08 outubro 2026

Gritar ou tartamudear: dois modelos de sociedade

F. Ponce de León

Arriscaria dizer que dois diferentes modelos de sociedade estão a disputar corações e mentes dos brasileiros, o modelo paulista e o modelo mineiro.

De terno e cabelo engomado, gritou 22 vezes o modelo paulista: “Ô paraíba, cala a boca e sai da frente! Vou privatizar esse lugar e não quero você aqui”.

Com chapéu na cabeça e de cócoras, tartamudeou 13 vezes o modelo mineiro: “Ô moço, certeza, certeza mesmo eu não tenho, mas tenho um palpite. Quer ouvir?”.


Os dois têm um encontro marcado no próximo dia 25.

06 outubro 2026

A renovação mineira vs. a estagnação paulista


APRESENTAÇÃO. – Este artigo examina alguns desdobramentos das Eleições 2026, com ênfase em uma análise do perfil dos deputados federais e estaduais eleitos pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Destaco os contrastes que detectei (em termos de peso político, idade e representatividade de gênero) ao confrontar as bancadas eleitas pelo PT nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.

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De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, 158.745.502 brasileiros estavam aptos e poderiam ter ido votar anteontem (4/10), no primeiro turno das Eleições 2026. Ocorre que muita gente não foi.

Compareceram e votaram 125.275.835 eleitores – pouco menos de 79% do máximo possível. Implica dizer que ~21% do eleitorado (33.469.667) não compareceram (involuntariamente ou não) às seções de votação.

Dos que compareceram, 119.300.788 eleitores produziram votos válidos. Outros 5.975.047 compareceram, mas não produziram votos válidos – digo: 2,300798 milhões votaram em branco e 3,674249 milhões anularam o voto [1].

Dos 119.300.788 votos válidos, 56.104.503 (47,03% dos votos) foram dados ao candidato vitorioso; outros 53.879.538 votos (45,16%) foram dados ao candidato que ficou em segundo lugar. Os demais 10 candidatos obtiveram juntos 9.316.747 votos [2].

Visto que ninguém obteve a maioria absoluta (leia-se: 50% dos votos + 1), os dois primeiros colocados vão agora disputar um segundo turno, marcado para o último domingo de outubro (25/10).

No que segue, apresento os resultados contrastantes que obtive ao comparar as bancadas recém-eleitas de um mesmo partido (Partido dos Trabalhadores) em dois colégios eleitorais distintos – no caso, especificamente, os dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais.

1. ELEIÇÕES GERAIS EM SP E MG.

São Paulo: colégio eleitoral integrado por 34.122.892 eleitores, dos quais 72,92% compareceram às urnas no domingo (4/10); foram registrados 24.882.948 votos válidos, dos quais 9.505.413 (~38%) foram dados ao presidente Lula.

Minas Gerais: colégio eleitoral integrado por 16.372.372 eleitores, dos quais 73,15% compareceram às urnas; foram registrados 11.976.235 votos válidos, dos quais 5.188.936 (~43%) foram dados ao presidente Lula.

A diferença entre os dois, como se vê, foi da ordem de 5% – digo: em comparação aos eleitores paulistas, o percentual de confiança no candidato do PT por parte dos mineiros foi 5% mais alto. Tivessem os eleitores paulistas manifestado o mesmo nível de confiança, o presidente Lula teria recebido 1.276.368 votos a mais.

Todavia, como tento mostrar neste artigo, as diferenças entre MG e SP vão muito além desses 5%.

2. AS BANCADAS FEDERAIS.

A Câmara dos Deputados tem 513 cadeiras, 123 das quais estão reservadas para os dois maiores colégios eleitorais: São Paulo (70 cadeiras) e Minas Gerais (53) [3].

Examinemos, pois, alguns traços dos deputados que foram eleitos no domingo.

São Paulo. Dos 70 deputados federais recém-eleitos por SP, 11 deputados (16% de toda a bancada paulista) foram eleitos pelo PT (9 homens e duas mulheres). A idade média desses 11 deputados gira em torno de 55 anos (amplitude: 33-77 anos).

Minas Gerais. Dos 53 deputados federais recém-eleitos por MG, 12 deputados (24% de toda a bancada mineira) foram eleitos pelo PT (sete homens e cinco mulheres). A idade média desses 12 deputados gira em torno de 47 anos (amplitude: 21-75 anos).

As menos três conclusões podem ser extraídas desses resultados: (i) embora conte com um colégio eleitoral bem menor, o PT-MG conseguiu eleger uma bancada que é duplamente maior que a bancada eleita pelo PT-SP – digo: é maior em termos absolutos (12 > 11) e é maior em termos relativos (24% > 16%); (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres é vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados paulistas são em média oito anos mais velhos que os mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a dois mandatos).

3. AS BANCADAS ESTADUAIS.

O número de deputados estaduais nas Assembleias Legislativas varia de acordo com o tamanho da população residente em cada estado. A Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) tem 94 cadeiras, enquanto a ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) tem 77 cadeiras.

São Paulo: Alesp. Dos 94 deputados estaduais recém-eleitos em SP, 16 deputados (17% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (13 homens e três mulheres). A idade média desses 16 deputados gira em torno de 56 anos (amplitude: 24-85 anos).

Minas Gerais: ALMG. Dos 77 deputados estaduais recém-eleitos em MG, 15 deputados (19% das cadeiras) foram eleitos pelo PT (9 homens e seis mulheres). A idade média desses deputados gira em torno de 52 anos (amplitude: 43-67 anos).

Eu diria que ao menos três conclusões podem ser extraídas daí: (i) numericamente, o peso relativo da bancada do PT-MG na ALMG é ligeiramente maior que o da bancada do PT-SP na Alesp; (ii) o desequilíbrio na proporção entre homens e mulheres segue sendo vergonhosamente maior na bancada paulista; e (iii) os deputados estaduais paulistas são em média quatro anos mais velhos que os seus colegas mineiros (curiosamente, uma diferença que equivaleria a um mandato).

Por fim, integrando as duas comparações, eu diria o seguinte: (i) embora a soma dos deputados eleitos em cada estado seja a mesma, 27 deputados (MG: 12 federais + 15 estaduais; SP: 11 federais + 16 estaduais), a campanha eleitoral do PT-MG parece ter sido mais vitoriosa do que a campanha do PT-SP; (ii) em termos de representatividade de gênero, as bancadas mineiras estão bem mais perto do equilíbrio de 1 para 1 (16 homens e 11 mulheres, o equivalente a 1,45:1) do que as bancadas paulistas (22 homens e 5 mulheres, o equivalente a 4,4:1); e (iii) as bancadas mineiras são mais jovens do que as bancadas paulistas, de tal modo que há uma curiosa hierarquia etária, a saber: média de idade dos deputados federais mineiros < média dos deputados estaduais mineiros < média dos deputados federais paulistas < média dos deputados estaduais paulistas.

A terceira conclusão me leva a pensar no seguinte: os parlamentares que integram as assembleias legislativas parecem combinar ao menos duas origens contrastantes. Há, de um lado, parlamentares em início de carreira (e.g., ex-vereadores), assim como há, de outro, parlamentares em crise ou em fim de carreira (e.g., ex-deputados federais).

4. CODA.

Nunca tive militância partidária, embora sempre tenha tido ativismo político. Mesmo de fora, eu sempre tive contato com militantes partidários, sobretudo do PT. Como base nisso e, sobretudo, com base no que leio e ouço sobre a dinâmica partidária, eu ousaria dizer o seguinte: o PT sempre foi muito mais paulista do que mineiro. Basta ver que a maior parcela da burocracia partidária vive e trabalha em SP. MG seria quase que uma sucursal e, como tal, deveria obediência à matriz.

Entendo e concordo com a importância do chamado centralismo democrático, mas isso não pode se confundir com burocratização excessiva. (Lembro de um episódio particularmente desastroso, ocorrido por volta de 2010: a retirada de candidatura própria do PT em MG por conta do namoro da direção nacional do partido com o então governador do estado, um dos personagens mais nefastos da nossa história política, como ficaria dramaticamente demonstrado a partir do golpe de 2016 – ver aqui.)

O que talvez estejamos a presenciar hoje é uma mudança de rota: o PT de MG reelegeu alguns figurões – eu mesmo ajudei a reeleger um deles –; ao mesmo tempo, porém, está a abrir caminho para gente nova, com destaque para mulheres oriundas do sindicalismo (e.g., professoras). O PT de SP, por sua vez, parece estar muito mais aferrado a burocratas e figurões.

Posso estar ouvindo mal, mas acho que os resultados que saíram das urnas no último domingo (ao menos no que diz respeito aos deputados) estariam a anunciar algo mais ou menos nos seguintes moldes: “Nós, jovens, queremos mudanças, queremos diversidade, queremos gente que mobiliza e organiza as massas; chega de burocratas, chega de coronéis, chega de gente que só pensa em eleições (e reeleições)”.

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NOTAS.

[*] Para adquirir os livros do autor, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.
 
[1] Desconfio que uma parcela expressiva dos votos nulos seja fruto de erros involuntários.

[2] Fazendo as contas: (i) 125.275.835 (aptos que votaram) = 119.300.788 (votos válidos) + 5.975.047 (brancos e nulos); e (ii) 119.300.788 = 56.104.503 + 53.879.538 + 9.316.747.

[3] Os dois estados estão sub-representados. Em 1/7/2026, de acordo com o IBGE (v. aqui), a população brasileira chegou a 214.211.951 habitantes; desse total, 46.179.008 residiam em SP e 21.460.311, em MG. A julgar pelo tamanho das populações residentes em SP e MG (67.639.319, o equivalente a ~32% da população do país), os dois estados deveriam ocupar juntos algo como 160 das 513 cadeiras. As estatísticas (idade etc.) sobre os candidatos estão disponíveis no sítio do TSE.

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04 outubro 2026

Menino de engenho

José Lins do Rego

1.

Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã me acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá, e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse em um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a polícia e mais ninguém.

Levaram-me para o fundo de casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai com o revólver na mão e minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a dona Clarisse!” Por quê? Ninguém sabia compreender.

O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sério que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória.

À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais com os retratos grandes de minha mãe e de meu pai. Ouvi aquilo como se fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe, já, os fatos da manhã, que aquela narrativa me interessava como se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí num choro convulso. Levaram-me então para a praça que ficava perto de minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho, e eu brinquei com eles a tarde toda. As criadas é que conversavam muito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outras coisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidava era nos meus brinquedos com os amigos.

Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência de minha mãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado ficara tomando conta de tudo. As criadas de perto queriam vir conversar por ali. O soldado não consentia. Botaram-me para dormir sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, mas me faltava qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, às pressas e truncados, os sucessos do dia. Então comecei a chorar baixinho para os travesseiros, um choro abafado de quem tivesse medo de chorar.

Fonte: Rego, J. L. 2003. Menino de engenho. RJ, José Olympio. Livro publicado originalmente em 1932.

02 outubro 2026

Versos de circunstância

 
Tudo quanto é sujo e malcheira:
– Dinheiro, petróleo, cocaína,
Faria Lima, curral de porco,
Mosca azul, TV Globo!

Fonte: versos livremente inspirados no poema Silvia Amélia (1948), de Manuel Bandeira.

Silvia Amélia


Tudo quanto é puro e cheira:
– Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Silvia Amélia!

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira. Poema publicado em livro em 1948.

01 outubro 2026

Adaptationalist imperatives and Panglossian paradigms

Alexander Rosenberg

Until the recent past, most of the history of biology was the pursuit of structures that would explain functions. Having pursued these structures to the natural stopping place of biochemistry and molecular biology, the discipline has neither gone further in its pursuit of structure to physical chemistry, and beyond it to physics, nor has it ceased at a dead end beyond which there are no further biological questions. Instead it has turned around, and now is actively engaged in the search for biological functions of chemically characterized structures.

This volte face is particularly apparent in the study of the genome. In the last decade molecular biologists have learned a great deal about the structure of the nucleic acid polymers that make up the chromosomal material. They have learned, in particular, that sequences of nucleic acids, the bases that compose DNA, adenine, thymine, guanine, and cytosine, recur in repeating series of several different kinds; that very similar sequences can have utterly different effects, that some have no apparent role in the genetic capacities of the DNA. Biochemists have learned that there are split genes, which contain ‘introns’ – intervening sequences that do not code for any protein product, that are snipped out in the messenger RNA; that there are some so-called ‘moderately repeated’ DNA sequences recurring hundreds of times on the same chromosome, and some ‘highly’ repeated DNA-sequences instanced millions of times on the same chromosome; that some genes come in tandem clusters, and others are to be found on more than one chromosome; that there are ‘pseudo-genes’ with base sequences very close to those of functioning genes, but which do not have their structural or regulatory functions; then there are genes occurring only once on one chromosome, in each nucleus, that code for a protein-product in the way we expect genes to do. All this structural information cries out for functional explanation, and much of it for evolutionary, adaptationalist explanation. That is, while some features of the structure of the chromosome are what we might expect, given the role which the genome plays in the heredity and development of individual organisms, other features seem to do nothing for the organism that contains them. For these structures, a different sort of explanation is required, one which explains their presence and persistence, in spite of their neutrality or maladaptive contribution to the survival of the organism containing them. Typically, these explanations too will be functional, identifying features of structurally identified portions of the genome as contributing either to the evolutionary adaptation of the very portion of the DNA itself, or to the evolutionary adaptation of the population in which the organism interbreeds.
 
Fonte; Rosenberg, A. 1985. In: Fetzer, JH, ed. Sociobiology and epistemology. Dordrecht, Reidel.

29 setembro 2026

Trabalho doméstico e independência econômica

Charlotte Perkins Gilman

O fato de certos grupos de pessoas servirem a outros, permitindo que os assim servidos produzam mais, é uma contribuição que não deve ser ignorada. O trabalho doméstico das mulheres permite que os homens produzam mais riqueza do que ele produziriam de outro modo; e, nesse sentido, as mulheres são fatores econômicos na sociedade. Mas o mesmo ocorre com os cavalos. O trabalho dos cavalos permite que os homens produzam mais riqueza do que produziriam sem eles. O cavalo é um fator econômico na sociedade. Porém, o cavalo não é economicamente independente, nem tampouco as mulheres o são. Se um homem acompanhado de um criado pode realizar um serviço mais útil do que sem ele, então o criado está a prestar um serviço útil. Porém, se o criado for propriedade do homem, sendo obrigado a prestar o serviço sem receber por isso, então ele não será economicamente independente. 

Fonte: Wrangham, R. 2010. Pegando fogo. RJ, Jorge Zahar. Trecho de livro publicado originalmente em 1898.

26 setembro 2026

Pedra da lua

Cacaso

Dia, mania
Tarde covarde
Noite, açoite
Minha mãe, calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino, levante cedo
Menino, não chegue tarde


Dia, folia
Tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não chegue tarde
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Eu nem quero pensar
Que um dia você possa ser
Minha pedra da lua
Minha paixão
Meu coração
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não morra cedo
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Fonte: álbum Boca Livre (1979), da banda Boca Livre. Canção originalmente gravada em 1977. Cacaso é pseudônimo de Antônio Carlos de Brito (1944-1987).

24 setembro 2026

Antígona

Sófocles

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e arte inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis de sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!

Fonte (em inglês): Corning, PA. 1974. Politics and the evolutionary process. In: Dobzhansky, T. & mais 2, eds. Evolutionary Biology, vol. 7. NY, Plenum. Trecho de obra escrita por volta de 441 aC. Edição em português publicada pela editora Zahar (2025), com tradução de Mário da Gama Kury (1922-2016).

21 setembro 2026

Primavera na floresta


Carl Rodeck (1841-1909). Frühling im Walde. s/d.

Fonte da foto: Wikipedia.

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