02 novembro 2026

What is a weed?

Jack R. Harlan

The species adapted to the new, artificial habitats are mostly crops or weeds. Man generally wants the crops and tries by various means to encourage them; he does not want the weeds and tries by various means to eradicate them. Because both are adapted to the same habitats, however, practices that tend to favor crops also tend to favor weeds. [...]

If we confine the concept of weeds to species adapted to human disturbance, then man is by definition the first and primary weed under whose influence all other weeds have evolved.

Fonte (2° parágrafo, em port.): Crosby, A. W. 1993. Imperialismo ecológico. SP, Companhia das Letras. Excerto de livro originalmente publicado em 1975.

31 outubro 2026

A sesta


Henri [Charles] Manguin (1874-1949). La sieste. 1905.

Fonte da foto: Wikipedia. O quadro é chamado também de Le repos, Jeanne ou Le rocking-chair.

30 outubro 2026

Ética comparada

Morris Ginsberg

A sua contribuição para a Sociologia foi numa escala enciclopédica. Morals in Evolution (primeira edição em 1906, sétima edição em 1951, com uma introdução do autor deste ensaio) foi considerada como um estudo da ética comparada, mas o seu escopo é, na verdade, muito mais amplo. Trata-se, realmente, de uma síntese de dados derivados de religião comparada, história e antropologia, à luz do próprio estudo de [Leonard Trelawny] Hobhouse [1864-1929] de psicologia comparada, da teoria do conhecimento e da filosofia moral. Até o dia de hoje ele permanece como o estudo comparado mais amplo e equilibrado das instituições sociais que eu conheço. Pode-se dizer com segurança que o livro marcou uma época no desenvolvimento da Sociologia. Seguiu-se-lhe na década dos 20 três volumes sob o título geral de Principles of Sociology (The National Good, 1921; The Elements of Social Justice, 1922; e Social Development, 1924), nos quais Hobhouse fez uma exposição sistemática de seus profundos estudos em Sociologia e Filosofia Social.

Hobhouse será sempre lembrado não somente como sociólogo, mas também como filósofo de grande mérito. Levou a cabo trabalhos pioneiros em psicologia animal experimental e fez contribuições de grande valor para a psicologia social, a ética e a filosofia social, a lógica e a teoria do conhecimento e a metafísica. Entre seus trabalhos mais importantes podemos mencionar: The Theory of Knowledge, 1ª edição 1896, 3ª 1921; The Metaphysical Theory of the State, 1918; Development and Purpose, 1ª edição 1913, 2ª revista 1927. Este último trabalho dá a mais ampla descrição de sua perspectiva filosófica.

Fonte: Ginsberg, M. 1971 [1969]. L. T. Hobhouse. In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

28 outubro 2026

Perdidos na Noite

F. Ponce de León

As massas jamais anseiam pela verdade. Elas se esquivam das evidências que lhes são desagradáveis, preferindo endeusar o erro, caso o erro as seduza. Quem consegue oferecer ilusões facilmente as controla; quem tenta destruir essas ilusões acaba sendo destruído.
– Gustave Le Bon (The Crowd, 1896 [1895]: p. 110).

Ainda que findo o período eleitoral, certos filmes continuam a borbulhar em minha cabeça. Um deles chegou a ganhar duas estatuetas do Oscar em 1970 (Melhor Filme e Melhor Direção), embora não seja uma obra muito lembrada hoje em dia.

Trata-se de um filme inovador, seja pela temática, seja pela abordagem, a ponto de ter sacudido a indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que, até a década de 1960, Hollywood impunha a roteiristas e diretores uma cartilha de subserviência ideológica – a subserviência persiste, embora não se restrinja mais a questões políticas ou ideológicas. (Não é à toa que tantos profissionais do cinema europeu ainda hoje desprezem os filmes estadunidenses ou os tratem tão somente como entretenimento infantil.)

Em segundo lugar, estou a pensar no primeiro filme a ganhar o Oscar mesmo tendo recebido o selo X (ou X-rated), categoria em que naquela época ficavam os filmes pornográficos. A classificação foi posteriormente abrandada para R-rated, sendo então liberado para menores de 16 anos (17 anos, a partir de 1970; sobre a classificação de filmes nos EUA, ver aqui), desde que eles estivessem devidamente acompanhados por um dos pais ou responsáveis.

O filme em questão é Perdidos na Noite (Midnight Cowboy, 1969), dirigido por John Schlesinger (1926-2003), laureado com o Oscar de Melhor Direção em 1970. (Outras obras do diretor inglês merecem atenção, incluindo Marathon Man, de 1976, no qual o mesmo Dustin Hoffman [ver adiante] contracena com Laurence Olivier [1907-1989]. Há nesse filme de 1976, aliás, uma famosíssima sequência ambientada, digamos, em um contexto de consultório odontológico – ver aqui.)

Eis uma breve sinopse de Perdidos na Noite (extraída de tv.apple.com):

“Joe [Jon Voight, então com 31 anos] acredita ter um charme irresistível com as mulheres. Um dia, ele decide largar seu emprego de lavador de pratos no Texas e vai para Nova York em busca de uma vida melhor. No entanto, ele acaba descobrindo que as coisas não são tão fáceis como pensava. Joe começa a trabalhar como garoto de programa com a ajuda de seu companheiro, Ratso [Dustin Hoffman, então com 32 anos].”

Uma avaliação crítica do filme (em inglês, mas com legendas) pode ser vista aqui. De resto, a trilha sonora é igualmente digna de elogios, e inclui temas criados pelo premiadíssimo compositor e maestro inglês John Barry [Prendergast] (1933-2011), além de uma versão da canção Everybody’s Talkin’, do cantor e compositor estadunidense Fred Neil [Frederick Ralph Morlock Jr.] (1936-2001), executada por Harry Nilsson [Harold Edward Nilsson III] (1941-1994) – ver aqui e aqui.

* * *

26 outubro 2026

A matemática do segundo turno

Felipe A. P. L. Costa

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral [1], 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar ontem (25/10), no segundo turno das Eleições 2026. Nem todo mundo foi ou pôde ir.

Concluída a apuração, eis um resumo das estatísticas nacionais.

Compareceram e votaram 128.236.074 eleitores. Houve um aumento de 2.960.239 eleitores em relação ao primeiro turno, em 4/10. Ainda assim, no entanto, 30.509.428 eleitores não puderam ou não quiseram comparecer.

Dos que compareceram e votaram, 124.082.273 eleitores produziram votos válidos. Outros 4.153.801 compareceram, mas não produziram votos válidos (leia-se: essa turma anulou ou votou em branco). Em relação ao primeiro turno, houve um aumento de 4.781.485 no número de votos válidos.

Dos 124.082.273 votos válidos, 64.256.232 (51,8%) foram dados ao presidente Lula; outros 59.826.041 (48,2%) foram dados ao candidato da Meta e das milícias. Em relação ao primeiro turno, o presidente recebeu mais 10.376.694 votos; o candidato do PL recebeu mais 3.721.538 votos.

Em relação à votação obtida pelos dois no primeiro turno, houve um ganho total de 14.098.232 votos novos. Foi a distribuição desigual desses votos que promoveu a virada e a vitória do presidente Lula, a saber: de cada quatro votos novos, três foram para o presidente Lula, enquanto apenas um foi para o candidato da extrema direita.

De onde vieram esses 14.098.232 votos? De três fontes: (i) gente que não compareceu ao primeiro turno, mas compareceu ao segundo; (ii) gente que não produziu votos válidos no primeiro turno, mas produziu votos válidos no segundo turno; e (iii) gente que votou em outros nomes no primeiro turno, mas decidiu mudar de candidato no segundo.

*

NOTA.

[1] Ainda de acordo com o TSE (ver aqui), apenas 34.330 votos foram registrados durante o horário de votação estendido (entre 17h00 e 19h00).

* * *

24 outubro 2026

Coração civil

Fernando Brant

Quero a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade dos olhos de um pai
Quero a alegria, muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país


Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver

São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal

Sem polícia, nem a milícia, nem feitiço, cadê poder?
Viva a preguiça, viva a malícia que só a gente é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia
Eu vou levando a vida, eu vou viver bem melhor
Doido pra ver o meu sonho de gozo um dia se realizar

Fonte: álbum Caçador de mim (1981), de Milton Nascimento.

21 outubro 2026

Camisa amarela

Ary Barroso

Encontrei o meu pedaço na avenida de camisa amarela
Cantando a ‘Florisbela’, a ‘Florisbela’


Convidei-o a voltar pra casa em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
E desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado

Foi por aí cambaleando, se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão

Mais tarde o encontrei num café zurrapa
Do Largo da Lapa, folião de raça
Tomando o quarto copo de cachaça

Voltou às cinco horas da manhã, mas só na quarta-feira
Cantando ‘A Jardineira’, ‘A Jardineira’

Me pediu, ainda zonzo, um copo d’água com bicarbonato
O meu pedaço estava ruim de fato
Pois, caiu na cama e não tirou nem o sapato

E roncou uma semana, despertou mal-humorado
Quis brigar comigo, que perigo, mas não ligo

O meu pedaço me domina, me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal

Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela

Gosto dele assim
Passada a brincadeira, ele é pra mim
Meu Sinhô do Bonfim

Fonte: álbum Aquarela do Brasil (1980), de Gal Costa. Canção originalmente gravada em 1939. A letra acima está de acordo com a versão que o próprio autor gravou em 1956.

19 outubro 2026

Robôs não mentem

Felipe A. P. L. Costa

As repetidas e insistentes molecagens e grosserias vistas no debate presidencial promovido pela Band, ontem à noite (18/10), acenderam um sinal vermelho em muitos eleitores indecisos.

Serviram também para escancarar duas coisas: (i) no plano pessoal – crescer em uma família carioca de classe média alta, sob a liderança de um militar frustrado e corrupto, tende a converter as crianças (notadamente os meninos) em adultos mimados, grosseiros e igualmente corruptos; nesse tipo de ambiente familiar, honestidade e boas maneiras parecem ser vistos como sinais de frescura ou fraqueza; e (ii) no plano político – sem propostas concretas para os problemas do país, a extrema direita abusa dos efeitos especiais: mentir, mentir, mentir e, se necessário, mentir berrando ou até espancando o interlocutor; e assim tem sido, seja aqui, seja em outros países.


Veja agora a situação irônica e grotesca em que nós, brasileiros, nos encontramos neste exato momento. Em resposta a uma consulta feita por uma cidadã brasileira, a IA da própria Meta informou o seguinte: “[Flávio Bolsonaro é] um candidato que abertamente defende submeter a política externa, econômica e regulatória brasileira à vontade de Washington e das grandes corporações norte-americanas. Para a Meta, isso é o cenário ideal”.


Soube desse caso da IA hoje (19), lendo artigo de autoria da gentil e bem-educada jornalista mineira Eliara Santana, publicado no sítio do Partido dos Trabalhadores, dias atrás (ver aqui).


CODA.

Ontem à tarde, algumas horas antes do debate, troquei mensagens pelo celular com alguns amigos e colegas. Uma das teses a circular nessas conversas foi mais ou menos a seguinte:


“Cá entre nós: há um debate marcado para a noite deste domingo (18) na Band. A ideia seria colocar o presidente Lula diante do seu opositor, o candidato da extrema direita. Ocorre que, além de profundamente corrupto, covarde e inepto, o candidato do PL é um pastel de vento: não tem propostas nem tem preparo para discutir com quem quer que seja. Muito menos com um estadista. Não vai ser hoje que o cérebro dele vai mudar. Não vai. Diante de flagrante assimetria, duas alternativas são possíveis. (i) Alegando dor de dente ou uma unha encravada, o candidato do PL vai faltar ao debate; ou (ii) com ajuda de terroristas profissionais (e.g., agentes do Mossad), a extrema direita vai forjar alguma notícia bombástica de última hora – e.g., uma bomba no metrô, um novo incêndio no Museu Nacional ou uma nova facada. (Em tempo: vale lembrar que o ar de Manaus está irrespirável há duas semanas ou mais. A causa: incêndios florestais – criminosos? – promovidos no entorno da cidade.) Fato é que eu duvido muito que nós venhamos a ter um debate sério hoje à noite.”

De fato, não houve qualquer debate. O candidato do PL ignorou todas as perguntas; limitou-se a repetir o que costuma fazer diante de um microfone: despejar mentiras e perdigotos malcheirosos. O sujeito aprendeu a agir assim aos 19 anos, quando entrou na vida pública pelas mãos de um pai corruptor (ver aqui). E mentiras são tudo o que esse sujeito tem a oferecer. É a vida dele. A menos, claro, que ele comece a ser duramente questionado por jornalistas, o que não foi o caso de ontem, ou comece a ser interpelado por autoridades policiais.

Comparado ao presidente Lula, o candidato do PL é um rascunho mal-acabado de homem, uma figura triste e doente; um morto-vivo com areia até o pescoço. Ele me faz pensar naquele tipo de gente que, quando se vê em uma encruzilhada, no meio de um redemoinho, faz logo um trato e sai correndo pela tangente. Gente que é movida pelo medo, a ambição e o desejo desmedido de ter cada vez mais; gente que já acorda e levanta da cama rangendo os dentes, sem qualquer perspectiva de levar uma vida honesta e honrada.

* * *

17 outubro 2026

Mulher sobre um fundo de xale espanhol


Albert Marquet (1875-1947). La femme blonde (Femme blonde sur un fond de châle espagnol). 1919.

Fonte da foto: Wikipedia.

15 outubro 2026

Las alas de los insectos

Juan Manuel Nieto Nafría & Milagros Pilar Mier Durante

Las alas que presentan los vertebrados (cualquiera de los grupos que han alcanzado la capacidad de volar) son órganos formados a expensas del aparato ambulacral, en cambio, las alas de los insectos nada tienen que ver con las patas, son órganos añadidos al aparato ambulacral preexistente. No tienen el mismo origen que las patas y carecen de sus propiedades.

Anatómicamente se presentan como evaginaciones laminares paratergales pareadas en los segmentos meso y metatorácicos, sostenidas por nervios y con una articulación más o menos compleja con el tórax.

Fonte: Nafría, J. M. N. & Durante, M. P. M. 1985. Tratado de entomología. Barcelona, Omega.

eXTReMe Tracker