28 janeiro 2026

The sun is a nuclear fusion reactor

George Porter

The sun is a nuclear fusion reactor which derives its energy principally from the fusion of hydrogen atoms into helium. This reaction has been going on for about 5 billion years and will continue for about as long again before the fuel begins to run out. The inside temperature is several million degrees but the surface temperature corresponde very approximately to that of a black body at 6,000 ºC. The energy maximum in the radiation which reaches the earth’s surface occurs near the middle of the visible region in the green, as one would expect of a well adapted eye: 40% of the total radiation is in the visible, 51% in the infra-red and 9% in the ultra-violet region below 400 nm.

Fonte: Porter, G. 1975. Life under the sun. Proceedings of the Royal Institution of Great Britain 48: 173-82.

27 janeiro 2026

Una fracción de la energía radiante

John D. Isaacs

El ciclo de la vida en el mar, al igual que en la tierra, recibe la energía de la luz solar visible, que actúa sobre las plantas verdes. De cada millón de fotones que alcanza la superficie terrestre, sólo uns 90 se utilizan en la producción neta de alimentos básicos. Quizá 50 de ellos contribuyen al crecimiento de las plantas terrestres y unos 40 al de las plantas marinas monocelulares: el fitoplancton […]. Esta pequeña fracción de la energía radiante del sol es la que proporciona a los seres vivos de este planeta, no solo alimentos, sino también una atmosfera respirable.

Fonte: Isaacs, J. D. 1978 [1969]. La naturaleza de la vida oceánica. In: Scientific American, org. Ecología, evolución y biologia de poblaciones. Barcelona, Omega.

25 janeiro 2026

Falação

Gilberto Mendonça Teles

Eu sei do mel secreto da cedilha,
dos lábios, da vogal, daquele gomo
de lima ou de limão, que chupo e como
sem deixar de lamber toda a vasilha.

Como quem toca, como quem dedilha
(e como até quem se fizer de gnomo),
vou pincelando o meu mercúrio-cromo
nas sombras veludosas da virilha.

Passo por dentro e por fora, no começo
e no fim, pelo meio e pelo avesso,
passo na frente e atrás, na convicção

de que a poesia e amor são meu repouso:
nenhum desejo há de ficar sem gozo,
nenhuma língua há de falar em vão.

Fonte (v. 1-3, 8, 13 e 14): Nejar, C. 2011. História da literatura brasileira. SP, Leya. Poema publicado em livro em 2000.

24 janeiro 2026

Coevolução cérebro-intestino

Leslie C. Aiello & Peter Wheeler

[E]m humanos e em outros primatas, houve uma coevolução entre o tamanho do cérebro e o tamanho do intestino. A conclusão lógica é que, a despeito do que tenha selecionado um aumento no tamanho do cérebro, nós deveríamos esperar uma seleção correspondente para reduzir o tamanho relativo do intestino. Isso é essencial para manter a [taxa metabólica basal] do corpo no nível padrão. Se um primata tivesse de ter um intestino grande, o esperado seria que ele também tivesse um cérebro relativamente pequeno.

Fonte (em trad. livre): Aiello, LC & Wheeler P. 1995. The expensive-tissue hypothesis: The brain and the digestive system in human and primate evolution. Current Anthropology 36: 199-221.

23 janeiro 2026

O pintor e sua modelo


Marie Bracquemond (1840-1916). Le peintre et son modèle dans un jardin fleuri. 1870-80.

Fonte da foto: Wikipedia.

21 janeiro 2026

O sol cansa

Poh Pin Chin

O sol cansa,
a chuva interrompe;
então a raposa –
exausta ou encharcada –
dorme e sonha
atrás de ideias rubras.

19 janeiro 2026

Une charogne

Charles Baudelaire

Rappelez-vous l’objet que nous vîmes, mon âme,
  Ce beau matin d’été si doux:
Au détour d’un sentier une charogne infâme
  Sur un lit semé de cailloux,

Les jambes en l’air, comme une femme lubrique,
  Brûlante et suant les poisons,
Ouvrait d’une façon nonchalante et cynique
  Son ventre plein d’exhalaisons.

Le soleil rayonnait sur cette pourriture,
  Comme afin de la cuire à point,
Et de rendre au centuple à la grande Nature
  Tout ce qu’ensemble elle avait joint;

Et le ciel regardait la carcasse superbe
  Comme une fleur s’épanouir.
La puanteur était si forte, que sur l’herbe
  Vous crûtes vous évanouir.

Les mouches bourdonnaient sur ce ventre putride,
  D’où sortaient de noirs bataillons
De larves, qui coulaient comme un épais liquide
  Le long de ces vivants haillons.

Tout cela descendait, montait comme une vague,
  Ou s’élançait en pétillant;
On eût dit que le corps, enflé d’un souffle vague,
  Vivait en se multipliant.

Et ce monde rendait une étrange musique,
  Comme l’eau courante et le vent,
Ou le grain qu’un vanneur d’un mouvement rhythmique
  Agite et tourne dans son van.

Les formes s’effaçaient et n’étaient plus qu’un rêve,
  Une ébauche lente à venir
Sur la toile oubliée, et que l’artiste achève
  Seulement par le souvenir.

Derrière les rochers une chienne inquiète
  Nous regardait d’un oeil fâché,
Epiant le moment de reprendre au squelette
  Le morceau qu’elle avait lâché.

– Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
  A cette horrible infection,
Etoile de mes yeux, soleil de ma nature,
  Vous, mon ange et ma passion!

Oui! telle vous serez, ô la reine des grâces,
  Après les derniers sacrements,
Quand vous irez, sous l’herbe et les floraisons grasses,
  Moisir parmi les ossements.

Alors, ô ma beauté! dites à la vermine
  Qui vous mangera de baisers,
Que j’ai gardé la forme et l’essence divine
  De mes amours décomposés!

Fonte (em port.): Baudelaire, C. 2006. As flores do mal. SP, Martin Claret. Poema publicado em livro em 1857.

17 janeiro 2026

Growth

Roderick Hunt

All living organisms are, at various stages in their life history, capable of ‘growth’ in the sense of change of size, change in form and change in number, given suitable conditions. These three processes together form an important part of the phenomenon of life itself and among natural systems help to distinguish the living from the non-living. Of course, many of the latter may also be said to ‘grow’: crystals, river deltas and volcanic cones can change recognizably within human time-scales. But, this apart, even within self-reproducing biological organisms a precise definition of what is meant by ‘growth’ is not all easy. Definitions may range from an unequivocal statement about change in a specific dimension to a highly abstract state of affairs in which the verb ‘to grow’ meaning nothing more than ‘to live’ or even ‘to exist’. […] I advance no firm definition to cover the use of the term in this book other than to say that it will be used to describe irreversible changes with time, mainly in size (however measured), often in form, and occasionally in number.

Fonte: Hunt, R. 1982. Plant growth curves. Londres, Arnold.

16 janeiro 2026

Altitude e aclimatação fisiológica

Joseph Sidney Weiner

A resposta imediata à falta de oxigênio (anoxia) é o aumento de volume do ar respirado por minuto. Isso se consegue através de inspirações mais rápidas e profundas. Essa reação tem apenas um efeito limitado na melhoria do suprimento de oxigênio; na realidade o aumento de respiração leva à ‘eliminação’ do dióxido de carbono das vias aéreas e, consequentemente, [do] sangue. Esta perda de dióxido de carbono modifica o equilíbrio ácido-base do corpo, controlado homeostaticamente, para um nível mais alcalino – ‘alcalose’. No mal-estar de montanha a anoxia e a alcalose desempenham seu papel. A anoxia se manifesta por cansaço, dor de cabeça, perda de atenção e uma sensação semelhante à da ‘confiança do bêbado’; à medida que a alcalose se desenvolve, surgem náuseas, vômitos e tonturas. Qualquer esforço é acompanhado de um aumento anormal da taxa de pulsação.

Exposições contínuas permitem o desenvolvimento de uma tolerância considerável. Os processos de aclimatação acarretam uma hiperpnéia e a pressão de CO2 no ar alveolar, embora baixa, é maior do que sem o aumento da ventilação. Não obstante a alcalose tem de ser [contrabalanceada], o que é feito pelos rins que excretam uma urina mais alcalina, eliminando assim o excesso de bases e mantendo o pH do sangue em níveis normais. Ao mesmo tempo [em] que as células vermelhas do sangue são formadas em número crescente, o número de hemácias e a concentração de hemoglobina aumentam de modo que a capacidade do sangue em transportar oxigênio é elevada. Há também, provavelmente, um aumento da capacidade dos tecidos para trabalharem a baixas tensões de oxigênio.

A 4.500 m a aclimatação ocorre em cerca de 10 dias. A longo prazo sucedem-se mudanças morfológicas – o tórax se alarga com o aumento de respiração e a capacidade vital se torna maior.

Fonte: Harrison, G. A. & mais 3. 1971 [1964]. Biologia humana. SP, Nacional & Edusp.

13 janeiro 2026

Satã

Maranhão Sobrinho

Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...

Fonte: Ricieri, F., org. 2008. Antologia da poesia simbolista e decadente brasileira. SP, Ibep. Poema publicado em livro em 1908.

12 janeiro 2026

19 anos e três meses no ar

F. Ponce de León

Nesta segunda-feira, 12/1, o Poesia Contra a Guerra completa 19 anos e três meses no ar.

Desde o balanço anterior – ‘19 anos e dois meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Gabriel y Galán, Giovana Bertini, Heleno Godoy, Thomas E. Lovejoy, Voltaire e Yanyu Lei. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Andrei Rublev, Willem van Aelst e Yu Fei’na.

10 janeiro 2026

Os estomatópodes

Giovana Bertini

Os estomatópodes compreendem um grupo relativamente pequeno e morfologicamente homogêneo dentro de Crustacea. Estão entre os crustáceos predadores mais agressivos e de comportamento mais complexo, popularmente conhecidos como tamburutaca, tamarutaca, camarão-louva-a-deus, lagosta-gafanhoto, mãe do camarão etc.

Atualmente, são reconhecidas duas subordens de Stomatopoda: Archaeostomatopoda, que inclui apenas uma família fóssil, e Unipeltata, a qual abrange todas as 19 famílias recentes, com aproximadamente 450 espécies [...]. Das sete superfamílias existentes no mundo, quatro são registradas no litoral brasileiro: Gonodactyloidea, Lysiosquilloidea, Squilloidea e Eurysquilloidea [...], compreendendo um total de 40 espécies [...].

A maior diversidade de estomatópodes é registrada no Indo-Pacífico Oeste, principalmente na Austrália, onde são conhecidas 146 espécies [...].

Os estomatópodes, além de terem grande relevância na teia alimentar marinha, também são importantes economicamente em alguns países, principalmente os membros das famílias Squillidae, Lysioquillidae e Hemisquillidae são consumidos como alimentos.

Fonte: Bertini, B. 2016. In: Fransozo, A. & Negreiros-Fransozo, M. L., orgs. Zoologia dos invertebrados. RJ, Roca.

08 janeiro 2026

El ama

Gabriel y Galán

I.
Yo aprendí en el hogar en qué se funda
la dicha más perfecta,
y para hacerla mía
quise yo ser como mi padre era
y busqué una mujer como mi madre
entre las hijas de mi hidalga tierra.
Y fui como mi padre, y fue mi esposa
viviente imagen de la madre muerta.
¡Un milagro de Dios, que ver me hizo
otra mujer como la santa aquella!
   Compartían mis únicos amores
la amante compañera,
la patria idolatrada,
la casa solariega,
con la heredada historia,
con la heredada hacienda.
¡Qué buena era la esposa
y qué feraz mi tierra!
¡Qué alegre era mi casa
y qué sana mi hacienda,
y con qué solidez estaba unida
la tradición de la honradez a ellas!
   Una sencilla labradora, humilde,
hija de obscura castellana aldea;
una mujer trabajadora, honrada,
cristiana, amable, cariñosa y seria,
trocó mi casa en adorable idilio
que no pudo soñar ningún poeta.
   ¡Oh, cómo se suaviza
el penoso tragín de las faenas
cuando hay amor en casa
y con él mucho pan se amasa en ella
para los pobres que a su sombra vivien,
para los pobres que por ella bregan!
¡Y cuánto lo agradecen, sin decirlo,
y cuánto por la casa se interesan,
y cómo ellos la cuidan,
y cómo Dios la aumenta!
   Todo lo pudo la mujer cristiana,
logrólo todo la mujer discreta.
   La vida en la alquería
giraba en torno de ella
pacífica y amable,
monótona y serena...
   ¡Y cómo la alegría y el trabajo
donde está la virtud se compenetran!
   Lavando en el regato cristalino
cantaban las mozuelas,
y cantaba en los valles el vaquero,
y cantaban los mozos en las tierras,
y el aguador camino de la fuente,
y el cabrerillo en la pelada cuesta...
¡Y yo también cantaba,
que ella y el campo hiciéronme poeta!
   Cantaba el equilibrio
de aquel alma serena
como los anchos cielos,
como los campos de mi amada tierra;
y cantaban también aquellos campos,
los de las pardas, onduladas cuestas,
los de los mares de enceradas mieses,
los de las mudas perspectivas serias,
los de las castas soledades hondas,
los de las grises lontananzas muertas...
   El alma se empapaba
en la solemne clásica grandeza
que llenaba los ámbitos abiertos
del cielo y de la tierra.
   ¡Qué plácido el ambiente,
qué tranquilo el paisaje, qué serena
la atmósfera azulada se extendía
por sobre el haz de la llanura inmensa!
   La brisa de la tarde
meneaba, amorosa, la alameda,
los zarzales floridos del cercado,
los guindos de la vega,
las mieses de la hoja,
la copa verde de la encina vieja...
   ¡Monorrítmica música del llano,
qué grato tu sonar, qué dulce era!
   La gaita del pastor en la colina
lloraba las tonadas de la tierra,
cargadas de dulzuras,
cargadas de monótonas tristezas,
y dentro del sentido
caían las cadencias,
como doradas gotas
de dulce miel que del panal fluyeran.
   La vida era solemne;
puro y sereno el pensamiento era;
sosegado el sentir, como las brisas;
mudo y fuerte el amor, mansas las penas,
austeros los placeres,
raigadas las creencias,
sabroso el pan, reparador el sueño,
fácil el bien y pura la conciencia.
   ¡Qué deseos el alma
tenía de ser buena
y cómo se llenaba de ternura
cuando Dios le decía que lo era!

II.
   Pero bien se conoce
que ya no vive ella;
el corazón, la vida de la casa
que alegraba el trajín de las tareas,
la mano bienhechora
que con las sales de enseñanzas buenas
amasó tanto pan para los pobres
que regaban, sudando, nuestra hacienda.
   ¡La vida en la alquería
se tiñó para siempre de tristeza!
   Ya no alegran los mozos la besana
con las dulces tonadas de la tierra
que al paso perezoso de las yuntas
ajustaban sus lánguidas cadencias.
   Mudos de casa salen,
mudos pasan el día en sus faenas,
tristes y mudos vuelven
y sin decirse una palabra cenan;
que está el aire de casa
cargado de tristeza,
y palabras y ruidos importunan
la rumia sosegada de las penas.
   Y rezamos, reunidos, el Rosario,
sin decirnos por quién... pero es por ella.
Que aunque ya no su voz a orar nos llama,
su recuerdo querido nos congrega,
y nos pone el Rosario entre los dedos
y las santas plegarias en la lengua.
   ¡Qué días y qué noches!
¡Con cuánta lentitud las horas ruedan
por encima del alma que está sola
llorando en las tinieblas!
   Las sales de mis lágrimas amargan
el pan que me alimenta;
me cansa el movimiento,
me pesan las faenas,
la casa me entristece
y he perdido el cariño de la hacienda.
   ¡Qué me importan los bienes
si he perdido mi dulce compañera!
   ¡Qué compasión me tiene mis criados
que ayer me vieron con el alma llena
de alegrías sin fin que rebosaban
y suyas también eran!
   Hasta el hosco pastor de mis ganados,
que ha medido la hondura de mi pena,
si llego a su majada
baja los ojos y ni hablar quisiera;
y dice al despedirme: – “Ánimo, amo;
haiga mucho valor y haiga pacencia...”
   Y le tiembla la voz cuando lo dice
y se enjuga una lágrima sincera,
que en la manga de la áspera zamarra
temblando se le queda...
   ¡Me ahogan estas cosas,
me matan de dolor estas escenas!
   ¡Que me anime, pretende, y él no sabe
que de su choza en la techumbre negra
le he visto yo escondida
la dulce gaita aquella
que cargaba el sentido de dulzuras
y llenaba los aires de cadencias!...
   ¿Por qué ya no la toca?
¿por qué los campos su tañer no alegra?
   Y el atrevido vaquerillo sano,
que amaba a una mozuela
de aquellas que trajinan en la casa,
¿por qué no ha vuelto a verla?
¿por qué no canta en los tranquilos valles?
¿por qué no silba con la misma fuerza?
¿por qué no quiere restallar la honda?
¿por qué esta muda la habladorara legua
que al amo le contaba sus sentires
cuando el amo le daba su licencia?
– “¡El ama era una santa!...”
me dicen todos, cuando me hablan de ella.
   “¡Santa, santa!” – me ha dicho
el viejo señor cura de la aldea,
aquel que le pedía
las limosnas secretas
que de tantos hogares ahuyentaban
las hambres y los fríos y las penas.
   ¡Por eso los mendigos
que llegan a mi puerta
llorando se descubren
y un padrenuestro por el ama rezan!
   El velo del dolor me ha obscurecido
la luz de la belleza.
   Ya no saben hundirse mis pulilas
en la visión serena
de los espacios hondos,
puros y azules, de extensión inmensa.
   Ya no sé traducir la poesía,
ni del alma en la médula me entra
la inmensa melodía del silencio,
que en la llanura quieta
parece que descansa,
parece que se acuesta.
   Será puro el ambiente, como antes,
y la atmósfera azul será serena,
y la brisa amorosa
moverá con sus alas la alameda,
los zarzales floridos,
los guindos de la vega,
las mieses de la hoja,
la copa verde de la encina vieja...
   Y mugirán los tristes becerrillos,
lamentando el destete, en la pradera;
y la de alegres recentales dulces
tropa gentil, escalará la cuesta
balando plañideros
al pie de las dulcísimas ovejas;
y cantará en el monte la abubilla,
y en los aires la alondra mañanera
seguirá derritiédose en gorjeos,
musical filigrana de su lengua...
   Y la vida solemne de los mundos
seguirá su carrera
monótona, inmutable,
magnífica, serena...
   Mas, ¿qué me importa todo,
si el vivir de los mundos no me alegra,
ni el ambiente me baña en bienestares,
ni las brisas a música me suenan,
ni el cantar de los pájaros del monte
estimula mi lengua,
ni me mueve a ambición la perspectiva
de la abundante próxima cosecha,
ni el vigor de mis bueyes me envanece,
ni el paso del caballo me recrea,
ni me embriaga el olor de las majadas,
ni con vértigos dulces me deleitan
el perfume del heno que madura
y el perfume del trigo que se encera?
   Resbala sobre mí sin agitarme
la dulce poesía en que se impregnan
la llanura sin fin, toda quietudes,
y el magnífico cielo, todo estrellas.
   Y ya mover no pueden
mi alma de poeta,
ni las de Mayo auroras nacarinas
con húmedos vapores en las vegas,
con cánticos de alondra y con efluvios
de rociadas frescas,
ni estos de otoño atardeceres dulces
de manso resbalar, pura tristeza
de la luz que se muere
y el paisaje borroso que se queja...
ni las noches románticas de Julio,
magníficas, espléndidas,
cargadas de silencios rumorosos
y de sanos perfumes de las eras;
noches para el amor, para la rumia
de las grandes ideas,
que a la cumbre al llegar de las alturas
se hermanan y se besan...
   ¡Cómo tendré yo el alma,
que resbala sobre ella
la dulce poesía de mis campos
como el agua resbala por la piedra!
   Vuestra paz era imagen de mi vida,
¡oh campos de mi tierra!
pero la vida se me puso triste
y su imagen de ahora ya no es esa:
en mi casa, es el frío de mi alcoba,
es el llanto vertido en sus tinieblas;
en el campo, es el árido camino
del barbecho sin fin que amarillea.
... ... ... ... ... ...
   Pero yo ya sé hablar como mi madre
y digo como ella
cuando la vida se le puso triste:
“¡Dios lo ha querido así! ¡Bendito sea!”

Fonte (v. 159-60, Parte 2): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 3, 4ª ed. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1902.

06 janeiro 2026

Árvores no outono


Yu Fei’an (1889-1959). The autumn mountain with red trees. s/d.

Fonte da foto: Central Academy of Fine Arts.

04 janeiro 2026

O gângster, o sequestrado e o deboche da imprensa

F. Ponce de León

O sequestro do presidente da Venezuela por militares estadunidenses nada tem a ver com narcotráfico, corrupção ou crimes contra a democracia. Trocando em miúdos, ao contrário do que alardeia a propaganda, a motivação nada teve de nobre ou justa. Foi apenas a geopolítica em ação. Ocorre que as leis que regem a geopolítica global seguem inalteradas desde o surgimento dos primeiros estados: os estados mais fortes subjugam e pilham os vizinhos mais fracos; se houver alguma resistência, os mais fracos são invadidos e aí, a depender das circunstâncias, os homens que não forem mortos em combate são escravizados, enquanto as mulheres e as crianças são levadas como parte do butim.

1. AS MAIORES RESERVAS DO MUNDO.

O nó que estrangula a economia política venezuelana talvez seja o próprio gigantismo de suas reservas de petróleo – as maiores do mundo, as reservas venezuelanas correspondem a quase 7 vezes as reservas dos EUA, o maior consumidor mundial, e a 19 vezes as reservas brasileiras (para detalhes, ver 2025 OPEC Annual Statistical Bulletin). Desses extremos, surgem então dois tipos de consumidores despreocupados: (1) o venezuelano não se preocupa com o preço da gasolina, pois está sentado sobre um mar de petróleo e aí ele paga pouco pelo litro de combustível; e (2) o estadunidense não se preocupa com o consumo excessivo, o desperdício ou, em última instância, o fim das reservas nacionais; afinal, se houver necessidade, o governo aciona as forças armadas; estas, então, irão drenar ou, se for o caso, simplesmente pilhar as reservas de outros países – afinal, as forças armadas dos países imperialistas servem exatamente para isto: coagir, subjugar e pilhar os vizinhos mais fracos. Pois foi mais ou menos isso o que ocorreu em Caracas, na madrugada de hoje (3/1): a mando de um gângster corrupto (ver, e.g., aqui e aqui), forças militares dos EUA invadiram e sequestraram o presidente da Venezuela.

2. “ATAQUE ILEGAL E IMPRUDENTE”.

Como se lê em editorial do The New York Times (ver aqui), o ataque de Trump à Venezuela foi ilegal e imprudente. (Há bons motivos para suspeitar que o ataque foi facilitado pela participação de agentes locais. De resto, para fins de argumentação, não faz diferença alguma aqui saber qual dos dois países seria o menos democrático ou qual deles seria o mais corrupto.)

Particularmente triste e vergonhoso é constatar, mais uma vez, a tibieza da imprensa brasileira. Seja grande, seja pequeno, seja de direita, seja de esquerda, dificilmente veremos algum veículo da nossa imprensa fazer algo parecido com o que o canal Al Jazeera está acostumado a fazer – e, no caso de hoje, já fez. Estou a me referir a um painel com diferentes observadores – um deles residente em Caracas, outro, nos EUA, e, o terceiro, um ex-assessor do presidente venezuelano a falar desde o Uruguai (ver aqui).

3. CODA.

Não é por falta de dinheiro ou de caráter que a imprensa brasileira não promove esse tipo de conversa; é, sobretudo, pela falta de compromisso com um jornalismo sério e profissional. (Basta ver o seguinte: qual emissora de TV brasileira tem correspondente fixo em algum outro país da América do Sul? A única exceção talvez fique por conta da Argentina, e olhe lá.) Em casos como o de hoje, o que a imprensa brasileira está acostumada a fazer se resume a reproduzir os informes divulgados pela Casa Branca. O que é, convenhamos, uma tremenda vergonha e, no fim das contas, um tremendo deboche.

* * *

02 janeiro 2026

Oração de todas as horas

Sebastião da Gama

Agora,
que eu já não sei andar nas trevas,
não me roubes a Tua Mão, Senhor,
por piedade!
Voltar às trevas não sei,
e sem a Tua Mão não poderei
dar um só passo em tanta Claridade.

P’las Tuas feridas minhas, p’las tristezas
de Tua Mãe, Jesus.
não me deixes, no meio desta Luz,
de pernas presas...

Não me deixes ficar
com o Caminho todo iluminado
e eu parado e tão cansado
como se fosse a andar...

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1945.

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