1. A neve começou a cair antes de ela entrar em trabalho de parto. Primeiro alguns flocos, no céu cinzento e opaco do fim de tarde, depois volteios e redemoinhos impelidos pelo vento ao redor das quinas da ampla varanda frontal. Ele parou ao lado da mulher, à janela, observando as rajadas abruptas de neve sucederem-se em ondas, rodopiarem e caírem no chão. Em todo o bairro acenderam-se as luzes e os galhos nus das árvores embranqueceram.
Depois do jantar, ele acendeu a lareira, aventurando-se na nevasca para buscar lenha do monte que empilhara junto à garagem no outono anterior. O ar penetrante e frio bateu-lhe no rosto, e a neve na entrada da garagem já chegava a meia altura de seus joelhos. Ele juntou algumas toras, sacudindo a camada macia e branca que as cobria, e as levou para dentro. Os gravetos sobre a grelha pegaram fogo imediatamente e, por algum tempo, ele ficou sentado junto à lareira, pernas cruzadas, acrescentando toras e observando o saltitar das chamas, azuladas e hipnóticas. Lá fora a neve continuava a cair silenciosamente na escuridão, tão brilhante e densa como estática nos cones de luz formados pelos postes de iluminação. Quando se levantou e olhou pela janela, seu carro se transformara numa colina branca e fofa à beira da calçada. Suas pegadas na entrada da garagem já tinham desaparecido. [...]
Fonte: Edwards, K. 2007. O guardião de memórias. RJ, Sextante.
Algumas palavras são mais que o som. Soltam-se delas lâmpadas, por vezes gritos. Palavras que demoram na boca com o sabor da manhã de Outubro, o claro gosto da terra húmida, castanha até doer.
E há noites em que se ouve, além das horas, um chamar por nós, um apelo comovido. Podemos afirmar: são irmãos, são mães, são companheiras. Mas é outra a face revelada. Todo um ruído quente quase desanimado. Um ténue vento queimando-se nos vidros. Posso dizer: em noites assim alguns morrem, muito antes de saberem o nome e a voz. De quem esse clamor? Saber que na antiga casa as portas se abriram, um ou outro quarto vai iluminar-se e começa o dia!
Há palavras lança-chamas, Conheço algumas que nos fazem viver, por não serem simples som mas estradas incendiadas por dentro, duplos corações batendo com o calor da certeza do dia que se segue. Assim me apoio às palavras, procuro a tudo dar um nome, e em noites destas – salientes, defumadas, com vozes que nos chamam – sou um corpo novo. Quebrando o meu silêncio, povoo alguns espaços de alegria. Rasgo o papel. Irado, desejoso de saber até onde, quando, como, o corpo vai. Nas palavras me encontro. Cansado, quase morto, à espera, sempre à espera. Nas palavras vivo, denuncio ou ataco. Há um grande sol à nossa espera. Quantos somos?
A palavra ‘predador’ causa um arrepio na espinha na maioria das pessoas. Talvez provoque a visão de um tubarão gigantesco engolindo uma mulher nua num mergulho à meia-noite, como na cena de abertura do filme Tubarão – ou uma cena qualquer igualmente apavorante. Os encontros com predadores grandes são, com freqüência, emocionantes também para os [ecólogos]. Constituem algumas de minhas recordações mais vivas de quatro décadas de biologia de campo. Por exemplo, numa clara noite subártica, em 1955, alguns amigos colecionadores de borboletas e eu íamos lentamente de carro por uma estrada no Parque Nacional de Monte McKinley, no Alasca, esperando tirar fotos de um urso cinzento, o maior predador terrestre da América do Norte. Era fim de primavera e o parque estava quase deserto de turistas. Deixamos que uma caminhonete nos ultrapassasse e então, de repente, vimos bem à frente do nosso veículo um grande Toklat cinzento fêmea e seu filhote.
Em lugar de parar, o outro carro imediatamente avançou sobre os ursos e depois os perseguiu pela estrada, irritando-nos e, desconfio, irritando também a ursa. Depois de serem perseguidos por uns cem metros, os ursos se separaram, a fêmea subindo a encosta e o filhote descendo morro abaixo. O motorista da caminhonete imediatamente freou e saltou com seu companheiro, e (sem nenhuma razão evidente para nós) correu sacudindo os braços para o filhote, que tinha parado a cerca de 10 metros da estrada. Preparei minha câmera, enquanto a fêmea observava a cena também a uns 10 metros, mas do outro lado da estrada – achei que uma foto de dois idiotas sendo despedaçados pela mamãe ursa teria certo valor comercial. Não tive tanta sorte, porém. A ursa não atacou, e depois de alguns momentos de espanto, o filhote simplesmente passou ao largo do homem que agitava os braços, para juntar-se à mãe, e foram embora. […]
Fonte: Ehrlich, P. R. 1993 [1986]. O mecanismo da natureza. RJ, Campus.
My mama told me ’Cause she say she learned the hard way She say she want to spare the children She say don’t give or sell your soul away ’Cause all that you have is your soul
Don’t be tempted by the shiny apple Don’t you eat of a bitter fruit Hunger only for a taste of justice Hunger only for a world of truth ’Cause all that you have is your soul
I was a pretty young girl once I had dreams I had high hopes I married a man he stole my heart away He gave his love but what a high price I paid And all that you have is your soul
Why was I such a young fool Thought I’d make history Making babies was the best I could do Thought I’d made something that could be mine forever Found out the hard way one can’t possess another And all that you have is your soul
I thought, thought that I could find a way To beat the system To make a deal and have no debts to pay I’d take it all take it all I’d run away Me for myself first class and first rate But all that you have is your soul
Here I am waiting for a better day A second chance A little luck to come my way A hope to dream, a hope that I can sleep again And wake in the world with a clear conscience and clean hands ’Cause all that you have is your soul
All that you have All that you have All that you have Is your soul
Fonte: encarte que acompanha o LP do álbum Crossroads (1989), de Tracy Chapman.
[...] A extrema sistematização, previsibilidade e caráter aparentemente ‘programático’ da senescência tem constituído um desafio aos [biólogos teóricos] há muitos anos. A mais famosa teoria patológica do envelhecimento – a teoria que trata o envelhecimento como um processo mórbido – foi a do zoólogo russo Elie Metchnikoff, um homem também célebre pela descoberta da fagocitose e por ter sido o primeiro a produzir um soro antilinfocitário. O envelhecimento, acreditava ele, deve-se ao auto-envenenamento cumulativo – à auto-intoxicação – pelas toxinas de bactérias normalmente residentes no intestino. Pensava também que tais processos poderiam ser diminuídos ou anulados pela substituição da flora intestinal por bacilos de ácido láctico. É à defesa de Metchnikoff que devemos a vasta popularidade atual do iogurte como artigo dietético; e também proveio dele a crença em que os camponeses búlgaros devem sua longevidade ao consumo regular de coalhada. [Os clínicos observaram que o consumo de muitos iogurtes comerciais modernos, com seus preservativos, por vezes mal-definidos, certamente levaria as vidas dos camponeses búlgaros a um fim prematuro.]
Embora a teoria especial de Metchnikoff do processo de envelhecimento não tenha encontrado favor, ele merece grande crédito por ter sido o primeiro a tratar o envelhecimento como um epifenômeno da vida – algo sobreposto aos processos normais da existência – e não como um fenômeno acarretado, de algum modo, pelos próprios processos vitais. Pensa-se hoje, em geral, que isso constitua um sinal de bom discernimento por parte de Metchnikoff. [...]
Fonte: Medawar, P. B. & Medawar, J. S. 1978. A ciência da vida. RJ, Zahar.
Ali jazia. Sobre o travesseiro erguido era de rejeição seu pálido semblante, desde que o mundo, e o que dele conhecera antes de arrancado dos seus sentidos, retornou ao ano desinteressante.
Os que o viam viver nem devem ter suposto o quanto ele era um só com tudo isto, com estes prados, estas baixadas, estas águas: destes era feito, eles eram o seu próprio rosto.
Oh o seu rosto tinha toda esta largura que ainda o quer, que ainda o anda a procurar, e sua máscara de morte, ansiosa, alvar, também é tenra e aberta como a carnadura de uma fruta qualquer que apodrecesse ao ar.
Fonte: Rilke, R. M. 1993. Poemas. SP, Companhia das Letras. Poema publicado em livro em 1907.
Nesta terça-feira, 12/10, o Poesia contra a guerra completa quatro anos no ar. Ao fim do expediente de ontem, o contador instalado no blogue indicava que 109.066 visitas haviam sido registradas ao longo desse período.
Nos últimos 12 meses, foram ao ar textos de 107 novos autores, além de outros que já haviam sido publicados antes – ver Aniversário de três anos. Eis a lista com o nome dos novos autores: Abraham Maslow, Agatha Christie, Alan Macfarlane, Alberto de Oliveira, Aleksandr Tvardóvski, Alexei Bueno, Alicia Aspinwall, Antonio Cicero, António Franco Alexandre, António Osório, Armando da Silva Carvalho, Ascenso Ferreira e Astrid Cabral;
B. F. Skinner e Bashô;
Caetano Veloso, Carpinejar, Casimiro de Brito, Christine M. Janis, Claudia Roquette-Pinto e Clarice Lispector;
Daniel C. Dennett, Daniel E. Brown, Daniel Filipe e Diogo Alcoforado;
Edilson Martins, Edward Batschelet, Edward J. Kormondy, Eudoro Augusto e Eugenio Florit;
F. Harvey Pough, Fernando Echevarría, Fernando Pinto do Amaral, Fernando Sabino, François Jacob, Frank Crane e Friedrich Schiller;
Garibaldo Alessandrini, Geir Campos, Georg Trakl, George C. Williams, George F. Kneller, George Gaylord Simpson, Gil Vicente, Gilberto Mendonça Teles e Gordon Lightfoot;
Hans Küng e Hyman Hartman;
Ildásio Tavares e Irven DeVore;
J. K. Rowling, Jacques Le Goff, James Trefil, Jean-Baptiste de Lamarck, Jean Baudrillard, Joanita Blank, João Carlos Pádua, João Miguel Fernandes Jorge, João Zorro, John B. Heiser, Jon Krakauer, Jon Scieszka, José Augusto Seabra e José Oiticica;
Keith Reid e Knut Schmidt-Nielsen;
Leila Diniz, Leila Míccolis, Leomar Fróes, Liberto Cruz, Lloyd R. Peterson, Ludwig Wittgenstein e Lyall Watson;
P. W. Atkins, Pablo Rojas Guardia, Patrick Suppes, Paul Singer, Paulo Henriques Britto e Péricles Eugênio da Silva Ramos;
Ralph Waldo Emerson, Ray Bradbury, Richard Brennan, Robert Arking, Robert Wright, Ronaldo Bôscoli, Rubem Braga, Rubem Fonseca, Rudyard Kipling e Ruy Espinheira Filho;
S. L. Washburn, Scott Westerfeld, Stanley Milgram, Steven Rose e Steven Weinberg;
Vergílio Alberto Vieira;
Wilson Martins; e
Zé da Luz.
Cabe ainda registrar a publicação de imagens dos seguintes 32 pintores: Adam Elsheimer, Alvar Cawén, Antoine Watteau, August Macke; Corregio; Dante Gabriel Rossetti; Edward Burne-Jones, Egon Schiele; Félix Vallotton, Franz Marc; Gerard David, Girodet-Trioson, Gustave Moreau; Henri Fantin-Latour, Henry Fuseli, Horace Vernet; Ivan Albright; Jacques-Louis David, John Everett Millais; Max Beckmann; Otto Mueller; Paula Modersohn-Becker, Paul Klee, Pietro Annigoni; Robert Delaunay; Salvator Rosa, Stefan Lochner; Théodore Rousseau; Valentin Serov, Vasily Polenov, Viktor Vasnetsov; e William Hogarth.
Mãe, a lua, de tão tonta, Passa roçando a montanha E não pára a descansar!
Me leva, minha mãe, me leva a Galipán!
Eu quero colher no campo A erva listada de prata, A erva que de madrugada Estava toda verdinha.
Me leva, minha mãe, me leva a Galipán!
É verdade que esta noite Se às estrelas erradias Eu pedir o que desejo, O céu o concederá? Dize-me, mãe, se é verdade, Olha que quero pedir-lhes Que tua máquina pare E que tu não cosas mais.
Me leva, minha mãe, me leva a Galipán!
Iremos colher os pêssegos Saborosos, os morangos Vermelhos para comê-los Com leite fresco...
Me leva, minha mãe, me leva a Galipán!
Partamos, mãe, sem demora. Eu quero ser o primeiro Para ver como lá chegam Os Três Magos a Belém.
Me leva, minha mãe, me leva a Galipán!
Que formoso o meu Natal! Pêssegos grandes, Erva de prata, Moranguinhos vermelhos Com leite fresco... Encontrarei nos sapatos O presente que ao céu peço: Minha mãe não cosa mais!
A evolução humana é um assunto intrigante e que facilmente mobiliza nossa curiosidade. Não é de estranhar, portanto, que os holofotes da mídia se acendam sempre que os estudiosos anunciam um novo achado fóssil de nossos ancestrais. Foi o ocorreu no início de abril último, após a revelação de que uma nova espécie de hominídeo havia sido formalmente descrita e nomeada. Trata-se do Australopithecus sediba, um possível elo de transição entre os gêneros Australopithecus e Homo. [...]
Alguns milhões de anos após a separação dos ramos que dariam origem aos chimpanzés e aos humanos, a árvore evolutiva dos antropoides já havia sofrido diversas ramificações. Na opinião da maioria dos estudiosos, os antropoides fósseis mais próximos do gênero Homo são os do gênero Australopithecus, que teria prosperado entre 4 milhões e 1 milhão de anos atrás. [...]
Com base no exame de restos fósseis dos esqueletos de dois indivíduos, um adulto e uma criança, encontrados na África do Sul e com datação estimada entre 1,78 milhão e 1,95 milhão de anos, um grupo de pesquisadores descreveu e nomeou uma nova espécie de antropoide, o Australopithecus sediba. Os autores do artigo [...] destacam especialmente duas de suas conclusões: 1) a nova espécie era provavelmente um descendente de A. africanus e 2) os restos fósseis indicam que a A. sediba tinha mais caracteres em comum com as primeiras linhagens do gênero Homo do que qualquer outra espécie de Australopithecus.
A nova espécie seria, portanto, o ‘elo’ mais recente – ao menos entre as espécies conhecidas – na transição entre os australopitecíneos e o gênero Homo. Assim, A. sediba parece ser forte candidato a ocupar uma posição-chave na árvore evolutiva dos antropoides, aplainando ainda mais o caminho que leva dos Australopithecus às primeiras linhagens do gênero Homo. [...]
Fonte: Costa, F. A. P. L. 2010. Mais um ramo em nossa árvore evolutiva. Ciência Hoje 275: 70-72. O sítio eletrônico da revista está aqui.
Quando as madressilvas se calarem nas sebes e o vento do céu dissolver os últimos pássaros,
quando a neblina impenetrável me apagar a vista, anoitecendo a esposa luminosa, a voz da filha,
quando o cetro das sombras me ferir a fronte,
Senhor! não tenha sido em vão a minha vida; mas que, nas praças da cidade, eu deixe murmurando um pensamento de brandura; ou pelos campos, que povoei de frondes perdulárias, possa ficar cantando, como um lótus na corrente, a asa meiga de um gesto de bondade.
Ao pé das serras onde as águias pousam nos meus ombros, dá-me forças, meu Deus, para encontrar a paz; dá-me forças, Coração de Nuvem, para que eu seja a pedra branca e tudo esqueça; dá-me forças, ó Mãos de Outono, ó Pura Primavera, para que eu dessedente os lábios na cascata de Teu Nome.
Poupa a esta sede a esponja de vinagre; desviando a taça e o fel de minha boca, derrama sobre mim o Teu clarão, para que eu parta, ó Rei, sonhando eternidade; e recoberto pelo manto que me concedeste possa eu dormir tranqüilo junto à Face irrevelada, alheio, para nunca mais, ao escárnio do momento perecível.