07 agosto 2022

Um anjo passa?

José Augusto Seabra

Um anjo passa? Que silêncio ainda
ousar? De que asa a asa assim perpassa
num remorso de neve e de luar?
Ainda? Ainda? Por que passa assim

perdido e lento, ao roçagar das largas
nuvens fremindo o sopro doutra fina
aragem, esgarçando a gasta fímbria
raiada pela túnica da graça?

Qual oram mudos lábios de amor lassos
num murmúrio de morte um anjo passa.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1980.

05 agosto 2022

Máscaras e vacinas estão a se impor na luta contra a mentira e a morte

Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia divulgadas em artigo anterior (aqui). No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento. Entre 25 e 31/7, as taxas ficaram em 0,1027% (casos) e 0,0327% (mortes). Ambas estão em declínio: aquela caiu pela quarta semana consecutiva; esta, pela segunda. Ouso dizer que ao menos parte dessas quedas se deve à retomada de hábitos básicos de higiene (notadamente o uso de máscara).

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1. ESTATÍSTICAS MUNDIAIS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.

Levando em conta as estatísticas obtidas na noite de ontem (31/7) [1], eis um balanço da situação mundial.

(A) – Em números absolutos, os 20 países mais afetados [2] estão a concentrar 73% dos casos (de um total de 577.244.639) e 70% das mortes (de um total de 6.400.115) [3].

(B) – Nesses 20 países, 394 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 93% dos casos. Em escala global, 552 milhões de indivíduos já receberam alta.

(C) – Olhando apenas para as estatísticas das últimas quatro semanas, eis um resumo da situação: (i) em números absolutos, a lista está a ser liderada pelos Estados Unidos, com 3,46 milhões de novos casos; (ii) entre os cinco primeiros da lista, estão ainda os seguintes países: Japão (3,22 milhões), França (2,59), Alemanha (2,46) e Itália (2,31); e (iii) a lista dos países com mais mortes segue a ser liderada pelos EUA (11,96 mil); em seguida aparecem Brasil (6,63 mil), Reino Unido (3,56), Itália (3,52) e Alemanha (2,68).

2. ESTATÍSTICAS BRASILEIRAS: SEMANA 25-31/7/22.

Ontem (31/7), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país mais 20.096 casos e 27 mortes [4]. Teríamos chegado assim a um total de 33.833.683 casos e 678.513 mortes [5].

Na semana encerrada no domingo (25-31/7), foram registrados 242.327 novos casos e 1.549 mortes. (Na semana anterior, 18-24/7, foram 290.238 novos casos e 1.617 mortes.)

3. O RITMO DA PANDEMIA EM TERRAS BRASILEIRAS.

Para monitorar de perto o ritmo e o rumo da pandemia, sigo a usar como guias as taxas de crescimento no número de casos e de mortes.

Vejamos os resultados mais recentes.

A taxa de crescimento no número de casos caiu de 0,1240% (18-24/7) para 0,1027% (25-31/7) (ver a figura que acompanha este artigo) [6].

A taxa de crescimento no número de mortes, por sua vez, caiu de 0,0342% (18-24/7) para 0,0327% (25-31/7).

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FIGURA. O comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 12/9/2021 e 31/7/2022. (Para resultados anteriores, ver aqui.) Note que alguns pares de pontos são coincidentes ou quase isso.

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4. CODA.

A taxa de casos tornou a cair, agora pela quarta semana consecutiva. A taxa de mortes, por sua vez, caiu pela segunda semana consecutiva.

Ouso dizer que ao menos parte dessas quedas se deve à retomada de hábitos básicos de higiene (notadamente o uso de máscara). Em outras palavras: Máscaras e vacinas estão a se impor na luta contra a mentira e a morte. (Lembrando que a vacina combate a doença, mas não impede o contágio. O que pode impedir o contágio, notadamente no interior de recintos fechados, é o uso correto de máscara facial.)

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NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como comentei em ocasiões anteriores, as estatísticas de casos e de mortes estão a seguir o painel Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA), enquanto as de altas estão a seguir o painel Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 9 grupos: (a) Entre 90 e 95 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia; (c) Entre 30 e 35 milhões – França, Brasil e Alemanha; (d) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido e Itália; (e) Entre 15 e 20 milhões – Coreia do Sul, Rússia e Turquia; (f) Entre 12 e 15 milhões – Espanha e Japão; (g) Entre 10 e 12 milhões – Vietnã; (h) Entre 8 e 10 milhões – Argentina, Austrália e Países Baixos; e (i) Entre 6 e 8 milhões – Irã, México, Colômbia e Indonésia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes.

[4] Esses valores, infelizmente, são subestimativas. Explico: 9 unidades federativas (CE, DF, MA, MG, MT, PA, RJ, RR e TO) não divulgaram as estatísticas de domingo (31/7). Juntas, elas respondem por 33% dos casos e 34% das mortes registradas em todo o país. O que me leva a propor que ao menos 9.739 casos e 14 mortes deixaram de ser informados ontem (31/7).

[5] Compare com as estimativas apresentadas em artigo anterior – ver aqui.

[6] Para conferir os valores numéricos, ver aqui (entre 27/12/2021 e 26/6/2022) e aqui (semanas anteriores).

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03 agosto 2022

A comungante


María [Gutiérrez-Cueto] Blanchard (1881-1932). La comulgante. 1914.

Fonte da foto: Wikipedia.

01 agosto 2022

El ciclo del carbono

Bert Bolin

Los organismos capaces de utilizar anhídrido carbónico como su única fuente de carbono se conocen como autótrofos. Aquellos que utilizan energía luminosa para reducir el anhídrido carbónico se llaman fototróficos; y aquellos que usan la energía almacenada en los enlaces químicos inorgánicos – por ejemplo, los enlaces de nitratos y sulfatos – se llaman quimiotróficos. Sin embargo, la mayor parte de los organismos necesitan para su crecimiento moléculas orgánicas previamente formadas; por tanto, se les conoce como heterótrofos. Las bacterias no sulfurosas son un grupo poco común que es, al mismo tiempo, fotosintético y heterotrófico. Los organismos quimioheterotrófos, por ejemplo animales, obtienen su energía de compuestos orgánicos sin necesidad de luz. Un organismo puede ser aerobio o anaerobio sin tener en cuenta su fuente de carbono o de energía. Por eso algunos quimioheterotrófos anaerobios pueden subsistir en las profundidades del océano y lagos profundos en ausencia total de luz o de oxígeno libre.

Fonte: Bolin, B. 1972 [1970]. In: Scientific American, org. La biosfera. Madri, Alianza.

30 julho 2022

Madagascar

Alison Jolly

Madagascar é um país de extremos. Possui uma das maiores riquezas em biodiversidade de todo o mundo. Mais de 80% de suas espécies de flora e fauna existem apenas nessa ilha-continente, incluindo os lêmures de grandes olhos, que constituem os representantes vivos mais próximos de nosso ancestral distante, anterior aos macacos. Com uma renda per capita de 225 dólares em 1988, é também, em termos monetários, um dos países mais pobres do mundo. Madagascar é um caso relativamente genuíno de pequenos agricultores lutando contra o meio ambiente: as ameaças vêm da técnica de roça-e-queima para limpeza do terreno e de incêndios deliberadamente ateados nas matas – mas não por iniciativa de grandes latifundiários ou companhias madeireiras internacionais. Desde 1960, a renda malgaxe vem declinando. A crise econômica da década de 1980 agravou fortemente a pobreza humana e a degradação ambiental.

Fonte: Jolly, A. 1992. In: H. J. Leonard, org. Meio ambiente e pobreza. RJ. Jorge Zahar.

28 julho 2022

Rua

Guilherme de Almeida

A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
omnívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejeta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.

Fonte: Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 1961.

26 julho 2022

As taxas caíram: Máscaras e vacinas seguem na luta contra a inércia, a mentira e a morte

Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia da Covid-19 divulgadas em artigo anterior (aqui). No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento. Entre 18 e 24/7, as taxas ficaram em 0,1240% (casos) e 0,0342% (mortes). Ambas caíram em relação aos valores da semana anterior. (A taxa de casos caiu bastante.) São boas notícias. Ainda não sei dizer o quanto dessas quedas se deve à retomada de hábitos básicos de higiene (notadamente o uso de máscara). Uma coisa, no entanto, é certa: Máscaras e vacinas seguem na luta contra a inércia, a mentira e a morte.

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1. ESTATÍSTICAS MUNDIAIS: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES.

Levando em conta as estatísticas obtidas na hora do almoço de hoje (25/7) [1], eis um balanço da situação mundial.

(A) – Em números absolutos, os 20 países mais afetados [2] estão a concentrar 73% dos casos (de um total de 570.332.626) e 70% das mortes (de um total de 6.384.729) [3].

(B) – Nesses 20 países, 389 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 93% dos casos. Em escala global, 545 milhões de indivíduos já receberam alta.

(C) Olhando apenas para as estatísticas das últimas quatro semanas, eis um resumo da situação: (i) em números absolutos, a lista está a ser liderada pelos Estados Unidos, com 3,35 milhões de novos casos; (ii) entre os cinco primeiros da lista, estão ainda os seguintes países: França (2,91 milhões), Alemanha (2,56), Itália (2,43) e Japão (2,13); e (iii) a lista dos países com mais mortes segue a ser liderada pelos EUA (10,86 mil); em seguida aparecem Brasil (6,74 mil), Reino Unido (2,82), Itália (2,77) e Alemanha (2,44).

2. ESTATÍSTICAS BRASILEIRAS: SEMANA 18-24/7/22.

Ontem (17/7), de acordo com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde, foram registrados em todo o país mais 9.823 casos e 37 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 33.591.356 casos e 676.964 mortes.

Na semana encerrada no domingo (18-24/7), foram registrados 290.238 novos casos e 1.617 mortes. (Na semana anterior, 11-17/7, foram 404.654 novos casos e 1.737 mortes.)

3. O RITMO DA PANDEMIA EM TERRAS BRASILEIRAS.

Para monitorar de perto o ritmo e o rumo da pandemia, sigo a usar como guias as taxas de crescimento no número de casos e de mortes.

Vejamos os resultados mais recentes.

A taxa de crescimento no número de casos caiu de 0,1748% (11-17/7) para 0,1240% (18-24/7) (ver a figura que acompanha este artigo) [4].

É uma notícia muito boa, pois é uma queda das mais expressivas. (Resta ver se não é apenas e tão somente um erro de amostragem. Saberemos disso ao longo desta semana.)

A taxa de crescimento no número de mortes, por sua vez, caiu de 0,0368% (11-17/7) para 0,0342% (18-24/7). Outra boa notícia. (Resta ver se fruto das sucessivas quedas na taxa de casos.)

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FIGURA. O comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 12/9/2021 e 24/7/2022. (Para resultados anteriores, ver aqui.) Note que alguns pares de pontos são coincidentes ou quase isso.

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4. CODA.

Pela terceira semana consecutiva, a taxa de casos tornou a cair. E agora caiu bastante. É uma notícia muito boa.

Por sua vez, a taxa de mortes – em decorrência, ao que parece, de sucessivas quedas na taxa de casos – caiu pela primeira vez após quatro altas consecutivas.

Ainda não sei dizer o quanto dessas quedas (casos e mortes) se deve à retomada de hábitos básicos de higiene (notadamente o uso de máscara). Uma coisa, no entanto, é certa: Máscaras e vacinas seguem na luta contra a inércia, a mentira e a morte. (Lembrando que a vacina combate a doença, mas não impede o contágio. O que pode impedir o contágio, notadamente no interior de recintos fechados, é o uso correto de máscara facial.)

*

NOTAS.

[*] Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os livros do autor – ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para mais informações ou para adquirir (por via postal) os quatro volumes (ou algum volume específico), faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

[1] Como comentei em ocasiões anteriores, as estatísticas de casos e de mortes estão a seguir o painel Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA), enquanto as de altas estão a seguir o painel Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em 9 grupos: (a) Entre 90 e 95 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 40 e 45 milhões – Índia; (c) Entre 30 e 35 milhões – França, Brasil e Alemanha; (d) Entre 20 e 25 milhões – Reino Unido e Itália; (e) Entre 15 e 20 milhões – Coreia do Sul, Rússia e Turquia; (f) Entre 12 e 15 milhões – Espanha; (g) Entre 10 e 12 milhões – Japão e Vietnã; (h) Entre 8 e 10 milhões – Argentina, Austrália e Países Baixos; e (i) Entre 6 e 8 milhões – Irã, México, Colômbia e Indonésia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março de 2020, tanto em escala mundial como nacional, ver os volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado, vols. 1-5 (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui). Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver qualquer um dos três primeiros volumes.

[4] Para conferir os valores numéricos, ver aqui (entre 27/12/2021 e 26/6/2022) e aqui (semanas anteriores).

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24 julho 2022

Cena de rua


Zacharie Astruc (1833-1907). Scène de rue. 1873.

Fonte da foto: Wikipedia.

22 julho 2022

Ninguém sabe disso

Sören Kiergegaard

Toda a ordem das coisas me enche de uma sensação de angústia, desde o mosquito até os mistérios da encarnação; tudo me é inteiramente ininteligível, em especial minha própria pessoa. Grande, e sem limites, é a minha tristeza. Ninguém sabe disso, exceto Deus no Céu, e Ele não pode ter pena.

Fonte: Becker, E. s/d [1973]. A negação da morte. RJ, Record.

19 julho 2022

Anthem for doomed youth

Wilfred Owen

What passing-bells for these who die as cattle?
   Only the monstrous anger of the guns.
   Only the stuttering rifles’ rapid rattle
Can patter out their hasty orisons.
No mockeries now for them; no prayers nor bells,
Nor any voice of mourning save the choirs, –
The shrill, demented choirs of wailing shells;
And bugles calling for them from sad shires.

What candles may be held to speed them all?
   Not in the hands of boys, but in their eyes
Shall shine the holy glimmers of goodbyes.
   The pallor of girls’ brows shall be their pall;
Their flowers the tenderness of patient minds,
And each slow dusk a drawing-down of blinds.

Fonte (penúltimo verso): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 1, 4ª ed. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1920.

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