03 março 2021

O desafio do futuro

Harrison Brown

Se quiséssemos viver amontoados, comer alimentos que pouco se parecessem com os que comemos hoje e ficar privados das simples mas agradáveis comodidades tais como lareiras, jardins e gramados, uma população mundial de 50 bilhões de pessoas não seria impossível. E se quiséssemos dedicar-nos ao problema, poderíamos construir ilhas flutuantes onde o povo pudesse viver e onde funcionariam fazendas de algas e talvez 100 bilhões de pessoas pudessem viver. Se estabelecêssemos limites rígidos para as atividades físicas, de maneira que as necessidades calóricas pudessem ser mantidas em níveis muito baixos, talvez pudéssemos manter 200 bilhões de pessoas.

Fonte: Hardin, G., org. 1967. População, evolução & controle da natalidade. SP, Nacional & Edusp. Excerto de livro publicado em 1954.

01 março 2021

No ritmo atual, o país irá contabilizar 291 mil mortes até 28/3

Felipe A. P. L. Costa [*].

RESUMO. – Este artigo atualiza as estatísticas mundiais a respeito da pandemia da Covid-19 divulgados na semana passada (aqui). No caso específico do Brasil, o artigo também atualiza os valores das taxas de crescimento (casos e mortes) divulgados em artigo anterior (aqui). Estes dois parâmetros (sozinhos ou combinados) servem como um guia apropriado e confiável para se monitorar o rumo e o ritmo da pandemia (diferentemente da média móvel, por exemplo). Entre 4/1 e 28/2, as taxas ficaram em 0,56% (casos) e 0,47% (mortes). Nesse ritmo, o país irá contabilizar um total de 12.324.278 casos e 290.746 mortes até o último domingo de março (28/3). Só há um jeito de impedir que estas projeções se confirmem: adotar medidas efetivas de proteção e confinamento.

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1. A SITUAÇÃO MUNDIAL.

Levando em conta as estatísticas obtidas no início da tarde desta segunda-feira (1/3) [1], eis aqui um resumo da situação mundial.

(A) Em números absolutos, os 20 países [2] mais afetados estão a concentrar 79% dos casos (de um total de 114.223.289) e 82% das mortes (de um total de 2.533.129) [3].

(B) Entre esses 20 países, a taxa de letalidade segue em 2,3%. A taxa brasileira segue em 2,4%. (Outros três países da América do Sul que estão no topo da lista têm taxas de letalidade equivalentes ou ainda piores: Argentina, 2,5%; Colômbia, 2,7%; e Peru, 3,5%.)

(C) Nesses 20 países, 65,9 milhões de indivíduos receberam alta, o que corresponde a 71% dos casos. Em escala global, 84,2 milhões de indivíduos já receberam alta.

2. O RITMO ATUAL DA PANDEMIA NO PAÍS.

Ontem (28/2), de acordo com o Ministério da Saúde, foram registrados em todo o país mais 34.027 casos e 721 mortes. Teríamos chegado assim a um total de 10.551.259 casos e 254.942 mortes [4].

Em números absolutos, as estatísticas registradas na semana passada (22-28/2) foram as mais assombrosas deste o início da pandemia.

Foram 383.085 novos casos – o recorde anterior era de 382.309 casos (11-17/1/2021). Foi a 13ª semana com mais de 300 mil novos casos, oito das quais foram registradas em 2021.

E foram 8.438 mortes – o recorde anterior era de 7.711 (8-14/2/2021). Foi a 15ª semana com mais de 7 mil mortes, sete das quais foram registradas em 2021 [5].

3. TAXAS DE CRESCIMENTO.

Como já comentei em vários artigos anteriores, o jeito certo de monitorar o rumo e o ritmo de uma epidemia (ou pandemia, como é o caso de agora) exige que examinemos algum parâmetro que nos informe sobre a dinâmica da disseminação da doença. É o caso das taxas de crescimento no número de casos e de mortes [6].

Vejamos os resultados mais recentes.

Em comparação com as médias da semana anterior (15-21/2), as médias da semana passada (22-28/2) escalaram. E de modo apreciável (ver a figura que acompanha este artigo).

A taxa de crescimento no número de casos subiu de 0,48% (15-21/2) para 0,53% (22-28/2) – o maior percentual nas últimas quatro semanas.

Já a taxa de crescimento no número de mortes subiu de 0,43% (15-21/2) para 0,48% (22-28/2) – também o maior percentual nas últimas quatro semanas [7, 8].

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FIGURA. O comportamento das médias semanais das taxas de crescimento no número de casos (pontos em azul escuro) e no número de óbitos (pontos em vermelho escuro) em todo o país (valores expressos em porcentagem), entre 28/6/2020 e 28/2/2021. (Valores acima de 2% não são mostrados.) As médias mais baixas das duas séries (casos e mortes) foram observadas entre 11/10 e 8/11, razão pela qual o período é referido aqui como o ‘melhor mês’. Logo em seguida, porém, note como as duas nuvens de pontos experimentaram rupturas e mudaram de rumo. E note como o apagão que houve na divulgação das estatísticas, na segunda quinzena de dezembro, rebaixou artificialmente as duas trajetórias.

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4. CODA.

Levando em conta qualquer uma das taxas, mas em especial a de mortes, nós podemos concluir que o país está com os dois pés afundados na lama desde 3/1/2021. Vejamos os números.

Entre 4/1 e 28/2, a média da taxa de crescimento no número de novos casos ficou em 0,56%. (As médias semanais oscilaram entre 0,46% e 0,67%.)

No mesmo período, a média da taxa de crescimento no número de mortes ficou em 0,47%. (As médias semanais oscilaram entre 0,43% e 0,51%.)

Nesse ritmo, o país irá contabilizar 12.324.278 casos e 290.746 mortes até o último domingo de março (28/3). (Caso as taxas subam, as estatísticas serão ainda piores.)

Chiliques, mentiras e mau hálito não impedirão que o vírus continue a circular livremente entre nós. A rigor, só há um jeito de impedir que as projeções acima se confirmem [9]: adotar medidas efetivas de proteção e confinamento.

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NOTAS.

[*] Para detalhes e informações sobre o livro mais recente do autor, O que é darwinismo (2019), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, faça contato pelo endereço meiterer@hotmail.com. Para conhecer outros livros e artigos, ver aqui.

[1] Vale notar que certos países atualizam suas estatísticas uma única vez ao longo do dia; outros atualizam duas vezes ou mais; e há uns poucos que estão a fazê-lo de modo mais ou menos errático. Alguns países europeus (e.g., Suécia, Suíça e Espanha) insistem em não divulgar as estatísticas em feriados e fins de semana. A julgar pelo que informam os painéis, o comportamento da Suécia tem sido particularmente surpreendente e vexatório. No âmbito da América do Sul, o destaque negativo segue por conta do Peru. Acompanho as estatísticas mundiais em dois painéis, Mapping 2019-nCov (Johns Hopkins University, EUA) e Worldometer: Coronavirus (Dadax, EUA).

[2] Os 20 primeiros países da lista podem ser arranjados em cinco grupos: (a) Entre 28 e 30 milhões de casos – Estados Unidos; (b) Entre 10 e 12 milhões – Índia e Brasil; (c) Entre 4 e 6 milhões – Rússia e Reino Unido; (d) Entre 2 e 4 milhões – França, Espanha, Itália, Turquia, Alemanha, Colômbia, Argentina e México; e (e) Entre 1 e 2 milhões – Polônia, irã, África do Sul, Ucrânia, Indonésia, Peru e Tchéquia.

[3] Para detalhes e discussões a respeito do comportamento da pandemia desde março, em escala mundial e nacional, ver os quatro volumes da coletânea A pandemia e a lenta agonia de um país desgovernado (aqui, aqui, aqui e aqui).

[4] Compare estas estatísticas com as projeções feitas em artigo anterior (aqui).

[5] O que equivale a uma média diária superior a 1 mil óbitos/dia.

[6] Arrisco dizer que a pandemia chegará ao fim sem que a imprensa brasileira (grande parte dela, ao menos) se dê conta de que está monitorando a pandemia de um jeito, digamos, desfocado – além de burocrático e bastante superficial. Para capturar e antever a dinâmica de processos populacionais, como é o caso da disseminação de uma doença contagiosa, devemos recorrer a um parâmetro que tenha algum poder preditivo. Não é o caso da média móvel. Mas é o caso da taxa de crescimento – seja do número de casos, seja do número de mortes. De resto, trata-se de um parâmetro de fácil computação (ver a nota 8).

[7] Entre 19/10 e 28/2, as médias semanais exibiram os seguintes valores: (1) casos: 0,43% (19-25/10), 0,4% (26/10-1/11), 0,3% (2-8/11), 0,49% (9-15/11), 0,5% (16-22/11), 0,56% (23-29/11), 0,64% (30-6/12), 0,63% (7-13/12), 0,68% (14-20/12), 0,48% (21-27/12), 0,47% (28/12-3/1), 0,67% (4-10/1), 0,66% (11-17/1), 0,59% (18-24/1), 0,57% (25-31/1), 0,49%(1-7/2), 0,46% (8-14/2), 0,48% (15-21/2) e 0,53% (22-28/2); e (2) mortes: 0,3% (19-25/10), 0,26% (26/10-1/11), 0,21% (2-8/11), 0,3% (9-15/11), 0,29% (16-22/11), 0,3% (23-29/11), 0,34% (30-6/12), 0,36% (7-13/12), 0,42% (14-20/12), 0,33% (21-27/12), 0,36% (28/12-3/1), 0,51% (4-10/1), 0,47% (11-17/1), 0,48% (18-24/1), 0,48% (25-31/1), 0,44%(1-7/2), 0,47% (8-14/2), 0,43% (15-21/2) e 0,48% (22-28/2).

[8] Sobre o cálculo das taxas de crescimento, ver as referências citadas na nota 3.

[9] Como escrevi em artigos anteriores, os efeitos da vacinação só serão percebidos – na melhor das hipóteses – quando mais da metade dos brasileiros tiver sido vacinada. Uma meta que, no ritmo atual, levará alguns anos para ser alcançada... E mais: Devemos tomar cuidado com as armadilhas mentais que cercam a campanha de vacinação. Três das quais seriam as seguintes: (1) a imunização individual não é instantânea nem nos livra de continuar adotando as medidas de proteção social (e.g., distanciamento espacial e uso de máscara); (2) a imunização coletiva só será alcançada depois que a maioria (> 75%) da população tiver sido vacinada; e (3) a população brasileira é grande, de sorte que a campanha irá demorar vários meses (mais de um ano, talvez).

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28 fevereiro 2021

A raiz quadrada de xis ao quadrado

Felipe A. P. L. Costa [*].

Quatro perguntas (visando instigar os jovens estudantes que estão a se preparar para ingressar na universidade):

(1) A raiz quadrada de xis ao quadrado é
(a) 0
(b) 1
(c) 2
(d) x
(e) x ao quadrado

(2) Qual a diferença entre átomo e molécula?

(3) O elemento químico mais abundante (em massa) em nosso corpo é o/a
(a) H
(b) C
(c) O
(d) N
(e) água

(4) João e José são irmãos. João tem 25 anos e 1,7 m de altura. José tem 23 anos e 1,8 m de altura. Assinale a explicação mais provável para a diferença de altura entre os dois.
(a) Número de células – O mais alto tem mais células no corpo.
(b) Tamanho das células – O mais alto tem células maiores.
(c) Idade – Os irmãos mais novos sempre são os mais altos.
(d) Trauma – O irmão mais baixo tem complexo de inferioridade.
(e) Não há explicação. Trata-se de um acidente de amostragem.

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Notas.

[*] O autor está a finalizar um novo livro, A força do conhecimento & outros ensaios: Um convite à ciência (ver amostras aqui, aqui, aqui e aqui). Há uma campanha de comercialização em curso envolvendo os quatro livros anteriores do autor – para detalhes, ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para conhecer outros artigos e livros, ver aqui.

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26 fevereiro 2021

Seis poetas


Giorgio Vasari (1511-1574). Sei poeti toscani. 1544.

Fonte da foto: Wikipedia.

24 fevereiro 2021

Grito

Edson Guedes de Morais

Desespero de sentir
a vida se esvaindo,
torneira aberta
sobre um chão de pedra.

Que flor vai nascer?

O gesto não muda
o sentido do vento;
a folha não fica
parada no ar.

A gente se engana
com a falsa esperança
que um dia se mude
o curso do rio,
e nada se faz:

fica-se olhando
o mar nos chamando,
sem nada que nos detenha,
sem coragem para o salto.

Na esquina, há uma loja
que vende pássaros.

Fonte (penúltima estrofe): Horta, A. B. 2016. Do que é feito o poeta. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1956.

22 fevereiro 2021

De onde viemos?

John Gribbin

A pergunta ‘de onde viemos?’ é a mais profunda de todas as perguntas possíveis de fazer, e a capacidade de fazê-la é um critério tão bom quanto qualquer outro dos usados para distinguir entre a espécie inteligente e as não inteligentes. Essa curiosidade se estende ao nosso meio imediato, pois as origens do homem não podem ser consideradas isoladamente; são parte de um mistério maior, que abrange as origens da vida na Terra e o lugar da Terra no Universo de estrelas e galáxias que vemos à nossa volta. Um urso, digamos, pode ter um interesse natural no fato de as abelhas fabricarem mel e nidificarem em árvores, mas, tanto quanto sabemos, não pondera nos mistérios de por que as abelhas nidificam em árvores, nem especula a explicação da forma hexagonal das células que compõem o favo. É um traço distintivo e exclusivo da vida humana, no que respeita à vida da Terra, indagar o onde e o como das nossas origens e das do que nos cerca, bem como (com bem menos êxito) o porquê de ser o Universo o que é.

Fonte: Gribbin, J. 1983 [1981]. Gênese: As origens do homem e do Universo. RJ, Francisco Alves.

20 fevereiro 2021

Ignotus

Abgar Renault

Eu não sei quem Tu és. Mas sei que Tu existes,
e sei que és Tu que acendes as estrelas lá no Alto,
e o lume, às vezes, da alegria na pobreza dos meus olhos tristes.

Eu não Te vejo, eu não Te falo, senão no silêncio secular
das noites insones e profundas, em que meu corpo se apaga,
e minha alma é uma chama inquieta a crepitar...

Eu Te quero e Te temo, pávido, esquivo e ansioso... E pela vida inteira,
se Te fujo – olhos sem luz para não ver-Te, ouvidos surdos para não Te ouvir
sinto o Teu esplendor doer na minha tórpida cegueira,

e ouço o rumor augural dos remos do Teu barco, lento e lento
a ferir, com seu ritmo de Absoluto,
a água noturna do meu pensamento...

Fonte: Horta, A. B. 2003. Sob o signo da poesia. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1983.

18 fevereiro 2021

In no strange land

Francis Thompson

The Kingdom of God is within you.

O world invisible, we view thee,
O world intangible, we touch thee,
O world unknowable, we know thee,
Inapprehensible, we clutch thee!

Does the fish soar to find the ocean,
The eagle plunge to find the air –
That we ask of the stars in motion
If they have rumour of thee there?

Not where the wheeling systems darken,
And our benumbed conceiving soars! –
The drift of pinions, would we hearken,
Beats at our own clay-shuttered doors.

The angels keep their ancient places; –
Turn but a stone, and start a wing!
’Tis ye, ’tis your estrangèd faces,
That miss the many-splendoured thing.

But (when so sad thou canst not sadder)
Cry; – and upon thy so sore loss
Shall shine the traffic of Jacob’s ladder
Pitched betwixt Heaven and Charing Cross.

Yea, in the night, my Soul, my daughter,
Cry, – clinging Heaven by the hems;
And lo, Christ walking on the water,
Not of Genesareth, but Thames!

Fonte (v. 1-2, 19-20 e 23-24): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 4. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1908.

15 fevereiro 2021

Judite com a cabeça de Holofernes


Cristofano Allori (1577-1621). Giuditta con la testa di Oloferne. ~1612.

Fonte da foto: Wikipedia. (Há mais de uma versão desse quadro.)

13 fevereiro 2021

A urbanização da humanidade

Kingsley Davis

[O] obstáculo mais importante ao crescimento das cidades no passado foi a excessiva mortalidade. A água de Londres, na metade do século XIX, provinha principalmente de poços e rios poluídos. A cidade era regularmente assolada pelo cólera. Estatísticas de 1841 mostram uma expectativa de vida de cerca de 36 anos para Londres e 26 anos para Liverpool e Manchester, ao passo que para a Inglaterra e País de Gales, em sua totalidade, a expectativa era de 41 anos. Depois de 1850, [em] decorrência de medidas sanitárias e melhoria da nutrição e moradia, a expectativa média de vida elevou-se sensivelmente, mas mesmo assim no período compreendido entre 1901 e 1910 a proporção de óbitos nos municípios urbanos da Inglaterra e do País de Gales era 33% mais elevada do que a dos municípios rurais. Bernard Benjamin, estatístico do British General Register Office, notou: “Morar na cidade acarretava não apenas um maior risco de ser contaminado por uma epidemia... mas, também, um risco maior de contrair outras doenças decorrentes do árduo trabalho nas fábricas e no próprio desconforto urbano”. Em 1950, entretanto, a diferença notada praticamente terminara.

Fonte: Davis, K. 1977 [1967]. In: Vários. Cidades: A urbanização da humanidade. RJ, Zahar.

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