28 fevereiro 2026

Sob as Cataratas do Niágara


[Joachim] Ferdinand Richardt (1819-1895). Underneath Niagara Falls. 1862.

Fonte da foto: Wikipedia.

27 fevereiro 2026

Processos erosivos básicos

Antônio José Teixeira Guerra

A erosão do solo é um processo que ocorre em duas fases: uma que constitui a remoção (detachment) de partículas, e outra que é o transporte desse material, efetuado pelos agentes erosivos. Quando não há energia suficiente para continuar ocorrendo o transporte, uma terceira fase acontece, que é a deposição desse material transportado. Os processos resultantes da erosão pluvial estão intimamente relacionados aos vários caminhos tomados pela água da chuva, na sua passagem através da cobertura vegetal, e ao seu movimento na superfície do solo. [...]

A taxa de infiltração, que é o índice que mede a velocidade com que a água da chuva se infiltra no solo [...], exerce importante papel sobre o escoamento superficial. Essa água se infiltra no solo, por força de gravidade e capilaridade, e cada partícula do solo é envolvida por uma fina película de água. Durante um evento chuvoso, os espaços entre as partículas são preenchidos por água, e as forças capilares decrescem. Consequentemente, as taxas de infiltração são mais rápidas no começo da chuva e diminuem até atingir o máximo que o solo pode absorver. Essa taxa máxima é a capacidade de infiltração, que corresponde à condutividade hidráulica saturada do solo. [...]

De acordo com Horton (1945), se a intensidade da chuva for menor do que a capacidade de infiltração do solo, não haverá runoff (fluxo hortoniano). Mas, se a intensidade da chuva exceder a capacidade de infiltração, ocorrerá runoff. Como um mecanismo gerador de runoff, esta comparação entre intensidade da chuva e capacidade de infiltração nem sempre se aplica. Estudos de Morgan (1977), na Inglaterra, em solos arenosos, mostraram que a capacidade de infiltração é maior do que 400 mm/h e que as intensidades de chuva raramente ultrapassam 40 mm/h. Nesse caso, não ocorreria runoff, nesses solos, pois a intensidade da chuva não excede a capacidade de infiltração. Mas, na realidade, o volume médio anual de runoff nessa região inglesa é de 55 mm, e a média anual de chuva é de 550 mm. O fator controlador da produção de runoff, nesse caso, não é a capacidade de infiltração, mas um teor limitante de umidade dos solos, que resulta do encharcamento dos mesmos. Isso explica por que certos solos arenosos, com baixa capacidade de armazenamento capilar, produzem runoff muito rapidamente, mesmo que sua superfície de infiltração não tenha sido excedida pela intensidade da chuva.

Fonte: Guerra, A. J. T. 1998. Processos erosivos nas encostas. In: Guerra, A. J. T. & Cunha, S. B., orgs. Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos, 3ª ed. RJ, Bertrand.

25 fevereiro 2026

Flor carnívora

B. Lopes

A amaríssima flor de teu encanto,
De um magnetismo trágico e pressago,
É um negro lótus de letal quebranto
Sobre as águas mortíferas de um lago.

Sombras, segredos e mistério vago
Há na tua expressão, que punge tanto!
Como que tens coberto o vulgo mago
De um tenebroso e doloroso manto!

Ris, e o teu riso um pavor frio espalha!
Flecha de gelo, que, zunindo, parte
Para fazer de um sonho uma mortalha...

Flor carnívora! Oh! trágica saudade!
Para que vivas, flor, sei que vou dar-te
Todo o sangue de minha juventude.

Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1901. 
‘B. Lopes’ é a assinatura literária de Bernardino [da Costa] Lopes.

23 fevereiro 2026

Elegia no. 2

Mauro Mota

Eternizo os teus últimos instantes:
quero esquivar-te ao derradeiro arquejo;
quero que, aos meus ouvidos, ainda cantes
nossa canção de amor, quero; desejo

ter-te ao meu lado como tinha dantes.
Na fronte exausta, do outro mundo um beijo
sinto. Foi de tua alma. Bem distantes,
seus cabelos castanhos soltos vejo.

Tinha a certeza de que voltarias.
Ouviste a minha voz, e de mãos frias
chegas ansiosa! (Foi tão longa a viagem!)

Que palidez na face! Inutilmente
busco abraçar-te: Foges, que és somente
sombra, perfume, ressonância, imagem.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1952.

22 fevereiro 2026

La fotosíntesis es el proceso dominante en la Tierra

Ernest J. DuPraw

Rabinowitch (1945) calculó que sólo el 0,24% de la energía radiante que alcanza la Tierra es convertida en sustratos biológicos; por lo tanto, energéticamente hablando, la fotosíntesis (y hasta toda actividad biológica) es muy poco más que un pequeño capricho en la economía energética del sistema solar. Desde el punto de vista químico, la fotosíntesis es el proceso dominante en la Tierra. Rabinowitch calculó que, en efecto, las plantas “renueven todo el oxígeno del aire en poco más de dos mil años, y descomponen toda el agua de los océanos en unos dos millones de años”. Incluso, podrían acabar con todo el carbono disponible en 300 ó 400 años si éste no fuera reforzado por la respiración animal y por la descomposición (¡el anhídrido carbónico de la atmósfera, excluyendo los carbonatos solubles, sería suficiente tan sólo para 10 años!).

Fonte; DuPraw, E. J. 1971 [1969]. Biología celular y molecular. Barcelona, Omega.

21 fevereiro 2026

Microscopy and the cell concept

Charlotte J. Avers

The invention of the first useful compound microscope, which had two lenses to increase total magnification and reduce optical aberrations, is credited to Z. and H. Janssen, an uncle and nephew. Their microscope, which became available in 1590, could magnify an object 30 times its actual size, without loss of resolution. We credit the first significant information gained by using microscopy to Robert Hooke who published his observations in Micrographia in 1665. Hooke noted the occurrence of ‘cells’ or ‘pores’ in various plant tissues, such as cork from the bark of trees […]. Hooke also observed that cells of the other kinds of tissues were filled with ‘juices’, but the the high visibility of the thick cell wall drew his attention most and continued to be the focus for cell studies by biologist for 150-200 years afterward.

Fonte: Avers, C. J. 1976. Cell biology. NY, Nostrand.

20 fevereiro 2026

Luar sobre o canal da Viga


Helen Hyde (1868-1919). Moonlight on the Viga Canal. 1912.

Fonte da foto: Wikipedia.

19 fevereiro 2026

Glicoproteínas

Luiz C. Junqueira & José Carneiro

A substância fundamental intercelular é uma mistura complexa altamente hidratada de moléculas aniônicas (glicoaminoglicanos e proteoglicanos) e glicoproteínas multiadesivas. Esta complexa mistura molecular é incolor e transparente. Ela preenche os espaços entre as células e fibras do tecido conjuntivo e, sendo viscosa, atua ao mesmo tempo como lubrificante e como barreira à penetração de micro-organismos invasores. [...]

Glicoproteínas multiadesivas são compostos de proteínas ligadas a cadeias de glicídios. Ao contrário dos proteoglicanos, é o componente proteico que predomina nestas moléculas, as quais também não contêm cadeias lineares de polissacarídeos formados por unidades dissacarídicas repetidas contendo hexosaminas. Em vez destas, o composto glicídico das glicoproteínas é frequentemente uma estrutura muito ramificada [...].

Várias glicoproteínas já foram isoladas do tecido conjuntivo e viu-se que desempenham um importante papel não somente na interação entre células vizinhas nos tecidos adultos e embrionários, como também ajudam as células a aderirem sobre os seus substratos. A fibronectina é uma glicoproteína sintetizada pelos fibroblastos e algumas células epiteliais. Esta molécula tem uma massa molecular de 222-240 kDa e apresenta sítios de ligação para células, colágenos e glicosaminoglicanos. Interações nestes sítios ajudam a intermediar e a manter normais as migrações e adesões celulares [...]. A laminina é uma outra glicoproteína de alta massa molecular que participa na adesão de células epiteliais à sua lâmina, que é uma estrutura muito rica em laminina.

Fonte: Junqueira, L. C. & Carneiro, J. 2008. Histologia básica. 11ª ed. RJ, Guanabara Koogan.

15 fevereiro 2026

Sobre a história da ficção

E. L. Doctorow

Quem trocaria a Ilíada pelo relato histórico ‘real’? Claro que o escritor tem uma responsabilidade, seja como intérprete solene ou satirista, de fazer uma composição que sirva como verdade revelada. Mas exigimos isso de todos os artistas criativos, de qualquer mídia. Além disso, um leitor de ficção que depare, num romance, com uma figura pública dizendo e fazendo coisas não relatadas em nenhuma outra parte sabe que está lendo ficção. Ele sabe que o romancista espera usar a mentira para atingir uma verdade maior de uma forma impossível pela reportagem factual. O romance é uma interpretação estética que retrataria uma figura pública assim como um quadro de um pintor. Um romance não é lido como um jornal; é lido como foi escrito, no espírito da liberdade.

Fonte: Wilson, E. O. 2013 [2012]. A conquista social da Terra. SP, Companhia das Letras. Trecho de artigo publicado em 2006.

13 fevereiro 2026

O pão

Nuno Guimarães

Não é ainda um seio
mas quase. na brancura.
porém, onda de leite
a branca levedura.

um mecanismo incerto
de ferro e madrugada.
a fome e o excesso
futuros. na seara.

a fome e a carência
de sol(o) para a boca.
não é ainda um campo
de areia ou terra solta.

um campo descampado
um canto com bolor.
é arte que se move
minéria como a água.

engenho de palato.
alvéolo de pulmão.
respira-se o exemplo
de sol. oxigénio

não é ainda um círculo
branco por toda a mesa
manchado na toalha
de sombra e aspereza.

não é ainda uma ave
descendo sobre a pele:
um mecanismo triste
movendo a boca breve.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1970.

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