01 fevereiro 2023

Contra o senso comum: Usando a ciência e a Receita do Fogo Fantasma para cozinhar e economizar energia


Felipe A. P. L. Costa [*].

1. INTRODUÇÃO.

Caro leitor, permita-me uma advertência inicial: Embora este artigo tenha sido escrito pensando em brasileiros que cozinham em casa, o uso racional das fontes de energia é um assunto de interesse público em todos os países do mundo. Minimizar o consumo de energia (gás, eletricidade etc.) toca de imediato no bolso de quem vive com um orçamento apertado, assim como deveria tocar na consciência e, sobretudo, nas decisões políticas dos capitães de indústria que se movimentam contra as iniciativas que visam reduzir a queima e o desperdício de combustíveis fósseis.

Na hipótese de que o leitor vá prosseguir a leitura, seja-me permitida uma provocação: Tendo passado os olhos nos parágrafos a seguir, compare as minhas sugestões com a sua experiência pessoal, reflita e, por fim, pondere se o roteiro que ora proponho lhe parece factível. A julgar pelas pesquisas preliminares que fiz, estou particularmente impressionado com o fato de que o tempo de cozimento adotado por muitos brasileiros (com a panela sobre fogo aceso, diga-se) é absurda e desnecessariamente prolongado [1].

2. MATERIAL E MODO DE FAZER.

Eis a receita.

Material necessário: feijão (500 g), água (~2,5 L ou o necessário para cobrir o feijão e ocupar 10 dos 14 cm de altura do volume interno da panela – ver a imagem que acompanha este artigo) e uma fonte de calor (fogão a gás, no caso). Além, claro, de uma panela de pressão (a capacidade do modelo que tenho aqui é de ~4,2 L) [2].

Modo de fazer. São quatro etapas, a saber:

(1) Catar o feijão. (Para quem compra feijão empacotado: Pedras, torrões de terra e grãos mofados não são exatamente raros.) Despejar os grãos selecionados em uma vasilha. Lavar e escorrer. Cobrir os grãos com água. Manter a vasilha (coberta, de preferência) em um lugar sombreado por um período de 8-12 horas. Vistorie e, se necessário, adicione água para manter os grãos submersos [3].

(2a) Concluído o período de molho, escorra a água e despeje os grãos na panela. Cubra o feijão com uma água nova, observando as recomendações do fabricante. (As instruções, salvo melhor juízo, recomendam nunca encher até a tampa. A rigor, deve-se manter uma distância mínima entre a superfície da água e a tampa. No meu caso, as medidas foram citadas anteriormente.) Leve a panela ao fogo.

(2b) Coloque a tampa sobre a panela, mas não tranque. O truque aqui é simples, mas de duplo efeito: Leve a panela ao fogo, mas com a tampa ainda sem trancar. Aguarde alguns minutos. (Como a tampa não está trancada, a água tende a ferver mais depressa – i.e., a uma temperatura próxima de 100 °C.) Pouco antes de a água começar a ferver, haverá a formação de uma espuma sobrenadante; remova a espuma com uma colher; feche e agora tranque a tampa.

(3) Um pouco mais e a válvula começará a se movimentar. Mais alguns minutos e a válvula começará a expelir vapor (apitar); marque o tempo; aguarde 1-3 minutos e desligue. (O tempo exato de espera pode variar de acordo com o tipo ou a idade do feijão. Faça os ajustes necessários, para mais ou para menos, de acordo com as suas preferências. Eu mesmo, porém, já estou acostumado a obter um feijão cozido e extremamente macio com apenas 1 minuto de válvula apitando [4].)

Nos primeiros experimentos, eu aguardava 4-5 minutos de apito. O resultado foi sempre o mesmo: Um grão cozido e macio – para todos os tipos de feijão, Carioca, Preto, Vermelho e Manteiga. (Obtive o mesmo resultado com o grão-de-bico.)

Refiz as contas e me dei conta de que 4-5 minutos ainda era tempo demais. Reduzi para 1 minuto. Funcionou. E funcionou em todos os casos que já consegui testar (feijão Carioca e grão-de-bico; ainda vou testar com o Vermelho, que tem fama por aqui de ser um feijão mais duro) [5].

(4) Depois que tiver desligado o fogo, mantenha a panela trancada até que ela esteja completamente fria [6]. O que seguramente irá demorar algumas horas, mesmo no inverno. Feito isso, destranque, abra e confira. Se julgar que o feijão está suficientemente macio, pronto, agora é só temperar [7].

3. CODA.

Como eu disse antes, a economia proposta aqui é de gás, não de tempo. Pensando nisso e tentando tornar o roteiro um pouco mais óbvio e exequível, deixo aqui uma sugestão de cronograma: (1) Coloque os grãos de molho na manhã do dia 1 (digamos, às 8h00); (2) Cozinhe o feijão na noite do dia 1 (por volta de 20h00); (3) Tendo desligado a chama, deixe a panela dormir no fogão do dia 1 para o dia 2; e (4) No dia 2, destranque, abra e confira o resultado [8].

Então, caro leitor, o que lhe parece a Receita do Fogo Fantasma [9]?

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Notas.

[*] Trechos deste artigo integram o livro A força do conhecimento & outro ensaios: Um convite à ciência (em processo de finalização). Para informações sobre como adquirir os livros do autor – Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2ª ed., 2014), Poesia contra a guerra (2015), O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017) e O que é darwinismo (2019) –, ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir algum volume particular ou para mais detalhes, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.

[1] Não custa ressaltar: A economia proposta aqui é de gás, não de tempo.

[2] A necessidade faz o sapo pular. Consumidor habitual de feijão e morando atualmente sozinho, tive de superar uma preocupação (e um trauma da minha adolescência): panelas de pressão podem explodir. Diferentemente das panelas comuns, a panela de pressão é capaz de reter o vapor que é produzido dentro dela (temporariamente, claro). É dotada para isso de uma válvula regulatória. O segredo da panela de pressão é que ela faz com que a temperatura de ebulição da água aumente, saltando dos tradicionais 100 °C para algo próximo de 120 °C. Qual o efeito prático disso? Acelerar o cozimento. Veja: Quanto mais alta a temperatura de ebulição da água, mais rápido será o cozimento. (O contrário é verdadeiro: Quanto mais baixa a pressão, mais baixa será a temperatura de ebulição e, por conseguinte, mais demorado será o cozimento. Quem vive em localidades acima de 3 mil m de altitude – não temos isso no país – sabe bem do que eu estou falando aqui. Esta foi, aliás, uma das motivações por trás da invenção e do desenvolvimento da panela de pressão: cozinhar em altitudes elevadas. Aliada, claro, ao desejo de reduzir o tempo de cozimento.) Quando a pressão interna da panela atinge o seu valor máximo, a válvula começa a apitar. A partir daí, enquanto o fogo estiver aceso, a válvula seguirá expelindo jatos de vapor, de tal modo que a pressão e a temperatura internas permanecerão inalteradas. Uma implicação prática disso é que, assim que a válvula começa a apitar, nós devemos colocar a chama no mínimo. Manter a chama no máximo implicaria apenas e tão somente em desperdício de gás, visto que a pressão e a temperatura lá dentro já estão no máximo.

[3] Leguminosas (feijão, grão-de-bico etc.) e cereais (arroz etc.) são ricos em fitatos (ácido fítico). Deixar o feijão de molho, a julgar pelos poucos artigos que consultei, já reduz muito a concentração dessa substância – 4 horas de molho já resulta em uma redução expressiva, mas 12 horas tem um impacto ainda mais expressivo. (Diminuir a concentração de fitatos aumenta a digestibilidade e o valor nutricional do alimento.) Mas não zera. De fato, a espuma que se forma por cima da água no início do cozimento tem a ver também com essa substância.

[4] O tempo médio de espera, levando em conta as consultas que fiz, incluindo aí quase 20 vídeos que assisti no YouTube (todos em português e quase todos com dicas de cozimento equivocadas ou até mesmo esdrúxulas), é bem superior: 20 minutos de válvula apitando, chegando a 40 minutos em casos extremos! Aguardar esse tempo todo (10-40 minutos) é puro desperdício de gás. Além, claro, de aumentar muito as chances de algum acidente (ver aqui).

[5] Inúmeras variedades de feijão (Phaseolus vulgaris L.) são consumidas diariamente em muitos países. A presença de feijão na mesa dos brasileiros, sobretudo na hora do almoço, é um dos nossos hábitos alimentares mais bem estabelecidos.

[6] Não tem mágica: O calor que vai terminar de cozinhar o feijão – o fogo fantasma – já está dentro da panela. Nós só precisamos aguardar. Forçar o esfriamento para abrir logo a panela, como muitas vezes acontece, é um duplo desperdício: de água e, sobretudo, de calor (e, claro, de gás).

[7] Vegetais (abóbora etc.) ou peças de carne (bacon, linguiça etc.) podem ser colocadas para cozinhar junto com o feijão, sem qualquer problema.

[8] Não se preocupe: O interior da panela foi esterilizado e o feijão, tendo dormido fora da geladeira, não corre nenhum risco de estragar.

[9] Caso o leitor de fato se disponha a testar a receita, gostaria muito de conhecer os resultados obtidos. (Meu endereço de correio-e aparece no início destas notas.) Principalmente na hipótese de que os resultados venham contradizer a minha previsão – 1 minuto de válvula apitando sinaliza tempo mais do que suficiente para cozinhar todo e qualquer tipo de feijão, sobretudo se este foi previamente colocado de molho em água.

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31 janeiro 2023

Após um início de ano algo errático, as taxas (casos e mortes) tornaram a cair simultaneamente

Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas (mundiais e nacionais) a respeito da pandemia divulgadas em artigo anterior (aqui). Em escala planetária, já foram registrados 670 milhões de casos e 6,82 milhões de mortes; em escala nacional, 36,79 milhões de casos e 696,8 mil mortes. No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento. Entre 23 e 29/12, as taxas ficaram em 0,0296% (casos) e 0,0103% (mortes). Ambas caíram em relação aos valores da semana anterior. Máscaras e vacinas seguem sendo as nossas principais armas para frear a pandemia e puxar de vez as estatísticas para baixo.

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1. ESTATÍSTICAS MUNDIAIS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.

Levando em conta as estatísticas obtidas na manhã de hoje (30/1) [1], eis um resumo da situação mundial.

(A) – Em números absolutos, os 20 países mais afetados [2] estão a concentrar 74% dos casos (de um total de 670.400.456) e 68% das mortes (de um total de 6.824.235) [3].

(B) – Nesses 20 países, 480 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 96% dos casos. Em escala global, 647 milhões de indivíduos já receberam alta.

(C) – Olhando apenas para as estatísticas das últimas quatro semanas, eis um resumo da situação: (a) Em números absolutos, a lista segue a ser liderada pelo Japão, agora com 3,16 milhões de novos casos; (b) Entre os cinco primeiros da lista, estão ainda os Estados Unidos (1,50 milhão), a Coreia do Sul (1,02), Taiwan (611 mil) e o Brasil (463); e (c) A lista dos países com mais mortes segue a ser liderada pelos Estados Unidos (14,6 mil); em seguida aparecem Japão (10,13 mil), Alemanha (3,98), Brasil (2,91) e Itália (2,19). Sem esquecer que houve um recrudescimento na China e que as estatísticas de lá deram um salto: nas últimas quatro semanas, foram anotadas mais 74.112 mortes.

2. ESTATÍSTICAS BRASILEIRAS: SEMANA 23-29/1.

Ontem (29/1), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país mais 483 casos e 2 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 36.794.261 casos e 696.759 mortes.

Na semana encerrada ontem (23-29/1), foram registrados 76.208 casos e 502 mortes. As duas estatísticas caíram em relação aos números da semana anterior (16-22/1: 89.954 casos e 914 mortes).

3. O RITMO DA PANDEMIA EM TERRAS BRASILEIRAS.

Para monitorar de perto o ritmo e o rumo da pandemia, sigo a usar como guias as taxas de crescimento no número de casos e de mortes. Ambas estão a recuar. Eis os resultados mais recentes.

A taxa de crescimento no número de casos caiu de 0,0350% (16-22/1) para 0,0296% (23-29/1) (ver a figura que acompanha este artigo) [4].

A taxa de crescimento no número de mortes, por sua vez, caiu de 0,0188% (16-22/1) para 0,0103% (23-29/12).

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FIGURA. A figura que acompanha este artigo ilustra o comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 19/6/2022 e 29/1/2023. (Para resultados anteriores, ver aqui.)

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4. CODA.

A pandemia não acabou. As estatísticas – tanto aqui como em vários outros países – ainda são vergonhosas.

Em âmbito nacional, porém, a boa notícia é que, após um início de ano algo errático, as taxas (casos e mortes) tornaram a cair simultaneamente (ver a figura que acompanha este artigo).

Máscaras e vacinas seguem sendo as melhores armas que nós temos para impedir novas escaladas e puxar de vez as estatísticas para baixo. Em qualquer lugar do mundo. (Lembrando que a vacina combate a doença, mas não impede o contágio. O que pode impedir o contágio é o uso correto de máscara facial.)

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como comentei em ocasiões anteriores, as estatísticas de casos e de mortes estão a seguir o painel Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA), enquanto as de altas estão a seguir o painel Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 11 grupos: (a) Entre 100 e 110 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia; (c) Entre 35 e 40 milhões – França, Alemanha e Brasil; (d) Entre 30 e 35 milhões – Japão e Coreia do Sul; (e) Entre 25 e 30 milhões – Itália; (f) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido e Rússia; (g) Entre 15 e 20 milhões – Turquia (estatísticas congeladas); (h) Entre 12 e 15 milhões – Espanha; (i) Entre 10 e 12 milhões – Vietnã, Austrália e Argentina; (j) Entre 8 e 10 milhões – Taiwan e Países Baixos; e (k) Entre 6 e 8 milhões – Irã, México e Indonésia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes.

[4] Para conferir os valores numéricos, ver aqui (entre 27/12/2021 e 26/6/2022) e aqui (semanas anteriores).

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29 janeiro 2023

Love bade me welcome

George Herbert

Love bade me welcome: yet my soul drew back,
   Guiltie of dust and sinne.
But quick-ey’d Love, observing me grow slack
   From my first entrance in,
Drew nearer to me, sweetly questioning,
   If I lack’d any thing.

A guest, I answer’d, worthy to be here:
   Love said, You shall be he.
I the unkinde, ungratefull? Ah my deare,
   I cannot look on thee.
Love took my hand, and smiling did reply,
   Who made the eyes but I?

Truth Lord, but I have marr’d them: let my shame
   Go where it doth deserve.
And know you not, sayes Love, who bore the blame?
  My deare, then I will serve.
You must sit down, sayes Love, and taste my meat:
  So I did sit and eat.

Fonte (v. 17-18): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 2, 4ª ed. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1633. Referido também como ‘Love (III)’, este é o terceiro de três poemas publicados com o título de ‘Love’.

27 janeiro 2023

Dentadas, ideias e a craniologia

Thomas H. Huxley

[N]enhum homem racional, bem informado, acredita que o negro médio seja igual, e muito menos superior, ao branco médio. E, se isto for verdade, é simplesmente inadmissível que, uma vez eliminadas todas as incapacidades de nosso parente prógnato, este possa competir em condições justas, sem ser favorecido nem oprimido, e esteja habilitado a competir com êxito com seu rival de cérebro maior e mandíbula menor em um confronto em que as armas já não são as dentadas, mas as ideias.

Fonte: Gould, S. J. 1991 [1981]. A falsa medida do homem. SP, Martins Fontes. Extrato de artigo originalmente publicado em 1865.

25 janeiro 2023

Náufrago sem boia

Poh Pin Chin

O temporal chegou.
Veio abraçar a tarde
e inaugurar a noite.

As éguas,
no pasto de cima,
se abrigam na baia.

As vacas,
no pasto de baixo,
se escondem sob um
gigantesco arbusto,

o mesmo que segura
a trilha tortuosa e frágil
que divisa o terreno.

Dentro de casa,
entre éguas e vacas,
tal qual náufrago sem boia,

vejo a poça que se junta
lá fora e me cerca. Enfim,
me deito, já com o cheiro
de chuva a subir pelas paredes.

23 janeiro 2023

Uso e gerenciamento de recursos pelos ianomâmis

Kenneth I. Taylor

O uso e gerenciamento de recursos naturais pelos ianomâmi incluem a caça, a pesca e a coleta de recursos da fauna, a coleta e reunião de recursos florais e o cultivo itinerante de bananas, mandioca, diversas variedades de tubérculos como a batata e várias outras plantações menores. [...] [A] floresta fornece em abundância tudo de que precisam para se alimentarem bem e terem uma vida saudável e gratificante. Até hoje, não há evidência de que eles tenham usado seus recursos excessivamente ou que, de alguma forma, tenham degradado o ambiente. [...]

Uma aldeia ianomâmi é uma clareira aberta na floresta com um ou mais tipos de casas usadas pelos seus diversos subgrupos. Diretamente associada ao lugar, há uma fonte permanente de água num riacho ou rio vizinho. Saindo da aldeia há várias trilhas que levam aos campos que estão sendo utilizados no momento, aos campos abandonados, à caça, à pesca e a locais de coleta, de acampamento e a outras aldeias. [...]

Essa rede de trilhas complexa e sempre em mudança e os lugares que elas ligam não são, é claro, distribuídos uniformemente num círculo na floresta. Na área ianomâmi, quando se viaja pela floresta, mesmo que por alguns poucos minutos, uma das coisas mais impressionantes que se nota é a sua extraordinária diversidade.

Fonte: Taylor, K. I. 1997 [1988]. In: Wilson, E. O., ed. Biodiversidade. RJ, Nova Fronteira.

20 janeiro 2023

Sono é um pouco da morte represada

Daniel Mazza

Sono é um pouco da morte represada
Nas comportas da noite intermitente.
E o operário-dia terminada
A faina logo as fecha prontamente.

É que a morte não pode livremente
Como um rio correr, ilimitada.
Pois chegando à sua foz rapidamente
O mar da vida seca na enxurrada.

A água em silêncio, represada,
De um rio prisioneiro é dependente
De qualquer mão que a deixe libertada.

Mas a morte transborda interiormente,
O tempo chove as horas e a extravasa
Um pouco a cada noite... Sempre e sempre...

Fonte: Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 2007.

18 janeiro 2023

Metade das mortes está concentrada hoje em quatro países: EUA, Japão, Alemanha e Brasil

Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas (mundiais e nacionais) a respeito da pandemia divulgadas em artigo anterior (aqui). Em escala planetária, já foram registrados 667 milhões de casos e 6,72 milhões de mortes; em escala nacional, 36,63 milhões de casos e 695,3 mil mortes. Nas últimas quatro semanas, foram registradas em todo o mundo 56,8 mil mortes, 51% delas em apenas quatro países (Estados Unidos, Japão, Alemanha e Brasil).

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1. ESTATÍSTICAS MUNDIAIS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.

Levando em conta as estatísticas mundiais obtidas no início da manhã de hoje (16/1) [1], eis um resumo da situação.

(A) – Em números absolutos, os 20 países mais afetados [2] estão a concentrar 74% dos casos (de um total de 667.061.789) e 69% das mortes (de um total de 6.723.944) [3].

(B) – Nesses 20 países, 476 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 96% dos casos. Em escala global, 643 milhões de indivíduos já receberam alta.

(C) – Olhando apenas para as estatísticas das últimas quatro semanas, eis um resumo da situação: (a) Em números absolutos, a lista segue a ser liderada pelo Japão, agora com 4,3 milhões de novos casos; (b) Entre os cinco primeiros da lista, estão ainda os Estados Unidos (1,72 milhão), a Coreia do Sul (1,61), o Brasil (759) e a Alemanha (659); e (c) A lista dos países com mais mortes segue a ser liderada pelos Estados Unidos (12,11 mil); em seguida aparecem Japão (9,4 mil), Alemanha (4,04), Brasil (3,53) e França (2,99). Preocupa saber que, em quatro desses cinco países (a exceção é o Brasil), o número de mortes aumentou em relação aos números da semana anterior.

2. ESTATÍSTICAS BRASILEIRAS: SEMANA 9-15/1.

Ontem (15/1), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país mais 3.385 casos e 5 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 36.628.099 casos e 695.343 mortes.

Na semana encerrada ontem (9-15/1), foram registrados 132.949 casos e 868 mortes. Em relação aos números da semana anterior, a primeira subiu e a segunda caiu (2-8/1: 132.949 casos e 868 mortes).

3. ESTATÍSTICAS VERGONHOSAS.

A pandemia não acabou. Nenhum país, portanto, está livre do problema. Assim, soa estranho perceber que boa parte da imprensa parece ter varrido o assunto para debaixo do tapete. Ainda que o desleixo e a preguiça sejam mais comuns em certos lugares e menos comum em outros.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o New York Times segue a reportar diariamente as taxas de crescimento (casos e mortes). Grande parte da imprensa brasileira, no entanto, abandonou a pauta. O Jornal Nacional, por exemplo, que reportava diariamente as estatísticas brasileiras, parece ter se cansado e passou a ignorar o assunto (já lá se vão várias semanas).

Ocorre que as estatísticas – tanto aqui como em vários outros países – ainda são vergonhosas. Olhando, por exemplo, para os quatro países onde a doença mais mata atualmente, a conclusão seria a seguinte: estão a morrer, todos os dias, 432 estadunidenses, 334 japoneses, 144 alemães e 126 brasileiros.

4. CODA.

Máscaras e vacinas seguem sendo as melhores armas que nós temos para frear as escaladas e puxar as estatísticas para baixo. Em qualquer lugar do mundo. (Lembrando que a vacina combate a doença, mas não impede o contágio. O que pode impedir o contágio é o uso correto de máscara facial.)

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como comentei em ocasiões anteriores, as estatísticas de casos e de mortes estão a seguir o painel Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA), enquanto as de altas estão a seguir o painel Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 10 grupos: (a) Entre 100 e 110 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia; (c) Entre 35 e 40 milhões – França, Alemanha, Brasil e Japão; (d) Entre 25 e 30 milhões – Coreia do Sul e Itália; (e) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido e Rússia; (f) Entre 15 e 20 milhões – Turquia; (g) Entre 12 e 15 milhões – Espanha; (h) Entre 10 e 12 milhões – Vietnã, Austrália e Argentina; (i) Entre 8 e 10 milhões – Taiwan e Países Baixos; e (j) Entre 6 e 8 milhões – Irã, México e Indonésia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes.

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16 janeiro 2023

Ponte sobre o rio


Pierre Adolphe Valette (1876-1942). Windsor Bridge on the Irwell. 1909.

Fonte da foto: Wikipedia.

14 janeiro 2023

“Se me dei bem!” – disse o rei para a sunga

F. Ponce de León

Em um reino tão, tão distante, chamado Reino da Gambiarra, vivia uma gente triste e infeliz. O reino era comandado por um rei mau, muito mau. Mau e preguiçoso. Seu nome era Desmiolado.

Todas as propriedades do reino haviam sido confiscadas pelo rei. Não à toa, além de infeliz, o povo do lugar vivia doente e esfomeado.

Os estrangeiros que visitavam o reino saíam de lá com uma péssima impressão. Sobretudo por causa do rei. O que mais impressionava os visitantes era a sensação de vazio transmitida por ele.

Há quem diga que o vazio é pior do que a maldade. Talvez porque o vazio seja a antessala da maldade – e o vazio total, a antessala da maldade absoluta. Seja como for, o fato é que mentes normais costumam relatar algum tipo de mal-estar quando estão diante de uma mente vazia. (O problema, claro, não se restringe ao Reino da Gambiarra.)

Os anos se passaram. Até que o povo se cansou e decidiu destronar o rei. Além de perder a coroa, Desmiolado foi levado a julgamento – inúmeras acusações pesavam contra ele.

Ao final dos trabalhos, ele foi declarado culpado. A pena incluía o confisco dos bens que ele havia pilhado e o degredo para o Reino da Idiotia. Antes, porém, de a pena ser aplicada, os juízes submeteram o réu a um teste final: O teste da cela vazia.

Estudiosos defendiam a ideia de que a comprovação final de que estamos diante de uma mente vazia depende da realização do teste da cela vazia. E assim foi feito.

Desmiolado foi colocado em uma cela vazia, vestindo apenas una sunga de banho e tendo a companhia apenas e tão somente de uma bolinha de gude. Do lado de fora da cela, a equipe monitorava o que se passava lá dentro.

Pois a equipe não precisou aguardar mais do que 30 minutos. Foi o tempo que Desmiolado levou para ver a bolinha de gude. Assim que a viu, ele a apanhou e a engoliu. Deu uma risadinha sarcástica para si mesmo e, olhando para a sunga, disse orgulhoso: “Se me dei bem!”

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