02 outubro 2026

Versos de circunstância

 
Tudo quanto é sujo e malcheira:
– Dinheiro, petróleo, cocaína,
Faria Lima, curral de porco,
Mosca azul, TV Globo!

Fonte: versos livremente inspirados no poema Silvia Amélia (1948), de Manuel Bandeira.

Silvia Amélia


Tudo quanto é puro e cheira:
– Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Silvia Amélia!

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira. Poema publicado em livro em 1948.

01 outubro 2026

Adaptationalist imperatives and Panglossian paradigms

Alexander Rosenberg

Until the recent past, most of the history of biology was the pursuit of structures that would explain functions. Having pursued these structures to the natural stopping place of biochemistry and molecular biology, the discipline has neither gone further in its pursuit of structure to physical chemistry, and beyond it to physics, nor has it ceased at a dead end beyond which there are no further biological questions. Instead it has turned around, and now is actively engaged in the search for biological functions of chemically characterized structures.

This volte face is particularly apparent in the study of the genome. In the last decade molecular biologists have learned a great deal about the structure of the nucleic acid polymers that make up the chromosomal material. They have learned, in particular, that sequences of nucleic acids, the bases that compose DNA, adenine, thymine, guanine, and cytosine, recur in repeating series of several different kinds; that very similar sequences can have utterly different effects, that some have no apparent role in the genetic capacities of the DNA. Biochemists have learned that there are split genes, which contain ‘introns’ – intervening sequences that do not code for any protein product, that are snipped out in the messenger RNA; that there are some so-called ‘moderately repeated’ DNA sequences recurring hundreds of times on the same chromosome, and some ‘highly’ repeated DNA-sequences instanced millions of times on the same chromosome; that some genes come in tandem clusters, and others are to be found on more than one chromosome; that there are ‘pseudo-genes’ with base sequences very close to those of functioning genes, but which do not have their structural or regulatory functions; then there are genes occurring only once on one chromosome, in each nucleus, that code for a protein-product in the way we expect genes to do. All this structural information cries out for functional explanation, and much of it for evolutionary, adaptationalist explanation. That is, while some features of the structure of the chromosome are what we might expect, given the role which the genome plays in the heredity and development of individual organisms, other features seem to do nothing for the organism that contains them. For these structures, a different sort of explanation is required, one which explains their presence and persistence, in spite of their neutrality or maladaptive contribution to the survival of the organism containing them. Typically, these explanations too will be functional, identifying features of structurally identified portions of the genome as contributing either to the evolutionary adaptation of the very portion of the DNA itself, or to the evolutionary adaptation of the population in which the organism interbreeds.
 
Fonte; Rosenberg, A. 1985. In: Fetzer, JH, ed. Sociobiology and epistemology. Dordrecht, Reidel.

29 setembro 2026

Trabalho doméstico e independência econômica

Charlotte Perkins Gilman

O fato de certos grupos de pessoas servirem a outros, permitindo que os assim servidos produzam mais, é uma contribuição que não deve ser ignorada. O trabalho doméstico das mulheres permite que os homens produzam mais riqueza do que ele produziriam de outro modo; e, nesse sentido, as mulheres são fatores econômicos na sociedade. Mas o mesmo ocorre com os cavalos. O trabalho dos cavalos permite que os homens produzam mais riqueza do que produziriam sem eles. O cavalo é um fator econômico na sociedade. Porém, o cavalo não é economicamente independente, nem tampouco as mulheres o são. Se um homem acompanhado de um criado pode realizar um serviço mais útil do que sem ele, então o criado está a prestar um serviço útil. Porém, se o criado for propriedade do homem, sendo obrigado a prestar o serviço sem receber por isso, então ele não será economicamente independente. 

Fonte: Wrangham, R. 2010. Pegando fogo. RJ, Jorge Zahar. Trecho de livro publicado originalmente em 1898.

26 setembro 2026

Pedra da lua

Cacaso

Dia, mania
Tarde covarde
Noite, açoite
Minha mãe, calma e serena
Com seu sorriso inseguro
Toda vestida de branco
Hoje parece mentira
Hoje parece verdade
Menino, levante cedo
Menino, não chegue tarde


Dia, folia
Tarde covarde
Minha mãe no seu piano
Morrendo dentro da tarde
Com seu sorriso mais puro
Toda vestida de branco
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não chegue tarde
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Eu nem quero pensar
Que um dia você possa ser
Minha pedra da lua
Minha paixão
Meu coração
Velando os meus passos
Velando os meus tropeços
Menino, não morra cedo
Menino, não chegue tarde
Dia, mania

Fonte: álbum Boca Livre (1979), da banda Boca Livre. Canção originalmente gravada em 1977. Cacaso é pseudônimo de Antônio Carlos de Brito (1944-1987).

24 setembro 2026

Antígona

Sófocles

Há muitas maravilhas, mas nenhuma
é tão maravilhosa quanto o homem.
Ele atravessa, ousado, o mar grisalho,
impulsionado pelo vento sul
tempestuoso, indiferente às vagas
enormes na iminência de abismá-lo;
e exaure a terra eterna, infatigável,
deusa suprema, abrindo-a com o arado
em sua ida e volta, ano após ano,
auxiliado pela espécie equina.
Ele captura a grei das aves lépidas
e as gerações dos animais selvagens:
e prende a fauna dos profundos mares
nas redes envolventes que produz,
homem de engenho e arte inesgotáveis.
Com suas armadilhas ele prende
a besta agreste nos caminhos íngremes;
e doma o potro de abundante crina,
pondo-lhe na cerviz o mesmo jugo
que amansa o fero touro das montanhas.
Soube aprender sozinho a usar a fala
e o pensamento mais veloz que o vento
e as leis que disciplinam as cidades,
e a proteger-se das nevascas gélidas,
duras de suportar a céu aberto,
e das adversas chuvas fustigantes;
ocorrem-lhe recursos para tudo
e nada o surpreende sem amparo;
somente contra a morte clamará
em vão por um socorro, embora saiba
fugir até de males intratáveis.
Sutil de certo modo na inventiva
além do que seria de esperar,
e na argúcia, que o desvia às vezes
para a maldade, às vezes para o bem,
se é reverente às leis de sua terra
e segue sempre os rumos da justiça
jurada pelos deuses ele eleva
à máxima grandeza a sua pátria.
Nem pátria tem aquele que, ao contrário,
adere temerariamente ao mal;
jamais quem age assim seja acolhido
em minha casa e pense igual a mim!

Fonte (em inglês): Corning, PA. 1974. Politics and the evolutionary process. In: Dobzhansky, T. & mais 2, eds. Evolutionary Biology, vol. 7. NY, Plenum. Trecho de obra escrita por volta de 441 aC. Edição em português publicada pela editora Zahar (2025), com tradução de Mário da Gama Kury (1922-2016).

21 setembro 2026

Primavera na floresta


Carl Rodeck (1841-1909). Frühling im Walde. s/d.

Fonte da foto: Wikipedia.

20 setembro 2026

Monografias antropológicas

Audrey Richards

As famosas monografias de Malinowski a respeito das ilhas Trobriand foram, certamente, a mais formadora influência sobre os trabalhos dos antropólogos sociais ingleses desde 1922, quando publicou o seu primeiro estudo de campo, até a sua morte, em 1942. A maior parte dos principais antropólogos atualmente na Inglaterra foi treinada por ele, no todo ou em parte, e aí estão incluídos Evans Pritchard, Firth, Fortes, Kaberry, Mair, Nadel, Read, Schapera, assim como também outros que trabalhavam fora da Inglaterra, como Hogbin, Kuper, Oberg, Powdermaker e Monica Wilson. Todos aqueles que, mais tarde, reagiriam fortemente contra ele eram tão influenciados por sua obra como os que permaneceram sempre como seus admiradores. [...]

Malinowski tinha uma forte personalidade e era isso sem dúvida o que chamava atenção para o seu trabalho. Era brilhante, espirituoso, sensível, egoísta e muito dependente da apreciação de seus amigos ou alunos, sem geralmente ser muito leal para com seus adversários. Tornou-se uma figura notável nos centros acadêmicos de Londres nos idos de 1930. Onde quer que dois ou três antropólogos se reunissem para conversar era certo que o assunto se voltaria para Malinowski, sua última teoria, seu bon mot, suas pragas ou excentricidades. É realmente difícil considerar sua fama separada de sua personalidade, pois ele não somente criava emoções positivas ou negativas naquele tempo como também acontece que tudo isso continuou depois de sua morte.

Era um professor brilhante e informal que usava aquilo que chamava de método socrático. Os seus seminários na London School of Economics adquiriram uma reputação internacional e era seu costume dar respostas rápidas e brilhantes em diversas línguas. A forma direta como encarava os assuntos forçava os seus alunos a enfrentarem o problema e exprimirem as suas [essências] com a máxima simplicidade. Os estudantes se sentiam atraídos ou repelidos conforme seus temperamentos, mas eram sempre estimulados. Seus discípulos se inclinavam, nos seus primeiros tempos de professor, no começo da era de 30, por exemplo, a se considerarem como um time atacando as forças da reação que então eram vistas em termos de evolucionismo, difusionismo e a busca de ‘sobreviventes’ nas sociedades atuais.

Fonte: Richards, A. 1971 [1969]. Bronislaw Malinowski (1884-1942). In: Raison, T., org. Os precursores das ciências sociais. RJ, Zahar.

17 setembro 2026

Descobri-a numa casa da rua da Atalaia


Descobri-a numa casa da rua da Atalaia quando
pelos dias do inverno vou a caminho das aulas.
Por detrás dos vidros tem a tonalidade do marfim.
Julgo reconhecer a deusa indiana Laksmi neste

produto indo-português de fim de império. O
rosto surge-me sempre iluminado pelo castanho dos
olhos. Sorrindo prende nos dedos um brinco
é o adereço da sua nudez.

Ladeiam-na duas mulheres. São em mais pequeno
as suas próprias formas. Cariátides servindo de
criadas quase as sei lançando água sobre a cabeça
da deusa, criatura mortal.

O pouco que sabemos das terras acabando no porto
de Lisboa é a presença desta suave puta.
Esqueço o comércio das aulas e faço das ruas do
Bairro Alto estradas caravaneiras levando aos

portos da Síria ao Golfo Pérsico ao mar de Eritreia.
E tenho, todas as manhãs, a presença deste objecto
de arte, de arte da Índia.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1979.

16 setembro 2026

A difusão de inovações

Alpina Begossi

Na Ilha de Búzios, três pescadores irmãos foram classificados por outros pescadores (em entrevistas) como os mais bem-sucedidos pescadores. Eles foram também os primeiros a utilizar a lambreta e ensinaram outros pescadores a usar a lambreta para pescar enchova. Estes ‘inovadores’ aprenderam sobre o uso da lambreta [com] pescadores de fora da ilha: viram alguns pescadores usando esse tipo de anzol e tendo boas pescarias. Eles decidiram tentar e adotaram esta inovação (um caso de tendência direta). Um segundo grupo de pescadores [adotou] a lambreta porque [assim] estariam a imitar os pescadores ‘bem-sucedidos’ (um caso de tendência indireta). O último grupo a adotar a lambreta afirmou usá-la porque a maioria dos pescadores da ilha o estavam [a fazer]. Consequentemente, eles consideraram que a lambreta deveria ser uma boa técnica para pescar a enchova (um caso de tendência dependente da frequência).

Fonte: Begossi, A. 2006. Métodos e análises em ecologia de pescadores. In: I. Garay & B. K. Becker, orgs. Dimensões humanas da biodiversidade. Petrópolis, Vozes. Uma nota sobre a autora (AB) pode ser lida aqui.

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