10 março 2026

The man with the hoe

Edwin Markham

Written after seeing Millet’s world-famous painting

God made man in His own image,
in the image of God made He him.
– Genesis.

Bowed by the weight of centuries he leans
Upon his hoe and gazes on the ground,
The emptiness of ages in his face,
And on his back the burden of the world.
Who made him dead to rapture and despair,
A thing that grieves not and that never hopes,
Stolid and stunned, a brother to the ox?
Who loosened and let down this brutal jaw?
Whose was the hand that slanted back this brow?
Whose breath blew out the light within this brain?

Is this the Thing the Lord God made and gave
To have dominion over sea and land;
To trace the stars and search the heavens for power;
To feel the passion of Eternity?
Is this the Dream He dreamed who shaped the suns
And marked their ways upon the ancient deep?
Down all the stretch of Hell to its last gulf
There is no shape more terrible than this –
More tongued with censure of the world’s blind greed –
More filled with signs and portents for the soul –
More fraught with danger to the universe.

What gulfs between him and the seraphim!
Slave of the wheel of labor, what to him
Are Plato and the swing of Pleiades?
What the long reaches of the peaks of song,
The rift of dawn, the reddening of the rose?
Through this dread shape the suffering ages look;
Time’s tragedy is in that aching stoop;
Through this dread shape humanity betrayed,
Plundered, profaned and disinherited,
Cries protest to the Judges of the World,
A protest that is also prophecy.

O masters, lords and rulers in all lands,
is this the handiwork you give to God,
This monstrous thing distorted and soul-quenched ?
How will you ever straighten up this shape;
Touch it again with immortality;
Give back the upward looking and the light;
Rebuild in it the music and the dream;
Make right the immemorial infamies,
Perfidious wrongs, immedicable woes?

O masters, lords and rulers in all lands,
How will the Future reckon with this Man?
How answer his brute question in that hour
When whirlwinds of rebellion shake the world?
How will it be with kingdoms and with kings –
With those who shaped him to the thing he is –
When this dumb Terror shall reply to God,
After the silence of the centuries?

Fonte (v. 1-4, em port.): Gould, S. J. 1991 [1981]. A falsa medida do homem. SP, Martins Fontes. Excerto de livro originalmente publicado em 1921.

09 março 2026

Instintos selvagens

Ernest Jones

[Evans] – Qual é exatamente a natureza dessas tendências inatas influindo sobre a moralidade social, a que Freud se refere como superego? Devemos acreditar que o homem já nasce com as proibições inerentes, sobre sua existência social?

[Jones] – É difícil provar ou demonstrar coisas desse tipo. Diria que é muito provável, porque não creio que todo o superego venha de pressões externas. Acho que alguma coisa vem de dentro. A criança nasce com impulsos muito mais selvagens do que os que temos quando já somos crescidos. Ela não só tem [de] aprender a controlá-los e guiá-los em certas direções, por razões sociais, mas também por razões pessoais, pois alguns deles são muito prejudiciais a si própria, muito destrutivos para si ou para alguém que ela ama. Em outras palavras, há perigos vindos tanto de dentro quanto de fora; assim, há uma necessidade de controlar, reprimir ou fazer alguma coisa a respeito destes perigos internos. Parece-me muito provável que esse controle seja inato, por razões biológicas de sobrevivência.

Fonte: Evans, R. I. 1979 [1976]. Construtores da psicologia. SP, Summus & Edusp. Trecho de livro originalmente publicado em 1964.

06 março 2026

Ninguém vai chorar pelo fim do Estadão

Felipe A. P. L. Costa

Em 28/2, o jornal o Estado de S.Paulo – um dos porta-vozes da Faria Lima, o epicentro da corrupção brasileira (e.g., aqui) – teve a audácia de publicar um editorial intitulado “Ninguém vai chorar pelo Irã”. Em uma sanha alucinada, o editorialista alinhou uma série de acusações levianas contra o Irã. Ignorância, má-fé ou um pouco dos dois?

A imprensa brasileira é pródiga em publicar meias-verdades, sobretudo contra quem está longe e não pode reagir. Isso em geral é feito de má-fé, por jornalistas sem caráter (e.g., aqui). Mas é também o modus operandi da extrema direita sionista. O propósito aí é camuflar os crimes diários cometidos pelo estado de Israel, liderado hoje por um autocrata corrupto e sanguinário (e.g., aqui e aqui). Veja: militares israelenses (ou até mesmo colonos que vivem em territórios ocupados) estão sempre a “atirar por engano” contra algum alvo civil (jornalistas, inclusive), seja em Gaza, na Cisjordânia, no Líbano ou agora no Irã.

No mesmo dia 28, aliás, 153 civis foram mortos após um ataque a uma escola primária em Minab, uma pequena cidade (~70 mil habitantes) localizada no sul do Irã. Quase todas as vítimas eram meninas pequenas – mas isso não tem importância, pois elas seguramente eram filhas de “gente doente, raivosa, louca”, para usar as palavras do Pedófilo da Casa Branca (ver aqui e aqui). E todas elas certamente iriam se transformar em adultos igualmente “doentes, raivosos, loucos”.

O editorial do Estadão é uma peça asquerosa em vários aspectos. Mas é, sobretudo, uma peça de propaganda política. Estivéssemos a falar de um jornal sério e decente, uma peça pornográfica como essa não teria sido publicada. Ou, na hipótese de que fosse publicada às escondidas (digo: sem conhecimento prévio dos editores), o autor seria sumariamente demitido. E demitido por justa causa: afinal, trata-se também de uma peça racista e, de acordo com a legislação brasileira, racismo é crime. Ao publicar esse tipo de material, portanto, o Estadão não só desrespeita os seus minguados leitores como também estimula um crime. (Por muito menos do que isso, aliás, o Ministério Público abriu recentemente um processo milionário contra a Rede Globo – aqui.)

Fundado ainda na segunda metade do século 19, o Estado de S.Paulo dá sinais de que é um jornal decrépito. Além de leitores, falta-lhe o bom jornalismo. Conheço gente que diz que se trata de um morto-vivo à beira da extinção. Ora, a se concretizar esse prognóstico, ouso dizer aqui que “ninguém vai chorar pelo fim do Estadão”.

* * *

04 março 2026

O espírito e o tempo

Paulo Teixeira

Pudesse elevar-se o espírito acima do tempo,
ser o mundo só um espetáculo comovente,
qualquer coisa de especioso abaixo das nuvens,
onde a luz ao incidir fosse pura estesia.

Estábulo onde fechados esperamos o drama
por encerrar no presente espaçoso que é nosso:
chaminés, gólgotas, campos de batalha,
domínio de prazer forense, breve e matizado

pela dor, onde, providos de um costume,
fomos instruídos em verdades que se ocultam
e sem outra instância de apelação que a morte,
em busca de conforto pelo fim do dia.

Pudesse elevar-se o espírito acima do tempo,
consigo levando nos dedos um pouco de terra queimada;
por pudor não olhasse em baixo o mundo,
já sem relógio e informes profecias,

envolto em luz espectral e fundado no que não existe.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1997.

02 março 2026

Unidades de conservação

Maria Cecília Wey de Brito

A pressão sobre os recursos naturais é contínua e intensa. A conservação desses recursos em seu estado natural, e in situ, que é a característica primordial das unidades de conservação, não tem demonstrado com clareza, à população em geral, os benefícios (inclusive econômicos) que pode trazer. O desconhecimento desses benefícios pela sociedade, aliado à baixa performance administrativa das instituições de tutela das unidades (causada principalmente pela falta de clareza das missões e falta de auto-avaliação periódica), ajuda a reforçar a postura do Poder Público de tratar essa questão de forma marginal, principalmente no que se refere à disposição de recursos e definição de outras políticas públicas relacionadas.

Esse tratamento marginal não colabora com a melhoria do desempenho dessas instituições, além de reforçar a dificuldade para o estabelecimento de novas unidades (importantes para se compor com mais igualdade o total de hectares protegidos por biomas). Independentemente da qualidade administrativa que o Poder Público imprime às unidades, a dificuldade do aumento de seu número também é devida ao esgotamento das possibilidades de se encontrar terras de dominío público, em bom estado de conservação e sem ocupação humana, qualidades que se tem buscado privilegiar no estabelecimento de novas unidades. Depreende-se, portanto, a necessidade de se encontrar parceiros sociais, que colaborem com a conservação da biodiversidade.

Todavia, é bem provável que esse padrão permanecerá vigente, não devendo, portanto, ser imediato o seu esgotamento, devido, em grande parte, à própria inércia das instituições do Poder Público. Essas provavelmente continuarão se utilizando, por bom tempo, dos conceitos e metodologias aqui arrolados. E mesmo que fosse possível propor sua imediata revisão, ela esbarraria em sérias dificuldades.

Sugere-se que este padrão tenda ao esgotamento e que se deve proceder à sua revisão, para que avanços alcançados na conservação da biodiversidade não sejam postos em risco.

Fonte: Brito, M. C. W. 1998. Unidades de conservação: intenções e resultados. In: Veiga, J. E., org. Ciência ambiental: Primeiros mestrados. SP, Annablume & Fapesp.

28 fevereiro 2026

Sob as Cataratas do Niágara


[Joachim] Ferdinand Richardt (1819-1895). Underneath Niagara Falls. 1862.

Fonte da foto: Wikipedia.

27 fevereiro 2026

Processos erosivos básicos

Antônio José Teixeira Guerra

A erosão do solo é um processo que ocorre em duas fases: uma que constitui a remoção (detachment) de partículas, e outra que é o transporte desse material, efetuado pelos agentes erosivos. Quando não há energia suficiente para continuar ocorrendo o transporte, uma terceira fase acontece, que é a deposição desse material transportado. Os processos resultantes da erosão pluvial estão intimamente relacionados aos vários caminhos tomados pela água da chuva, na sua passagem através da cobertura vegetal, e ao seu movimento na superfície do solo. [...]

A taxa de infiltração, que é o índice que mede a velocidade com que a água da chuva se infiltra no solo [...], exerce importante papel sobre o escoamento superficial. Essa água se infiltra no solo, por força de gravidade e capilaridade, e cada partícula do solo é envolvida por uma fina película de água. Durante um evento chuvoso, os espaços entre as partículas são preenchidos por água, e as forças capilares decrescem. Consequentemente, as taxas de infiltração são mais rápidas no começo da chuva e diminuem até atingir o máximo que o solo pode absorver. Essa taxa máxima é a capacidade de infiltração, que corresponde à condutividade hidráulica saturada do solo. [...]

De acordo com Horton (1945), se a intensidade da chuva for menor do que a capacidade de infiltração do solo, não haverá runoff (fluxo hortoniano). Mas, se a intensidade da chuva exceder a capacidade de infiltração, ocorrerá runoff. Como um mecanismo gerador de runoff, esta comparação entre intensidade da chuva e capacidade de infiltração nem sempre se aplica. Estudos de Morgan (1977), na Inglaterra, em solos arenosos, mostraram que a capacidade de infiltração é maior do que 400 mm/h e que as intensidades de chuva raramente ultrapassam 40 mm/h. Nesse caso, não ocorreria runoff, nesses solos, pois a intensidade da chuva não excede a capacidade de infiltração. Mas, na realidade, o volume médio anual de runoff nessa região inglesa é de 55 mm, e a média anual de chuva é de 550 mm. O fator controlador da produção de runoff, nesse caso, não é a capacidade de infiltração, mas um teor limitante de umidade dos solos, que resulta do encharcamento dos mesmos. Isso explica por que certos solos arenosos, com baixa capacidade de armazenamento capilar, produzem runoff muito rapidamente, mesmo que sua superfície de infiltração não tenha sido excedida pela intensidade da chuva.

Fonte: Guerra, A. J. T. 1998. Processos erosivos nas encostas. In: Guerra, A. J. T. & Cunha, S. B., orgs. Geomorfologia: Uma atualização de bases e conceitos, 3ª ed. RJ, Bertrand.

25 fevereiro 2026

Flor carnívora

B. Lopes

A amaríssima flor de teu encanto,
De um magnetismo trágico e pressago,
É um negro lótus de letal quebranto
Sobre as águas mortíferas de um lago.

Sombras, segredos e mistério vago
Há na tua expressão, que punge tanto!
Como que tens coberto o vulgo mago
De um tenebroso e doloroso manto!

Ris, e o teu riso um pavor frio espalha!
Flecha de gelo, que, zunindo, parte
Para fazer de um sonho uma mortalha...

Flor carnívora! Oh! trágica saudade!
Para que vivas, flor, sei que vou dar-te
Todo o sangue de minha juventude.

Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1901. 
‘B. Lopes’ é a assinatura literária de Bernardino [da Costa] Lopes.

23 fevereiro 2026

Elegia no. 2

Mauro Mota

Eternizo os teus últimos instantes:
quero esquivar-te ao derradeiro arquejo;
quero que, aos meus ouvidos, ainda cantes
nossa canção de amor, quero; desejo

ter-te ao meu lado como tinha dantes.
Na fronte exausta, do outro mundo um beijo
sinto. Foi de tua alma. Bem distantes,
seus cabelos castanhos soltos vejo.

Tinha a certeza de que voltarias.
Ouviste a minha voz, e de mãos frias
chegas ansiosa! (Foi tão longa a viagem!)

Que palidez na face! Inutilmente
busco abraçar-te: Foges, que és somente
sombra, perfume, ressonância, imagem.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1952.

22 fevereiro 2026

La fotosíntesis es el proceso dominante en la Tierra

Ernest J. DuPraw

Rabinowitch (1945) calculó que sólo el 0,24% de la energía radiante que alcanza la Tierra es convertida en sustratos biológicos; por lo tanto, energéticamente hablando, la fotosíntesis (y hasta toda actividad biológica) es muy poco más que un pequeño capricho en la economía energética del sistema solar. Desde el punto de vista químico, la fotosíntesis es el proceso dominante en la Tierra. Rabinowitch calculó que, en efecto, las plantas “renueven todo el oxígeno del aire en poco más de dos mil años, y descomponen toda el agua de los océanos en unos dos millones de años”. Incluso, podrían acabar con todo el carbono disponible en 300 ó 400 años si éste no fuera reforzado por la respiración animal y por la descomposición (¡el anhídrido carbónico de la atmósfera, excluyendo los carbonatos solubles, sería suficiente tan sólo para 10 años!).

Fonte; DuPraw, E. J. 1971 [1969]. Biología celular y molecular. Barcelona, Omega.

eXTReMe Tracker