12 abril 2026

Insuficiência renal

F. Ponce de León

Quando os rins não funcionam bem, o corpo acumula toxinas, os parâmetros saem dos trilhos e o indivíduo pode ir a óbito. Embora seja possível viver com um único rim, a maioria de nós nasceu com dois. Ocorre que às vezes eles entram em choque, como no caso reproduzido abaixo, envolvendo um rim civilizado (esquerdo) e um rim libertário (direito):

Esquerdo: “Eu quero o meu!”
Direito: “Eu quero o meu e quero ter a liberdade de tomar o seu!”

Esquerdo: “Eu não gosto de você!”
Direito: “Eu não gosto de você e quero ter a liberdade de destruí-lo!”

19 anos e meio no ar

F. Ponce de León

Neste domingo, 12/4, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e meio no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e cinco meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Christopher R. Brannigan, Cláudio Palmério do Amaral, Fernando Santiago dos Santos, John Elliott, Kevin Connolly, Marjorie Greene e Nelson Ferreira Fernandes. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Friedrich Overbeck, J. L. Lund e Sohrab Sepehri.

08 abril 2026

Troncos de árvores


Sohrab Sepehri (1928-1980). Obra sem título (integra a série The Tree Trunk). 1972.

Fonte da foto: Wikipedia.

07 abril 2026

How our ancestors tracked their prey

Thomas H. Huxley

[C]onsider that every time a savage tracks his game he employs a minuteness of observation, and an accuracy of inductive and deductive reasoning which, applied to other matters, would assure some reputation to a man of science, and I think we need ask no further why he possesses such a fair supply of brains. In complexity and difficulty, I should say that the intellectual labour of a ‘good hunter or warrior’ considerably exceeds that of an ordinary Englishman.

Fonte (em port.): Sagan, C. 1998 [1996]. O mundo assombrado pelos demônios. SP, Companhia das Letras. Trecho de artigo publicado em 1871.

06 abril 2026

A mão humana: evolução e ontogênese

Kevin Connolly & John Elliott

A mão humana pode ser utilizada para empurrar ou bater em objetos, por exemplo, e não apenas para a locomoção e para a preensão. Os dedos podem ser utilizados para cutucar, para arranhar etc. Basicamente, no entanto, a mão está adaptada para a preensão. Os elementos esqueléticos consistem de três grupos de ossos – as falanges ou ossos dos dedos, os metacarpos ou ossos da mão e os carpos ou ossos do pulso. Os carpos servem como um elo firme, mas elástico, entre os ossos do braço e os ossos da mão. A forma de articulação dos metacarpos com as falanges está estreitamente relacionada com a eficiência e a mobilidade dos dedos. No homem, o polegar tem maior mobilidade do que os dedos em função da natureza da articulação entre os ossos da mão e do punho. A superfície palmar do polegar pode voltar-se para a palma da mão, o que em conjunto com a natureza da articulação carpo-metacarpo resulta na oponibilidade do polegar aos dedos. Esta oposição é a base da mobilidade e da destreza apresentadas pela mão humana.

Fonte: Connolly, K. & Elliott, J. 1981 [1972]. In: N. Blurton Jones, ed. Estudos etológicos do comportamento da criança. SP, Pioneira.

04 abril 2026

Mais clara, mais crua

Geraldo Carneiro

De noite, na rua, em frente ao parque
A minha solidão é sua
Decerto sei que você vaga em qualquer parte
Sob essa vaga lua

De noite alguém decerto te ampara
Por onde hoje você anda
Mas sem olhar sua ciranda louca
Daquele jeito que te desmascara

A noite esconde as cicatrizes
Esconde as carícias e os maus-tratos

Agora, bêbada, você estremece
Como se ainda não soubesse
Em frente à porta desse bar
Em que embarca sob essa vaga lua

E a luz da lua apura a nitidez da marca
Mais nua, mais clara, mais crua

Fonte: versão instrumental da música a
pareceu, sob o título de Palhaço, no álbum Circense (1979), de Egberto Gismonti; a versão integral – e a letra aqui reproduzida – consta do álbum Gozos da alma (2006), de Geraldo Carneiro.

01 abril 2026

Perto muito perto

Helder Moura Pereira

Chego ao pé do limite,
o corpo cansado
traz as setas
do sono e a noite
esconde a alegria.
Onde tudo acontece
passam as imagens,
pressinto as nuvens
sobre os navios, o eco
de sons de aviso.
Como se inquieta
a cabeça tocando outra
na luz atravessada
de luzes. Chego à ponta
dos dedos, à esquina
da memória, adormeço, não
adormeço, canto
para adormecer.
Tudo parte de baixo
para a paisagem
do tecto, alegro-me
porque não é preciso
falar. O que sentes
está aí tão à vista
desaba sobre os olhos
o falso espaço
da casa. E a manhã
perde a luz
que só havia nas palavras.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1986.

30 março 2026

Branco e vermelho, nº 2

Poh Pin Chin


Os raios de sol,
as gotas de chuva;
as montanhas
e a areia do mar.

Tudo tão branco,
tão diminuto, tão pouco, tão breve.

Só a dor é encarnada,
imensa, numerosa, duradoura.

29 março 2026

Itália e Germânia


[Johann] Friedrich Overbeck (1789-1869). Italien und Germania. 1828.

Fonte da foto: Wikipedia.

27 março 2026

Ó meu coração, torna para trás

Camilo Pessanha

Ó meu coração, torna para trás.
D’onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendidos que o pecado
Queimou... Voltai horas de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
– Cismai meus olhos como dois velhinhos...

Extintas primaveras evocai-as:
– Já vai florir o pomar das macieiras,
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. –

Sossegai, esfriai, olhos febris.
– E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis... –

Fonte (v. 10): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1920.

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