irmãos foram classificados por outros pescadores (em entrevistas) como os mais bem-sucedidos pescadores. Eles foram também os primeiros a utilizar a lambreta e ensinaram outros pescadores a usar a lambreta para pescar enchova. Estes ‘inovadores’ aprenderam sobre o uso da lambreta [com] pescadores de fora da ilha: viram alguns pescadores usando esse tipo de anzol e tendo boas pescarias. Eles decidiram tentar e adotaram esta inovação (um caso de tendência direta). Um segundo grupo de pescadores [adotou] a lambreta porque [assim] estariam a imitar os pescadores ‘bem-sucedidos’ (um caso de tendência indireta). O último grupo a adotar a lambreta afirmou usá-la porque a maioria dos pescadores da ilha o estavam [a fazer]. Consequentemente, eles consideraram que a lambreta deveria ser uma boa técnica para pescar a enchova (um caso de tendência dependente da frequência).

Fonte: Begossi, A. 2006. Métodos e análises em ecologia de pescadores. In: I. Garay & B. K. Becker, orgs. Dimensões humanas da biodiversidade. Petrópolis, Vozes. Uma nota sobre a autora (AB) pode ser lida aqui.

14 setembro 2026

O vagalume

Coelho Neto

Foi ao princípio, disse o velho Asael aos zagalejos que, todas as noites, no pouso da montanha, à volta do fogo, enquanto as ovelhas sonhavam com as ervas tenras e com as águas límpidas, cercavam-no pedindo histórias. E ninguém as sabia tão curiosas como o solitário Asael que se recolhera à montanha depois que levara a noiva ao túmulo.

Foi no princípio, disse o velho Asael – tudo era sombra e silêncio e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que d’eles se espargia ficava espalhada formando a Via Láctea e as outras nebulosas.


Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la e assim conseguiu fazer todas as estrelas que brilham, o sol que é um topázio enorme e a lua que é uma opala triste.


Mas, lapidando os astros, não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse parar à terra, mas tendo de criar os animais e o Homem desceu ao mundo deserto e, caminhando, devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar e pensativo, ficou acompanhando a viagem aérea e volteante da fagulha de origem desconhecida.

Vendo-a ir e vir e vendo que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando as chamas erradias criações do Mau Anjo – porque não se lembrava de as haver criado – tomou, no espaço, uma das que passavam e, com seu alto poder, fez com que a centelha falasse e, entre os seus dedos, a centelha falou:


– Senhor, deixai-me ir livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chama, não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando as lapidáveis d’elas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos d’essa poeira rutilante vieram cair na terra e porque neles havia tocado vossa mão logo se animaram e, à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram e por cima das águas brancas que murmuram.


E o Senhor, enternecido, abriu os dedos deixando partir o vagalume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vagalume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e, até hoje, o inseto guarda essa instantânea impressão.

No pouso o fogo triste morria e Asael levantou-se para alimentá-lo.


Fonte (exceto primeiro e último parágrafos): Lenko, K. & Papavero, N. 1979. Insetos no folclore. SP, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas. O conto acima integra livro publicado originalmente em 1898. ‘Coelho Neto’ é a assinatura literária de Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934).

13 setembro 2026

Estrepsípteros

Zundir José Buzzi & Rosina D. Miyazaki
 
Estes insetos têm um ciclo de vida bastante interessante. O macho procura a fêmea, no hospedeiro, onde copula. A fêmea produz pequenas larvas (às vezes vários milhares) que caem no solo ou ficam sobre a vegetação. Estas larvas, com os olhos e pernas bem desenvolvidos, são mais ou menos ativas e possuem posteriormente dois ou três filamentos; são denominadas triungulinos. Estes procuram um novo hospedeiro e nele penetram quando o encontram, tornando-se ápodas; sofrem várias mudas até empupar. Ao emergir, o adulto, se for macho, deixa o hospedeiro e, se for fêmea, ali permanece.
 
Os principais hospedeiros são várias espécies de ortópteros, hemípteros, homópteros, himenópteros e tisanuros. Os hospedeiros nem sempre morrem, mas são bastante prejudicados e são facilmente reconhecidos porque apresentam o abdome deformado.

Fonte: Buzzi, ZJ & Miyazaki, RD. 1993. Entomologia didática, 2ª ed. Curitiba, Editora da UFPR.

12 setembro 2026

19 anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Neste sábado, 12/9, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e onze meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e dez meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antônio Carlos Rocha-Campos, Michael E. Soulé, Papus de Alexandria, Paulo R. Santos, Richard M. Sibly e Ronald J. Glassner. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Gustaaf Wappers, Jacob Jacobs e Louis van Kuyck.

10 setembro 2026

Luís de Camões e seu guia


Gustaaf Wappers [Egidius Karel Gustaaf] (1803-1874). Le Camoens. 1855.

Fonte da foto: Wikipedia.

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