29 janeiro 2009

Rubaiatas

Omar Iben Ibrahim El-Khaiami

5.
Ouve, amigo,
o bom conselho:

Antes que te esfacelem
os pesares do coração,
e antes que o manto sombrio da noite
apague
os últimos clarões do entardecer,
traze para tua alcova
o vinho cor-de-rosa.

Não vás pensar,
pobre ignorante,
que és feito de ouro.

Não creias, pois,
que serás libertado
quando te esconderem
debaixo da terra;
que serás recolhido
como se fosses uma pepita
do precioso metal...

6.
Contempla
a caravana da velhice,
vê como galopa,
repara, repara um pouco
naquele ritmo espantoso!

Companheiro!
Aproveita esses instantes fugazes
para mergulhar
nos prazeres da vida,
para esquecer
nas delícias do amor!

Quanto a ti, escanção,
por que tanto cismas,
por que te atemoriza
a problemática ressurreição
anunciada
para certo dia do amanhã?

Traze a taça,
pois esta noite
certamente findará.

7.
Se eu estiver,
segundo os meus difamadores,
embriagado
pelo vinhos dos magos,
é porque realmente estou.

E se eu sou ateu,
mago e idólatra
porque assim o afirmam,
certamente o sou.

Os filiados
às várias seitas e religiões
atêm-se a presunções sem fundamento
e despudoradamente me acusam.

Mas não me atingem
as suas maquinações.
O que não sou é escravo,
nem propriedade de ninguém.
Algo sou,
mas que pertence a mim mesmo.

Vivo
e viverei sempre
como entender.

8.
Ó Allah!
Semeaste de armadilhas
e eriçaste de pecados
as curvas do meu caminho!

E depois advertiste:
– Ai de ti se caíres!

Sabemos
que nem um só átomo se esconde
à Tua visão
em todo o Universo:

ora,
se determinaste
que assim se me desdobrasse
o percurso da existência,
e se tão meticulosamente
preparaste a minha queda,
Allah!
por que me chamas
pecador?

Fonte: Khayyám, O. 2005. Rubáiyát. SP, Martin Claret. A obra completa – datada talvez do início do século 12 – contém 182 rubaiatas; das quais reproduzimos aqui quatro. Obra e nome do autor são comumente grafados como “Rubáiyát” e “Omar Khayyám”, respectivamente.

27 janeiro 2009

Na noite da minha morte

Cristovam Pavia

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente...
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema originalmente publicado em 1959.

25 janeiro 2009

Os imperativos institucionais da ciência

Robert K. Merton

[...]
A ausência virtual de fraudes nos anais da ciência, que parece excepcional quando comparada com outras esferas de atividade, foi atribuída às qualidades pessoais dos cientistas. Por implicação, os cientistas se recrutam entre as fileiras dos que apresentam um grau pouco habitual de integridade moral. Não há, na realidade, provas satisfatórias de que isso seja assim; pode-se encontrar uma explicação mais admissível em certas características distintivas da própria ciência. Ao implicar, como implica, a verificabilidade dos resultados, a pesquisa científica está debaixo do controle exigente dos colegas peritos. Em outras palavras – e a observação poderá sem dúvida ser interpretada como lesa-majestade – as atividades dos cientistas estão submetidas a um policiamento rigoroso, sem paralelo, talvez, em qualquer outro campo de atividade. A exigência de desinteresse tem firme alicerce no caráter público e testável da ciência e podemos supor que essa circunstância contribui para a integridade do homem de ciência. Existe competição no campo da ciência, competição que se intensifica pela importância que se dá à prioridade como critério de realização e, em condições competitivas, podem surgir incentivos para eclipsar os rivais por meios ilícitos. Mas esses impulsos encontram escassas oportunidades para se manifestarem no campo da pesquisa científica. Cultismo, camarilhas informais, publicações prolíficas mas banais – podem-se usar essas e outras técnicas para a promoção pessoal. Mas, em geral, as pretensões espúrias parecem ser [negligentes] e ineficazes. A transformação da norma de desinteresse em prática é firmemente apoiada pela necessidade que os cientistas têm, mais cedo ou mais tarde, de prestar contas perante seus colegas. Coincidem em grande parte os ditames do sentimento socializado e da conveniência, situação está que conduz à estabilidade institucional.
[...]

Fonte: Deus, J. D., org. 1979. A crítica da ciência, 2ª edição. RJ, Zahar. Texto originalmente publicado em 1967.

23 janeiro 2009

Poema

Joel Silveira

Porque não há trégua na quotidiana amargura,
os versos nascem todos desgraçados
e possivelmente maus.

Os caminhos estão gastos,
as mulheres se repetem
e é ridículo dar amor a alguém que amanhã estará murcho

e que jamais devolverá nossas cartas.
Para as horas, tão inúteis,
vale apenas a solução dos bêbedos.

Onde estão os perigos desta vida?
Quero-os todos para mim, aqui ou longe,
a eles o melhor estilo e o melhor entusiasmo.

E que sobre eles o amor e a alegria se debrucem
como rosas abertas num campo minado.

Fonte: Pinto, J. N. 2004. Os cem melhores poetas brasileiros do século, 2ª edição. SP, Geração Editorial. Poema originalmente publicado em 1945.

21 janeiro 2009

Gótico americano


Grant Wood (1891-1942). American Gothic. 1930.

Fonte da foto: Museum Syndicate.

19 janeiro 2009

Sombras da violência

Gerhardt Hauptmann

Soubesse eu o que em sonho me revelou
O Espírito Eterno
– Ele a quem louvam Terra e Céu –
Quando do mar do tempo
Me lançou a este deserto vermelho,
Abandonado para todo o sempre
A todas as misérias!
Ali fiquei na areia ardente
Sem noção do dia de ontem nem do dia de amanhã!
Desamparado de tudo,
Desapegado de todos,
Tudo o que viam meus olhos
Me era estranho,
Tudo aparência e ilusão.
Uma criatura – seria um homem?
Me encarava na areia abrasada,
Alheado e taciturno,
Frio e insensível.
De certo modo me regozijei
Ao ver ali uns feixes
Que pareciam arrumados por mão humana:
Estaria eu perto dos homens?
Mas reconheci num como grito mudo
Que era palha vazia!
Ah, a colheita acabou,
E onde esta o trigo?
Meditando como em sonho
Sobre aquela aparição,
Ali quedei na areia ardente,
Em face do corpo mudo, nem homem nem mulher,
Na sua silenciosa nudez, paralisado a morte.
“Vens da parte da Esfinge?” perguntaram não sei donde.
Então, erguendo às cegas a mão
E subitamente inflamado, palpitante:
“Não pergunte ninguém quem eu seja
Nem quem sejas”, falou.
“As perguntas aqui não tem sentido!
A paz das coisas parece mais vazia em torno de nós.
Não te fies das aparências:
Pois já não somos ambos
Senão sombras da violência.”

Fonte: Bandeira, M. 2007. Estrela da vida inteira. RJ, Nova Fronteira.

16 janeiro 2009

Pragmatismo

William James

1.
No prefácio à sua admirável coleção de ensaios, intitulada Heretics, Chesterton escreve essas palavras: “Há algumas pessoas – e eu sou uma delas – que pensam que a coisa mais prática e importante relativamente a um homem é ainda sua visão do universo. Achamos que para uma senhoria que considera o seu inquilino, o importante é conhecer os seus rendimentos, porém ainda mais importante é conhecer sua filosofia. Achamos que para um general prestes a combater um inimigo, o importante é saber o número de inimigos, porém mais importante ainda é saber a filosofia do inimigo. Achamos que a questão não é se a teoria dos cosmos afeta os negócios, e sim, porém, se a longo prazo são afetados por alguma coisa”.

Afino com Chesterton nesse particular. Sei que vocês, senhores e senhoras, têm uma filosofia, cada qual e todos vocês, e que a coisa mais interessante e importante é a maneira pela qual determina a perspectiva em seus diversos mundos. Vocês sabem o mesmo de mim. E, não obstante, confesso um certo tremor pela audácia da tarefa que estou prestes a encetar. Para a filosofia, o que é tão importante em cada um de nós não é um preparo técnico; é o nosso [senso mais ou menos comum] do que a vida honesta e profundamente significa. É somente em parte obtido nos livros; é a nossa maneira individual de ver e sentir exatamente a carga total e pressão do cosmos. Não tenho direito de presumir que muitos de vocês sejam estudantes do cosmos, no sentido escolar, porém aqui estou eu desejoso de interessá-los por uma filosofia que, em não menor extensão, tem de ser tratada tecnicamente. Desejo fazer com que simpatizem com uma tendência contemporânea, na qual acredito profundamente, e, entretanto, tenho de falar como um professor a quem não é estudante. Qualquer que seja o universo em que o professor acredite, deve ser, de qualquer modo, um universo que se preste a um discurso prolongado. Um universo definível em duas palavras é alguma para a qual o intelecto professoral não tem uso. Nenhuma fé em qualquer coisa de espécie tão barata! Temos visto amigos e colegas tentarem popularizar a filosofia nesse mesmo recinto, mas logo se tornam áridos e, então, técnicos, e os resultados somente em parte foram encorajadores. Desse modo, minha tarefa é ousada. O próprio fundador do pragmatismo deu recentemente um curso de conferências no Instituto Lowell, referente ao título em epígrafe – coriscos de luz brilhante dardejados contra a nossa ignorância crassa! Nenhum de nós, suponho, compreendeu tudo quanto ele disse – e, contudo, aqui estou eu, arriscando-me a uma aventura semelhante.
[...]

Fonte: James, W. 2006 [1907]. Pragmatismo. SP, Martin Claret.

14 janeiro 2009

De verão

Cesário Verde

1.
No campo; eu acho nele a musa que me anima:
A claridade, a robustez, a acção.
Esta manhã, saí com minha prima,
Em quem eu noto a mais sincera estima
E a mais completa e séria educação.

2.
Criança encantadora! Eu mal esboço o quadro
Da lírica excursão, d’intimidade.
Não pinto a velha ermida com seu adro;
Sei só desenho de compasso e esquadro,
Respiro indústria, paz, salubridade.

3.
Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
E tu dizias: “Fumas? E as fagulhas?
Apaga-o teu cachimbo junto às eiras;
Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
Quanto me alegra a calma das debulhas!”

4.
E perguntavas sobre os últimos inventos
Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
Como nos fazem grandes barretadas!

5.
Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
Dos olivais escuros. Onde irás?
Regressam os rebanhos das pastagens;
Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
E, silencioso, eu fico para trás.

6.
Numa colina azul brilha um lugar caiado.
Belo! E arrimada ao cabo da sombrinha,
Como teu chapéu de palha, desabado,
Tu continuas na azinhaga; ao lado
Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

7.
Nisto, parando, como alguém que se analisa,
Sem desprender do chão teus olhos castos,
Tu começaste, harmônica, indecisa,
A arregaçar a chita, alegre e lisa
Da tua cauda um poucochinho a rastos.

8.
Espreitam-te, por cima, as frestas dos celeiros;
O sol abrasa as terras já ceifadas,
E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
As saias curtas, frescas, engomadas.

9.
E, como quem saltasse, extravagantemente,
Em rego d’água sem se enxovalhar,
Tu, a austera, a gentil, a inteligente,
Depois de bem composta, deste a frente
Uma pernada cômica, vulgar!

10.
Exótica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
No atalho enxuto, e branco das espigas
Caídas das carradas no salmejo,
Esguio e a negrejar em um cortejo,
Destaca-se um carreiro de formigas.

11.
Elas, em sociedade, espertas, diligentes,
Na natureza trêmula de sede,
Arrastam bichos, uvas e sementes;
E atulham, por instinto, previdentes,
Seus antros quase ocultos na parede.

12.
E eu desatei a rir como qualquer macaco!
“Tu não as esmagares contra o solo!”
E ria-me, eu ocioso, inútil, fraco,
Eu de jasmim na casa do casaco
E d’óculo deitado a tiracolo!

13.
“As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
Um sublimado corrosivo, uns pós
De solimão, eu, sem maior demora,
Envenená-las-ia! Tu por ora,
Preferes o romântico ao feroz.

14.
Que compaixão! Julgava até que matarias
Esses insectos importunos! Basta.
Merecem-te espantosas simpatias?
Eu felicito suas senhorias,
Que honraste com um pulo de ginasta!”

15.
E enfim calei-me. Os teus cabelos muito loiros
Luziam, com doçura, honestamente;
De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
Lembravam-me fusões d’imensos oiros,
E o mar um prado verde e florescente.

16.
Vibravam, na campina, as chocas da manada;
Vinham uns carros a gemer no outeiro,
E finalmente, enérgica, zangada,
Tu inda assim bastante envergonhada,
Volveste-me, apontando o formigueiro:

17.
“Não me incomode, não, com ditos detestáveis!
Não seja simplesmente um zombador!
Estas mineiras negras, incansáveis,
São mais economistas, mais notáveis,
E mais trabalhadoras que o senhor.”

Fonte (estrofes 1-6 e 14-17): Melo e Castro, E. M. 1973. O próprio poético. SP, Quíron. Poema – dedicado a “A Eduardo Coelho” – publicado em livro em 1887.

13 janeiro 2009

Vinte e sete meses no ar

F. Ponce de León

Nessa segunda-feira, 12/1, o Poesia contra a guerra completou vinte e sete meses no ar. Ao fim do expediente de anteontem, domingo, o contador instalado no blogue indicava que 56.898 visitas haviam sido registradas.

Desde o balanço mensal anterior – Vinte e seis meses no ar – foram ao ar textos dos seguintes autores: Adam Mickiewicz, Derek de Solla Price, Fernando Guimarães, Gaston Bachelard, Maria Tereza de Queiroz Piacentini, Michael Pollan, René Dumont, Sousândrade, Vasko Popa e Zila Mamede. Além de outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens dos seguintes pintores: Arthur Hughes, Giorgio Morandi, Giovanni Bellini e Roberto Ferruzzi.

11 janeiro 2009

A ciência desde a Babilônia

Derek de Solla Price

9.
A palavra ‘idiota’ provém do grego idiotes, uma pessoa, um leigo, um não-profissional, desqualificado por condição ou criação, para participar do que a humanidade apresentava, então, de mais elevado – a vivência da democracia política. Aquela palavra, hoje lamentavelmente deturpada, poderia voltar a ser usada para descrever os modernos idiotas científicos – homens educados que desviam da ciência os seus olhos e mostram aversão pelo que consideram um ridículo cerimonial de incompreensibilidade a rodear um novo ponto culminante da civilização: suas ciências e as tecnologias a elas associadas.

O idiotismo científico da cultura moderna já foi diagnosticado por muitos anatomistas do atual e melancólico estado de coisas – por Sir Eric Ashby, Jacques Barzun, Herbert Butterfield, George Sarton e Sir Charles Snow, para mencionar apenas alguns dentre eles. Parece haver concordância geral em que é má qualquer separação entre as ciências e as humanidades. A separação deve desaparecer ou devemos considerar que não existe, entendendo que as ciências são humanidades ou que as humanidades são ciência. Nosso sistema educacional vem falhando por produzir graduados aos quais bem poderiam ser fornecidos certificados de ignorância – ou em humanidades ou em ciência. Nossos cientistas e humanistas vêm-se tornando ineficazes diante das exigências da civilização e do saber, por falta de conhecimento acerca das duas áreas.
[...]

Fonte: Price, D. S. 1976 [1961]. A ciência desde a Babilônia. BH & SP, Itatiaia & Edusp.

09 janeiro 2009

Madonina


Roberto Ferruzzi (1854-1934). Madonnina. 1897.

Fonte da foto: Wikipedia

07 janeiro 2009

Banho (rural)

Zila Mamede

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando;
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d’água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.

Fonte: Moriconi, I. 2001. Os cem melhores poemas brasileiros do século. RJ, Objetiva. Poema originalmente publicado em 1959.

05 janeiro 2009

Treze maneiras de se olhar para um pasto

Michael Pollan

Para algo de que muitos dizem gostar tanto, o capim (e as gramíneas em geral) é curiosamente difícil de se ver. Bem, num sentido geral é possível vê-lo bastante, mas o quanto nós vemos de fato quando olhamos para uma superfície coberta de capim? A cor verde, é claro, talvez a passageira percepção de uma aragem: uma abstração. Para nós, a grama é mais um chão do que uma imagem, um pano de fundo para elementos mais distintos de uma paisagem – árvores, animais, construções. É menos um assunto em si mesmo do que um contexto. Talvez essa impressão se deva à disparidade na escala entre nós e os inúmeros pequenos seres que compõem um pasto. Talvez sejamos simplesmente grandes demais para perceber de maneira detalhada o que está acontecendo ali.

Curiosamente, parecemos gostar de capim menos pelo que ele é do que pelo que não é – quer dizer, a floresta –, e ainda assim costumamos nos identificar muito mais com uma árvore do que com uma folha de capim. Em geral, quando poetas comparam pessoas a folhas de capim, isso é feito para nos diminuir, para minar nossa individualidade e fazer com que nos lembremos de nossa insignificância existencial. Composto por tantas partes pequeninas e aparentemente idênticas, um trecho de capim – que muitas vezes ao ser examinado mais de perto revela ser composto não de capim, mas de leguminosas e de muitos tipos de plantas de folhas grandes – acaba nos transmitindo a aparência de uma grande quantidade indiferenciada, de um campo de colorido tosco. Essa maneira de ver o capim – ou de não vê-lo – deve nos ser conveniente; de outro modo, por que nos daríamos tanto trabalho para manter a grama aparada? O ato de apará-la só faz aumentar sua natureza abstrata.
[...]

Fonte: Pollan, M. 2007. O dilema do onívoro. RJ, Intrínseca.

03 janeiro 2009

Matinal

Poh Pin Chin

Uma sucessão
de marolas
tão elegantes
avança silente

(mesmo sem
conhecer
as equações
que obedece)

após a queda
da derradeira
gota de chuva

sobre a lâmina
de água
estagnada.

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