15 outubro 2026

Las alas de los insectos

Juan Manuel Nieto Nafría & Milagros Pilar Mier Durante

Las alas que presentan los vertebrados (cualquiera de los grupos que han alcanzado la capacidad de volar) son órganos formados a expensas del aparato ambulacral, en cambio, las alas de los insectos nada tienen que ver con las patas, son órganos añadidos al aparato ambulacral preexistente. No tienen el mismo origen que las patas y carecen de sus propiedades.

Anatómicamente se presentan como evaginaciones laminares paratergales pareadas en los segmentos meso y metatorácicos, sostenidas por nervios y con una articulación más o menos compleja con el tórax.

Fonte: Nafría, J. M. N. & Durante, M. P. M. 1985. Tratado de entomología. Barcelona, Omega.

13 outubro 2026

6.231.985 eleitores podem garantir a virada e a reeleição


Uma mente educada deve estar preparada para o erro.
– Poh Pin Chin (1909-1984).

[APRESENTAÇÃO.] – As mobilizações em defesa da democracia ora em curso, seja nas ruas, seja nas redes, devem reverberar nas urnas no dia 25/10. Ainda que os veículos de imprensa (TV Globo à frente) sigam a esconder, distorcer ou mentir a respeito do que se passa nas ruas, sou de opinião que as forças democráticas [1] podem virar o jogo. Com base nos resultados do primeiro turno, apresento aqui um possível cenário de segundo turno. É um cenário hipotético, claro, mas é um cenário erguido com base em premissas explícitas e, ouso dizer, razoáveis. Não estou a prever os resultados do segundo turno, estou a apontar para os como e os porquês dos números que sairão das urnas. Entender melhor de onde virão os votos capazes de promover uma reviravolta nos resultados pode ser útil a quem está a lidar com ações que visam fortalecer o campo democrático.

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1. OS NÚMEROS DO PRIMEIRO TURNO.

Eis o que escrevi, dias atrás, logo após a realização do primeiro turno das Eleições 2026 (ver aqui):

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar no domingo (4/10), no primeiro turno das Eleições 2026. Ocorre que muita gente não foi.
  Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores [...]. Implica dizer que [33.469.667] não compareceram [...].
  Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto [...].
  Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos [...].
  Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).

Ao final do primeiro turno, portanto, saiu vitorioso o candidato do partido de extrema direita, vulgo Partido Liberal (PL). Em segundo lugar ficou o presidente Lula, candidato à reeleição e representante maior das forças democráticas. Muita gente imaginava que o presidente poderia ganhar a disputa já no primeiro turno. Seria o melhor para o país, mas infelizmente não foi isso o que aconteceu.

2. É POSSÍVEL VIRAR?

Sim, é possível virar e ganhar no segundo turno. Mesmo diante da vexatória (para não dizer criminosa) campanha pró-milícia que os veículos de imprensa estão a promover.

A reviravolta é possível, mas não será fruto de um ato único e isolado. É certo também que os números do primeiro turno não se repetirão. Haverá mudanças e, como o leitor talvez já saiba, toda e qualquer novidade que venha das urnas refletirá o peso relativo de três variáveis: (i) o número de eleitores que irão às urnas; (ii) o número de votos válidos; e (iii) as parcelas de votos dadas a cada um dos candidatos.

Para obter a vitória no segundo turno, claro, é necessário que o presidente Lula fique à frente do seu opositor. Lembrando que, ao final do primeiro turno, o bolo dos votos válidos foi dividido da seguinte maneira: (i) 56.104.503 votos (47,03%) foram dados ao candidato da extrema direita; (ii) 53.879.538 (45,16%) foram dados ao presidente; e (iii) 9.316.747 (7,81%) foram dados aos demais 10 candidatos.

3. QUATRO PREMISSAS.

O cenário que nos interessa aqui decorre de quatro expectativas.

Primeira. No segundo turno, o comparecimento às urnas deve aumentar de modo significativo – digamos, 6% (talvez mais). Um aumento de 6% fará com que a abstenção caia de 33.469.667 para 31.461.487 (ou menos). Para onde irão esses votos novos? Vamos supor que 60% sejam transferidos para o presidente Lula (seriam mais 1.204.908 votos), enquanto 40% sejam dados ao candidato do PL (803.272 votos).

Segunda. Considere agora que o número de votos válidos aumente uns 10% – digo: 10% dos eleitores que compareceram no primeiro turno, mas anularam ou votaram em branco, agora produzirão votos válidos. Mais uma vez, vamos imaginar que 60% desses votos sejam dados ao presidente Lula (mais 358.503 votos) e 40%, ao candidato do PL (239.001 votos).

Terceira. Suponhamos que 20% dos votos dados no primeiro turno aos outros candidatos sejam agora transferidos para o presidente Lula (seriam mais 1.863.349 votos); outros 20% seriam invalidados (brancos ou nulos); e os 60% restantes seriam transferidos para o candidato do PL (mais 5.590.048 votos).


Quarta. Por fim, considere que alguns eleitores decidam trocar de candidato no segundo turno. Ao final desse troca-troca, imagine que 5% dos votos dados no primeiro turno ao candidato do PL migrem agora para o presidente Lula. Seriam mais 2.805.225 votos para o candidato do PT e, ao mesmo tempo, menos 2.805.225 votos na conta do candidato da extrema direita.

4. CENÁRIO DO SEGUNDO TURNO.

Dada a movimentação descrita acima (1-4), teríamos ao final do segundo turno as seguintes estatísticas:

(A) – o comparecimento às urnas aumentaria de 125.275.835 para 127.284.015 eleitores;

(B) – os votos válidos aumentariam de 119.300.788 para 120.043.122 votos;

(C) – o total de votos nulos e brancos aumentaria de 5.975.047 para 7.240.893;


(D) – os votos dados ao presidente Lula saltariam de 53.879.538 (45,16%) para 60.111.523 (47,23%), um ganho líquido de 6.231.985 votos; e


(E) – os votos dados ao candidato do PL saltariam de 56.104.503 (47,03%) para 59.931.599 (47,08%), um ganho líquido de 3.827.096 votos.

5. CODA.

Ao final da apuração, e diante de números semelhantes (ou melhores) aos mencionados em D e E acima, não restaria ao presidente do TSE – um personagem medonho que me faz ter saudades do folclórico Bola Nossa (ver aqui) – outra alternativa que não declarar a vitória e a reeleição do presidente Lula.


Os veículos de imprensa, claro, teriam de engolir seco. A Globo, quem sabe, ardilosa e cínica como uma serpente viciada em cocaína, trataria de convidar o candidato reeleito para um sarau da vitória à mesa do Jornal Nacional. (Eu não iria, mas aí já é outra história...)


Continuemos, pois, a arar a terra. Afinal, hoje é dia 13 e ainda temos um chão e tanto para cuidar até o dia 25.


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NOTAS.

[*] Para adquirir os livros do autor, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, v. aqui.


[1] O rótulo forças democráticas é usado aqui em alusão a um amplo leque de correntes e agrupamentos políticos, incluindo, por exemplo, desde ecossocialistas até reformistas de direita. Ficariam de fora desse leque os grupos terroristas de extrema direita (e.g., sionistas militaristas, bolsonaristas e neonazistas).


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12 outubro 2026

Aniversário de 20 anos

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/10, o Poesia Contra a Guerra está a completar 20 anos no ar (2006-2026).

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e onze meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Alexander Rosenberg, Audrey Richards, Charlotte Perkins Gilman, Coelho Neto, José Lins do Rego, Rosina D. Miyazaki, Sófocles e Zundir José Buzzi. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Carl Rodeck e Paul Kayser.

10 outubro 2026

Natureza-morta


[Jean] Paul Kayser (1869-1942). Stilleben mit Afrikanischer Figur. 1910-20.

Fonte da foto: Wikipedia.

08 outubro 2026

Gritar ou tartamudear: dois modelos de sociedade

F. Ponce de León

Arriscaria dizer que dois diferentes modelos de sociedade estão a disputar corações e mentes dos brasileiros, o modelo paulista e o modelo mineiro.

De terno e cabelo engomado, gritou 22 vezes o modelo paulista: “Ô paraíba, cala a boca e sai da frente! Vou privatizar esse lugar e não quero você aqui”.

Com chapéu na cabeça e de cócoras, tartamudeou 13 vezes o modelo mineiro: “Ô moço, certeza, certeza mesmo eu não tenho, mas tenho um palpite. Quer ouvir?”.


Os dois têm um encontro marcado no próximo dia 25.

06 outubro 2026

A renovação mineira vs. a estagnação paulista


APRESENTAÇÃO. – Este artigo examina alguns desdobramentos das Eleições 2026, com ênfase em uma análise do perfil dos deputados federais e estaduais eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Destaco os contrastes que detectei (em termos de peso político, idade e representatividade de gênero) ao confrontar as bancadas eleitas pelo PT nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.

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De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar anteontem (4/10), no primeiro turno das Eleições 2026. Ocorre que muita gente não foi.

Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores – pouco menos de 79% do máximo possível. Implica dizer que ~21% do eleitorado (33.469.667) não compareceram (involuntariamente ou não) às seções de votação.

Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto [1].

Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos [2].

Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).

No que segue, apresento os resultados contrastantes que obtive ao comparar as bancadas recém-eleitas de um mesmo partido (Partido dos Trabalhadores) em dois colégios eleitorais distintos – no caso, especificamente, os dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.

1. ELEIÇÕES GERAIS EM SP E MG.

São Paulo: colégio eleitoral integrado por 34.122.892 eleitores, dos quais 72,92% compareceram às urnas no domingo (4/10); foram registrados 24.882.948 votos válidos, dos quais 9.505.413 (~38%) foram dados ao presidente Lula.

Minas Gerais: colégio eleitoral integrado por 16.372.372 eleitores, dos quais 73,15% compareceram às urnas; foram registrados 11.976.235 votos válidos, dos quais 5.188.936 (~43%) foram dados ao presidente Lula.

A diferença entre os dois, como se vê, foi da ordem de 5% – digo: em comparação aos eleitores paulistas, o percentual de confiança no candidato do PT por parte dos mineiros foi 5% mais alto. Tivessem os eleitores paulistas manifestado o mesmo nível de confiança, o presidente Lula teria recebido 1.276.368 votos a mais.

Todavia, como tento mostrar neste artigo, as diferenças entre MG e SP vão muito além desses 5%.

2. AS BANCADAS FEDERAIS.

A Câmara dos Deputados tem 513 cadeiras, 123 das quais estão reservadas para os dois maiores colégios eleitorais: São Paulo (70 cadeiras) e Minas Gerais (53) [3].

Examinemos, pois, alguns traços dos deputados que foram eleitos no domingo.

São Paulo. Dos 70 deputados federais recém-eleitos por SP, 11 deputados (16% de toda a bancada paulista) foram eleitos pelo PT (9 homens e duas mulheres). A idade média desses 11 deputados gira em torno de 55 anos (amplitude: 33-77 anos).

Minas Gerais. Dos 53 deputados federais recém-eleitos por MG, 12 deputados (24% de toda a bancada mineira) foram eleitos pelo PT (sete homens e cinco mulheres). A idade média desses 12 deputados gira em torno de 47 anos (amplitude: 21-75 anos).

As menos três conclusões podem ser extraídas desses resultados: (i) embora conte com um colégio eleitoral bem menor, o PT-MG conseguiu eleger uma bancada que é duplamente maior que a bancada eleita pelo PT-SP – digo: é maior em termos absolutos (12 > 11) e é maior em termos relativos (24% > 16%); (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres é vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados paulistas são em média oito anos mais velhos que os mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a dois mandatos).

3. AS BANCADAS ESTADUAIS.

O número de deputados estaduais nas Assembleias Legislativas varia de acordo com o tamanho da população residente em cada estado. A Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) tem 94 cadeiras, enquanto a ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) tem 77 cadeiras.

São Paulo: Alesp. Dos 94 deputados estaduais recém-eleitos em SP, 16 deputados (17% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (13 homens e três mulheres). A idade média desses 16 deputados gira em torno de 56 anos (amplitude: 24-85 anos).

Minas Gerais: ALMG. Dos 77 deputados estaduais recém-eleitos em MG, 15 deputados (19% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (9 homens e seis mulheres). A idade média desses deputados gira em torno de 52 anos (amplitude: 43-67 anos).

Eu diria que ao menos três conclusões podem ser extraídas daí: (i) numericamente, o peso relativo da bancada do PT-MG na ALMG é ligeiramente maior que o da bancada do PT-SP na Alesp; (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres segue sendo vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados estaduais paulistas são em média quatro anos mais velhos que os seus colegas mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a um mandato).

Por fim, integrando as duas comparações, eu diria o seguinte: (i) embora a soma dos deputados eleitos em cada estado seja a mesma, 27 deputados (MG: 12 federais + 15 estaduais; SP: 11 federais + 16 estaduais), a campanha eleitoral do PT-MG parece ter sido mais vitoriosa do que a campanha do PT-SP; (ii) em termos de representatividade de gênero, as bancadas mineiras estão bem mais perto do equilíbrio de 1 para 1 (16 homens e 11 mulheres, o equivalente a 1,45:1) do que as bancadas paulistas (22 homens e 5 mulheres, o equivalente a 4,4:1); e (iii) as bancadas mineiras são mais jovens do que as bancadas paulistas, de tal modo que há uma curiosa hierarquia etária, a saber: média de idade dos deputados federais mineiros < média dos deputados estaduais mineiros < média dos deputados federais paulistas < média dos deputados estaduais paulistas.

A terceira conclusão me leva a pensar no seguinte: os parlamentares que integram as assembleias legislativas parecem combinar ao menos duas origens contrastantes. Há, de um lado, parlamentares em início de carreira (e.g., ex-vereadores), assim como há, de outro, parlamentares em crise ou em fim de carreira (e.g., ex-deputados federais).

4. CODA.

Nunca tive militância partidária, embora sempre tenha tido ativismo político. Mesmo de fora, eu sempre tive contato com militantes partidários, sobretudo do PT. Como base nisso e, sobretudo, com base no que leio e ouço sobre a dinâmica partidária, eu ousaria dizer o seguinte: o PT sempre foi muito mais paulista do que mineiro. Basta ver que a maior parcela da burocracia partidária vive e trabalha em SP. MG seria quase que uma sucursal e, como tal, deveria obediência à matriz.

Entendo e concordo com a importância do chamado centralismo democrático, mas isso não pode se confundir com burocratização excessiva. (Lembro de um episódio particularmente desastroso, ocorrido por volta de 2010: a retirada de candidatura própria do PT em MG por conta do namoro da direção nacional do partido com o então governador do estado, um dos personagens mais nefastos da nossa história política, como ficaria dramaticamente demonstrado a partir do golpe de 2016 – ver aqui.)

O que talvez estejamos a presenciar hoje é uma mudança de rota: o PT de MG reelegeu alguns figurões – eu mesmo ajudei a reeleger um deles –; ao mesmo tempo, porém, está a abrir caminho para gente nova, com destaque para mulheres oriundas do sindicalismo (e.g., professoras). O PT de SP, por sua vez, parece estar muito mais aferrado a burocratas e figurões.

Posso estar ouvindo mal, mas acho que os resultados que saíram das urnas no último domingo (ao menos no que diz respeito aos deputados) estariam a anunciar algo mais ou menos nos seguintes moldes: “Nós, jovens, queremos mudanças, queremos diversidade, queremos gente que mobiliza e organiza as massas; chega de burocratas, chega de coronéis, chega de gente que só pensa em eleições (e reeleições)”.

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NOTAS.

[*] Para adquirir os livros do autor, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.
 
[1] Desconfio que uma parcela expressiva dos votos nulos seja fruto de erros involuntários.

[2] Fazendo as contas: (i) 125.275.835 (aptos que votaram) = 119.300.788 (votos válidos) + 5.975.047 (brancos e nulos); e (ii) 119.300.788 = 56.104.503 + 53.879.538 + 9.316.747.

[3] Os dois estados estão sub-representados. Em 1/7/2026, de acordo com o IBGE (v. aqui), a população brasileira chegou a 214.211.951 habitantes; desse total, 46.179.008 residiam em SP e 21.460.311, em MG. A julgar pelo tamanho das populações residentes em SP e MG (67.639.319, o equivalente a ~32% da população do país), os dois estados deveriam ocupar juntos algo como 160 das 513 cadeiras. As estatísticas (idade etc.) sobre os candidatos estão disponíveis no sítio do TSE.

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04 outubro 2026

Menino de engenho

José Lins do Rego

1.

Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã me acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse em um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a polícia e mais ninguém.

Levaram-me para o fundo de casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai com o revólver na mão e minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a dona Clarisse!” Por quê? Ninguém sabia compreender.

O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sério que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória.

À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e de meu pai. Ouvi aquilo como se fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os fatos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulso. Levaram-me então para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho, e eu brinquei com eles a tarde toda. As criadas é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos.

Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência de minha mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado ficara tomando conta de tudo. As criadas de perto queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Botaram-me para dormir sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas me faltava qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então comecei a chorar baixinho para os travesseiros, um choro abafado de quem tivesse medo de chorar.

Fonte: Rego, J. L. 2003. Menino de engenho. RJ, José Olympio. Livro publicado originalmente em 1932.

02 outubro 2026

Versos de circunstância

 
Tudo quanto é sujo e malcheira:
– Dinheiro, petróleo, cocaína,
Faria Lima, curral de porco,
Mosca azul, TV Globo!

Fonte: versos livremente inspirados no poema Silvia Amélia (1948), de Manuel Bandeira.

Silvia Amélia


Tudo quanto é puro e cheira:
– Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Silvia Amélia!

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira. Poema publicado em livro em 1948.

01 outubro 2026

Adaptationalist imperatives and Panglossian paradigms

Alexander Rosenberg

Until the recent past, most of the history of biology was the pursuit of structures that would explain functions. Having pursued these structures to the natural stopping place of biochemistry and molecular biology, the discipline has neither gone further in its pursuit of structure to physical chemistry, and beyond it to physics, nor has it ceased at a dead end beyond which there are no further biological questions. Instead it has turned around, and now is actively engaged in the search for biological functions of chemically characterized structures.

This volte face is particularly apparent in the study of the genome. In the last decade molecular biologists have learned a great deal about the structure of the nucleic acid polymers that make up the chromosomal material. They have learned, in particular, that sequences of nucleic acids, the bases that compose DNA, adenine, thymine, guanine, and cytosine, recur in repeating series of several different kinds; that very similar sequences can have utterly different effects, that some have no apparent role in the genetic capacities of the DNA. Biochemists have learned that there are split genes, which contain ‘introns’ – intervening sequences that do not code for any protein product, that are snipped out in the messenger RNA; that there are some so-called ‘moderately repeated’ DNA sequences recurring hundreds of times on the same chromosome, and some ‘highly’ repeated DNA-sequences instanced millions of times on the same chromosome; that some genes come in tandem clusters, and others are to be found on more than one chromosome; that there are ‘pseudo-genes’ with base sequences very close to those of functioning genes, but which do not have their structural or regulatory functions; then there are genes occurring only once on one chromosome, in each nucleus, that code for a protein-product in the way we expect genes to do. All this structural information cries out for functional explanation, and much of it for evolutionary, adaptationalist explanation. That is, while some features of the structure of the chromosome are what we might expect, given the role which the genome plays in the heredity and development of individual organisms, other features seem to do nothing for the organism that contains them. For these structures, a different sort of explanation is required, one which explains their presence and persistence, in spite of their neutrality or maladaptive contribution to the survival of the organism containing them. Typically, these explanations too will be functional, identifying features of structurally identified portions of the genome as contributing either to the evolutionary adaptation of the very portion of the DNA itself, or to the evolutionary adaptation of the population in which the organism interbreeds.
 
Fonte; Rosenberg, A. 1985. In: Fetzer, JH, ed. Sociobiology and epistemology. Dordrecht, Reidel.

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