14 setembro 2026

O vagalume

Coelho Neto

Foi ao princípio, disse o velho Asael aos zagalejos que, todas as noites, no pouso da montanha, à volta do fogo, enquanto as ovelhas sonhavam com as ervas tenras e com as águas límpidas, cercavam-no pedindo histórias. E ninguém as sabia tão curiosas como o solitário Asael que se recolhera à montanha depois que levara a noiva ao túmulo.

Foi no princípio, disse o velho Asael – tudo era sombra e silêncio e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que d’eles se espargia ficava espalhada formando a Via Láctea e as outras nebulosas.


Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la e assim conseguiu fazer todas as estrelas que brilham, o sol que é um topázio enorme e a lua que é uma opala triste.


Mas, lapidando os astros, não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse parar à terra, mas tendo de criar os animais e o Homem desceu ao mundo deserto e, caminhando, devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar e pensativo, ficou acompanhando a viagem aérea e volteante da fagulha de origem desconhecida.

Vendo-a ir e vir e vendo que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando as chamas erradias criações do Mau Anjo – porque não se lembrava de as haver criado – tomou, no espaço, uma das que passavam e, com seu alto poder, fez com que a centelha falasse e, entre os seus dedos, a centelha falou:


– Senhor, deixai-me ir livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chama, não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando as lapidáveis d’elas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos d’essa poeira rutilante vieram cair na terra e porque neles havia tocado vossa mão logo se animaram e, à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram e por cima das águas brancas que murmuram.


E o Senhor, enternecido, abriu os dedos deixando partir o vagalume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vagalume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e, até hoje, o inseto guarda essa instantânea impressão.

No pouso o fogo triste morria e Asael levantou-se para alimentá-lo.


Fonte (exceto primeiro e último parágrafos): Lenko, K. & Papavero, N. 1979. Insetos no folclore. SP, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas. O conto acima integra livro publicado originalmente em 1898. ‘Coelho Neto’ é a assinatura literária de Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934).

13 setembro 2026

Estrepsípteros

Zundir José Buzzi & Rosina D. Miyazaki
 
Estes insetos têm um ciclo de vida bastante interessante. O macho procura a fêmea, no hospedeiro, onde copula. A fêmea produz pequenas larvas (às vezes vários milhares) que caem no solo ou ficam sobre a vegetação. Estas larvas, com os olhos e pernas bem desenvolvidos, são mais ou menos ativas e possuem posteriormente dois ou três filamentos; são denominadas triungulinos. Estes procuram um novo hospedeiro e nele penetram quando o encontram, tornando-se ápodas; sofrem várias mudas até empupar. Ao emergir, o adulto, se for macho, deixa o hospedeiro e, se for fêmea, ali permanece.
 
Os principais hospedeiros são várias espécies de ortópteros, hemípteros, homópteros, himenópteros e tisanuros. Os hospedeiros nem sempre morrem, mas são bastante prejudicados e são facilmente reconhecidos porque apresentam o abdome deformado.

Fonte: Buzzi, ZJ & Miyazaki, RD. 1993. Entomologia didática, 2ª ed. Curitiba, Editora da UFPR.

12 setembro 2026

19 anos e onze meses no ar

F. Ponce de León

Neste sábado, 12/9, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e onze meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e dez meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Antônio Carlos Rocha-Campos, Michael E. Soulé, Papus de Alexandria, Paulo R. Santos, Richard M. Sibly e Ronald J. Glassner. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Gustaaf Wappers, Jacob Jacobs e Louis van Kuyck.

10 setembro 2026

Luís de Camões e seu guia


Gustaaf Wappers [Egidius Karel Gustaaf] (1803-1874). Le Camoens. 1855.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 setembro 2026

Mente na biosfera, mente da biosfera

Michael E. Soulé

Digamos que você queira convencer seu sogro a se envolver na conservação – no resgate da biodiversidade. Como você começaria? Iria falar dos genes resistentes a doenças em parentes selvagens das plantas de cultivo agrícola? Mencionaria a provável existência de valiosos elementos de uso farmacêutico ainda não descobertos, falaria de florestas úmidas tropicais e suas taxas de conversão, ou descreveria uma experiência pessoal com a natureza que ainda lhe traz lágrimas aos olhos ou o deixa arrepiado? Ou seja, você apelaria para a inteligência ou para as emoções dele? Os capítulos desta seção podem ajudar a nos dar informações relativas a essa escolha.

Fonte: Soulé, M. E. 1997 [1988]. In: Wilson, E. O., ed. Biodiversidade. RJ, Nova Fronteira.

06 setembro 2026

Pervertidos, fundamentalistas e o serviço público


Assim como o jurista paranaense D. M. Dallagnol (nascido em 1980), o seu colega paulista A. L. A. Mendonça (nascido em 1972) tem dado mostras de que não bate bem da cabeça. Em minha opinião, os dois obviamente carecem de ajuda especializada. Urgentemente.

Na opinião de brasileiros menos condescendentes, porém, já teria passado da hora de os dois serem devidamente punidos por um extenso rol de crimes. Há quem argumente, por exemplo, que eles já deveriam ter ido conversar com o médico francês Joseph-Ignace Guillotin (1738-1814). Outros, no entanto, defendem a ideia de que ambos deveriam tão somente ser trancafiados ou, quem sabe, enviados a Marte.

De minha parte, sou de opinião que os dois ilustram uma terrível deficiência do estado brasileiro: pervertidos morais e fundamentalistas religiosos – sejam de direita, sejam de esquerda – não deveriam ser admitidos no serviço público. Uma vez admitidos, porém, jamais poderiam ocupar algum cargo de mando ou chefia.

03 setembro 2026

Tomorrow never knows

 
Turn off your mind, relax, and float downstream
It is not dying, it is not dying

Lay down all thoughts, surrender to the void
It is shining, it is shining

That you may see the meaning of within
It is being, it is being

Love is all and love is everyone
It is knowing, it is knowing

That ignorance and hate may mourn the dead
It is believing, it is believing

But listen to the colour of your dreams
It is not leaving, it is not leaving

So play the game ‘Existence’ to the end
Of the beginning, of the beginning...

Fonte: álbum Revolver (1966), da banda The Beatles.

01 setembro 2026

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

Fernando Pessoa

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...

Fonte (v. 1-2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em 1916.

31 agosto 2026

O soerguimento do Tibete

Nigel Harris

O platô [ou planalto] tibetano é o maior e mais elevado platô na superfície da Terra [...]. Sua extremidade sul é marcada pelo Himalaia e várias outras grandes cordilheiras asiáticas – Karakoram, Hindu Kush e Kunlun – decoram suas margens norte e oeste. Se o relevo continental pode afetar o clima global, essa é a região óbvia a ser estudada. Essa discussão sobre mudanças climáticas em escalas longas de tempo, de milhões de anos, começa com uma breve análise do clima nessa região nos dias de hoje. [...]


A elevação do platô tibetano é o resultado de uma colisão frontal entre as margens continentais de duas placas: a Índia, que estava migrando para o norte, e a Eurásia, que estava estacionada. A colisão, que foi datada em cerca de 50 Ma [milhões de anos], levou ao espessamento da crosta e ao soerguimento das montanhas e do platô do Himalaia. É razoável deduzir, portanto, que a maior parte do soerguimento ocorreu durante os últimos 50 Ma.

Fonte: Harris, N. 2011 [2008]. In: Cockell, C., org. Sistema Terra-vida: Uma introdução. SP. Oficina de Textos.

29 agosto 2026

Mantos de gelo

Antônio Carlos Rocha-Campos & Paulo R. Santos

Os exemplos mais espetaculares de mantos de gelo (na verdade, os únicos existentes atualmente) são os que cobrem a Antártica e a Groenlândia.

O manto de gelo da Antártica, com cerca de 14 milhões de km2
notabiliza-se por conter 91% do gelo de água doce e 75% da água doce do mundo. Em vários locais, sua espessura supera os 4.000 m. A morfologia do manto caracteriza-se pela presença de domos, regiões de topografia arredondada, mais salientes, a partir das quais o gelo flui radialmente pela gravidade. O manto de gelo da Groenlândia, por sua vez, cobre uma área de 1,7 milhão de km2, mais ou menos do tamanho do México, e retém cerca de 8% da água doce do planeta. Seu perfil é também convexo, parabólico, atingindo espessuras de mais de 3.000 m.

Fonte: Rocha-Campos, A. C. & Santos, P. R. 2000. In: Teixeira, W & mais 3, orgs. Decifrando a Terra. SP, Oficina de Textos.

eXTReMe Tracker