01 setembro 2026

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela

Fernando Pessoa

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...

Fonte (v. 1-2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em 1916.

31 agosto 2026

O soerguimento do Tibete

Nigel Harris

O platô [ou planalto] tibetano é o maior e mais elevado platô na superfície da Terra [...]. Sua extremidade sul é marcada pelo Himalaia e várias outras grandes cordilheiras asiáticas – Karakoram, Hindu Kush e Kunlun – decoram suas margens norte e oeste. Se o relevo continental pode afetar o clima global, essa é a região óbvia a ser estudada. Essa discussão sobre mudanças climáticas em escalas longas de tempo, de milhões de anos, começa com uma breve análise do clima nessa região nos dias de hoje. [...]


A elevação do platô tibetano é o resultado de uma colisão frontal entre as margens continentais de duas placas: a Índia, que estava migrando para o norte, e a Eurásia, que estava estacionada. A colisão, que foi datada em cerca de 50 Ma [milhões de anos], levou ao espessamento da crosta e ao soerguimento das montanhas e do platô do Himalaia. É razoável deduzir, portanto, que a maior parte do soerguimento ocorreu durante os últimos 50 Ma.

Fonte: Harris, N. 2011 [2008]. In: Cockell, C., org. Sistema Terra-vida: Uma introdução. SP. Oficina de Textos.

29 agosto 2026

Mantos de gelo

Antônio Carlos Rocha-Campos & Paulo R. Santos

Os exemplos mais espetaculares de mantos de gelo (na verdade, os únicos existentes atualmente) são os que cobrem a Antártica e a Groenlândia.

O manto de gelo da Antártica, com cerca de 14 milhões de km2
notabiliza-se por conter 91% do gelo de água doce e 75% da água doce do mundo. Em vários locais, sua espessura supera os 4.000 m. A morfologia do manto caracteriza-se pela presença de domos, regiões de topografia arredondada, mais salientes, a partir das quais o gelo flui radialmente pela gravidade. O manto de gelo da Groenlândia, por sua vez, cobre uma área de 1,7 milhão de km2, mais ou menos do tamanho do México, e retém cerca de 8% da água doce do planeta. Seu perfil é também convexo, parabólico, atingindo espessuras de mais de 3.000 m.

Fonte: Rocha-Campos, A. C. & Santos, P. R. 2000. In: Teixeira, W & mais 3, orgs. Decifrando a Terra. SP, Oficina de Textos.

27 agosto 2026

Constantinopla


Jacob [Jacobus Albertus Michael] Jacobs (1812-1879). Vue de Constantinople. 1842.


Fonte da foto: Wikipedia.

26 agosto 2026

Geometria grega

Papus de Alexandria

Os antigos consideravam três classes de problemas geométricos, chamados ‘planos’, ‘sólidos’ e ‘lineares’. Aqueles que podem ser resolvidos por meio de retas e circunferências de círculo são chamados ‘problemas planos’, uma vez que as retas e curvas que os resolvem têm origem no plano. Mas problemas cujas soluções são obtidas por meio de uma ou mais seções cônicas são denominados ‘problemas sólidos’, já que superfícies de figuras sólidas (superfícies cônicas) precisam ser utilizadas. Resta uma terceira classe, que é chamada ‘linear’ porque outras ‘linhas’, envolvendo origens diversas, além daquelas que acabei de descrever, são requeridas para a sua construção. Tais linhas são as espirais, a quadratriz, o conchoide, o cissoide, todas com muitas propriedades importantes.

Fonte: Roque, T. 2012. História da matemática. RJ, J Zahar. Excerto de obra escrita em ~320 dC.

25 agosto 2026

Televangelistas e o cinismo ilimitado

Joe Schwarcz

Robert Tilton era um dos mais populares televangelistas dos Estados Unidos (pelo menos até que o programa de televisão Primetime Live acabou com ele). O reverendo Tilton rezava por qualquer pessoa que enviasse um pedido por escrito, acompanhado de uma doação para uma de suas obras de caridade. O problema era que a maioria das obras de caridade não existia de fato. O rebanho de Tilton na verdade financiava casas luxuosas, uma lancha caríssima e até uma cirurgia plástica para o pregador. O reverendo não pôde negar as provas, mas deu uma desculpa interessante. Ele lera milhares de pedidos de orações, seu comportamento irracional podia ser atribuído, sem dúvida, às substâncias químicas da tinta em que foram impressos. A cirurgia plástica também foi necessária para corrigir o dano provocado em seu couro cabeludo por essas substâncias químicas. Quando à lancha de 130 mil dólares, ela era necessária para ajudar Tilton a relaxar depois do estresse químico que sofrera.


Fonte: Schwarcz, J. 2009 [1999]. Barbies, bambolês e bolas de bilhar. RJ, Jorge Zahar.

Uma mente educada


Uma mente educada deve estar preparada para o erro.

23 agosto 2026

Vidas roubadas, corpos escondidos

Ronald J. Glassner

Todo corpo em seu caixão deve sempre ter um acompanhante. Foi feito um esforço no sentido de se encontrar um acompanhante cujo envolvimento pessoal com o falecido, ou com a família do falecido, servirá como um conforto e uma ajuda. Sua missão como acompanhante é a seguinte: assegurar que o corpo receba sempre o respeito de um soldado caído do Exército dos Estados Unidos. Especialmente o seguinte: checar as etiquetas no caixão a cada ponto de desembarque. Insistir que as etiquetas indicam que os restos não podem ser vistos – que os parentes não vejam o corpo. Lembre-se de que não poder ver significa exatamente isto – não poder ver.


Fonte: Lifton, R. J. 1989. O futuro da imortalidade. SP, Trajetória Cultural. Excerto de livro originalmente publicado em 1971.

21 agosto 2026

O virologista que queria ser rei

F. Ponce de León

A mais recente edição da revista The New Yorker trouxe um artigo da jornalista Rachel Aviv, ‘The children a scientist took home’, no qual ela relata o trágico e vergonhoso caso de Daniel Carleton Gajdusek (1923-2008), pediatra, virologista laureado (Nobel de 1976) e... pederasta contumaz. (A edição de hoje da Folha de S.Paulo deu uma chamada para o caso, mas eu ainda não li essa matéria.)


O ‘vergonhoso’ referido acima fica por conta do silêncio e da conivência de muitos colegas (outros laureados, inclusive) diante dos crimes em série que o virologista estadunidense estava a cometer.


A carreira de Gajdusek como cientista inclui a identificação do agente etiológico (príons) de uma doença neurodegenerativa – fatal e até então misteriosa – chamada kuru. A doença, hoje controlada, já foi comum em certas tribos da Oceania. Já a carreira dele como pederasta inclui episódios com crianças trazidas da Nova Guiné e mantidas por ele nos EUA entre os anos 1960 e 1990. Nos anos 1980, ele foi investigado pela ‘polícia federal’ dos EUA, o FBI. Anos depois ele seria detido e preso, chegando a cumprir pena de um ano de reclusão.


Em 1998, quando saiu da prisão, o próprio Gajdusek se comparou ao escritor irlandês Oscar [Fingal O’Fflahertie Wills] Wilde (1854-1900). (Sob a acusação de ter praticado ‘atos homossexuais’, classificados como crime pela legislação britânica da época, mesmo em casos envolvendo adultos, Wilde permaneceu encarcerado entre 1895 e 1897.)


Assim que saiu da prisão, 
Gajdusek foi embora do país. Foi morar na Europa, estabelecendo residência em Amsterdã. Segundo Aviv, dois meses antes de morrer, em 2008, ele anotou em seu diário (tradução livre): “Levei a minha pederastia de longa data para a minha carreira médica e fui bem-sucedido em ambas, com raras exceções. Sem protetores, eu jamais teria sido bem-sucedido”.

A expressão ‘sem protetores’ me faz pensar não só na burocracia acadêmica, mas também em gente que o incensava, incluindo outros laureados, bajuladores de olho no Nobel e graúdos da divulgação científica, como o neurologista Oliver Sacks (1933-2015) e o físico Freeman Dyson (1923-2020), além de autoridades políticas, como a primeira dama da Jamaica e o presidente de Israel.

O artigo de Aviv (em inglês) é de livre acesso (ao menos por enquanto) e pode ser lido aqui. Um breve resumo da reportagem (também em inglês) pode ser visto aqui.

19 agosto 2026

Interior de estábulo


[Jean] Louis van Kuyck (1821-1871). Stalinterieur. 1853.

Fonte da foto: Wikipedia.

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