01 fevereiro 2026

Anurofauna tropical

Jorge Jim

A vida dos anfíbios atuais é o resultado de uma longa história, desde a sua origem, entre o Devoniano médio e o superior, há mais de 350 milhões de anos. Os anfíbios foram os primeiros vertebrados a invadir os hábitats terrestres com sucesso. Atualmente, distribuem-se pelo mundo, mas não ocorrem na Antárctica e muitas ilhas oceânicas. A composição de anfíbios que habitam uma determinada área é o resultado [da] longa história biótica, climática e geológica da área.

Atualmente, existem três grupos de anfíbios no mundo: as salamandras, da ordem Caudata, com cerca de 357 espécies; as cobras-cegas, minhocões ou cecílias, da ordem Gymnophiona, com cerca de 163 espécies; e os sapos, rãs e pererecas, da ordem Anura, com cerca de 23 famílias, 302 gêneros e 3.496 espécies. Na América do Sul tropical, existem representantes das três ordens de anfíbios, mas a diversidade de rãs, sapos e pererecas (dez famílias, 91 gêneros e novecentas espécies) excede em muito a das salamandras (uma família, dois gêneros e 24 espécies), e das cobras-cegas ou minhocões (três famílias, dezesseis gêneros e 67 espécies).

Fonte: Jim, J. 2003. Aspectos gerais da anurofauna da região de Botucatu. In: Uieda, W. & Paleari, L. M., orgs. Flora e fauna: Um dossiê ambiental. SP, Editora Unesp.

30 janeiro 2026

Íntimo

Mário Pederneiras

A boa vida é esta:
O sossego normal deste meu quarto
Em luz e paz imerso,
Onde as horas reparto
Entre o – do ganha-pão – rude trabalho
E o Culto do meu Verso,
Que me dá e atesta
A certeza orgulhosa do que valho.

E numa esfera assim, clara e discreta,
Que um bem-estar pacífico resuma,
Ter, como eu tenho, quando leio e escrevo,
O suave enlevo,
De uma
Doce figura feminina e casta
Que, alegremente e carinhosa, arrasta
A vida heróica de mulher de Poeta.

Não que o Poeta seja um mau, um triste
Merecedor de insultos e de apodos,
De ódio e menoscabo...
Nele, ao contrário, só doçura existe,
Mas porque é um pobre diabo
Que sofre mais que todos.

Vive a sonhar cousas suaves,
Venturas, ilusões, pores-de-sol e aves,
Tudo através de uma visão bizarra,
Tudo através de uma impressão amiga...

É a eterna Cigarra
Obrigada a fingir que é a eterna Formiga.

Sonha... E o Sonho para a vida enfática
De agora
Atinge as proporções de um crime ou de um pecado...
Ter ilusões, coitado!
Quando a glória é sentir que sobre nós se escora
Todo o peso burguês da vida prática.

É por isso que o Poeta arrasta a funda
Sorte penosa dos incompreendidos...
Pois apurou demais os seus cinco sentidos
Para ver e sentir a vida que o circunda.

Este é o seu rumo, este é o seu fim,
Nem que tente evitar, não pode ou sabe...
Mas que culpa lhe cabe
Se ele, coitado, já nasceu assim?

Se não merece apodos
Nem ódio ou menoscabo...
Para este tempo que a visão lhe acanha,
Há de ser sempre uma figura estranha,
Um pobre diabo
Que sofre mais que todos.

Fonte (v. 1 e 2): Cunha, C. 1976. Gramática do português contemporâneo, 6ª ed. BH, Bernardo Álvares. Poema publicado em livro em 1912.

29 janeiro 2026

Pipas


Bertha [Boynton] Lum (1869-1954). Kites. 1913.

Fonte da foto: Wikipedia.

28 janeiro 2026

The sun is a nuclear fusion reactor

George Porter

The sun is a nuclear fusion reactor which derives its energy principally from the fusion of hydrogen atoms into helium. This reaction has been going on for about 5 billion years and will continue for about as long again before the fuel begins to run out. The inside temperature is several million degrees but the surface temperature corresponde very approximately to that of a black body at 6,000 ºC. The energy maximum in the radiation which reaches the earth’s surface occurs near the middle of the visible region in the green, as one would expect of a well adapted eye: 40% of the total radiation is in the visible, 51% in the infra-red and 9% in the ultra-violet region below 400 nm.

Fonte: Porter, G. 1975. Life under the sun. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 48: 173-82.

27 janeiro 2026

Una fracción de la energía radiante

John D. Isaacs

El ciclo de la vida en el mar, al igual que en la tierra, recibe la energía de la luz solar visible, que actúa sobre las plantas verdes. De cada millón de fotones que alcanza la superficie terrestre, sólo uns 90 se utilizan en la producción neta de alimentos básicos. Quizá 50 de ellos contribuyen al crecimiento de las plantas terrestres y unos 40 al de las plantas marinas monocelulares: el fitoplancton […]. Esta pequeña fracción de la energía radiante del sol es la que proporciona a los seres vivos de este planeta, no solo alimentos, sino también una atmosfera respirable.

Fonte: Isaacs, J. D. 1978 [1969]. La naturaleza de la vida oceánica. In: Scientific American, org. Ecología, evolución y biologia de poblaciones. Barcelona, Omega.

25 janeiro 2026

Falação

Gilberto Mendonça Teles

Eu sei do mel secreto da cedilha,
dos lábios, da vogal, daquele gomo
de lima ou de limão, que chupo e como
sem deixar de lamber toda a vasilha.

Como quem toca, como quem dedilha
(e como até quem se fizer de gnomo),
vou pincelando o meu mercúrio-cromo
nas sombras veludosas da virilha.

Passo por dentro e por fora, no começo
e no fim, pelo meio e pelo avesso,
passo na frente e atrás, na convicção

de que a poesia e amor são meu repouso:
nenhum desejo há de ficar sem gozo,
nenhuma língua há de falar em vão.

Fonte (v. 1-3, 8, 13 e 14): Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 2000.

24 janeiro 2026

Coevolução cérebro-intestino

Leslie C. Aiello & Peter Wheeler

[E]m humanos e em outros primatas, houve uma coevolução entre o tamanho do cérebro e o tamanho do intestino. A conclusão lógica é que, a despeito do que tenha selecionado um aumento no tamanho do cérebro, nós deveríamos esperar uma seleção correspondente para reduzir o tamanho relativo do intestino. Isso é essencial para manter a [taxa metabólica basal] do corpo no nível padrão. Se um primata tivesse de ter um intestino grande, o esperado seria que ele também tivesse um cérebro relativamente pequeno.

Fonte (em trad. livre): Aiello, LC & Wheeler P. 1995. The expensive-tissue hypothesis: The brain and the digestive system in human and primate evolution. Current Anthropology 36: 199-221.

23 janeiro 2026

O pintor e sua modelo


Marie Bracquemond (1840-1916). Le peintre et son modèle dans un jardin fleuri. 1870-80.

Fonte da foto: Wikipedia.

21 janeiro 2026

O sol cansa

Poh Pin Chin

O sol cansa,
a chuva interrompe;
então a raposa –
exausta ou encharcada –
dorme e sonha
atrás de ideias rubras.

19 janeiro 2026

Une charogne

Charles Baudelaire

Rappelez-vous l’objet que nous vîmes, mon âme,
  Ce beau matin d’été si doux:
Au détour d’un sentier une charogne infâme
  Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l’air, comme une femme lubrique,
  Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d’une façon nonchalante et cynique
  Son ventre plein d’exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
  Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
  Tout ce qu’ensemble elle avait joint;

Et le ciel regardait la carcasse superbe
  Comme une fleur s’épanouir.
La puanteur était si forte, que sur l’herbe
  Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
  D’où sortaient de noirs bataillons
De larves, qui coulaient comme un épais liquide
  Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague,
  Ou s’élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d’un souffle vague,
  Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique,
  Comme l’eau courante et le vent,
Ou le grain qu’un vanneur d’un mouvement rhythmique
  Agite et tourne dans son van.

Les formes s’effaçaient et n’étaient plus qu’un rêve,
  Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l’artiste achève
  Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
  Nous regardait d’un oeil fâché,
Epiant le moment de reprendre au squelette
  Le morceau qu’elle avait lâché.

– Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
  A cette horrible infection,
Etoile de mes yeux, soleil de ma nature,
  Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
  Après les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l’herbe et les floraisons grasses,
  Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
  Qui vous mangera de baisers,
Que j’ai gardé la forme et l’essence divine
  De mes amours décomposés!

Fonte (em port.): Baudelaire, C. 2006. As flores do mal. SP, Martin Claret. Poema publicado em livro em 1857.

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