10 agosto 2026

A morte e a menina


Frans [Pieter Lodewijk] van Kuyck (1852-1915). De dood en het meisje. ~1900.

Fonte da foto: Reddit.

08 agosto 2026

A estrutura invisível

 
Tudo o que o fogo produz é alquimia, quer na retorta,
quer no fogão da cozinha. – Paracelsus [1493-1541].

Ainda em 1730, duzentos anos depois de Paracelsus, os químicos tentaram, com a teoria do flogisto, vestir o fogo com uma última roupagem material. Entretanto, viu-se que a substância flogística, da mesma forma que o princípio vital, não podia ser demonstrada – o fogo não é matéria, e a vida não é matéria. O fogo é um processo, transformação e mudança, através do qual elementos materiais são reagrupados em novas combinações. A natureza das reações químicas só pôde ser entendida quando o fogo foi compreendido como um processo. [...]


Duzentos e cinquenta anos depois do tempo de Paracelsus, um novo elemento foi descoberto, o oxigênio, o que propiciou a explicação da natureza do fogo e arrancou a química do atoleiro da Idade Média. O fato insólito em relação a essa descoberta é que Joseph Priestley não estudava a natureza do fogo quando descobriu o oxigênio; sua inquietação se dirigia a um outro elemento dos gregos, o ar, invisível e onipresente. [...]

Eu gostaria de dizer-lhes que a turba que destruiu a casa de Priestley em Birmingham destroçou o sonho de um belo homem, amável e encantador. Mas receio que isso não seja verdade. Não creio que Priestley fosse amável, não mais do que Paracelsus. Minha suspeita é de que se tratava de um homem difícil, irascível, frio, preciso, afetado e puritano. Mas a escalada do homem não é feita por gente amável. É feita por pessoas que têm duas qualidades: grande integridade e, pelo menos, um pouco de genialidade. Priestley reunia as duas.


Fonte: Bronowski, J. 1979. A escalada do homem. SP, M Fontes & Editora UnB.

06 agosto 2026

Cítara

Alceu Wamosy

Firo-te as cordas, cítara dormente,
Velha cítara poenta, abandonada,
Que um régio artista fez vibrar, pulsada
Pela divina mão, antigamente.

E, assim, por um instante despertada,
Na mesma vibração profunda e ardente
De outrora freme, cítara dolente,
Toda a tua alma, trêmula, acordada.

Nessa maviosa música embebido,
Escuto as notas, múrmuras, chegando
Como um coro celeste, ao meu ouvido.

E eu julgo, então, sentir, no derradeiro,
No último som que morre, a alma, chorando,
Desse que as cortas te tangeu primeiro...

Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1923.

04 agosto 2026

Habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen

Muito antes do chalet
Antes do prédio
Antes mesmo da antiga
Casa bela e grave
Antes de solares palácios e castelos
No princípio
A casa foi sagrada –
Isto é habitada
Não só por homens e por vivos
Mas também pelos mortos e por deuses


Isso depois foi saqueado
Tudo foi reordenado e dividido
Caminhamos no trilho
De elaboradas percas

Porém a poesia permanece
Como se a divisão não tivesse acontecido
Permanece mesmo muito depois de varrido
O sussurro de tílias junto à casa de infância

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1989.

02 agosto 2026

Comecei uma piada

Robin Gibb

Comecei uma piada
O que levou o mundo todo a chorar
Mas eu não notei
Que a piada era sobre mim
 
Comecei a chorar
O que levou todo mundo a rir
Ó, se eu ao menos notasse
Que a piada era sobre mim


Olhei para os céus
Passando as mãos nos meus olhos
E caí da cama
Me sentido mal pelas coisas que eu disse


Até que então eu morri
O que levou todo mundo a viver
Ó, se eu ao menos notasse
Que a piada era sobre mim


Fonte: canção originalmente gravada no álbum Idea (1968), do grupo Bee Gees. A tradução acima é de autoria de F. Ponce de León.

30 julho 2026

Azul-celeste metálico


Giacomo Balla (1871-1958). Celeste metallico aeroplano. 1931.
 
Fonte: Wikipedia.

28 julho 2026

The Extasie

Where, like a pillow on a bed
   A Pregnant banke swel’d up, to rest
The violets reclining head,
   Sat we two, one anothers best.
Our hands were firmely cimented
   With a fast balme, which thence did spring,
Our eye-beames twisted, and did thred
   Our eyes, upon one double string;
So to’entergraft our hands, as yet
   Was all the meanes to make us one,
And pictures in our eyes to get
   Was all our propagation.
As ’twixt two equal Armies, Fate
   Suspends uncertaine victorie,
Our soules, (which to advance their state
   Were gone out,) hung ’twixt her, and mee.
And whil’st our soules negotiate there,
   We like sepulchrall statues lay;
All day, the same our postures were,
   And wee said nothing, all the day.
If any, so by love refin’d
   That he soules language understood,
And by good love were growen all minde,
   Within convenient distance stood,
He (though he knew not which soul spake,
   Because both meant, both spake the same)
Might thence a new concoction take,
   And part farre purer then he came.
This Extasie doth unperplex
   (We said) and tell us what we love,
Wee see by this, it was not sexe,
   Wee see, we saw not what did move:
But as all several soules containe
   Mixture of things, they know not what,
Love, these mixt soules, doth mixe againe,
   And makes both one, each this and that.
A single violet transplant,
   The strength, the colour, and the size,
(All which before was poore, and scant,)
   Redoubles still, and multiplies.
When love, with one another so
   Interinanimates two soules,
That abler soule, which thence doth flow,
   Defects of loneliness controules.
Wee then, who are this new soule, know,
   Of what we are compos’d, and made,
For th’Atomies of which we grow,
   Are soules, whom no change can invade.
But O alas, so long, so farre
   Our bodies why doe wee forbeare?
They are ours, though they are not wee, Wee are
   The intelligences, they the spheare.
We owe them thankes, because they thus,
   Did us, to us, at first convey,
Yeelded their forces, sense, to us,
   Nor are drosse to us, but allay.
On man heavens influence workes not so,
   But that it first imprints the ayre,
Soe soule into the soule may flow,
   Though it to body first repaire.
As our blood labours to beget
   Spirits, as like soules as it can,
Because such fingers need to knit
   That subtile knot, which makes us man:
So must pure lovers soules descend
   T’affections, and to faculties,
Which sense may reach and apprehend,
   Else a great Pince in prison lies.
To’our bodies turne wee then, that so
   Weake men on love reveal’d may looke;
Loves mysteries in soules doe grow,
   But yet the body is his booke.
And if some lover, such as wee,
   Have heard this dialogue of one,
Let him still marke us, he shall see
   Small change, when we’are to bodies gone.

Fonte (em port., v. 19-20, 23-24, 29-30, 71-72): Bronowski, J. 1979. A escalada do homem. SP, M Fontes & Editora UnB. Poema publicado em livro em 1633.

26 julho 2026

Whole wide world

Wreckless Eric

When I was a young boy
My mama said to me
“There’s only one girl in the world for you
And she probably lives in Tahiti”
I’d go the whole wide world
Go the whole wide world just to find her
Or maybe she’s in the Bahamas
Where the Carribean Sea is blue
Weeping in the tropical moonlit night
Because nobody’s talking about you
 
I’d go the whole wide world
Go the whole wide world just to find her
I’d go the whole wide world
Go the whole wide world
To find out where they hide her
 
Why am I hanging around in the rain right here
Trying to pick up a girl?
Why are my eyes
Filling up with these lonely tears
When there’re girls all over the world?
Is she lying on a tropical beach somewhere
Underneath the tropical sun?
Pining away in a heat wave there
Hoping that I won’t be long
I should be lying on that sun swept beach with her
Caressing her warm, brown skin
And then in a year or maybe not quite
We’ll be sharing the same next of kin

[Refrão]

Fonte: DVD do filme Mais estranho que a ficção (2006), dirigido por Marc Forster. Canção originalmente gravada em 1977. Wreckless Eric é a assinatura artística de Eric Goulden (nascido em 1954).

24 julho 2026

Ética

Não se engane:
logo estaremos mortos,
todos nós – Bons ou Maus –,
reduzidos a pó e esquecidos.

Por que então se importar
em fazer o Bem,
em vez de tão somente
se omitir diante da Maldade?

23 julho 2026

Espécies invasoras, porcos ferais e erros de interpretação

Em 17/6/2014, o renomado informativo eletrônico O Eco publicou um artigo intitulado ‘Se for exótica ‘atire primeiro e pergunte depois’, diz Simberloff’, de Fernando Fernandez e Bernardo Araujo. Trata-se de uma entrevista com o professor e pesquisador estadunidense Daniel Simberloff (nascido em 1942), cuja obra científica, entre outras coisas, tem contribuído para a solidificação da chamada biologia da invasão – um consórcio de temas, assuntos e problemas, básicos e aplicados, que despertam interesse e preocupação há muitas décadas. Não sei se era essa a intenção dos autores, mas penso que a entrevista veio a calhar como um contraponto ou até mesmo como uma reparação a um artigo que o primeiro autor publicou um ano antes. Estou a me referir ao artigo ‘O Sus que deu certo, de Fernando Fernandez’, publicado em 24/6/2013. O ‘Sus’ no título, note-se, tem um duplo sentido (absolutamente inapropriado), envolvendo, de um lado, o conhecido sistema de saúde brasileiro e, de outro, o nome do gênero a que pertencem os porcos domésticos e espécies afins. No artigo de 2013, Fernandez cometeu um grave erro de interpretação e desde então, salvo melhor juízo, ele não voltou a tocar no assunto, seja para ratificar o ponto de vista inicial, seja para retificá-lo. Visando esclarecer o problema, inicio este artigo tratando do significado de alguns termos e conceitos básicos.

[Para ler o artigo completo, clique aqui.]

eXTReMe Tracker