19 março 2026

Chopin: Prelúdio, nº 4

Eduardo Guimaraens

Do fundo do salão vem-me o seu pranto sobre-humano,
como do fundo irreal de um desespero hoje olvidado:
dir-se-ia que estes sons têm um tom de ouro avioletado;
há um anjo a desfolhar lírios de sombra sobre o piano.

Doce prelúdio! Que ermo e doloroso desengano
fala, através do seu vago perfume de passado?
Sobre Chopin a noite abre o amplo manto constelado:
um delírio de amor anda por tudo, insone, insano!

Em cada nota solta há como um lânguido lamento.
– Oh, a doçura de sentir que o teu olhar, perdido,
sonha, recorda e sofre, ao doce ritmo vago e lento!

E o silêncio! E a paixão que abre em adeus as mãos absortas!
E o passado que volta e traz consigo, inesquecido,
um aroma secreto e vago e doce, a flores mortas!

Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1916.

18 março 2026

La selección controla sólo los caracteres adaptativos

Marjorie Greene

Darwin demostró que dadas las características de multiplicación, herencia y variación, la selección natural en la población de organismos que las poseen es una consecuencia necesaria. Las tres primeras fueron tomadas como hechos establecidos que, en conjunto, arrastran consigo la cuarta propiedad. (Tan poderoso era este argumento que ahora parece que lo tenemos de hecho es la selección natural, y la multiplicación lo que deducimos de ella: “la multiplicación es necesaria, porque sin ella la selección natural no podría tener lugar”!) Pero Darwin era consciente, al menos a veces, de las limitaciones de su propia teoría, lo que no ocurre con muchos de sus continuadores del siglo XX. En primer lugar, reconocía que la selección natural controla sólo los caracteres adaptativos, siendo que algunas de las complejidades de los fenómenos biológicos no son adaptaciones. (Tales complejidades no verán favorecida su supervivencia por la selección natural, pero ésta puede dejar lugar para alternativas viables.) Sin duda, Darwin tenía una tendencia a considerar los organismos fundamentalmente bajo el punto de vista de Paley, esto es, como mecanismos para la autoconservación y supervivencia, pero admitía la posibilidad de que no todos los caracteres pudiesen ser explicables en estos términos. Y, en segundo lugar, admitió, al menos en determinadas ocasiones, que la teoría de la selección natural no ofrece explicación alguna para el fenómeno del aumento de complejidad. Encontramos hecha esta observación de un modo un tanto fantástico en la leyenda de Kingsley acerca de una tierra donde los animales ‘progresan’ hacia atrás, por decirlo así, desde el hombre hasta la ameba.

Fonte: Waddington, C. H., ed. 1976 [1968-70]. Hacia una biología teórica. Madri, Alianza.

16 março 2026

O último escaldo


J. [Johan] L. [Ludwig] [Gebhard] Lund (1777-1867). Den sidste skjald. 1837.

Fonte da foto: Wikipedia.

14 março 2026

Comunicação não verbal

Christopher R. Brannigan & David A. Humphries

É um fato bem conhecido em nossa vida cotidiana que sorrir, franzir as sobrancelhas, gestos e outros comportamentos não verbais de pessoas de nosso relacionamento fornecem pistas úteis sobre suas atitudes, momento a momento, com relação a nós próprios ou a outras pessoas. Muitos de seus comportamentos não verbais são geralmente compreendidos como um meio de comunicação. Entretanto, o estudo científico deste fato cotidiano ainda está em seu início, apesar da ubiquidade do fenômeno e das vantagens práticas óbvias a serem obtidas com o seu conhecimento científico [...]. [...]

A organização e a coesão de um grupo social em qualquer espécie, incluindo a humana, [dependem] de um intercâmbio de informação entre seus membros. Esta informação está relacionada com a integração das mudanças sucessivas do comportamento de cada indivíduo e de sua posição espacial dentro do grupo social organizado. É neste sentido que aqui usamos o termo ‘comunicação’; um ato de comunicação ocorre quando certos atributos de um indivíduo (geralmente atributos comportamentais), que aparecem em situações específicas, têm a capacidade de alterar o comportamento futuro de um outro indivíduo, através de efeitos sobre seus órgãos sensoriais.

Fonte: Brannigan, C. R. & Humphries, D. A. 1981 [1972]. In: N. Blurton Jones, ed. Estudos etológicos do comportamento da criança. SP, Pioneira.

12 março 2026

Olhe agora para as vítimas, desprezível Estadão


Felipe A. P. L. Costa

Em 28/2, como escrevi antes (aqui), o jornal o Estado de S.Paulo – um dos porta-vozes da Faria Lima, o epicentro da corrupção brasileira (e.g., aqui) – teve a audácia de publicar um editorial intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Vindo de quem veio, não foi bem uma surpresa – foi apenas mais um vergonhoso rosário de ódio, preconceitos e mentiras.

No mesmo dia 28, ao menos 175 civis iranianos foram mortos após um ataque a uma escola primária em Minab, uma pequena cidade (~70 mil habitantes) localizada no sul do Irã. Quase todas as vítimas eram meninas pequenas. Nem os Estados Unidos nem Israel assumiram a autoria do crime.

No último domingo (8/3), o jornal espanhol El País publicou uma matéria intitulada ‘Un medio iraní publica las fotos de los menores muertos en la escuela: Trump, mírales a los ojos’. No olho da matéria, logo abaixo do título, lê-se: ‘Tehran Times [jornal iraniano muito mais bem escrito e muito mais confiável que o Estadão] recopila más de 100 imágenes de las víctimas, así como las investigaciones de ocho medios que responsabilizan a Estados Unidos del ataque’.

A matéria do El País é curta (sete parágrafos). No quinto parágrafo, lemos o seguinte:

Entre los diarios que han investigado la matanza figuran los estadounidenses CNN, que ha culpado a EE UU tras verificar la existencia de ‘daños graves compatibles con municiones guiadas’, y The New York Times, que ha señalado que el ejército norteamericano atacó la escuela. The Wall Street Journal ha designado al CENTCOM, el mando central militar del país [responsável pelas operações militares dos EUA no Oriente Médio], como culpable.

Como se vê, portanto, já no primeiro dia dos ataques, a coalizão Israel-EUA manteve a tradição israelense de atirar contra alvos civis pelas costas.

CODA.

É do conhecimento de todo e qualquer jornalista que as vítimas do lado iraniano também têm rosto e nome, ainda que a direção dos jornais faça questão de omitir essa parte ‘desagradável’ da história.

No caso do ataque à escola em Minab, ao menos uma pergunta se impõe: Que jornal brasileiro se atreveu a comentar a matéria do Tehran Times ou sequer seguiu o exemplo do El País? A resposta mais provável é: Nenhum. É compreensível (além de fracos e mal escritos, os jornais brasileiros são teleguiados), mas não deixa de ser vergonhoso.

Pois olhe agora para as vítimas, decrépito e desprezível Estadão.

* * *

19 anos e cinco meses no ar

F. Ponce de León

Nesta quinta-feira, 12/3, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e cinco meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e quatro meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antônio José Teixeira Guerra, Charlotte J. Avers, E. L. Doctorow, Edwin Markham, Ernest J. DuPraw, Ernest Jones, José Carneiro, Luiz C. Junqueira e Maria Cecília Wey de Brito. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Ferdinand Richardt e Helen Hyde.

10 março 2026

The man with the hoe

Edwin Markham

Written after seeing Millet’s world-famous painting

God made man in His own image,
in the image of God made He him.
– Genesis.

Bowed by the weight of centuries he leans
Upon his hoe and gazes on the ground,
The emptiness of ages in his face,
And on his back the burden of the world.
Who made him dead to rapture and despair,
A thing that grieves not and that never hopes,
Stolid and stunned, a brother to the ox?
Who loosened and let down this brutal jaw?
Whose was the hand that slanted back this brow?
Whose breath blew out the light within this brain?

Is this the Thing the Lord God made and gave
To have dominion over sea and land;
To trace the stars and search the heavens for power;
To feel the passion of Eternity?
Is this the Dream He dreamed who shaped the suns
And marked their ways upon the ancient deep?
Down all the stretch of Hell to its last gulf
There is no shape more terrible than this –
More tongued with censure of the world’s blind greed –
More filled with signs and portents for the soul –
More fraught with danger to the universe.

What gulfs between him and the seraphim!
Slave of the wheel of labor, what to him
Are Plato and the swing of Pleiades?
What the long reaches of the peaks of song,
The rift of dawn, the reddening of the rose?
Through this dread shape the suffering ages look;
Time’s tragedy is in that aching stoop;
Through this dread shape humanity betrayed,
Plundered, profaned and disinherited,
Cries protest to the Judges of the World,
A protest that is also prophecy.

O masters, lords and rulers in all lands,
is this the handiwork you give to God,
This monstrous thing distorted and soul-quenched ?
How will you ever straighten up this shape;
Touch it again with immortality;
Give back the upward looking and the light;
Rebuild in it the music and the dream;
Make right the immemorial infamies,
Perfidious wrongs, immedicable woes?

O masters, lords and rulers in all lands,
How will the Future reckon with this Man?
How answer his brute question in that hour
When whirlwinds of rebellion shake the world?
How will it be with kingdoms and with kings –
With those who shaped him to the thing he is –
When this dumb Terror shall reply to God,
After the silence of the centuries?

Fonte (v. 1-4, em port.): Gould, S. J. 1991 [1981]. A falsa medida do homem. SP, Martins Fontes. Excerto de livro originalmente publicado em 1921.

09 março 2026

Instintos selvagens

Ernest Jones

[Evans] – Qual é exatamente a natureza dessas tendências inatas influindo sobre a moralidade social, a que Freud se refere como superego? Devemos acreditar que o homem já nasce com as proibições inerentes, sobre sua existência social?

[Jones] – É difícil provar ou demonstrar coisas desse tipo. Diria que é muito provável, porque não creio que todo o superego venha de pressões externas. Acho que alguma coisa vem de dentro. A criança nasce com impulsos muito mais selvagens do que os que temos quando já somos crescidos. Ela não só tem [de] aprender a controlá-los e guiá-los em certas direções, por razões sociais, mas também por razões pessoais, pois alguns deles são muito prejudiciais a si própria, muito destrutivos para si ou para alguém que ela ama. Em outras palavras, há perigos vindos tanto de dentro quanto de fora; assim, há uma necessidade de controlar, reprimir ou fazer alguma coisa a respeito destes perigos internos. Parece-me muito provável que esse controle seja inato, por razões biológicas de sobrevivência.

Fonte: Evans, R. I. 1979 [1976]. Construtores da psicologia. SP, Summus & Edusp. Trecho de livro originalmente publicado em 1964.

06 março 2026

Ninguém vai chorar pelo fim do Estadão

Felipe A. P. L. Costa

Em 28/2, o jornal o Estado de S.Paulo – um dos porta-vozes da Faria Lima, o epicentro da corrupção brasileira (e.g., aqui) – teve a audácia de publicar um editorial intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Em uma sanha alucinada, o editorialista alinhou uma série de acusações levianas contra o Irã. Ignorância, má-fé ou um pouco dos dois?

A imprensa brasileira é pródiga em publicar meias-verdades, sobretudo contra quem está longe e não pode reagir. Isso em geral é feito de má-fé, por jornalistas sem caráter (e.g., aqui). Mas é também o modus operandi da extrema direita sionista. O propósito aí é camuflar os crimes diários cometidos pelo estado de Israel, liderado hoje por um autocrata corrupto e sanguinário (e.g., aqui e aqui). Veja: militares israelenses (ou até mesmo colonos que vivem em territórios ocupados) estão sempre a “atirar por engano” contra algum alvo civil (jornalistas, inclusive), seja em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano ou agora no Irã.

No mesmo dia 28, aliás, 153 civis foram mortos após um ataque a uma escola primária em Minab, uma pequena cidade (~70 mil habitantes) localizada no sul do Irã. Quase todas as vítimas eram meninas pequenas – mas isso não tem importância, pois elas seguramente eram filhas de “gente doente, raivosa, louca”, para usar as palavras do Pedófilo da Casa Branca (ver aqui e aqui). E todas elas certamente iriam se transformar em adultos igualmente “doentes, raivosos, loucos”.

O editorial do Estadão é uma peça asquerosa em vários aspectos. Mas é, sobretudo, uma peça de propaganda política. Estivéssemos a falar de um jornal sério e decente, uma peça pornográfica como essa não teria sido publicada. Ou, na hipótese de que fosse publicada às escondidas (digo: sem conhecimento prévio dos editores), o autor seria sumariamente demitido. E demitido por justa causa: afinal, trata-se também de uma peça racista e, de acordo com a legislação brasileira, racismo é crime. Ao publicar esse tipo de material, portanto, o Estadão não só desrespeita os seus minguados leitores como também estimula um crime. (Por muito menos do que isso, aliás, o Ministério Público abriu recentemente um processo milionário contra a Rede Globo – aqui.)

Fundado ainda na segunda metade do século 19, o Estado de S.Paulo dá sinais de que é um jornal decrépito. Além de leitores, falta-lhe o bom jornalismo. Conheço gente que diz que se trata de um morto-vivo à beira da extinção. Ora, a se concretizar esse prognóstico, ouso dizer aqui que “ninguém vai chorar pelo fim do Estadão”.

* * *

04 março 2026

O espírito e o tempo

Paulo Teixeira

Pudesse elevar-se o espírito acima do tempo,
ser o mundo só um espetáculo comovente,
qualquer coisa de especioso abaixo das nuvens,
onde a luz ao incidir fosse pura estesia.

Estábulo onde fechados esperamos o drama
por encerrar no presente espaçoso que é nosso:
chaminés, gólgotas, campos de batalha,
domínio de prazer forense, breve e matizado

pela dor, onde, providos de um costume,
fomos instruídos em verdades que se ocultam
e sem outra instância de apelação que a morte,
em busca de conforto pelo fim do dia.

Pudesse elevar-se o espírito acima do tempo,
consigo levando nos dedos um pouco de terra queimada;
por pudor não olhasse em baixo o mundo,
já sem relógio e informes profecias,

envolto em luz espectral e fundado no que não existe.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1997.

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