O vagalume
Foi ao princípio, disse o velho Asael aos zagalejos que, todas as noites, no pouso da montanha, à volta do fogo, enquanto as ovelhas sonhavam com as ervas tenras e com as águas límpidas, cercavam-no pedindo histórias. E ninguém as sabia tão curiosas como o solitário Asael que se recolhera à montanha depois que levara a noiva ao túmulo.
Foi no princípio, disse o velho Asael – tudo era sombra e silêncio e Deus, na altura, lapidava os astros, que são os diamantes do céu; lapidava-os e a poeira luminosa que d’eles se espargia ficava espalhada formando a Via Láctea e as outras nebulosas.
Logo que um astro fulgurava, Deus, deixando-o engastado, tomava um pouco de treva e punha-se a bruni-la e assim conseguiu fazer todas as estrelas que brilham, o sol que é um topázio enorme e a lua que é uma opala triste.
Mas, lapidando os astros, não podia o Senhor pensar que parte da poeira micante viesse parar à terra, mas tendo de criar os animais e o Homem desceu ao mundo deserto e, caminhando, devagar, pela sombra, viu, de repente, fulgir entre as árvores virgens uma chama fugaz. Deteve o andar e pensativo, ficou acompanhando a viagem aérea e volteante da fagulha de origem desconhecida.
Vendo-a ir e vir e vendo que outras surgiam, o bom Deus, não querendo que o demônio astuto pusesse malefício em sua obra e julgando as chamas erradias criações do Mau Anjo – porque não se lembrava de as haver criado – tomou, no espaço, uma das que passavam e, com seu alto poder, fez com que a centelha falasse e, entre os seus dedos, a centelha falou:
– Senhor, deixai-me ir livre. Não me julgueis provinda de origem má. Chama, não fui gerada nos braseiros infernais, venho das claras estrelas que fulguram no céu. Quando as lapidáveis d’elas saía uma luminosa poeira que se espalhou nos espaços formando estradas largas; sucedeu, porém, que alguns grãos pequeninos d’essa poeira rutilante vieram cair na terra e porque neles havia tocado vossa mão logo se animaram e, à noite, à hora em que as estrelas brilham no céu, a poeira das estrelas vive e brilha na terra! Bem vedes que de Vós venho. Deixai-me ir, Senhor! Deixai-me ir por entre as árvores que cheiram e por cima das águas brancas que murmuram.
E o Senhor, enternecido, abriu os dedos deixando partir o vagalume. E aí tendes porque não é fixa, como a das estrelas, a luz do vagalume – é que ela esteve, algum tempo, abafada entre os dedos de Deus e, até hoje, o inseto guarda essa instantânea impressão.
No pouso o fogo triste morria e Asael levantou-se para alimentá-lo.
Fonte (exceto primeiro e último parágrafos): Lenko, K. & Papavero, N. 1979. Insetos no folclore. SP, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas. O conto acima integra livro publicado originalmente em 1898. ‘Coelho Neto’ é a assinatura literária de Henrique Maximiniano Coelho Neto (1864-1934).