Poesia Contra a Guerra
A história da humanidade se confunde com a história das guerras. Deveríamos lutar para que se confundisse apenas com a história da literatura.
29 março 2026
27 março 2026
Ó meu coração, torna para trás
Camilo Pessanha
Ó meu coração, torna para trás.
D’onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou... Voltai horas de paz.
Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
– Cismai meus olhos como dois velhinhos...
Extintas primaveras evocai-as:
– Já vai florir o pomar das macieiras,
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. –
Sossegai, esfriai, olhos febris.
– E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis... –
Fonte (v. 10): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1920.
26 março 2026
A Botânica no Ensino Médio
Fernando Santiago dos Santos
Falar de Botânica é remeter-se a milhares de anos na linha do tempo. As plantas sempre estiveram presentes na vida do homem – se simples remédios a alimentos do dia a dia, e de fornecedoras de lenha e mobília à confecção de navios e utilitários os mais diversos. Embora muitas pessoas não percebam sua importância, as plantas têm presença incontestável e marcante na vida do Homo sapiens.
A história da Botânica é um convite a uma viagem fascinante, onde saberes multifacetados e conhecimentos aparentemente divergentes entre si convergem para pontos comuns. Tentar delimitar uma ‘linha do tempo’ com as principais aquisições e considerações teóricas nesta área do conhecimento não é tarefa fácil.
Nota-se, entretanto, que a abordagem atual do currículo de Botânica no Ensino Médio brasileiro carece de considerações históricas. O que se vê, na prática, é uma tendência à simples memorização de nomes científicos, citações de ‘botânicos famosos’ e um emaranhado de datas e sistemas classificatórios confusos. Tal procedimento parece desmotivar tanto alunos quanto professores, transformando a Botânica, então, em uma seção da Biologia meramente decorativa e destituída de seu real papel histórico na construção do conhecimento biológico.
Fonte: Santos, F.S. 2006. A Botânica no Ensino Médio: Será que é preciso apenas memorizar nomes de plantas? In: Silva, C. C., org. Estudos de história e filosofia das ciências. SP, Editora Livraria da Física.
23 março 2026
Movimentos de massa: deslizamentos em encostas
Nelson Ferreira Fernandes & Cláudio Palmério do Amaral
Dentre as várias formas e processos de movimentos de massa, destacam-se os deslizamentos nas encostas em função da sua interferência grande e persistente com as atividades do homem, da extrema variância de sua escala, da complexidade de causas e mecanismos, além da variabilidade de materiais envolvidos. Neste capítulo, dedicado principalmente aos deslizamentos, desenvolve-se uma abordagem que enfatiza as técnicas de investigação e previsão, bem como o papel desempenhado pelos condicionamentos geológicos e geomorfológicos na sua deflagração, com base em exemplos vivenciados na região sudeste brasileira.
Os deslizamentos são, assim como os processos de intemperismo e erosão, fenômenos naturais contínuos de dinâmica externa, que modelam a paisagem da superfície terrestre. No entanto, destacam-se pelos grandes danos ao homem, causando prejuízos a propriedades da ordem de dezenas de bilhões de dólares por ano. Em 1993, segundo a Defesa Civil da ONU, os deslizamentos causaram 2.517 mortes, situando-se abaixo apenas dos prejuízos causados por terremotos e inundações no elenco dos desastres naturais que afetam a humanidade. Por este motivo, estes constituem objeto de estudo de grande interesse para pesquisadores e planejadores.
Fonte: Fernandes, N. F. & Amaral, C. P. 1996. Movimentos de massa: uma abordagem geológico-geomorfológica. In: Guerra,, A. J. T. & Cunha, S. B., orgs. Geomorfologia e meio ambiente. RJ, Bertrand.
19 março 2026
Chopin: Prelúdio, nº 4
Eduardo Guimaraens
Do fundo do salão vem-me o seu pranto sobre-humano,
como do fundo irreal de um desespero hoje olvidado:
dir-se-ia que estes sons têm um tom de ouro avioletado;
há um anjo a desfolhar lírios de sombra sobre o piano.
Doce prelúdio! Que ermo e doloroso desengano
fala, através do seu vago perfume de passado?
Sobre Chopin a noite abre o amplo manto constelado:
um delírio de amor anda por tudo, insone, insano!
Em cada nota solta há como um lânguido lamento.
– Oh, a doçura de sentir que o teu olhar, perdido,
sonha, recorda e sofre, ao doce ritmo vago e lento!
E o silêncio! E a paixão que abre em adeus as mãos absortas!
E o passado que volta e traz consigo, inesquecido,
um aroma secreto e vago e doce, a flores mortas!
Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1916.
18 março 2026
La selección controla sólo los caracteres adaptativos
Marjorie Greene
Darwin demostró que dadas las características de multiplicación, herencia y variación, la selección natural en la población de organismos que las poseen es una consecuencia necesaria. Las tres primeras fueron tomadas como hechos establecidos que, en conjunto, arrastran consigo la cuarta propiedad. (Tan poderoso era este argumento que ahora parece que lo tenemos de hecho es la selección natural, y la multiplicación lo que deducimos de ella: “la multiplicación es necesaria, porque sin ella la selección natural no podría tener lugar”!) Pero Darwin era consciente, al menos a veces, de las limitaciones de su propia teoría, lo que no ocurre con muchos de sus continuadores del siglo XX. En primer lugar, reconocía que la selección natural controla sólo los caracteres adaptativos, siendo que algunas de las complejidades de los fenómenos biológicos no son adaptaciones. (Tales complejidades no verán favorecida su supervivencia por la selección natural, pero ésta puede dejar lugar para alternativas viables.) Sin duda, Darwin tenía una tendencia a considerar los organismos fundamentalmente bajo el punto de vista de Paley, esto es, como mecanismos para la autoconservación y supervivencia, pero admitía la posibilidad de que no todos los caracteres pudiesen ser explicables en estos términos. Y, en segundo lugar, admitió, al menos en determinadas ocasiones, que la teoría de la selección natural no ofrece explicación alguna para el fenómeno del aumento de complejidad. Encontramos hecha esta observación de un modo un tanto fantástico en la leyenda de Kingsley acerca de una tierra donde los animales ‘progresan’ hacia atrás, por decirlo así, desde el hombre hasta la ameba.
Fonte: Waddington, C. H., ed. 1976 [1968-70]. Hacia una biología teórica. Madri, Alianza.
16 março 2026
O último escaldo
J. [Johan] L. [Ludwig] [Gebhard] Lund (1777-1867). Den sidste skjald. 1837.
Fonte da foto: Wikipedia.
14 março 2026
Comunicação não verbal
Christopher R. Brannigan & David A. Humphries
É um fato bem conhecido em nossa vida cotidiana que sorrir, franzir as sobrancelhas, gestos e outros comportamentos não verbais de pessoas de nosso relacionamento fornecem pistas úteis sobre suas atitudes, momento a momento, com relação a nós próprios ou a outras pessoas. Muitos de seus comportamentos não verbais são geralmente compreendidos como um meio de comunicação. Entretanto, o estudo científico deste fato cotidiano ainda está em seu início, apesar da ubiquidade do fenômeno e das vantagens práticas óbvias a serem obtidas com o seu conhecimento científico [...]. [...]
A organização e a coesão de um grupo social em qualquer espécie, incluindo a humana, [dependem] de um intercâmbio de informação entre seus membros. Esta informação está relacionada com a integração das mudanças sucessivas do comportamento de cada indivíduo e de sua posição espacial dentro do grupo social organizado. É neste sentido que aqui usamos o termo ‘comunicação’; um ato de comunicação ocorre quando certos atributos de um indivíduo (geralmente atributos comportamentais), que aparecem em situações específicas, têm a capacidade de alterar o comportamento futuro de um outro indivíduo, através de efeitos sobre seus órgãos sensoriais.
Fonte: Brannigan, C. R. & Humphries, D. A. 1981 [1972]. In: N. Blurton Jones, ed. Estudos etológicos do comportamento da criança. SP, Pioneira.
12 março 2026
Olhe agora para as vítimas, desprezível Estadão
Em 28/2, como escrevi antes (aqui), o jornal o Estado de S.Paulo – um dos porta-vozes da Faria Lima, o epicentro da corrupção brasileira (e.g., aqui) – teve a audácia de publicar um editorial intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Vindo de quem veio, não foi bem uma surpresa – foi apenas mais um vergonhoso rosário de ódio, preconceitos e mentiras.
No mesmo dia 28, ao menos 175 civis iranianos foram mortos após um ataque a uma escola primária em Minab, uma pequena cidade (~70 mil habitantes) localizada no sul do Irã. Quase todas as vítimas eram meninas pequenas. Nem os Estados Unidos nem Israel assumiram a autoria do crime.
No último domingo (8/3), o jornal espanhol El País publicou uma matéria intitulada ‘Un medio iraní publica las fotos de los menores muertos en la escuela: Trump, mírales a los ojos’. No olho da matéria, logo abaixo do título, lê-se: ‘Tehran Times [jornal iraniano muito mais bem escrito e muito mais confiável que o Estadão] recopila más de 100 imágenes de las víctimas, así como las investigaciones de ocho medios que responsabilizan a Estados Unidos del ataque’.
A matéria do El País é curta (sete parágrafos). No quinto parágrafo, lemos o seguinte:
Entre los diarios que han investigado la matanza figuran los estadounidenses CNN, que ha culpado a EE UU tras verificar la existencia de ‘daños graves compatibles con municiones guiadas’, y The New York Times, que ha señalado que el ejército norteamericano atacó la escuela. The Wall Street Journal ha designado al CENTCOM, el mando central militar del país [responsável pelas operações militares dos EUA no Oriente Médio], como culpable.
Como se vê, portanto, já no primeiro dia dos ataques, a coalizão Israel-EUA manteve a tradição israelense de atirar contra alvos civis pelas costas.
CODA.
É do conhecimento de todo e qualquer jornalista que as vítimas do lado iraniano também têm rosto e nome, ainda que a direção dos jornais faça questão de omitir essa parte ‘desagradável’ da história.
No caso do ataque à escola em Minab, ao menos uma pergunta se impõe: Que jornal brasileiro se atreveu a comentar a matéria do Tehran Times ou sequer seguiu o exemplo do El País? A resposta mais provável é: Nenhum. É compreensível (além de fracos e mal escritos, os jornais brasileiros são teleguiados), mas não deixa de ser vergonhoso.
Pois olhe agora para as vítimas, decrépito e desprezível Estadão.
* * *
19 anos e cinco meses no ar
F. Ponce de León
Nesta quinta-feira, 12/3, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e cinco meses no ar.
Desde o balanço anterior – ‘19 anos e quatro meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antônio José Teixeira Guerra, Charlotte J. Avers, E. L. Doctorow, Edwin Markham, Ernest J. DuPraw, Ernest Jones, José Carneiro, Luiz C. Junqueira e Maria Cecília Wey de Brito. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.
Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Ferdinand Richardt e Helen Hyde.


