27 fevereiro 2025

Cantina das mulheres


Flora [Marguerite] Lion (1878-1958). Women’s canteen at Phoenix Works, Bradford. 1918.

Fonte da foto: Wikipedia.

24 fevereiro 2025

Trá-lo-ei de volta

Poh Pin Chin

Singrarei desertos,
escalarei oceanos,
cruzarei montanhas.
Não atrás de ouro ou prata,
mas sim do meu tesouro –
o ar da tua boca.
Trá-lo-ei de volta, ó musa.

22 fevereiro 2025

The schooner Flight

Derek Walcott

In idle August, while the sea soft,
and leaves of brown islands stick to the rim
of this Carribean, I blow out the light
by the dreamless face of Maria Concepcion
to ship as a seaman on the schooner Flight.
Out in the yard turning gray in the dawn,
I stood like a stone and nothing else move
but the cold sea rippling like galvanize
and the nail holes of stars in the sky roof,
till a wind start to interfere with the trees.
I pass me dry neighbor sweeping she yard
as I went downhill, and I nearly said:
“Sweep soft, you witch, ’cause she don’t sleep hard,”
but the bitch look through me like I was dead.
A route taxi pull up, park-lights still on.
The driver size up my bags with a grin:
“This time, Shabine, like you really gone!”
I ain’t answer the ass, I simply pile in
the back seat and watch the sky burn
above Laventille pink as the gown
in which the woman I left was sleeping,
and I look in the rearview and see a man
exactly like me, and the man was weeping
for the houses, the street, that whole fucking island.

Christ have mercy on all sleeping things!
From that dog rotting down Wrightson Road
to when I was a dog on these streets;
if loving these islands must be my load.
out of corruption my soul takes wings,
But they had started to poison my soul
with their big house, big car, big time bohbohl,
coolie, nigger, Syrian and French Creole,
so I leave it for them and their carnival –
I taking a sea bath, I gone down the road.
I know these islands from Monos to Nassau,
a rusty head sailor with sea-green eyes
that they nickname Shabine, the patois for
any red nigger, and I, Shabine, saw
when these slums of empire was paradise.
I’m just a red nigger who love the sea,
I had a sound colonial education,
I have Dutch, nigger, and English in me,
and either I’m nobody, or I’m a nation,

But Maria Concepcion was all my thought
watching the sea heaving up and down
as the port side of dories, schooners, and yachts
was painted afresh by the strokes of the sun
signing her name with every reflection;
I knew when dark-haired evening put on
her bright silk at sunset, and, folding the sea,
sidled under the sheet with her starry laugh,
that there’d be no rest, there’d be no forgetting.
Is like telling mourners round the graveside
about resurrection, they want the dead back,
so I smile to myself as the bow rope untied
and the Flight swing seaward: “Is no use repeating
that the sea have more fish. I ain’t want her
dressed in the sexless light of a seraph,
I want those round brown eyes like a marmoset, and
till the day when I can lean back and laugh,
those claws that tickled my back on sweating
Sunday afternoons, like a crab on wet sand.”

As I worked, watching the rotting waves come
past the bow that scissor the sea like milk,
I swear to you all, by my mother’s milk,
by the stars that shall fly from tonight’s furnace,
that I loved them, my children, my wife, my home;
I loved them as poets love the poetry
that kills them, as drowned sailors the sea.

You ever look up from some lonely beach
and see a far schooner? Well, when I write
this poem, each phrase go be soaked in salt;
I go draw and knot every line as tight
as ropes in this rigging; in simple speech
my common language go be the wind,
my pages the sails of the schooner Flight.
But let me tell you how this business begin.

Fonte (v. 40-3): Pereira, E. A., org. 2010. Um tigre na floresta de signos. BH, Maza. Publicado em livro em 1979, o trecho acima (‘Adios, Carenage’) corresponde à primeira das 11 partes do poema.

20 fevereiro 2025

Mar e lua

Chico Buarque

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar

Fonte: álbum Vida (1980), de Chico Buarque.

18 fevereiro 2025

Rio das Garças

Da Costa e Silva

Na verde catedral da floresta, num coro
Triste de cantochão, pelas naves da mata,
Desce o rio a chorar o seu perpétuo choro...
E o amplo e fluído lençol das lágrimas desata...

Caudaloso a rolar, desde o seu nascedouro,
Num rumor de orações no silêncio da oblata.
Ao sol – lembra um rocal todo irisado de ouro,
Ao luar – rendas de luz com vidrilhos de prata.

Alvas garças a piar, arrepiadas de frio,
Seguem de absorto olhar a vítrea correnteza.
Pendem ramos em flor sobre o espelho do rio...

É o Parnaíba, assim carpindo as suas mágoas,
– Rio da minha terra, ungido de tristeza,
Refletindo o meu ser à flor móvel das águas.

Fonte: Horta, A. B. 2007. Criadores de mantras. Brasília, Thesaurus. Poema publicado em livro em 1908.

17 fevereiro 2025

Abundância de espécies

Anne E. Magurran

Em nenhum ambiente, seja ele tropical ou temperado, terrestre ou aquático, todas as espécies são igualmente comuns. Em vez disso, o que ocorre universalmente é que algumas são muito abundantes, outras apenas moderadamente comuns, e o restante – frequentemente a maioria – raras. [...]

A observação de que espécies variam em abundância levou ao desenvolvimento de modelos de abundância de espécies. [...] Em alguns casos uma ou duas espécies dominam, com as restantes sendo pouco frequentes ou raras. Em outras situações as abundâncias das espécies são mais similares, ainda que nunca totalmente uniformes.

Fonte: Magurran, A. E. 2011. Medindo a diversidade biológica. Curitiba, Editora da UFPR.

15 fevereiro 2025

Vaidade


Frank Cadogan Cowper (1877-1958). Vanity. 1907.

Fonte da foto: Art UK.

13 fevereiro 2025

Herói anônimo

António Manuel Couto Viana

Concerta a rede da faina,
Como quem tece uma vida,
Ora agreste, ora florida,
Se o mar se encrespa ou se amaina.

Homem da minha Ribeira,
Busca o pão, dia após dia,
Ao Sol quente, à noite fria,
A bordo de uma traineira.

Vida rude! Nunca a deixe.
Sem ele, que é dele, o peixe?
Que é de nós? Miséria e fome.

Vendo-o a lidar, sem cansaço,
Louvo-o nos versos que faço.
... E nem sequer sei seu nome!

Fonte: Silva, A. C. & Bueno, A., orgs. 1999. Antologia da poesia portuguesa contemporânea. RJ, Lacerda Editores. Poema publicado em livro em 1998.

12 fevereiro 2025

220 meses no ar

F. Ponce de León

Nesta quarta-feira, 12/2, o Poesia Contra a Guerra está a completar 220 meses (18 anos e quatro meses) no ar.

Desde o balanço anterior – ‘18 anos e três meses no ar’ – foram publicados aqui pela primeira vez textos dos seguintes autores: Alvar Ellegård, Colin Spedding, Eloi de Souza Garcia, Fay Weldon, G. V. Ustimenko-Bakumovsky, Henri Moniot, Jonathan Adams, P. G. N. Digby, P. G. Wodehouse, Paul J. Greenwood, Paulo de Bessa Antunes, R. A. Kempton, Robert Herrick, Roger Tory Peterson e Steven Lukes. Além de material de autores que já haviam sido publicados antes.

Cabe ainda registrar a publicação de imagens de obras dos seguintes artistas: Nicolaes Pickenoy, Otto Dix e Paulus Potter.

11 fevereiro 2025

Ecological correlates of sex

Paul J. Greenwood & Jonathan Adams

The origins and maintenance of sex are still a matter of debate. Some insights may be gained by comparing the patterns of sexuality and asexuality in the Plant and Animal Kingdoms. Asexuality is probably commoner among plants than animals. Most parthenogenetic strains are almost certainly derived from sexual forebears. They occur relatively infrequently and tend not to replace their sexual ancestors throughout their range. This suggests, firstly, that such species are subject to a high rate of extincton and, secondly, that when they do arise they are comparatively unsuccessful in competition with sexual forms.

Unpredictable and complex environments should favour sex while simple communities with greater predictability and fewer predators or pathogens should have a higher frequency of asexual species. This appears to be the case. Biologically complex habitats such as tropical rain forests with a myriad of interspecific interactions have relatively few asexual species. Simpler or impoverished habitats, such as those at high altitudes and high latitudes, tend to have relatively more.

Fonte: Greenwood, P. J. & Adams, J. 1987. The ecology of sex. Londres, Arnold.

10 fevereiro 2025

Nível de resolução

Eloi de Souza Garcia

Em 1959, Richard Feynman, prêmio Nobel de Física, em uma célebre conferência no Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, propôs a construção de máquinas mínimas, nos limites possíveis da resolução, que respeitassem as leis da Física. Surpreso, ele mesmo observou que não havia nada nas leis da mecânica quântica que impossibilitasse a criação de máquinas do tamanho de um vírus.

Para testar essa ideia, Feynman ofereceu um prêmio de mil dólares para a primeira pessoa que reduzisse 25 mil vezes as informações contidas numa página de livro, ficando as letras suficientemente legíveis para serem lidas em um microscópio eletrônico. A redução por um fator de 25 mil é suficiente para colocar toda a informação contida na Enciclopédia Britânica em uma cabeça de alfinete. Poucos anos depois, Feynman pagou o prêmio deste desafio.

Fonte: Garcia, E, S. 2003. Um olhar sobre a ciência. RJ, Interciência.

08 fevereiro 2025

Tropas avançam através do gás


Otto Dix (1891-1969). Sturmtruppe geht unter Gas vor. 1924.

Fonte da foto: Wikipedia.

06 fevereiro 2025

Multivariate analysis of ecological communities

P. G. N. Digby & R. A. Kempton

The development of statistical methods in field biology has, until recently, been dominated by the requirements of agricultural scientists working with highly controlled systems of experiments. Here the experimental factors (e.g. plant variety or nutrient level or site) generally cover only a limited range, while the variation in uncontrolled factors is made as small as possible, for example, by spraying to control disease. In consequence, the range of measured responses and the unexplained error in those responses are also fairly small. This has led to the development of a large statistical theory in which the pattern of response, possibly after transformation, is described by the effects of addictive factors and a residual response whose distribuition approximates to some known mathematical form (e.g. a normal distribution).

Fonte: Digby, P. G. N. & Kempton, R. A. 1987. Multivariate analysis of ecological communities. Londres, Chapman.

04 fevereiro 2025

A história dos povos sem história

Henri Moniot

Havia a Europa, e nisso se resumia a história. Por cima e à distância algumas ‘grandes civilizações’ que seus textos, suas ruínas, às vezes seus laços de parentesco, de trocas, de herança com a Antiguidade Clássica, nossa mãe, ou a amplidão das massas humanas, que eles opuseram aos poderes e à atenção dos europeus, faziam com que fossem admitidas à margem do império de Clio, aos bons cuidados do orientalismo apaixonado pela filologia e pela arqueologia monumental, e comumente consagrado à ostentação das ‘invariantes’ espirituais. O que resta: povoações sem história, sobre o que estavam de acordo o homem da rua, os manuais e a Universidade.

Tudo isso foi mudado. Há dez ou quinze anos, por exemplo, a África negra entra forçosamente no campo dos historiadores. O que se passou e como isso foi possível?

Fonte: Moniot, H. 1979. In: Le Goff, J. & Nora, P., orgs. 1979. História: novos problemas, 2ª ed. RJ, Francisco Alves.

02 fevereiro 2025

To the virgins, to make much of time

Robert Herrick

Gather ye Rose-buds while ye may,
  Old Time is still a-flying:
And this same flower that smiles to day
  To morrow will be dying.

The glorious Lamp of Heaven, the Sun,
  The higher he’s a getting;
The sooner will his Race be run,
  And nearer he’s to Setting.

That Age is best, which is the first,
  When Youth and Blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
  Times, still succeed the former.

Then be not coy, but use your time;
  And while ye may, go marry:
For having lost but once your prime,
  You may for ever tarry.

Fonte (v. 1-4): Carpeaux, OM. 2011. História da literatura ocidental, vol. 2, 4ª ed. Brasília, Senado Federal. Poema publicado em livro em 1648.

01 fevereiro 2025

Quem se importa?

Fay Weldon

Quem se importa com meio segundo após o big-bang; que tal o meio segundo anterior?

Fonte: Davies, P. 1999. O enigma do tempo. RJ, Ediouro.

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