15 maio 2026

Mulher com filho morto


Käthe Kollwitz (1867-1945). Frau mit totem Kind. 1903.

Fonte da foto: Wikipedia.

13 maio 2026

Ainda não é o fim

Thiago de Mello

Escondo o medo e avanço. Devagar.
Ainda não é o fim. É bom andar,
mesmo de pernas bambas. Entre os álamos,
no vento anoitecido, ouço de novo
(com os mesmos ouvidos que escutaram
“Mata aqui mesmo?”) um riso de menina.
Estou quase canção, não vou morrer
agora, de mim mesmo, mal livrado
de recente e total morte de fogo.
A vida me reclama: a moça nua
me chama da janela, e nunca mais
me lembrarei sequer dos olhos dela.

Posso seguir andando como um homem
entre rosas e pombos e cabelos
que em prazo certo me devolverão
ao sonho que me queima o coração.

Muito perdi, mas amo o que sobrou.
Alguma dor, pungindo cristalina,
alguma estrela, um resto de campina.
Com o que sobrou, avanço, devagar.
Se avançar é saber, lâmina ardendo
na flor do cerebelo, porque foi
que a alegria, a alegria começando
a se abrir, de repente teve fim.
Mas que avançar no chão ferido seja
também saber o que fazer de mim.

Fonte: Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 1975.

12 maio 2026

19 anos e sete meses no ar

F. Ponce de León

Nesta terça-feira, 12/5, o Poesia Contra a Guerra está a completar 19 anos e sete meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e meio no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Alexander Smith, Bertha K. Becker, Eric H. Brown, Hermógenes de Freitas Leitão Filho e Walter B. Mors. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Kamal-ol-Molk e Mir Ali.

11 maio 2026

Mobilidade da população na fronteira de recursos

Bertha K. Becker

Construída em 1960, a Rodovia Belém-Brasília foi a primeira artéria estabelecida para ligar a Amazônia aos centros dinâmicos do país. Devido à sua extensão, a estrada atravessa espaços diversos, valorizados por diferentes modos de produção na mata e no campo. De Norte para Sul, a partir da cidade de Santa Maria, no Pará, marco Norte da rodovia, sucediam-se a floresta virgem, a savana, com sua pecuária extensiva tradicional, e uma região dinâmica desenvolvida em áreas de antigas matas.

Em Goiás, a rodovia corre sobre o divisor de águas dos rios Araguaia, a Oeste, e Tocantins, a Leste, grande chapadão que constitui o arcabouço do Estado, imprimindo-lhe uma configuração alongada. Esse Estado central é, contudo, bastante diferenciado, representando uma transição entre a Amazônia e as terras altas do Sudeste. Sua porção meridional é constituída por altos planaltos, cuja altitude decresce para o Norte. A curva de nível de 500 m estabelece, grosso modo, o limite entre as terras altas do Sul e a bacia Amazônica. Correspondendo essa curva de nível aproximadamente ao paralelo de 13° de latitude Sul, foi este adotado como limite Sul da Amazônia legal, região criada para fins de aplicação dos programas de desenvolvimento regional.

Fonte: Becker, B. K. 1982. Geopolítica da Amazônia. RJ, Zahar.

09 maio 2026

O que o time da CBF tem a oferecer, além de muambas, cambalhotas e mi-mi-mis?

Felipe A. P. L. Costa [*].

1.

Nunca tive qualquer simpatia pelo time da CBF. Nem jamais concordei com a premissa de que o time da CBF é sinônimo de seleção brasileira; a rigor, sempre achei essa ideia falsa, para não dizer absurda.

2.

Joguei muito futebol na minha infância, em Brasília (1967-1973), tanto em ruas asfaltadas como em campos de terra. Quando me mudei com a minha família para Juiz de Fora, no fim de 1973, eu ainda tinha comigo o sonho de me tornar um jogador de futebol profissional – ao estilo de Dirceu Lopes, por exemplo. Em 1975, cheguei a treinar no time juvenil do Tupi. Uma luxação no tornozelo, porém, brecou os meus planos. Em 1976, mudei de esporte e de clube: passei a treinar atletismo (corridas de longa distância) no Sport.

3.

Minha carreira de corredor foi um pouco mais duradoura. Em 1977, porém, eu ingressei na universidade. E o mundo das ideias me conquistou de vez. A universidade em si pouco contribuiu para isso: o ensino era ruim e o curso de graduação foi quase que uma sucessão de nulidades – o nível era bem baixo, pouco superior ao nível das atuais arapucas de ensino (veja o que se passa, por exemplo, nos vexatórios cursos à distância oferecidos por instituições particulares).

4.

Mas havia muita inquietação entre os estudantes, sobretudo entre os que participavam do movimento estudantil. E essa efervescência compensava o baixo nível das aulas. No meu caso, especificamente, certas leituras paralelas foram de fundamental importância. Lembro como se fosse hoje de um episódio ocorrido no meu primeiro ano na universidade (1977). Foi como se alguém me sacudisse pelos ombros e gritasse: “Acabamos de descobrir que tudo aquilo que aprendemos sobre física na semana passada estava errado!”. Passei a buscar minhas próprias epifanias. Não demorei a perceber o quanto o mundo da ciência poderia ser prazeroso, ainda que as recompensas oferecidas fossem todas ou quase todas meramente simbólicas.

5.

O futebol para mim é hoje um fenômeno quase que meramente social ou cultural, com pouco envolvimento emocional. Mas não sou neutro: continuo a torcer contra o time da CBF (ex-CBD), uma tradição iniciada ainda em Brasília. Não comemorei 1970; não lamentei 1982; e tive vergonha de 1994 e 2002, sobretudo diante do tipo de recepção que foi dado às delegações – no primeiro caso, por exemplo, o oba-oba da mídia com a chegada do avião das muambas e, no segundo, o louvor à cambalhota embriagada na rampa do Palácio do Planalto.

6.

Eis que agora, 
às vésperas de mais um Mundial e em meio às habituais armações do jornalismo esportivo, espero sinceramente que o Rei do Mi-mi-mi termine sendo convocado. Sei que o técnico atual não é nenhum pateta nem um banana, mas torço para que essa aberrante convocação ocorra por um motivo bem simples: com o Rei do Mi-mi-mi dando as cartas, dentro e fora de campo, crescem as chances de que venhamos a testemunhar um feito inédito – a desclassificação do time da CBF ainda na primeira fase da Copa. Seria um feito e tanto, superior até mesmo ao feito que a CBF ofereceu aos torcedores brasileiros em 2014.

*

NOTA.

[*] Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir pacotes com os livros do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote ou algum volume específico, ou para mais informações, faça contato pelo endereço felipeaplcosta@gmail.com. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.

* * *

07 maio 2026

O beijo da mulher aranha

F. Ponce de León

Ardilosa e peçonhenta,
ela tem a língua bífida
e um beijo doce que é fatal.
Clientes, sócios e vítimas –
ela teve em profusão.
Um companheiro de verdade,
porém, ela nunca conheceu.

05 maio 2026

Canção para o presidente do Burkina, Thomas Sankara, traído pelo seu amigo Blaise Campaoré

Fátima Maldonado

Sankara tinha um amigo
chamado Campaoré
Sankara tinha o reino
mais pobre do continente
e chamava-lhe “a pátria dos homens íntegros”.
Campaoré era a sombra de Sankara
e Sankara desvendou o seu nome verdadeiro
a um companheiro de armas
esquecendo que nem os deuses o fazem.
E no Olimpo negro todos riram de Sankara –
o da alma orgulhosa –
por não ter resguardado a sua própria sombra.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1999.

03 maio 2026

Lembrança de morrer

Álvares de Azevedo


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
   Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
– Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Com o desterro de minh’alma errante,
Onde fogo insensato a consumia,
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe!, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destas flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo...
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida. –

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh’alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

Fonte: Azevedo, A. 2006. Lira dos vinte anos. SP, Martin Claret. Poema publicado em livro em 1853.

02 maio 2026

Collapse

Eric H. Brown

Not the least of the innovations of the early nineteenth century was the adoption of structural mechanics as the basic tool in structural design. It replaced, gradually but inexorably, a centuries-old empirical, rule-of-thumb tradition which had sufficed for the mediaeval cathedrals and the Roman barrel-vaults and the temples of the Greeks, just as the rule-of-thumb tradition itself had replaced the instinctive, hereditary or imitative techniques whereby thrushes built nests, beavers built dams and men constructed igloos.

Fonte: Brown, E. H. 1975. Collapse. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 48: 247-71.

30 abril 2026

O velho angico

Belmiro Braga

A meu irmão Solano Braga

Eu tinha o peito de ilusões provido
na roxa tarde em que nos apartamos
e vi-te, ó velho angico, enflorescido,
pássaros mil cantavam nos teus ramos.

Longo tempo volveu! Nos encontramos
de novo, agora: e vejo-te despido
das verdes folhas e dos gaturamos,
e tu das ilusões me vês descrido.

Paridade cruel de condições
e as nossas vidas como são iguais!...
Para que, pois, fazer comparações:

Folhas e sonhos não nos voltam mais:
– a mim roubou-me o Tempo as ilusões,
e a ti – a verde copa os vendavais.

Fonte: Braga, B. 2011 [1902]. Montezinas (primeiro versos). Juiz de Fora, Funalfa.

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