27 fevereiro 2015

A lament

Percy Bysshe Shelley

O World! O Life! O Time!
On whose last steps I climb,
Trembling at that where I had stood before;
When will return the glory of your prime?
No more – Oh, never more!

Out of the day and night
A joy has taken flight;
Fresh spring, and summer, and winter hoar,
Move my faint heart with grief, but with delight
No more – Oh, never more!

Fonte (primeira estrofe): Carpeaux, O. M. 2011. História da literatura ocidental, vol. 3. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1824.

25 fevereiro 2015

Do inferno à budicidade

Daisaku Ikeda

Depois de vinte anos de massacres e atrocidades, a guerra do Vietnã chegou ao fim. Acima e além do espantoso número de perdas paira uma indagação: quantas vidas foram destroçadas, mutiladas e apartadas em décadas de luta? Mas esse não é o único nem o mais importante motivo da desolação.

Por volta de 1972, um jornalista japonês de volta de Hue declarou que os vietnamitas tinham ‘medo da paz’. Ele não quis dizer que aquele povo não queria viver pacificamente, mas apenas que não sabia o que era paz e o que trazia no seu bojo. De guerra eles entendiam, mas a paz lhes era uma quantidade desconhecida. Para nós, que temos tido a boa sorte de viver em contato com a paz, isso parece irrealístico. Como é doloroso pensar que somente poucas pessoas, na região, são velhas o bastante para ter a noção do que é viver em paz!

Tendo sobrevivo à guerra infernal, essa desafortunada gente se pergunta: “O que é paz?” Uma geração inteira nada sabe a não ser sobre guerra, bombardeios e terra devastada. No entanto, muitos devem ter sonhado – de tempos em tempos – com uma maneira de viver mais humana cada vez que a esperança era rapidamente transformada em desconfiança e desespero. Nas suas vidas, a única coisa certa tinha sido a morte.
[...]

Fonte: Ikeda, D. 1992. Vida: Um enigma, uma jóia preciosa. RJ, Record.

23 fevereiro 2015

Jovem de pálidas faces, musa distante

Nehas Sopaj

Assim começa o canto do poeta:
Jovem de pálidas faces, musa distante,
céu e sol que amadurecem no amor.

Desiludido, em seguida, fecha o poema:
Meretriz, secaste o meu canto!

Saint-John Perse disse: minha voz está na areia.
Eu, eu não digo nada. Calo-me e espero tua palavra.
Espero que me tomes a mão sem falar de amor,
nutrindo-me com o amor.

Oh dia, dia de vozes e vento
que perturbam os tempos!

Fonte: Freire, C. 2004. Babel de poemas: uma antologia multilíngüe. Porto Alegre, L&PM.

21 fevereiro 2015

Irracionalismo

Jorge Roux

Todos são ‘Casos’? – O pressuposto mais geral das terapias psicológicas é que todo indivíduo que a elas se submete tem sempre algo a ‘esconder’, conscientemente ou não. Se se apresenta demasiado falante, é porque está se defendendo atrás de palavras; se é uma pessoa reservada, o diagnóstico é também simples: ela se oculta atrás do seu silêncio. O comedimento, por certo, também é uma defesa: é a suposta segurança. Em resumo, é o paciente quem vai decidir se haverá necessidade ou não de terapia, pois para o terapeuta haverá sempre uma vez que ele parte do ponto de vista – plausível – de que só quem tem problemas resolve se submeter à terapia.

Assim, se temos, de um lado, alguém que sofre e se dispõe a ser paciente de um tratamento, às vezes longo, e, de outro, um terapeuta possuidor de um repertório suficientemente vasto para incluir todos os casos, qual o impedimento para se iniciar desde logo a terapia? Em princípio, salvo casos raríssimos, não se recusa nenhum cliente. Pois não possuem as entidades dos terapeutas bastante universalidade para incluir, numa mesma e monótona teoria explicativa, todas as possibilidades? Por definição, não há pessoas sem problemas. Há, sim, aqueles que não se dão conta dos seus e por isso não se apresentam às terapias.

Pode-se questionar: terá a nossa época problemas tão especiais, tão radicalmente diferentes dos das gerações anteriores, que a humanidade precise, hoje, das muletas oferecidas pressurosamente pelos terapeutas para sair da sua cadeira de rodas?
[...]

Fonte: Roux, J. 1978. A irracionalidade em psicologia. Petrópolis, Vozes.

19 fevereiro 2015

Pau-brasil

Carlos Toledo Rizzini

Características distintivas. ÁRVORE de 6-15 m, relativamente fina (20-40 cm), com pequenas sapopemas basais; râmulos grosseiramente lenticelosos, aculeados ou inermes. CASCA pardo-acinzentada ou pardo-rosada nos pontos onde descamou, rugosa devido a grande cópia de lenticelas verruciformes, que se desprende sob a forma de placas providas de grossos acúleos, cuja ponta é pungente; a base do tronco já não leva acúleos, mas os apresentam os ramos mais grossos. FOLHAS com 6-10 pinas alternas; folíolos 10-20, alternos, sésseis, oblongos, emarginados, com a base assimétrica, membranáceos a subcoriáceos, nitídulos, reticulados, glabros ou quase, 12-35 x 6-25 mm, geralmente 12-20 x 6-10 mm; pecíolo pubescente, aculeado ou não. RACEMOS terminais e axilares, 10-20 cm, laxifloros, fulvo-pubescentes; pedicelos 15-25 mm, pilosos. FLORES amarelas, perfumadas, a pétala maior com mancha vermelho-escura no centro; estames 10, livres, desiguais, os filetes pilósulos; ovário séssil, piloso. CÁPSULA oblonga ou algo obovada, rostrada ou apiculada, delgada, dura, pardo-avermelhada, 5-8 x 2-2,5 cm, coberta de múltiplos acúleos curtos e pungentes; sementes elíticas, castanhas, lisas, 12-15 x 10 mm.

Madeira. Quase uniformemente laranja ou vermelho-alaranjada quando fresca, passando a vermelho-violácea com reflexo dourado; superfície lustrosa, lisa. Muito pesada e dura; incorruptível. Em contacto com solução alcalina desenvolve coloração róseo-violácea, que passa a vermelho-viva (formação de brasileina). O cerne é pequeno em relação ao alburno.
[...]

Fonte: Rizzini, C. T. 1978. Árvores e madeiras úteis do Brasil, 2ª edição. SP, Edgard Blücher.

17 fevereiro 2015

O sátiro e o camponês


Jacob Jordaens (1593-1678). Sater en boer. 1620.

Fonte da foto: Web Gallery of Art.

15 fevereiro 2015

Se me encontram

Basílio Miranda

Se me encontram morto, amigos,
não me abandonem pálido.
Da cor mais vermelha,
meus lábios
pintai.
Se tristes te parecerem,
arranca, amada,
meus olhos
sem piedade deles.
Há em minha casa
vinho antigo
de Portugal.
Sem cerimônia, pressa
ou memória
bebei.

Fonte: Kuri et al. 2004. Adversos. RJ, Atlântica Editora.

13 fevereiro 2015

A riqueza de um poeta

Correia Garção

Nas despidas paredes, que me abrigam
No tormentoso Inverno,
A passagem do Grânico não vejo
Em fina lã tecida.
Nem mármores, nem pórfidos luzentes
Nos alizares brilham:
Não tine do Japão na parca mesa
A rara porcelana.
O dourado saleiro não me cega
C’os trêmulos reflexos
De prata. Não se acendem mil bugias
Em tortas serpentinas.
Porém Virgílio, Sófocles, Homero,
O venusino Horácio,
São as ricas alfaias, que me adornam
A sala majestosa,
Os soberbos escudos, em que pinto
A geração ilustre.
Eles fazem que Ansberto generoso
Seu amigo me chame;
Que o Souza marcial com puro estilo
Gracejando me escreva.
Guarde a terra avarenta nas entranhas
O ouro refulgente.
O Mineiro na roça aflito cave
C’os sórdidos escravos:
Por ignotos sertões exponha a vida
Do bárbaro Tapuia
À seta venenosa, à veloz garra
Do Tigre mosqueado.
Sofra na Linha podre calmaria,
Relâmpagos, e raios:
Para n’Aldeia entrar acompanhado
De descalços Trombetas,
De purpúreas Araras, inquietos
Petulantes Bugios,
Gaste pródiga a mão, em poucas Luas,
O ganho de dois lustros;
Para a vermelha Cruz a brilhar no peito,
Que os fardos encurvaram.
No tegurio paterno não cabendo,
Palácios edifica
Alastrado com pedras o caminho.
Do Guindaste as roldanas
C’o peso do venal Escudo gcmem,
Que o Pórtico remata.
Estúpido não sabe, que apressada
A pálida Doença
Atrás dele caminha: que já chega
Envolta em parda névoa,
A Morte inexorável, derramando
Co’ a fria mão angústias;
Que o leito de cruéis fantasmas cerca,
E que lhe arranca as chaves
Do guardado tesouro; que o reparte
Pelos rotos herdeiros.
E qual sangrado rio enfraquecido
Torna a gastar-se em sogas!
Com ouro não se compra um nome digno
Da póstuma memória.

Fonte (22 primeiros versos): Martins, W. 1977. História da inteligência brasileira, vol. 1. SP, Cultrix & Edusp. Poema publicado em livro em 1778.

12 fevereiro 2015

Cem meses no ar

F. Ponce de León

Nesta quinta-feira, 12/2, o Poesia contra a guerra completa cem meses (oito anos e quatro meses) no ar. Ao longo desse período, e até o fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue registrou 263.738 visitas.

Desde o balanço anterior – Noventa e nove meses no ar – foram aqui publicados pela primeira vez textos dos seguintes autores: Albert L. Lehninger, Braulio Tavares, Bryan Ferry, Jonathan Weiner, Kátia Bento, Michael P. Walsh, Paul B. Sears, Raymond Smullyan, Sean B. Carroll e Sebastião Nunes. Além de alguns outros que já haviam sido publicados em meses anteriores.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes pintores: Franz von Lenbach, Juan Bautista Martínez del Mazo e Max Liebermann.

10 fevereiro 2015

Enigmas e o ensino de matemática

Raymond Smullyan

Entre as muitas cartas fascinantes que recebi por conta do meu primeiro livro de enigmas [...], uma vinha do filho de dez anos de um famoso matemático, meu antigo colega de escola. A carta trazia um belo problema original, inspirado em alguns dos enigmas do meu livro, que o menino estava devorando. Tratei logo de telefonar ao pai para cumprimentá-lo pela esperteza do garoto. Antes de chamar o filho, meu amigo me disse baixinho, em tom conspiratório: “Ele está lendo o seu livro e está adorando! Mas quando falar com ele, não dê a entender que se trata de matemática, porque ele odeia matemática! Se lhe passar pela cabeça que o que está fazendo na verdade é matemática, ele pára de ler o livro na mesma hora!”

Cito esse episódio porque ilustra um fenômeno muito curioso, mas também bastante comum: já conheci inúmeras pessoas que dizem odiar matemática e, no entanto, ficam interessadíssimas quando lhes proponho problemas lógicos ou matemáticos, desde que sejam apresentados sob a forma de enigmas. Não me surpreenderia se descobrissem que bons livros de enigmas são os melhores remédios na cura do célebre ‘pânico de matemática’. E, digo mais, qualquer tratado de matemática poderia ser escrito sob a forma de livro de enigmas! Às vezes fico imaginando o que aconteceria se Euclides tivesse escrito nesse formato o seu clássico Elementos. Em vez de declarar, por exemplo, sob a forma de teorema, que os ângulos da base de um triângulo isósceles são iguais, oferecendo a demonstração em seguida, poderia ter escrito: “Problema: dado um triângulo com dois lados iguais, dois dos seus ângulos são necessariamente iguais? Por que sim ou por que não? (Solução na página tal).” E o mesmo poderia ter feito com todos os seus demais teoremas. Uma obra escrita assim teria ótimas chances de vir a tornar-se um dos livros de enigmas mais populares da história.
[...]

Fonte: Smullyan, R. 2004 [1982]. A dama ou o tigre? e outros problemas lógicos. RJ, Jorge Zahar.

08 fevereiro 2015

Embriogênese

Sean B. Carroll

Quando assistimos ao desenvolvimento de um embrião, começamos a formular perguntas óbvias: Como ele sabe qual parte será a cabeça e qual será a cauda? Ou a parte de cima e a parte de baixo? Como ele decide onde colocar os olhos, as pernas e as asas? Se pensarmos um pouco sobre o futuro desse zigoto, que irá formar músculos, nervos, sangue, ossos, pele, fígado, etc., poderíamos nos perguntar: como todo esse potencial é levado a [cabo]. Em que momento da embriogênese é selado o destino de cada célula?

Perguntas fascinantes como essas motivaram os grandes pioneiros da embriologia a encontrar respostas usando as mais simples manipulações experimentais. Por questões práticas, escolheram embriões de espécies amplamente disponíveis, fáceis de manusear e cujo desenvolvimento pudesse ser observado. Em geral, eram animais aquáticos, como ouriços-do-mar e anfíbios, cujos zigotos se desenvolviam rapidamente nas mais simples condições. [...]

Fonte: Carroll, S. B. 2006. Infinitas formas de grande beleza. RJ, Jorge Zahar.

07 fevereiro 2015

Zaragoza


Juan Bautista Martínez del Mazo (c. 1611-1667). Vista de la ciudad de Zaragoza. 1647.

Fonte da foto: Museo Nacional del Prado.

06 fevereiro 2015

A lógica molecular dos seres vivos

Albert L. Lehninger

[O] atributo mais proeminente dos organismos vivos é sua capacidade de efetuar autorreplicação precisa, uma propriedade que pode ser encarada como a verdadeira quintessência da condição vital. [...]

[S]e os organismos vivos são constituídos de moléculas intrinsecamente inanimadas, por que a matéria viva difere tão radicalmente de moléculas inanimadas? Por que razão os organismos vivos parecem ser mais do que a soma de seus componentes inanimados? [...] Na atualidade, o objetivo primordial da bioquímica é determinar como os agregados de moléculas inanimadas que constituem os seres vivos interagem entre si para manter e perpetuar a condição vital.

Fonte: Lehninger, A. L. 1976. Bioquímica, v. 1. SP, Blücher.

03 fevereiro 2015

Em verdade vos digo

Kátia Bento

Diz-se da taruíra
: não está no dicionário,
só no gueto capixaba –
em seu imaginário.

Diz-se da taruíra
: é mentira.
Dela se cochicha
: é lagartixa.

Digo não. E então
faço-lhe esboço
: afirmo sua carne
seu zero-osso.

Esse diz-se-diz-se
são cobras e lagartos,
só boatos
: ei-la na parede do teu quarto –

de pé mal a noite se deita,
natural inseticida
sáuria presença
em tua vida.

Fonte: poema inédito publicado aqui com o devido consentimento da autora, a quem agradeço pela cortesia.

01 fevereiro 2015

Aqui me encontrarás

Salette Tavares

Aqui me encontrarás
dormindo-me silêncio
no fumo que os telhados
perfumam de pinheiro,
aqui me encontrarás
e a lua no meu ombro
vermelha do ardor
meu sangue companheiro.
Eco que eu sou
na morte de uma era
aninham os meus braços
outonos de fulgores
e os pássaros da noite
em seus olhos de espera
escutam o arfar
do perfume das cores.
Aqui me encontrarás
floresta de vermelho
segredos de vulcão
zumbindo-me no peito
aqui me encontrarás
quente fornalha de espelho
brasa amarela de vida
sol da cor com que me enfeito.
Minha forma uma montanha
de seios que a lua aquece
meus braços caminhos de água
por toda a serra a descer
recorta-me a tarde morta
perfil que o céu enlouquece
rumor remanso de frágua
brilho lunar a correr.
Pata de frio entornada,
carreiro meu sangue d’álbas
esplendor de muro húmido
em leques de fetos verdes
langores de musgo veludo
em sombra de plantas malvas
em ti me sei e me escuto,
em ti me escorro e me bebo.
Aqui me encontrarás
tão de longe navegada
afago de ares anjos
no oceano de uma asa
nesta terra em que me mostro
aqui de além coroada
sou água que a chuva traz
à sua primeira casa.

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1957.

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