21 maio 2026

Rebelião contra a entropia

Neil McInnes

[Georges] Sorel considerava-se, essencialmente, um filósofo, mas não apenas do socialismo. Gastou mais tempo com a filosofia da ciência e a história do cristianismo do que com o movimento trabalhista. Em sua filosofia da ciência, ele achava que não havia determinismo na natureza e sim apenas acaso e probabilidades estatísticas, “nenhuma lei, somente limites”. A ciência exata ainda era possível, mas ela estava ligada aos mecanismos feitos pelo homem, como, por exemplo, os equipamentos experimentais e a maquinaria produtiva. Nessas limitadas áreas os homens violentavam a natureza sem leis, deixando de fora o acaso e a interferência provável, criando assim o determinismo. Seus trabalhos, no entanto, estavam sempre ameaçados pela natureza malévola, cuja sorte, desperdício e entropia invadiam a maquinaria feita pelo homem na mesma ocasião em que ele relaxava seus esforços para assegurar um funcionamento regular de sua criação. A ciência, a engenharia e a indústria eram, todas, partes de um vasto império de disentropia, a rebelião de uma parte da natureza contra sua confusão sem sentido e seu desgaste. [...]

A sua teoria sobre cultura era precisamente paralela. Também a história era uma confusão desregrada e uma sucessão sem sentido. As criações culturais e sociais estavam constantemente ameaçadas de acabar na desordem e no barbarismo. Contra um retrospecto de perpétua decadência, os homens lutavam, às vezes heroicamente, para estabelecer determinadas áreas de lei, ordem e significado histórico. Para que a história pudesse fazer sentido, eles tinham que se impor uma árdua disciplina, violentando a sua própria natureza, rejeitando a premissa da chamada ‘ciência social’ que a história tinha suas próprias leis e podia fazer sentido sem nossa intervenção. Só se esforçariam em conjunto, num movimento social que concordasse em se desligar, e aspiravam viver de acordo com uma nova moralidade.

Fonte: McInnes, N. 1971 [1969]. Georges Sorel. In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

18 maio 2026

Hálito noturno

Poh Pin Chin

O outono voltou
e com ele
o vapor noturno –
hálito da terra
e das folhas –
que se reúne
mansamente
nas grotas
entre montanhas
e que ora aprecio –
sozinho de novo –
aqui de casa.

17 maio 2026

Organologia e anatomia da folha

Ludwig Buckup

A folha é um dos mais importantes órgãos vegetativos da planta, pois lhe cabe, especificamente, a realização da fotossíntese. A maior parte da transpiração vegetal tem lugar nas folhas; a eliminação e a absorção dos gases atmosféricos envolvidos na respiração [são] feitas, igualmente, através dos estômatos localizados na epiderme da folha.

A folha é de origem exógena, formando-se a partir do dermatógeno e das partes externas do periblema, ou seja, da áreas periféricas do cone vegetativo que caracteriza os meristemas apicais dos caules.

O crescimento das folhas é limitado. Atingidas as dimensões e as formas características de cada tipo vegetal, interrompe-se o crescimento.

Fonte: Buckup, L. s/d. Botânica, 3ª ed. Porto Alegre, Sagra.

15 maio 2026

Mulher com filho morto


Käthe Kollwitz (1867-1945). Frau mit totem Kind. 1903.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 maio 2026

Ainda não é o fim

Thiago de Mello

Escondo o medo e avanço. Devagar.
Ainda não é o fim. É bom andar,
mesmo de pernas bambas. Entre os álamos,
no vento anoitecido, ouço de novo
(com os mesmos ouvidos que escutaram
“Mata aqui mesmo?”) um riso de menina.
Estou quase canção, não vou morrer
agora, de mim mesmo, mal livrado
de recente e total morte de fogo.
A vida me reclama: a moça nua
me chama da janela, e nunca mais
me lembrarei sequer dos olhos dela.

Posso seguir andando como um homem
entre rosas e pombos e cabelos
que em prazo certo me devolverão
ao sonho que me queima o coração.

Muito perdi, mas amo o que sobrou.
Alguma dor, pungindo cristalina,
alguma estrela, um resto de campina.
Com o que sobrou, avanço, devagar.
Se avançar é saber, lâmina ardendo
na flor do cerebelo, porque foi
que a alegria, a alegria começando
a se abrir, de repente teve fim.
Mas que avançar no chão ferido seja
também saber o que fazer de mim.

Fonte: Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 1975.

12 maio 2026

19 anos e sete meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/5, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e sete meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e meio no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Alexander Smith, Bertha K. Becker, Eric H. Brown, Hermógenes de Freitas Leitão Filho e Walter B. Mors. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Kamal-ol-Molk e Mir Ali.

11 maio 2026

Mobilidade da população na fronteira de recursos

Bertha K. Becker

Construída em 1960, a Rodovia Belém-Brasília foi a primeira artéria estabelecida para ligar a Amazônia aos centros dinâmicos do país. Devido à sua extensão, a estrada atravessa espaços diversos, valorizados por diferentes modos de produção na mata e no campo. De Norte para Sul, a partir da cidade de Santa Maria, no Pará, marco Norte da rodovia, sucediam-se a floresta virgem, a savana, com sua pecuária extensiva tradicional, e uma região dinâmica desenvolvida em áreas de antigas matas.

Em Goiás, a rodovia corre sobre o divisor de águas dos rios Araguaia, a Oeste, e Tocantins, a Leste, grande chapadão que constitui o arcabouço do Estado, imprimindo-lhe uma configuração alongada. Esse Estado central é, contudo, bastante diferenciado, representando uma transição entre a Amazônia e as terras altas do Sudeste. Sua porção meridional é constituída por altos planaltos, cuja altitude decresce para o Norte. A curva de nível de 500 m estabelece, grosso modo, o limite entre as terras altas do Sul e a bacia Amazônica. Correspondendo essa curva de nível aproximadamente ao paralelo de 13° de latitude Sul, foi este adotado como limite Sul da Amazônia legal, região criada para fins de aplicação dos programas de desenvolvimento regional.

Fonte: Becker, B. K. 1982. Geopolítica da Amazônia. RJ, Zahar.

09 maio 2026

O que o time da CBF tem a oferecer, além de muambas, cambalhotas e mi-mi-mis?

Felipe A. P. L. Costa [*].

1.

Nunca tive qualquer simpatia pelo time da CBF. Nem jamais concordei com a premissa de que o time da CBF é sinônimo de seleção brasileira; a rigor, sempre achei essa ideia falsa, para não dizer absurda.

2.

Joguei muito futebol na minha infância, em Brasília (1967-1973), tanto em ruas asfaltadas como em campos de terra. Quando me mudei com a minha família para Juiz de Fora, no fim de 1973, eu ainda tinha comigo o sonho de me tornar um jogador de futebol profissional – ao estilo de Dirceu Lopes, por exemplo. Em 1975, cheguei a treinar no time juvenil do Tupi. Uma luxação no tornozelo, porém, brecou os meus planos. Em 1976, mudei de esporte e de clube: passei a treinar atletismo (corridas de longa distância) no Sport.

3.

Minha carreira de corredor foi um pouco mais duradoura. Em 1977, porém, eu ingressei na universidade. E o mundo das ideias me conquistou de vez. A universidade em si pouco contribuiu para isso: o ensino era ruim e o curso de graduação foi quase que uma sucessão de nulidades – o nível era bem baixo, pouco superior ao nível das atuais arapucas de ensino (veja o que se passa, por exemplo, nos vexatórios cursos à distância oferecidos por instituições particulares).

4.

Mas havia muita inquietação entre os estudantes, sobretudo entre os que participavam do movimento estudantil. E essa efervescência compensava o baixo nível das aulas. No meu caso, especificamente, certas leituras paralelas foram de fundamental importância. Lembro como se fosse hoje de um episódio ocorrido no meu primeiro ano na universidade (1977). Foi como se alguém me sacudisse pelos ombros e gritasse: “Acabamos de descobrir que tudo aquilo que aprendemos sobre física na semana passada estava errado!”. Passei a buscar minhas próprias epifanias. Não demorei a perceber o quanto o mundo da ciência poderia ser prazeroso, ainda que as recompensas oferecidas fossem todas ou quase todas meramente simbólicas.

5.

O futebol para mim é hoje um fenômeno quase que meramente social ou cultural, com pouco envolvimento emocional. Mas não sou neutro: continuo a torcer contra o time da CBF (ex-CBD), uma tradição iniciada ainda em Brasília. Não comemorei 1970; não lamentei 1982; e tive vergonha de 1994 e 2002, sobretudo diante do tipo de recepção que foi dado às delegações – no primeiro caso, por exemplo, o oba-oba da mídia com a chegada do avião das muambas e, no segundo, o louvor à cambalhota embriagada na rampa do Palácio do Planalto.

6.

Eis que agora, 
às vésperas de mais um Mundial e em meio às habituais armações do jornalismo esportivo, espero sinceramente que o Rei do Mi-mi-mi termine sendo convocado. Sei que o técnico atual não é nenhum pateta nem um banana, mas torço para que essa aberrante convocação ocorra por um motivo bem simples: com o Rei do Mi-mi-mi dando as cartas, dentro e fora de campo, crescem as chances de que venhamos a testemunhar um feito inédito – a desclassificação do time da CBF ainda na primeira fase da Copa. Seria um feito e tanto, superior até mesmo ao feito que a CBF ofereceu aos torcedores brasileiros em 2014.

*

NOTA.

[*] Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir pacotes com os livros do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote ou algum volume específico, ou para mais informações, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.

* * *

07 maio 2026

O beijo da mulher aranha

F. Ponce de León

Ardilosa e peçonhenta,
ela tem a língua bífida
e um beijo doce que é fatal.
Clientes, sócios e vítimas –
ela teve em profusão.
Um companheiro de verdade,
porém, ela nunca conheceu.

05 maio 2026

Canção para o presidente do Burkina, Thomas Sankara, traído pelo seu amigo Blaise Campaoré

Fátima Maldonado

Sankara tinha um amigo
chamado Campaoré
Sankara tinha o reino
mais pobre do continente
e chamava-lhe “a pátria dos homens íntegros”.
Campaoré era a sombra de Sankara
e Sankara desvendou o seu nome verdadeiro
a um companheiro de armas
esquecendo que nem os deuses o fazem.
E no Olimpo negro todos riram de Sankara –
o da alma orgulhosa –
por não ter resguardado a sua própria sombra.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1999.

eXTReMe Tracker