Um livro ilegível pela intensidade a cal do muro as unhas a ferrugem as obscuras qualidades os acordes que nomeiam o secreto e o longínquo o cenário das folhas como orquestras a miséria do nome o seu fulgor de árvore o dédalo do corpo sob a águas metálicas a pupila e a sede a pupila da sede os desastres das palavras os seus motins errantes um país que se oferece entre obscuras árvores um corpo e outro corpo os sopros os rumores que o vento traz entre os arbustos brancos Nenhum gesto divide a redondez nocturna em que a palavra habita a nascente secreta Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1988.
[Greco] – E por que temos essa necessidade de criar outras realidades?
[Lanier] – Por causa das nossas limitações. Somos criaturas muito estranhas. Crescemos com nossos cérebros e corações capazes de imaginar qualquer universo, mas nosso corpo pode ser somente humano. Queremos nos conectar mutuamente, mas nossos meios para fazer isso são muito limitados. Somos separados uns dos outros pelos nossos corpos. Podemos trocar palavras uns com os outros, tocar uns aos outros e fazer muitas outras coisas. Mas de alguma forma queremos mais, queremos estar mais ligados. Queremos ser capazes de criar qualquer universo na nossa cabeça de que nosso coração goste. Lutamos sempre contra as limitações da realidade física. Fonte: Greco, A. 2001. Homens de ciência. SP, Conrad.
To live at all is miracle enough. The doom of nations is another thing. Here in my hammering blood-pulse is my proof.
Let every painter paint and poet sing And all the sons of music ply their trade; Machines are weaker than a beetle’s wing.
Swung out of sunlight into cosmic shade, Come what come may the imagination’s heart Is constellation high and can’t be weighed.
Nor greed nor fear can tear our faith apart When every heart-beat hammers out the proof That life itself is miracle enough. Fonte (v. 1, em port.): Dawkins, R. 2000. Desvendando o arco-íris. SP, Companhia das Letras. Poema publicado em livro em 1950.
Na verdade, o tempo, o rio que não para de fluir, tem tanta relação com a existência dos relógios como com a das salsichas. Fonte: Davies, P. 1999. O enigma do tempo. RJ, Ediouro. Frase extraída de livro publicado em 1972.
Ouvindo um homem rico da fronteira, eu consigo descobrir quanta terra e quantas mulheres ele possui; para tanto, eu só tenho de atentar para as epopeias anunciadas por ele em dez minutos de prosa.
A depender da roupa e dos maneirismos, basta observar os superlativos para saber quanto dessa terra ele roubou. A depender dos anéis e das comendas, dá para saber ainda quantos vizinhos ele já mandou matar.
Amorosa e clara, a cidade voa com as próprias asas.
Alegorias em pluma, estátuas no rosto das águas. Arcos, trevos, o verde. Eixos geram esperança na fronte do homem. O lago ama com os braços, abarcando o equilíbrio.
A torre afina os tímpanos e as perfeitas retinas: canta nas noites a fonte. Artérias humanas e urbanas em suas vigílias: áureas dádivas: o branco, as superquadras.
(O pretérito nos mausoléus, longe de nossos cânticos.)
Amorosa e clara, a cidade voa com as próprias asas. Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1998.
[Georges] Sorel considerava-se, essencialmente, um filósofo, mas não apenas do socialismo. Gastou mais tempo com a filosofia da ciência e a história do cristianismo do que com o movimento trabalhista. Em sua filosofia da ciência, ele achava que não havia determinismo na natureza e sim apenas acaso e probabilidades estatísticas, “nenhuma lei, somente limites”. A ciência exata ainda era possível, mas ela estava ligada aos mecanismos feitos pelo homem, como, por exemplo, os equipamentos experimentais e a maquinaria produtiva. Nessas limitadas áreas os homens violentavam a natureza sem leis, deixando de fora o acaso e a interferência provável, criando assim o determinismo. Seus trabalhos, no entanto, estavam sempre ameaçados pela natureza malévola, cuja sorte, desperdício e entropia invadiam a maquinaria feita pelo homem na mesma ocasião em que ele relaxava seus esforços para assegurar um funcionamento regular de sua criação. A ciência, a engenharia e a indústria eram, todas, partes de um vasto império de disentropia, a rebelião de uma parte da natureza contra sua confusão sem sentido e seu desgaste. [...]
A sua teoria sobre cultura era precisamente paralela. Também a história era uma confusão desregrada e uma sucessão sem sentido. As criações culturais e sociais estavam constantemente ameaçadas de acabar na desordem e no barbarismo. Contra um retrospecto de perpétua decadência, os homens lutavam, às vezes heroicamente, para estabelecer determinadas áreas de lei, ordem e significado histórico. Para que a história pudesse fazer sentido, eles tinham que se impor uma árdua disciplina, violentando a sua própria natureza, rejeitando a premissa da chamada ‘ciência social’ que a história tinha suas próprias leis e podia fazer sentido sem nossa intervenção. Só se esforçariam em conjunto, num movimento social que concordasse em se desligar, e aspiravam viver de acordo com uma nova moralidade. Fonte: McInnes, N. 1971 [1969]. Georges Sorel. In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.